Plural | Solombra

solombra

 

Embora o título da primeira edição da Revista Plural de 2015 nos remeta diretamente a Cecília Meireles e seu punhado de versos a explicar a escuridão… que é a morte e também a vida — porque sabia a poeta, assim como sabem alguns de nós, que uma coisa depende da outra — foi em Pizarnik que encontrei o mote para alinhavar as palavras que irão compor as páginas de nossa revista literária.

Citar Solombra enquanto palavra é fácil, mas, navegar pelo sentindo aprisionado que ela nos oferece, revelou-se tratar de um delicioso desafio…

A palavra solombra foi salva da extinção pela poeta, já que os catedráticos que “cuidam da língua” a fizeram mais simples, sendo apenas “sombra”… esse rastro que a luz deixa no chão, sem peso ou drama: apenas um desenho de coisas que podem ser atravessadas pelos corpos e suas massas…

A partir da palavra original, a poeta arrasta para dentro de si um sem-fim de sentidos e significados únicos. Trata a morte como sendo a mais indigesta solombra. E o peso que se atribui a isso só se explica através da leitura de seus versos.. também é solombra a noite que abraça os olhos. O silêncio e a falta de ânimo. A quietude. A dor… a palavra, o papel, a mesa onde se escreve, a cama onde se deita, o sonho que vira pesadelo. Os olhos fechados e a manhã que desperta, sem que a gente de fato a perceba enquanto aurora no lado de dentro da derme, em estado de fadiga…

Ao ler os versos da poeta: “dizer com claridade o que existe em segredo | Ir falando contigo e não ver mundo ou gente | E nem sequer te ver, mas ver eterno o instante | No mar da vida ser coral de pensamento”, embarquei nessa viagem e, de repente, estava nos braços de Pizarnik, onde fiquei enquanto começava a desenhar — em minha mente — esse caldeirão onde os ingredientes se somam: as páginas da Plural.

 

“explicar com palavras desse mundo
que partiu de mim um barco levando-me”

 


 

Revista Plural Solombra

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Editorial | Livro Artesanal

Por Lunna Guedes

 

 

Escolhi o modelo artesanal quando pensei em publicar um livro escrito por mim… por achar charmoso, elegante, mas principalmente por me permitir ousar, sem precisar ficar presa ao modelo tradicional-convencional. Nunca fui fã de prateleiras, sempre gostei do livro em mãos… toque-tato-virar-de-folhas.

E sempre fui apaixonada pelo universo underground… no tempo do colégio me divertia forjando zines, inventando revistas alternativas. O prazer de criar-transformar-reinventar sempre me fez pulsar-agir…

Eu vivia-vivo em constante fuga do universo comum-igual… onde o livro é um mero objeto para prateleiras, produzido para agradar o mercado e não o Leitor, que se acostumou a comprar os famosos e enlatados best-sellers — tampouco o autor, que sempre se rende ao cenário por ter um sonho de ver seu livro em vitrines, como se fosse uma mera peça de roupa.

revista-plural

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04 | Nem sempre a lápis | Manoel Gonçalves

[caminhos tortos]

 

Penitência

Trago em mim
Estacas no peito
Na esperança de findar
O sofrimento vampiresco
O mal súbito noturno
O sangue que vertia ao inverso
Saindo de minhas feridas
De meus olhos lacrimejantes
Sanguíneo farol flamejante
Queimando, ardendo, ferindo
Trago em meu peito
As estacas que enfiei
Inocentemente, sem querer
Na jugular da amada
Assim, como coisa pouca
Ao preço de um simples riso
Sem nada lhe oferecer em troca

 


 

Manoel Gonçalves (Manogon) autor de ‘Caminhos Tortos‘ — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

03 | Nem sempre a lápis | Marcelo Moro

[teatro de ousadias]

 

Fogo Fátuo

Você me vicia
em poucos dias estava a mercê dos teus cristais
Mágica fé morena , pequena em  fagulhas de cores
ensina-me a querer -te mais e mais
você me devolveu os poemas
seduziu para fora minhas rimas,
confundiu minhas soluções
e na solidão das minhas linhas materializa-se
em boca, língua, seios e vãos.
escrever-te em mel e tinta
deslizar por suas coxas raro pincel
que trace e desenhe e orne
ideogramas que revelem seu céu.

 


Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias‘ — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

Exemplos de poesias | Oliveira Blues

Akira Yamasaki

 

R$ 30,

 


Akira Yamasaki é um poeta das multidões… sua escrita parece transitar em meio aos movimentos da turbamulta. É um sinal aberto para os passos por cima da faixa branca de pedestres, que só querem ir em frente, desviando dos outros que insistem em direções contrárias.

A poesia de Akira é cinzenta, é movimento… dói no osso, na pele e também na alma. Ela se esparrama e te obriga a dizer o verso como sendo coisa sua, como se fosse o dedo apontado para si mesmo, diante do espelho. Poesia crua e dura, feito o asfalto…

Senhoras e senhores, apresento: [oliveiras blues]

 

Exemplos de Poesias | Caminhos tortos

Manoel Gonçalves
(Manogon)

R$ 30,

 


Manoel Gonçalves, ou simplesmente Manogon é homem-filho-irmão-marido-pai-amigo-amante… e é também um Poeta, que parece explicar-se em versos, como se precisasse dizer ao leitor o motivo de sua escrita {não escrevo poesia, derramo sentimentos} afirma e reafirma {não sou poeta escritor, sou vento branco acariciando as madeixas}…

A poesia de Manogon é um andar na corda bamba… gestual, quase circense. É o instante anterior ao abrir das cortinas. O passar das falas no camarim. O último olhar no espelho… o último aviso antes do breu da vida-memória-cena.

Senhoras e senhores, apresento: [caminhos tortos]

 

 

02 | Nem sempre a lápis | Mariana Gouveia

[o lado de dentro]

 

Havia qualquer coisa de Santa,
mas havia, também,
qualquer coisa de louca
não sei se o jeito de olhar.
O atrever-se com as mãos
ou o recato do decote, tão íntimo.
Havia qualquer coisa de tímida,
mas, também havia
qualquer coisa de exibicionista.
Não sei se o riso solto
ou a voz quase rindo, quase suspiro.
Havia qualquer coisa de pecado,
de sagrado também…
e profanava em mim
nas mãos que
me descobria a alma

 


Mariana Gouveia autora de “o lado de dentro” — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

Exemplos de Poesias | Teatro das Ousadias

Marcelo Moro

 

R$ 30,

 


 

Marcelo Moro é um poeta mambembe… é homem, mas também é instrumento onde notas reverberam inquietas. É silêncio nos olhos. Inquietude no coração. É um menino que quer ser gente grande amanhã.

A poesia de Marcelo é palco-teatro-platéia. É pantomima. É o eco que fica depois que os aplausos se encerram e o vazio que acomete o ator depois que se despe do personagem.

Senhoras e senhores, apresento: [teatro das ousadias]

 

 

01 | Nem sempre a lápis | Álvaro de Campos

Ah, um soneto

 

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava… e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? …

 


 

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Exemplos de Poesias | O lado de dentro

Mariana Gouveia

 

R$ 30,

 



Mariana Gouveia
é uma menina-mulher-poeta-flor… sua escrita é um farfalhar de emoções. Ela nos pega pela mão e nos conduz por seus sentimentos que transbordam passos-movimentos-de-vida, que ela molda como se estivesse a bordar panos-papéis.

A poesia de Mariana é um dia de sol, passos pelo asfalto cinza que se acaba de repente e nos deixa a estrada de terra cercada por mato e seu cheiro de vida selvagem. Mas não se engane. A poesia de Mariana transita entre realidades-tempos-espaços e pousa direto na pele de quem a consome em pequenos goles.

Senhoras e senhores, apresento: [o lado de dentro]

 


Palavra de Editor | Série Exemplos…

Por Lunna Guedes


 

Ainda é tudo novo por aqui… estou a combinar elementos, escolher o que serve ou não serve. Ainda é tudo feito no automático dos gestos. Tenho me preocupado mais com o conteúdo que se oferece as folhas, que com o próprio livro em si… até pela consciência de que ainda é cedo para que se cumpra certas exigências. Por enquanto, ainda estou em busca de um Norte, a bússola que trago dentro do peito, no entanto, já está a me orientar…

Sei que ao vislumbrar um livro a partir de suas futuras linhas, naturalmente, idealizo todo um cenário em minha pele-mente-alma… algo como uma casa: com os cômodos, a mobília, o quintal, o caminho até o portão, a calçada, uma árvore e também a rua… com seus movimentos em pares.

Criar cenários é coisa bastante comum ao meu imaginário — sempre ativo — mas não sei como o leitor e, também, o autor pensam um livro… contudo, gosto de supor que, ao desenvolver um projeto para a Scenarium Plural, o meu universo lúdico se esparrama pelos lugares por onde passo… como se fossem sementes!

Eis a premissa do projeto Exemplos: “eu ofereço os “cômodos e os autores… a mobília! E, aos poucos, vamos dando forma a casa”.

Mais tarde, chegam os amigos para visitar…

 


 

E.x.e.m.p.l.o.s
Poesia e Contos

Não espere um objeto simples com páginas e palavras em linha reta
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