O Retrato do Confessionário Indizivelmente Expresso do Velho Buk

Por Adriana Aneli

Gente maluca em volta das mesas para o café da tarde… uma tarde mais que especial em Neverland, muitos desaniversários e confissões alinhavadas pelas mãos da anfitriã “Chapeleira Louca” Lunna Guedes.

Adriana Aneli, servindo “um pouco de café para as almas que não sonham mais” (Bob), foi dona de todos os rasantes sobre cada mesa, levando a intensidade de seus minicontos diretamente para o coração acelerado das pessoas… cafeína e emoção em equilíbrio com o dia cinza, vermelho e preto em grãos torrados e moídos.

O seu Amor Expresso com aroma, cor, brilho e luz seduziu, encantou e esgotou, como era de se esperar… o poeta, mestre cuca e jurista Caetano Lagrasta foi muito feliz ao dizer que esposa brilhava flutuando e fez jus ao sucesso. Grande Tarde.

Os pecadores, livres para pecar, pecavam sem moderação, indo da Luxuriosa concepção à preguiça de explicar algumas linhas mais obtusas, nesse caso, eu… quando o 7 em chamas queimou nas capas dos livros, obra de arte, mãos sedentas se entrelaçaram em busca de tê-lo – textura na pele, uma gula em outra forma, mais legal.

Em outro ambiente, ainda que a mesma mistura, a janela sobre o fundo preto abria-se para o Indizível orgasmo Lilás da poeta Bianca Veloso, talentosíssima, e de uma força indizível no verso sobrepondo a meiga serenidade daquele olhar pleno e calmo, um vulcão tranquilo, ainda assim um vulcão… linhas que queimam.

Pudemos ver também a energia velada e revelada de Tatiana Kielberman, organizadora do livro de vários autores que abriu para nós, viajantes e convivas, os Retratos da Alma de cada um dos autores, fossem poetas, contistas, cronistas etc., um material de sensibilidade ímpar, que merece bastante atenção.

E, baixando o ocaso, revelando-nos um Crepúsculo chegando no horizonte… cavalgando um Zaino Negro, o verso audaz da nossa Maria Florêncio, Maria de todos os sorrisos e astrais… abriu a última edição da Revista Plural para este ano de 2015.

…num convite sui generis, a multidão de ilhas ali naquele mar de poesia mergulhou com Aden Leonardo para Dentro de um Bukowski – como fez falta a menina Aden na nossa festa de sábado – deixando que saboreássemos suas linhas sem sentir seu perfume ou poder olhar naqueles olhos das Minas Gerais, olhos de gemas preciosas…

Fizeram falta os 3 pecadores: Emerson, Lourival e Beto, mas… como diria o sábio homem, os poetas podem estar ausentes, contudo, suas linhas são eternas.

Foi bom conhecer Bianca, Joaquim, Baltazar, Vê Almeida e tantos outros leitores e leitoras virtuais, e agora sólidos… grande festa de uma troca incrível de energias.

E não podemos de modo algum esquecer da Grande Lebre Maluca, Marco Antônio Guedes… o Homem-Scenarium cheio de bom humor e “haja paciência” com todos esses planetas malucos sem órbitas que gravitam os arredores… gente que realmente perdeu a ponta da corda.

Obrigado!

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08 – Nem sempre a lápis | três contos de Adriana Aneli

nighthawks

 

RECEBEU O PRIMEIRO AVISO no fim da tarde. Dirigia com pressa. Entre ansiedade e frustração, o sol amornava o carro e o pensamento pesava em suas pálpebras.
Acordou com buzina e farol alto. Na contramão, por um triz do fim da estrada. Coração aos pulos, reengatou a marcha.
Indiferente ao casal à sua frente, escolheu o balcão da lanchonete: “Seu filho nasceu. Venha com calma” apitou a mensagem em seu celular.

Brindou por duas vidas com seu pingado.

 


 

deus da carnificina

 

QUASE COMPLETAVA UM ANO que, ao final do expediente, ele recolhia o lixo do oitavo cartório. Quando ele se aproximava de sua mesa, ela gentilmente se abaixava. Entregava a ele a lixeira, um sorriso no rosto e um delicado até amanhã.
Ela não sabia seu nome, mas ele conhecia a marca do lenço umedecido com o qual ela limpava as mãos, a barrinha de cereais de sua preferência e a marca do adoçante que usava em seu café.
Devotava-se a estudar seu lixo, na esperança de quem sabe um dia…
Quando entrou, ela estava cercada pelos colegas, recebendo alegres cumprimentos. Com a timidez ardendo em seu rosto, resolveu que já era hora.
Tomou coragem, pediu licença e penetrou a roda. Foi em sua direção.
Ela, sempre gentil, mais uma vez se abaixou e depositou em suas mãos a lixeira transbordante da festa de aniversário.

 


 

o sal da terra

 

ARCO-ÍRIS EM PLENA SEGUNDA-FEIRA. Mal podia esperar. Namoravam há um ano, tudo combinado, a primeira comemoração, eles se encontrariam ao final do dia, no mesmo cinema em que se conheceram. Divertida, linda, perfumada desceu a escadaria do prédio… Não, mensagem nova: espero você no café em frente ao seu trabalho.
Correu até ele. Chegou por trás, já beijando de leve sua nuca, o pescoço. Abraço apertadinho, feliz, feliz… te amo tanto!, deslizou o presente à sua frente. Ele nem a olhou, desculpe, recusou o pacote. Ela ainda ensaiava um sorriso, quando o golpe veio fatal… então ele levantou e saiu da sua vida.
Ela tomou um café. Salgado e frio.

 


Adriana Aneli é autora do livro de contos ‘Amor expresso’  — série exemplos de contos da Scenarium — ano 2015.

07 – Nem sempre a lápis | dois poemas de Bianca Velloso

vermelho (2)

catorze anos eu tinha
e tinha também o Beto
e a delicadeza
do primeiro beijo
um beijo e mais nada
um beijo que era tudo

menina praieira
voltava pra casa
cantarolando o mar

questão de segundos
meu canto foi interrompido

 

não sei nem de onde
surgiu aquele homem
alto e forte, estilo lutador de jiu-jitsu

parecia raiva o que ele carregava nos olhos
não tive tempo de pensar

:

arrastou-me
arrancou-me as roupas
arrancou-me a inocência
arrancou-me os sonhos
beijou-me com força
e o beijo dele tinha gosto de morte
invadiu-me o sexo
depois foi embora
o vermelho doce virou sangue
abortei minha adolescência

 


 

Bianca Velloso é autora do livro de poesias ‘Indizível’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

amor expresso | adriana aneli

R$ 35

 


“Se o tema é café, o gosto é amargo… Ou adoçado artificialmente? É quente e forte: cativante? Cafezinhos para unir, distrair e consolar… Ou acordar, revigorar – sempre correndo o risco de perder de vez o sono? Amor expresso convida para uma leitura rápida, cada dia um miniconto (ou muitos de uma vez, para os viciados): uma xícara, um conto ou a prazerosa e demorada pausa para o “café com arte” que Cristina Arruda preparou em ilustrações: traços que carregam um mundo dentro de si.
Cada narrativa é um instantâneo de amor ou de ódio, de humor ou melancolia, elaborada com grãos de música, poesia e cinema, como revela a “cafégrafia” ao final do livro.
Histórias que estão ali desde sempre, mas que nem sempre são notadas. Flagrantes de quem somos, poderíamos ou ainda queremos ser neste mundo de obrigações pré-fabricadas, em que mal temos tempo para um café”.

 

Indizível | Bianca Velloso

R$ 30

 


O Indizível é uma tentativa de tocar o tatame da alma. Ali onde adormecem os deuses e demônios que nos habitam. Há que se abrir a porta com cuidado e coragem. Há que se respirar fundo.  Há que se permitir. A metáfora como fio condutor. A metáfora escrita e a metáfora visual. A possibilidade da existência, da transparência, da resistência. A indefectível legitimidade de ser o que se é. Encontros. Caminhos. Espelhos.

06 – Nem sempre a lápis | Aden Leonardo

 

Cacarecos

Quando o barulho invade sua retina
— lente lenta
Suas duas vezes obturantes
…sabe palavras que não partem mais!
— despedidas,
Ela anda saturada de palhetas
Vinhetas
E das Mãos…
que sabem de cor —
Sua
Ação.


 

Assinar poemas

Autografei suas costas
Com a ponta da língua
com afago das mãos
refiz caminhos
Segurei teu rosto
no mesmo beijo
do último primeiro
dormiu três afagos
dois desejos
completamente saciados
Por algumas horas
pagas por mim, letra a letra
na fonte de erros de Eros.

 


 

Nuance da autora
(ou efeito Lua de Papel)

Sonhei que eram duas
mulheres nuas
de nuance tênue
saindo do livro
feito de lua
em papel refeito
desenhado a meu modo
Acordei de hare raro místico efeito
vez que deleito
no corpo que já não deito
Em ambas desci para tão dentro
de crateras
Luas embriagadas
perdi trabalho
pedi cigarro
E nada
virei Bukowski
Vivi
Dois dias.

 


 

Falsa

Finge
Que não
Mas quando me vê
Morre
Sei que seu susto se lança
nos braços dela
Mas seus olhos se fecham
E nada tira nossa lembrança
Esquecemos de fechar a porta
Do quarto
Das idas
proibidas
das partidas
Morena, vadia, fumante passiva
de mim.

 


 

Aden Leonardo é autora do livro de poesias ‘dentro de um bukowski’ — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

Dentro de um Bukowski | Aden Leonardo

| dentro de um bukowski |

 

$35

 

Por vezes pensei nesse título. Seria um oportunismo usar “Bukowski”. Para uma escritora, gênero feminino seria uma agressividade proposital? O nome veio de uma resposta. Um comentário que eu gostaria de minha vida dentro de um livro, de preferência dentro do Buko.
Tenho metas singelas. Todas envolvem dominar o mundo.
Dentro desse livro, posso tudo. Ditarei as novas metas da ilha de Sartorini, novo escritório, com meu lado B enfim…
Dou notícias, em breve.  Céu abrindo, música de abertura, anjos pops, tudo que tenho direito. Aguardem”…