Plural | La Bottega di Lunna

Por Adriana Aneli

“As águas dos mapas são mais silenciosas que a terra,
deixam a ela a conformação de suas ondas”

Elizabeth Bishop


Aprendi, tomando um gelato no Le Bottegheplural de bottega —, do italiano: “oficina artesanal e artística, onde o mestre trabalha ao lado de seus discípulos”. E aprendi, discípula, ao lado de mestres… que a vida deve ser levada assim: de modo artesanal.

Mas, para se fazer algo artesanal, é preciso dispor do bem mais raro do milênio: tempo.

Na dedicação integral deste bem precioso, Lunna e Marco Guedes criaram a proposta Plural de uma revista de literatura: feita sob o olhar diferenciado… na busca do projeto, do título, na escolha dos autores. O exercício incessante da criatividade dialoga com cada página, costura linhas, apura miolo e impressão: aí começa o dobra-recorta-cola-costura-amarra — e a revista está pronta para ganhar o mundo.

Em 2016, homenageamos o iluminismo com a Plural 1900 — releituras de Baudelaire e Henri Matisse. Depois, navegamos com La Barca em nosso mar indomável de sensações: a solidão abissal de Edward Hopper. Em seguida, ouvimos lamentos antigos, a voz de W. H. Auden, um convite para dançar (sonhos de Kurosawa?) em nosso funeral Blues.

Para fechar o ano, a vez é da Plural North and South… e, nela, o diário de Elizabeth Bishop ganha novas páginas.

Nesta edição, colhemos impressões de nossas viagens… as cidades que nos habitam. São os olhares de Lunna, Emerson, Caetano, Marcelo, Tatiana, Cecília, Sara, Manoel, Joakim, Obdulio, Adriana(s), Claudinei, Edmilson, Ingrid, André, Virgínia, Alexandre, Rebecca, Gabriel, Flávia, Mariana(s) que traçam este norte-sul — mapa particular de vivências em prosa e verso… a ousadia de lançar âncora em mares plurais.

Plural é o milagre da multiplicação do tempo. A arte de fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, para que a vida fique 100%… artesanal.

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Palavra de Editor | M I A

Por Lunna Guedes


 

Passava das seis de um dia de semana qualquer. Eu não somo dias, sou feita de momentos e regida por Kairos. Me sentei no meu lugar de sempre… no café entre esquinas, com um latte extra hot ao lado, lapiseira Pentel 0,5 em mãos. Nos ouvidos ‘hold back the river’ de James Bay e um calhamaço de folhas A4 para os olhos… começava a tomar contato com ‘MIA’… leitura de tato — como gosto e prefiro. Sem pressa, apenas um pesado gole…

Mergulhei na trama tecida por Anselmo Vasconcellos, na condição de leitora — muito embora minha matéria humana hoje seja uma bela confusão de escritora-editora-mulher-leitora.

A leitura levou o tempo de um latte — venti — e, ao terminar, fiquei imóvel… a pontuar minhas emoções, que se misturavam às do personagem-narrador do romance de Anselmo — que, em sua linguagem de autor, apresenta muito de si.

Sabemos que a melhor escrita é aquela que transborda, de tal maneira que não sabemos desassociar o personagem de seu autor, como uma simbiose orgânica. É agradável sentir o homem-personagem-habitante-de-si-mesmo em cada linha, como se estivesse preso a uma majestosa teia…

Em ‘Mia’, o tempo e o espaço também são uma matéria flutuante…a história nos leva para os tumultuados anos 60, quando explode no Brasil a Ditadura militar. Nosso personagem-narrador é vítima dos desmandos militares…

A história começa justamente quando o personagem sai dos porões da Ditadura e emerge em vida… embora sua alma ainda esteja atada ao breu, e sua pele impregnada pelo limbo dos excessos de um mundo onde a palavra ‘liberdade’ não é verbo — substantivo, tampouco. Nosso personagem-narrador-poeta-mendigo-malabarista é ferido em sua sensibilidade e, nas trevas tatuadas em sua derme, uma única luz a incidir-resvalar é Mia, personagem que se projeta para cima de nós — na condição de luz que nos fere os olhos. Somos convidados a nos acostumar com essa figura misteriosa, que vai se descortinando a cada página… e está ali para nos converter em personagem-narrador.

Provamos Mia… com ela — apavorados — abandonamos o Brasil e seu Estado ditatorial — e somos conduzidos — feito crianças, pelas mãos — a Holanda — seu país-lugar-lar onde ser livre é condição-natura.

E, ao chegar à terra estrangeira, a sensação é de mergulhar numa poesia de Adonis: ‘sonha em jogar os olhos nas profundezas da cidade próxima. Sonha em dançar no abismo em ignorar os dias que devoram as coisas‘… e somos novamente, obrigados a experimentar Mia e suas paisagens… sua casa-barco, seus cenários múltiplos e cada uma de suas novidades numa congruência de vida-e-morte… morte-e-vida. E somos abandonados a deriva — em estado latente de solidão — e acostumados a essa luz, desabamos e ficamos sem ar…transeuntes de cafés e praças. Mendigos de notícias que não chegam.

A Holanda que Anselmo Vasconcellos desenha em suas linhas é como a Barcelona de Zafón: só existe no papel, e é maravilhosa porque é exatamente assim que são as cidades todas — inventadas ou re-inventadas… só existem em nós. É tatuagem que a pele acata e a alma aceita. E sua história é um canto de Mercedes Sosa que nos invade-fica e nos modifica para todo o sempre.

Alameda das Sombras | Marcelo Moro

 

 

R$ 35

 

 


— o poeta pretende que o leitor caminhe pelos lugares e insira pausas na realidade para olhar mais de perto uma-duas-três vezes o que é paisagem-cenário… porque os poetas enxergam sombras e as desenham no verso da folha para quem você compreenda o que é marcha dentro da sombria alma do poeta.

 

 

11 – Nem sempre a lápis | crônica do livro ‘receituário de uma espectadora’…

Por Roseli Pedroso


 

|  silêncio  |

 

São tantas as vozes que falam simultaneamente, que quando o silêncio se faz presente, causa-me estranheza. Venho sofrendo com essa multidão falando ininterruptamente dentro de mim. Às vezes chego a pensar — ‘meu Deus, quantas Roselis existem dentro de mim? Por que falam tanto e ao mesmo tempo?’
Sinto-me cansada… e, do nada se fez silêncio aqui dentro… e, reverbera muito mais do que qualquer falação Rosilesca  por mim já ouvida.
A princípio estranhei… achei que havia adoecido. Os dias foram passando e fui me acomodando nesta serenidade anormal. Tomei gosto por isso.
Uma semana se foi… depois duas… três. Entrei em pânico. Comecei a deprimir. Me senti solitária.
Por que o silêncio causa tanto medo no ser humano contemporâneo? Já percebeu que ninguém hoje fica sem um fone de ouvido? Tenho amigos que utilizam o citado objeto até para dormir. Parece que fazemos parte de uma geração, que simplesmente, não consegue ficar em silêncio — e no silêncio.
Tenho uma irmã, que é incapaz de ficar dentro de casa, sem que alguma coisa esteja ligada. Fica histérica se o rádio ou a TV estiverem desligados. Liga o rádio da cozinha e dali a pouco sai. Vai para a sala… liga a TV e vai para a área de serviço lavar roupa, limpar a casa… enquanto todos os aparelhos da casa ficam ligados.
E assim vamos vivendo, ensurdecendo e não prestando a devida atenção a nada nesta nossa fútil vida. Ouvimos tantos sons… Entretanto somos incapazes de apreciar um belo canto de pássaro — alguns não suportam — o ruído das águas numa cascata, o som da maré numa bela praia, que por sinal, quase já não existem. E quando encontramos uma, observamos tudo, menos a beleza natural e seus sons. Ficamos ligados nas conversas paralelas, nos grupos de paqueras que rolam na areia, nos corpos repletos de celulite das mulheres, que teimam em pagar mico dentro dos biquínis da nova estação, que desfilam todos os anos.
Rara são as vezes, que prestamos atenção aos sons naturais, como o emitido por pássaros passando em grupo, ou mesmo o som mântrico das ondas que vêm e vão, ou ainda no som dos cascalhos pisados e na paz que toda essa paisagem nos trás.
Parece que perdemos a capacidade… estamos anestesiando a nossa audição. Nos transformando no animal mais sem percepção do planeta. E ainda temos a audácia de nos intitularmos “Animais Racionais”!
Retornando ao meu minúsculo universo, continuo um pouco perdida… procurando aqui e acolá minhas várias vozes. Anseio por companhia. Desejo barulho interior.
Meditar? Desisti… isso é para os fortes, os que já galgaram degraus da elevação espiritual.
Estou longe disso. Sou ainda muito Terra para alcançar tal plenitude. Os atabaques ainda me são necessários. E falando em atabaques, voltei a sentir meu coração bater mais forte.
Hoje me emocionei ouvindo uma canção de Ryuichi Sakamoto… ela despertou um pouco de minhas sensações… e através dela pude voltar a ouvir de fato. Prestando atenção ao som de cada instrumento tocado, cada nota, cada espaço.
Foi muito bom! Sensação ímpar! Voltei a me sentir gente e não mais um simples autômato de carne e osso.

Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

Com um punhado de páginas em mãos, percebi que adormecia no papel um sem-fim de versos alinhavados por uma ‘suposta hipótese de paz’…

Sabemos, contudo, que os poetas não têm paz. Eles fingem — como tão bem afirmou outro Poeta… Pessoa.

Em cada verso lido… me deparei com um homem a narrar a realidade e suas muitas tramas — verdadeiros ecos urbanos-noturnos. Inquieto, o Poeta tem olhar faminto, que o faz tragar dezenas de miragens urbanas. Arredio, não dorme… e dispara sua ansiedade em linhas.  Insano, não pestaneja: discursa uma ilusória sobriedade.

A poesia de Marcelo Moro se orienta a partir das pegadas que ele traga, conforme pisa o chão da cidade onde vive-mora… seu passo se encaixa facilmente em outros passos. No entanto, às vezes, a fôrma não lhe serve e a forma lhe escapa. O homem não parece habituado à inquietação, mas se rende a uma espécie de serenidade tumultuosa…

Para o leitor, não será nada fácil tragar a poesia de Marcelo Moro… será como embriagar-se numa noite de quarta, durante o futebol, com aguardente — rotulada com nome próprio num boteco entre esquinas. Será preciso despir-se de si e provar de seu rastro… em caminhadas cambaleantes. Alargar o olhar e consumir todas as suas medidas. E, como estamos acostumados a viver a bordo de nós mesmos, espiando os outros de longe, sem vestir-nos do que é alheio… o exercício que a poesia do Poeta de Americana nos propõe, através de suas enxurradas  — de sentimentos, tormentos, discrepâncias — em linhas nada retas… pode ser desconcertante.

 


 

AVESSO

Brasa encoberta
Esperando ser soprada
Na orelha de Eurídice
A lira mal tocada
Sou tocaia —

…vem e verás o que acontece,
…quando a porta se fecha!
Quando restar essa pequena luz
— azul exuberante…
Nas frestas da alma!

Marcelo Moro, em ‘alameda das sombras’
— Scenarium livros artesanais — 2016

 


Palavra do Editor | Receituário de uma espectadora

Por Lunna Guedes

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.

eugénio de andrade


 

Eu me lembro da primeira vez em que pousei meus olhos em uma crônica… rodapé do jornal da cidade de Marselha, onde ‘morei’ por um verão inteiro.

Toda segunda, o encarte trazia uma crônica — escrita por um ‘velho escritor aposentado’ —, que havia se isolado do mundo-realidade-pessoas e, desde então, vivia em um chalé.

A cidade inteira sabia quem ele era… e falava de suas aventuras enquanto homem das letras. A biblioteca da cidade tinha seus romances, que não me seduziram… ao contrário daquele pequeno texto — com pouco mais de trezentas palavras — que chegava às segundas.

E, foi com esse mesmo olhar e prazer, que provei cada crônica escrita por Roseli Pedroso. Uma vez impressas, aguardei pela segunda-feira e fui me sentar à mesa da cozinha, com uma caneca de café em mãos.

Roseli escreve sua realidade… não exatamente a que vive. Na maioria das vezes, ela — figura atenta que é — pesca movimentos inteiros desses passageiros da vida… figurantes de uma realidade que ela converte em textos, obrigando-nos a reparar em nós mesmos.

Roseli parece nos apontar o dedo na direção contrária e dizer: “olha que cena mais interessante!”… E, certa de nossa desatenção, ela faz como os antigos contadores de histórias.

Em conversas regadas a café, sempre a ouço discursar sobre sua paixão pela realidade em movimento e, quando a leio, é como dar continuidade a esse diálogo…

 

Receituário de uma espectadora | Roseli Pedroso

 

 

R$30

 

 


Uma vida entre livros despertou o desejo na autora de querer ser Deus. Passou a escrever! Entre ideias e dedos nervosos no teclado, gerou vidas e situações. Observou e recortou suas crônicas, alinhavadas nesse ‘caderno’ de vivências crônicas, que foi chamado de receituário, afinal, é o que a vida é.

 

 

10 – Nem sempre a lápis | leia um trecho do livro de Mia

Por Anselmo Vasconcellos


 

Recebo um abraço e agora no espelho estamos eu e ela. PÁLIDA… ela olha o reflexo de nós dois e diz coisas com suave ternura e olhos cheios de lágrimas.
Viro o corpo e fico de frente para seu rosto, que mesmo sorrindo não esconde a melancolia.
— Mia, querida. O que acontece?
— Seu sucesso foi absurdo! As pessoas estão impressionadas e sensibilizadas pela carga espiritual da tua incorporação.
— Incorporação?
— Sua “dança-teatro” é uma performance artesanal compondo a obra. Disciplina da atuação que se coloca com arquétipos e conexões mediúnicas, sendo a obra viva.
— Minha consciência não estava presente… e mesmo agindo por impulsos eu segui uma partitura. Admito que a inventei enquanto fazia. Você crê que isso é um transe, é isso?
— O que é um transe? Um momento crítico que traz o significado de crise, de passividade… caminho natural do transe, mediúnico ou não. Não foi isso que você fez? Você mesmo acabou de dizer.
Mia procura a cadeira para se sentar e eu percebo seu cansaço ou fragilidade.
— O que você está sentindo, meu amor? — pergunto em tom baixo e me ajoelho diante dela.
— Esta entidade, Omulu, fala comigo. Fiquei muito tocada… Quando fui à África, firmei minha ligação com essa fonte e, mesmo sendo de outra cultura, outra matriz completamente diferente, sou sensível a ela. Sou filha de Obaloaê.
— Eu procurei por você em todo o espaço. Onde você estava? — pergunto aflito e errando o vestir das calças… perdendo o equilíbrio.
Rimos desta cena cômica. O que nos alivia muito. Em meio a um sonoro riso, Mia me ajuda, segurando a camisa aberta, que visto com facilidade.
Viro meu corpo e fico defronte a ela… que abotoa com alguma habilidade os botões da camisa em meu corpo.
— Eu estava nas sombras… velada na sua inexplicável arte, que se revelou hoje. Você foi um totem moderno. Um “homem-deus”, Theandric… o divino no homem, como acreditavam os gregos e do qual tanto falam Daniel Callun, Julian Beck e uma plêiade de artistas que iluminam as cenas.
— Agradeço por sua generosidade. — digo emocionado.
— Você deve ocupar-se da exploração da dimensão física do seu corpo. Sua performance é mundo inventado onde você é inventor e invenção. Seu corpo é um discurso, tal qual Decroux fala em Teatro Físico.
— Ocupar-me de meu cargo, de mim mesmo. Foi
exatamente isso que eu senti. Ser inventor entre a sombra e a invenção. — respondo acompanhando a respiração lenta de Mia, que me preocupa. E depois de avaliar-me silenciosamente com os olhos, ela faz um gesto carinhoso em meu rosto, fecha os olhos e me diz:
— Querido, o Daniel e todo mundo aqui querem te ver, te falar, te tocar. Sirva-os com seu banquete. Vamos subir e ver outras performances desta noite especial, como todas que vêm acontecendo desde a noite brasileira que nos uniu.
A holandesa retira da bolsa o pequeno vidrinho e deposita um mínimo cristal sobre a língua — parece homeopatia.

 

FICAMOS EM SILÊNCIO.

09 – Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro

Enquanto o ano novo não vem

O que faremos
…nessas tardes-noites de dezembro
— perdidos em um bosque de luzes?
Revendo os sonhos infantis
Todos lobos a perder o pelo,
…mas nunca o vício!

O Natal é vermelho,
Tom e meio-tom…
Assim como é o batom,
presente ou não… naquela boca!

E virá aquela chata semana… sem sal
Depois do Natal e antes das ondas…
dos beijos e de Iemanjá
Antes do gosto Demi-Seco
…enquanto não se começa
de novo e de novo!


Selvagem

Assim como o Mar é azul
E monótono, quando se quebra em tons verdes

Ela é ariana… crua
E cabeças se desfalecem à sua presença

Balança nossa crença… tamanho pecado
É o Éden desfigurado por um vulcão
Superação de quem vence
Bálsamo para um dia caótico
Salmo erótico, herético, herege
Contramão — no sentido certo

Brilha uma supernova
Dando ordem ao caos
Brotando azul na imensidão
E reunindo a órbita… sem direção!


O pecado

O fruto do Jardim noturno
Suspenso, vermelho-dourado
Tem um tom adocicado
E a pele macia, sem o áspero
E… de tanto luzir nos olhos da serpente
Tornou-se dela pupila
Parte do desejo
Aceso como brasa de cigarro ao vento
Vivo no pensamento
Em paz no coração
E deslizam entre minhas pernas
As suas, quase sem sutilezas
Sem frescuras