Palavra de Editor | A arte e seus ‘detalhes’

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

 

É preciso dizer que o universo dos livros — longe das estantes — é fascinante. Antes de existir em seu formato ‘tradicional’, de capas e páginas… o livro em si é apenas um emaranhado de folhas, com milhares de palavras. Antes de alcançar a estante, o livro passa pelo processo de criação — onde pode não ter tempo de ser mais que um mero rascunho…

Escreve-se muito, o tempo todo: enquanto se pisam calçadas, atravessam ruas… toma-se um café no meio da tarde, come-se uma generosa fatia de bolo. O pensamento não para… mas, nem sempre se tem tempo para espantar as sombras com o martelar das teclas do computador.

Às vezes, o cão, a mãe, a realidade reclamam para si as mãos, os braços… o corpo todo. Presença é objeto de luxo no mundo contemporâneo. Mas, é preciso buscar um minuto de si. Pessoa disse que ‘navegar é preciso’. No entanto, se vivesse em dias atuais, ele diria fatalmente que ‘respirar é preciso’… se é que não foi isso mesmo que ele quis dizer. Vai saber…

E é em meio a tanta insanidade diária… que surgiu esse objeto-livro, onde os detalhes de uma vida se amontoam. Escritos nos intervalos de si mesmos, TK — como gosto de chamá-la quando escrevo — abusou dos sons e ruídos, enquanto buscava para si um melhor formato. Há escritores que escrevem novelas, romances, ficção… TK escreve crônicas e, às vezes, ironiza a si mesma, aos outros. Ironiza a vida, a não-vida, a realidade… e as ilusões da menina que se esforça para ocupar algum espaço no corpo de mulher.

E, apesar dos obstáculos reais e surreais… ela relê o que escreve, e procura corrigir uma ou outra gralha. Elimina verbos ou adjetivos que sobram, porque parece que ela não gosta muito dos adjetivos — mas, às vezes, não há como fugir deles. É quando ela faz uma pausa nos movimentos mais comuns… e ensaia outros: um pesado gole de latte sempre alivia o cansaço.

O tempo acabou. Quase não me sobrou nada, é fato. Mas, talvez o que reste se configure suficiente para montar um quebra-cabeça lúdico, outra nova ciranda sentimental… uma roda-gigante de medos que possa ser, minimamente, reinventada em seu íntimo.
Não tenho mais em mim a pausa da vida. Qualquer resquício de brevidade se calou nos atalhos do meu coração, pois precisou oferecer espaço a novas sementes — ao pulsar das escolhas.
Ainda há certos ensaios e bastidores, é claro… Isso porque eu jamais conseguiria viver sem o ócio que permeia cada uma das entranhas de uma decisão corrida.
Preparei-me para o deleite… e cá estou a lambuzar-me, sem saber exatamente o sabor das cores e dos ventos a seguir.

Tatiana Kielberman, em ‘detalhes intimistas’
— Scenarium livros artesanais — 2016

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