vi e/ou vi | Virginia Finzetto

R$ 30

 

 


“Nascer ou morrer, tudo ou nada, sim ou não, par ou ímpar… e nos intervalos, eu me ocupo com o quê? A criar diversidade de tons que preencham os vãos desses extremos. A revelar em poemas a rebeldia contra os fatos consumados e nenhum senso comum. Neste livro, pretendo ser agente de artimanhas que provoquem algum assombro ou diversão. É para o impacto de sentir o sopro na pele que eu o convido a ler vi e/ou vi que o vento é aqui.

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Palavra do Editor | vi e ou/vi…

Por Lunna Guedes

 

 

A Poesia pode ser — de acordo com os rótulos tradicionais — uma espécie de etiqueta, que nos avisa da qualidade da roupa que cobre o corpo: moderna, maldita, parnasiana, marginal, contemporânea… mas, nenhum rótulo é capaz de afirmar o sentimento que transborda no leitor ao ler um verso bem feito.

A poesia nos cala, consome… nos deixa nus, a nos equilibrar em epítetos. Julgar a poesia é condenar a si mesmo. Rotular é se repetir… mas, somos assim — e isso parece ser incorrigível.

Outro rótulo muito usado nesse tempo — denominado contemporâneo — é: poeta… no entanto, por mais que se insista, não veste qualquer pele… muito embora se multipliquem nas sombras os que tomam para si a palavra e apontam para nós os seus sufrágios.

Ainda não sei como será classificada essa geração no futuro… um rótulo, certamente, há de surgir na boca dos acadêmicos, ávidos por classificações — como se suas vãs existências dependessem disso.

Mas, para o leitor, o que importará de fato — hoje e sempre — é o lento degustar de um gole sagrado de si mesmo… porque a poesia — independente do rótulo que tentem impor a ela — é o externar de nossos segredos subterrâneos. O poeta — homem ou mulher — compreende nossas falácias, como se, de seu canto de mundo, analisasse cada uma de nossas moléculas.

As diferenças na escrita atual e na fala dos homens são perceptíveis. Somos seres mutantes… por que a palavra seria diferente? A palavra é tão viva quanto nós. E, na atualidade, existe um gozo em escrever, afinal, a liberdade está aí, embora — muitos — insistam em apontar na direção oposta. O epigonismo é cada vez mais verbalizado e as metáforas se amontoam, ainda que de maneira mais discreta.

Virginia Finzetto não é da nova geração — mas segue o fluxo… e se deixa tocar pelo elixir que o contemporâneo exala. Em seu livro ‘vi e ou vi’ — o primeiro da poeta —, existe um desafio para o leitor: entender o jogo proposto através da sua sintaxe, linguagem… da voz que se faz em si mesma. Ela brinca com um sem-fim de imagens espelhadas ao sol, até tudo arder em nossos olhos. O que me fez — após terminar a leitura do conjunto de versos, devidamente separados, como peças de dominó — revisitar o artigo de Susan Sontag sobre fotografias: ‘viver é ser fotografado, ter um registro de sua vida e, portanto, continuar a viver inconsciente’

Bendita seja a inconsciência com a qual Virginia nos acena! Amém…


profissional do amor
nesse campo ela já foi doutora
como arquiteta
planejou uma reforma básica
que virou demolição
como engenheira
construiu um castelo
que terminou em implosão
aí virou alpinista
tentou uma escalada recorde
e foi presa por extorsão
regenerada, virou apenas
amadora

[e foram felizes para sempre]

 


14 – Nem sempre a lápis | três poemas de Virginia Finzetto

profissional do amor
nesse campo ela já foi doutora
como arquiteta
planejou uma reforma básica
que virou demolição
como engenheira
construiu um castelo
que terminou em implosão
aí virou alpinista
tentou uma escalada recorde
e foi presa por extorsão
regenerada, virou apenas
amadora

[e foram felizes para sempre]

 


 

os olhares
subiram e desceram
escaneando
as mãos
se enroscaram
sacaneando
e as línguas
foram direto
ao assunto

 


 

aqui tudo acontece
de um jeito perfeito
sem tirar nem pôr
belezas e acertos são imediatos
brigas e pazes
são só metades
oscilantes da mesma frequência
todo mundo se ama
nasci na imaginalândia
e aqui continuo a viver
a maior parte do tempo
onde acontece o beijo mais arrebatador
do amado sem defeito

Palavra do Editor | Diário das coisas que não aconteceram

Por Lunna Guedes


 

 

Quando o arquivo do novo livro de Aden Leonardo chegou às minhas mãos… eu aguardei alguns minutos pela impressão das cinquenta e poucas páginas em Word para ler no papel… porque sou antiga — e nem sempre a tela me oferece o conforto que preciso para apreciar as palavras de meus autores. É como beber vinho em um copo de plástico: parte do sabor se esvai.

Eu preciso da transparência do vidro, da cor do líquido, do aroma da uva, de todas as combinações que certas reservas trazem… e do toque.

O mesmo acontece com as palavras, que serão livros depois de passarem por mim… Degustei as muitas linhas de Aden Leonardo, que são confissões diárias, de vida e não-vida… reais ou — talvez — surreais… bem len.ta.men.te.

Fui lendo, rabiscando o papel, invertendo frases… tornando meu o que antes era apenas dela. Um segredo guardado dentro, no fundo de si.

Eu me vesti de suas emoções-confusões-dúvidas-amor-desamor… um sem-fim de coisas, de maneira a organizar-e-desorganizar seus versos. Percorri suas calçadas… atravessei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e sai de vários lugares-cenários. Acompanhei crianças em movimentos, estranhos. Fui seus olhos, pernas, pés… me vesti de sua pele e dialogamos numa frequência inaudível.

Ao final da leitura… as palavras ganham textura… e o livro se torna realidade o bastante  para que a gente sinta a segunde pele coabitando o próprio corpo sem a resposta… para a pergunta nunca feita e uma certeza: as coisas nem sempre acontecem… 



‘diário das coisas que não aconteceram’

Aden Leonardo


Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes

 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

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Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes

 

O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Diário das coisas que não aconteceram | Aden Leonardo

 

R$ 35

 

 


Diário das coisas que não aconteceram… com o Diário, ou “des-diário” pretende-se quase muita coisa. Inventar os dias que não existiram. Conforme o tempo passa sem acontecer o que inventamos de ser, em luz e sombras, dias e noites, nascer e morrer. É uma história de não, em frases de afirmações. Uma dose de intenções. Talvez aconteça, talvez acontecesse, talvez aconteceu. É um livro de incertezas.

 

13 – Nem sempre a lápis | cinco poemas de Aden Leonardo…

Todo sonho resume-se em “se”.
E tudo não realizado… apenas não aconteceu — fez a curva dos “nãos” e se perdeu na esquina. Em algumas esquinas perdidas venta muito.
Não se esqueça disso: virou a esquina e ventou, sacudiu seus cabelos?
Você encontrou uma tempestade de sonhos perdidos.
Existem coisas que não aconteceram e se misturam à realidade… porque um sonho não pode ser só hipótese. Deixo assim, como {des} inventário de minhas posses, as coisas que não tive, junto às que talvez não aconteceram — como eterna confissão post mortem.

 


 

 

Ao som de Kepler

O som do sol
é um fantasma que carrego
bem do seu lado
onde nunca está – nada
de onde você nunca veio
por onde e aqui nesse eterno desespero
que mais esperei
Mirante vazio dentro de mim

A luz que se cumpre, bruxuleia meu medo:
que amanhã num fim do meio
meu meio, meu fim, do dia,
Saber de novo
no meu grito segredo:
Você nunca veio.

Fantasmas de mim se põem a dormir.
Aos gritos em pleno silêncio.


 

ASSINAR POEMAS
Autografei suas costas
Com a ponta da língua
com afago das mãos
refiz caminhos
Segurei teu rosto
no mesmo beijo
do último primeiro
dormiu três afagos
dois desejos
completamente saciados
Por algumas horas
pagas por mim, letra a letra
na fonte de erros de Eros.

 


 

NUANCE DA AUTORA
(ou efeito Lua de Papel)

Sonhei que eram duas
mulheres nuas
de nuance tênue
saindo do livro
feito de lua
em papel refeito
desenhado a meu modo
Acordei de hare raro místico efeito
vez que deleito
no corpo que já não deito
Em ambas desci para tão dentro
de crateras
Luas embriagadas
perdi trabalho
pedi cigarro
E nada
virei Bukowski
Vivi
Dois dias.

 


 

 

FALSA

Finge
Que não
Mas quando me vê
Morre
Sei que seu susto se lança
nos braços dela
Mas seus olhos se fecham
E nada tira nossa lembrança
Esquecemos de fechar a porta
Do quarto
Das idas
proibidas
das partidas
Morena, vadia, fumante passiva
de mim.

REALidade | Obdulio Nuñes Ortega

 

R$ 35

 

 


….é o primeiro livro de Obdulio Nuñes Ortega. Ele — livro e autor — nos convida a um jogo de dardos, e nos brinda com uma conexão entre seu texto e o tempo vigente… nos apontando seu olhar cerimonioso sobre a realidade das coisas subdivididas em: passado-presente-e-futuro e todas as suas lacunas, de maneira mais ou menos testemunhal.
Ele se oferece nas linhas, como o tempo exato do disparar do dardo — que deixa a mão e voa de encontro ao alvo… no caso, o leitor, que pode estabelecer uma conexão ou apenas se divertir com a trajetória.
Acertar ou errar não é o objetivo do Autor, ele quer apenas brincar, como um menino arteiro, com a REALidade…

 

12 – Nem sempre a lápis | crônica de Obdulio Nuñes Ortega…

 

| estações |

 

Chegou o Outono… o que mudou? Para uma civilização em que a maioria de seus habitantes vive nas cidades, quase nada. Principalmente em um País que tem quase todo seu território entre as linhas do Equador e de Capricórnio — com variações climáticas mais tênues que nos países muito acima ou abaixo da metade imaginária do planeta.

Viver em metrópoles desvincula o seu morador do ciclo natural, em que as estações anunciam as suas características de forma mais aberta.

O asfalto e as casas de pedras impedem que as águas das chuvas penetrem no solo… e é nesses momentos que os temporais se fazem presentes, ou quando o sol inclemente frita os cidadãos nas calçadas sem cobertura verde. A questão ambiental interfere no dia a dia dos seres desarmados de aparelhos de ar condicionado.

Com os horizontes descontinuados pelas grandes construções, nem os céus, nem os sonhos ganham profundidade… e a inclinação da Terra em relação ao Sol não pode ser visualizada nos efeitos mágicos de cor que são produzidos quando o tempo não está fechado.

O desequilíbrio climático apenas agrava as péssimas condições em que vivemos. Para sustentarmos a civilização que tem o granito e o aço como símbolos do ‘progresso’, acabamos por contaminar a nossa alma e nosso pensamento, pela falta de magia que é a revelação da vida natural — naturalmente…

Forçamos o início e o fim do processo como a acionar um botão de liga e desliga, sem passarmos pelo tempo intermediário, que é a base da própria existência — e os ciclos não se cumprem…

Até onde chegaremos?
Especulo que ao Inverno mais rigoroso da nossa História…

Plural | Avesso

Por Lunna Guedes

Estava a ouvir Caetano e sua tropicália — movimento baseado no modernismo brasileiro — quando comecei a pensar a plural de março… e, sem ter com quem dialogar — dada a ocupação dos editores da revista nos dias primeiros desse ano ímpar — me ocupei de um diálogo imaginário com o compositor de ‘sampa’…

Alguma coisa — sempre — acontece no meu coração… que me põe a pensar a realidade e suas transmutações mecânicas… o contemporâneo e sua perplexidade…

E terminei por escolher o Avesso como norte-tema… e, a partir dessa premissa, me pus a lidar com o desenho proposto por Caetano em sua canção… a imaginar as curvas da cidade — literária e real — o que me obrigou a tentar compreender esse movimento de estar dentro, porém em exílio, em diáfora.

Tateei minhas experiências — novas e antigas… e rapidamente ‘aprendi a chamar-te de realidade’, porque a idéia de um exterior que se conjuga no interior é, sem dúvida alguma, a base da arte-vida-matéria-memória — tudo que somos… uma espécie de avesso, a olhar para fora, sempre em busca de si mesmo — sem, contudo, conseguir encontrar os cardeais…

E, orientada por esse mapa particular de sensações… acabei dentro das linhas do livro de Lygia Clark: ‘o dentro é o fora’… onde a artista afirma, sem meneios… que a arte é sempre ‘fora’ dela mesma, do mundo. E é também a capacidade de se deixar moldar-adequar… através de si, do outro e de todas as esferas, o que faz dos artistas: nômades — sujeitos em busca de um molde, sem jamais se deixarem moldar… porque, como afirma Lyotard: ‘todos os ensaios e as frases são feitos dentro do ser e não diante de seus olhos’.

Dito isso, basta ser barco e navegar por esse Avesso que somos… aceite o convite que deixamos em cada um das páginas seguintes… e venha aplaudir a conclusão de Caetano, que nos faz perceber que a cidade, o lugar, o sujeito e a arte são ‘o avesso do avesso do avesso’… e trate essas páginas como sendo um objeto longínquo, exterior a ti, que te obriga a sair de ti e vir de encontro a elas… para um instante de contemplação. Traga uma xícara de café, uma taça de vinho ou um maço de cigarros.

O avesso… depende (sempre) de um trago bem dado!

 

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