Palavra do Editor | vi e ou/vi…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 

A Poesia pode ser — de acordo com os rótulos tradicionais — uma espécie de etiqueta, que nos avisa da qualidade da roupa que cobre o corpo: moderna, maldita, parnasiana, marginal, contemporânea… mas, nenhum rótulo é capaz de afirmar o sentimento que transborda no leitor ao ler um verso bem feito.

A poesia nos cala, consome… nos deixa nus, a nos equilibrar em epítetos. Julgar a poesia é condenar a si mesmo. Rotular é se repetir… mas, somos assim — e isso parece ser incorrigível.
Outro rótulo muito usado nesse tempo — denominado contemporâneo — é: poeta… no entanto, por mais que se insista, não veste qualquer pele… muito embora se multipliquem nas sombras os que tomam para si a palavra e apontam para nós os seus sufrágios.

Ainda não sei como será classificada essa geração no futuro… um rótulo, certamente, há de surgir na boca dos acadêmicos, ávidos por classificações — como se suas vãs existências dependessem disso.

Mas, para o leitor, o que importará de fato — hoje e sempre — é o lento degustar de um gole sagrado de si mesmo… porque a poesia — independente do rótulo que tentem impor a ela — é o externar de nossos segredos subterrâneos. O poeta — homem ou mulher — compreende nossas falácias, como se, de seu canto de mundo, analisasse cada uma de nossas moléculas.

As diferenças na escrita atual e na fala dos homens são perceptíveis. Somos seres mutantes… por que a palavra seria diferente? A palavra é tão viva quanto nós. E, na atualidade, existe um gozo em escrever, afinal, a liberdade está aí, embora — muitos — insistam em apontar na direção oposta. O epigonismo é cada vez mais verbalizado e as metáforas se amontoam, ainda que de maneira mais discreta.

Virginia Finzetto não é da nova geração — mas segue o fluxo… e se deixa tocar pelo elixir que o contemporâneo exala. Em seu livro ‘vi e ou vi’ — o primeiro da poeta —, existe um desafio para o leitor: entender o jogo proposto através da sua sintaxe, linguagem… da voz que se faz em si mesma. Ela brinca com um sem-fim de imagens espelhadas ao sol, até tudo arder em nossos olhos. O que me fez — após terminar a leitura do conjunto de versos, devidamente separados, como peças de dominó — revisitar o artigo de Susan Sontag sobre fotografias: ‘viver é ser fotografado, ter um registro de sua vida e, portanto, continuar a viver inconsciente’

Bendita seja a inconsciência com a qual Virginia nos acena! Amém…

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