01 – Nem sempre a lápis | Ana C.

Seis poemas para conhecer Ana Cristina Cesar


 

A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética.

 

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo
a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto’

 


 

    E penso

a face fraca do poema
a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema
a luz prévia
Dividida
Mas calo a superfície negra
pânico iminente do nada.

   

 


  

 

Vacilo da vocação

 
Precisaria trabalhar – afundar –
– como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –
A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível –
– do real.

 

  


 

 

houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
“para que nada se perca
Ou se esqueça”,
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo

 


 

Sábado de Aleluia

Escuta, Judas.
Antes que você parta pro teu baile.
A morte nos absorve inteiramente.
Tudo é aconchego árido.
Cheiro eterno de Proderm.
Mesa posta, e as garras da vontade.
A gana de procurar um por um
e pronunciar o escândalo.
Falar sem ser ouvida.
Desfraldar pendengas: te desejo.
Indiferença fanática ao ainda não.

 


 

         Soneto 

 
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu 

Que  uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida 

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina 

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor

 

 

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