Coluna Plural | Página limpa

Por Obdulio Nunes Ortega


Eu sempre me perguntei sobre quem seria sem a memória de mim mesmo; se afinal seria apenas o resultado de lembranças do que havia vivido, ou se seria eu uma tábula rasa, uma página limpa, sem experiências para reviver e, neste caso, eu apresentaria uma personalidade inata, imaculada como um papel em branco.

Filosofias milenares propõem que a carga memorial, a qual nos apegamos como se tronco em rio revolto fosse, é que nos mantém presos aos círculos menores de existência… de novo e de novo; uma vida após outra.

Entendo que para que possamos evoluir do amálgama de lama, emoções, sentimentos e pensamentos dos quais somos compostos, devemos deixar de ser nós mesmos e nos esquecermos… de nós, dos outros, de nossa família, de nossa cidade, de nossa nacionalidade, de nosso ser!

Influenciado por essa visão espiritual, que prega a oclusão da vivência prática, por algum tempo em minha vida tentei me livrar de mim. O embate entre o corpo e a alma preencheu páginas e páginas do que escrevia. No entanto, ao pretender me tornar contador de histórias, percebi que precisaria da minha vivência… e da memória que tinha dela.

Percebi igualmente que a memória constituía o fio condutor de nossa expressão vital, bem como a de outros seres. Observei, por exemplo, que o processo de recordação era posto a trabalhar, ao me tornar objeto de reverência dos meus amigos de quatro patas quando voltava a casa. Sem o vínculo memorial não haveria conexão entre as partes, não haveria compartilhamento de sentimentos e emoções. Ao que me conduziu à seguinte premissa: a de que o ser evoluído, enfim “desmemoriado”, não deveria demonstrar amor, o mesmo amor que cria vínculos e que, contraditoriamente, nos é proposto para que nos tornemos pessoas superiores.

O filme “Blade Runner” apresentou linguagem cênica impecável e me trouxe elementos novos com relação à compreensão da memória, a nos distinguir como seres conscientes de nossa identidade.  Contava a história da revolta de alguns Replicantes, androides com tempo de vida útil pré-programado, que passaram a valorizar verdadeiramente a vida, e a alcançaram a compreensão de sua importância, talvez muito mais do que os homens que carregavam displicentemente a energia vital em seus corpos.

A penúltima cena — desenvolvida em cima do prédio sob a chuva ácida, entre o líder dos Replicantes e seu implacável caçador humano — passeia por minha memória desde então como uma lembrança viva, ainda que “implantada”. A compaixão que senti por aquela figura que tenta continuar viva foi verdadeira. O que me levou a acreditar que, para além da memória padronizada em recordações estanques, os sentimentos talvez sejam os elementos primordiais para a identificação de uma pessoa.

Depois de tanto tempo a aplacar os meus sentimentos, avesso às descargas emocionais, fiquei cansado de mim e da minha história “visível”. Ultimamente tenho tentado realizar uma viagem para dentro do espelho como escritor, buscando aquele que não seria somente a sua imagem e (im)perfeição, mas um antirreflexo, o seu duplo contrário. Ele… eu quero mergulhar na alma de um ser que, de antemão, repilo, porque pretendo desmontar a minha própria história e replicá-la sem os maneirismos advindos dos segredos, e das possíveis mentiras que tenho repetido sobre a minha persona, tanto para os outros quanto para mim mesmo.

Como resultado, ao revirar as minhas próprias indigências, espero escrever melhores histórias, livre de tantas máscaras… Em vez de me esquecer, eu desenvolverei memórias que me libertarão permanentemente de nós… de alguma maneira, essa batalha entre o ser que deve esquecer para ascender, e o quer se lembrar para melhorar, parece déjà-vu… Se ela faz parte da minha própria memória ou participa do nosso inconsciente coletivo, tanto faz… Parece que estamos todos, mais cedo ou mais tarde, fadados a lutá-la.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: