Resenha | Detalhes Intimistas

Por Adriana Aneli


“Sou o Albatroz que te espera
no fim do mundo”

Li Detalhes intimistas durante uma viagem de navio: …“espero que goste da leitura”, dizia a dedicatória. Malas prontas, aceitei o convite. Ainda no porto, o aviso: “tem página em branco para ser escrita”.

Embarquei: “Não sei bem para onde, mas a vida me guia e conhece exatamente o local de destino”. Fui conduzida por este cenário. Silenciosamente. Até acostumar os olhos, o exercício de enxergar além.

Detalhes intimistas de Tatiana K. sugere este exercício. Seu livro é feito de promessas e desconfortos. Decisões e reinvenções de um vazio que se agita dentro, a escandalosa falta, o quase silêncio que a autora se (nos) propõe a explorar. Invasões bárbaras narradas em seu teatro de sombras.

Em linhas que constroem a possibilidade de fuga, assisto ao medo de uma narradora que rompe a terra para retornar humilde, subterrânea, ao final do ciclo.

Ela sabe criar as próprias asas e logo as destrói porque precisa voltar ao ninho, ser apenas essência, quebra-cabeça mil vezes embaralhado para desafiar a si mesma — a necessidade de se descobrir em si, oráculo para as próprias perguntas — “quero a real percepção de ser humana. Nem que para isso precise adormecer todos os outros absurdos que me preenchem”.

Viajei por Detalhes intimistas. Nadamos, leitora e leitura, na superfície das palavras, até tomar coragem e mergulhar. A vida marinha e pulsante surgindo neste mergulho profundo. Impressões. A autora me adivinha: “Tem um pulmão se enchendo de ar, renovado com esperança”. 

A viagem segue. Tatiana agora está lúcida, e são minhas as dúvidas. Segura, a habitual caminhante às cegas compreende os meus tropeços. Quando me dou conta, estou só na roda-gigante que ora semeia ora ceifa sonhos. Já não posso descer. A lição é esta: aceita a si mesma, tal como é e com isso liberta-se… O eu pleno de liberdade está sempre em carne viva… Mas repleto de medo, voa.

Li detalhes nesta viagem! Singrei a minha monotonia. Dias, noites até cruzar o Cabo de Horn. Li até o fim do mundo, até Tatiana K. surgir à flor da pele, albatroz na última fenda dos ventos antárticos.

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2 comentários em “Resenha | Detalhes Intimistas

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