5 – Nem sempre a lápis | Gilka Machado

Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade,
Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira.

 

 

O teu olhar
luzente,
lindo,
ora descendo, ora subindo,
a me fitar…
o teu olhar
manso, indolente,
dá-me a impressão de uma serpente
pelo meu corpo a se enroscar.


Esboço

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros…
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias…
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca…
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos…


Ser Mulher …

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


Gilka Machado nasceu no Rio de Janeiro no seio de uma família de artistas, que incluía poetas e músicos consagrados. Sua mãe era atriz de teatro e do rádio. A poesia surpreendente de Gilka Machado se detém nas experiências de uma intimidade sensível, que manifesta, explicitamente, suas sensações, emoções e desejos eróticos. Aliás, lembre-se que em 1916 faz conferência sobre “A revelação dos perfumes”… Para expressar tais sensações, usa nos poemas um vocabulário inusitado: emprega, por exemplo, a palavra “cio”. E mostra a mulher esvaída em sensualidade, numa poesia que se constrói tanto segundo a rigidez formal de tradição parnasiana quanto dando vazão às ondas de languidez que atravessam o seu verso à moda simbolista. Daí uma reação dupla por parte do público, pois causa tanto a admiração, por parte de uns, em que se incluem as mulheres que encontram aí uma porta-voz na representação de experiências da intimidade, até então proibida, quanto a rejeição severa por parte de uma crítica moralista conservadora.

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