6 – Nem sempre a lápis | Virginia Finzetto

Três poemas de Virginia Finzetto

Escolhida entre as múltiplas que lhe habitam, atrás de seu par de olhos escuros, surge a humorista de ocasião nas redes sociais. Essa promete às demais um rodízio, até que todas as outras possam também representar o seu núcleo de incertezas. Hoje, desconfiada que as palavras não pertençam a nenhuma delas, ela se acha apenas uma garota de vários recados. Dos papeis que já representou, sendo o de jornalista o mais frequente, assina todos eles com seu nome próprio sem arrependimentos.

 


 

Torre de papel

possuía um oráculo
disfarçado de dicionário

todos os dias o abria ao acaso
e as palavras se organizavam
em frases proféticas

passou a falar com o vento
e a cheirar a orelha do gato

tida como autista, disléxica
traduzia diferente o mundo
de maneira poética.

 


 

Talvez por isso a cena de um dilúvio iminente, segundos antes de acordar. Sonhou que havia uma nave imensa em seu quarto, de proporções irreais. Do alto uma voz lhe dizia que poupasse apenas as suas partes, pares e ímpares, abrindo mão de vizinhos adormecidos em distrações e promiscuidades e de qualquer bandido declarado, isento ou não de paixões. Ela entrou, mas ainda não havia acordado.

 

 


 

na minha vã idade
os anos disputam no tento
mais um recorde de velocidade
amar me apressa
e nessa corrida do relógio
eu torço pelo ponteiro
não anunciar que
o último sempre é o primeiro
a ganhar na maratona do tempo

 

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