8 – Nem sempre a lápis | Ingrid Morandian

Três poemas de Ingrid Morandian 

 

Paulista, aproximou-se das letras ainda menina. Participou do concurso “A Voz da Infância”, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, em que foi premiada na categoria infanto-juvenil; desde então escreve poesias, contos e crônicas.

Na adolescência assimilou influências e desenvolveu gostos literários: Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Lúcio Cardoso, Marçal Aquino, Rubem Fonseca, Baudelaire, Kafka… Trabalhou na Casa Mário de Andrade em 2000, e começou a participar de cursos, oficinas literárias e saraus.

“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e me esvazio de todo eu através da escrita”, Ingrid diz e traduz seu fazer literário.


 

Um copo de luz

como pintura seus olhos terminavam no reflexo

do copo deixado sob a toalha

braços ancorados nas horas mortas

desembaraçavam a incompletude daquele mundo

intricados desejos à deriva

apequenavam-se nas mãos do sábio

alinhar uma burguesia esparramada

na cantoria das ruas

no verso do papel, Arouet entreviu

os lampejos de luz, de ideias

o rito da manhã findara

repousado à viagem

atracado

 


 

Viagem descontínua

 

da ampulheta se contam os grãos dos segundos

no imaginário dos seus olhos percebo a falta do tempo

minudências

libertemos as mãos, vamos

certeiro o caminho

os acontecimentos orvalham na pele

veleidades não ditas

o relógio vai emudecer na caminhada

e nas modulações dos compassos

não precisamos da voz,

a viagem é narrativa longa

a lua incerta, tanto melhor

nos lábios o mesmo sabor das begônias

 


 

Arremesso

não é no caminho, o silêncio.
não é na verdade, o silencio.
não é na escuta, o silêncio

o silêncio é na dobradiça da porta
na boca que cala a vida
na palavra arremessada na cabeça
no abraço repartido

uma ternura recosturada
na trama espinhosa dos teus lábios
na promessa mal feita do teu olhar

você absorveu o erro
nocauteou a fidelidade
avançou sozinho
nas pétalas azuis
regrediu

 

 

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2 comentários em “8 – Nem sempre a lápis | Ingrid Morandian

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