Por Lunna Guedes


 

Estava a percorrer os corredores e prateleiras da Livraria Cultura no Conjunto Nacional — na tarde de ontem — quando reparei na quantidade de livros com títulos estranhos e capas cada vez mais coloridas… e uma frase francesa me veio imediatamente à cabeça: “ils ne lisent plus, ils écrivent“…

Nem precisaria dizer mais… mas é impossível silenciar-me diante da certeza de que “em outros tempos” era preciso algum talento para ser escritor e publicar suas linhas… e existia certo romantismo na espera da resposta de uma Editora, para qual os ‘sagrados manuscritos’ eram encaminhados. Soube de autores que colecionaram recusas, sem desistir de seus objetivos.

Mas, nos dias atuais — intitulados contemporâneos — qualquer pessoa… com ou sem talento… não apenas escreve como também publica o seu livro. E há quem se sinta imensamente feliz com esse “admirável mundo novo” em que qualquer pessoa — o ator da novela das nove, o ex-presidente do país, o senador e outros tantos — publicam suas ricas e inspiradoras histórias de vidas, como se fossem um personagem próprio…

Tenho para mim que a pessoa que disse e, aviso que não faço ideia de quem seja: “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” foi bastante infeliz na citação… basta reparar que há pouquíssimas árvores na cidade, mas filhos há aos montes e livros então…

Penso que, dadas as circunstâncias, deveríamos mudar o substantivo que classifica os escritores. Não vamos mais chamá-los assim, apenas denominá-los a partir de agora como: “o jornalista, a blogueira, o senador, o ex-presidente ou a celebridade do momento… que por não terem o que fazer com suas parcas vidas decidiu num estalo: vou escrever um livro”.

Todas essas pessoas, devidamente auxiliadas por uma nova safra maravilhosa de talentosos Ghosts writes estão contribuindo gentilmente para o aumento considerável de livros em prateleiras. Mas, não pensem que o fazem pelo bem comum da literatura.

O pior, no entanto, é verificar que os leitores — mergulhados em qualquer coisa de curiosidade e totalmente incapazes de devorar literatura, dado ao trauma que os tempos colegiais, infligiram em seus olhos e almas — devoram a não-literatura como se afrontassem seus velhos professores.

Vivemos o tempo do “produto descartável”… onde basta um único e mísero dia para que o novo seja considerado velho… e descartado. Os novos escritores não querem esperar… passar os seus dias nos bastidores de si mesmos. Precisam do sucesso e reconhecimento, os holofotes da fama, as tempestades de gritos, as platéias repletas de fãs… tudo para ontem.

O quarto escuro é para os românticos — tolos de antigamente. O canto escuro perdeu o charme. Hoje o desejo é por multidões… e não interessa se amanhã serão esquecidos… se seus livros não terão espaço nem mesmo nos sebos das cidades.

Amanhã é uma palavra em desuso… o importante é o hoje, o tempo é agora. É preciso conquistar ‘likes’… colecionar seguidores.

Eu não tenho dúvidas que as prateleiras das livrarias continuarão — por muito tempo — abarrotadas com seus livros coloridos, títulos estranhos e conteúdos toscos. Então, vou continuar aqui no meu metro quadrado de cidade, a separar a literatura contemporânea em duas novas sessões: escritores e não-escritores… porque eu sei que ainda existem nesse mar contemporâneo… escritores que vivem pela palavra e não pelo barulho.

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3 comentários em “COLUNA PLURAL | Admirável (?) mundo novo…

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