COLUNA PLURAL | Admirável (?) mundo novo…

Por Lunna Guedes

Estava a percorrer os corredores e prateleiras da Livraria Cultura no Conjunto Nacional e acabei por reparar, com alguma estranheza na quantidade de títulos disponíveis nas ‘ilhas’ organizadas de maneira a ‘gritar’ suas capas  cada vez mais coloridas. E diante daquele cenário estranho, uma frase francesa me veio imediatamente à cabeça: “ils ne lisent plus, ils écrivent“…

Nem precisaria dizer mais… mas é impossível silenciar-me diante da certeza de que “em outros tempos” era preciso um talento raro para ser escritor e publicar suas linhas. Existia, inclusive, certo romantismo na espera pela resposta de uma Editora, para qual os ‘sagrados manuscritos‘ eram encaminhados.

Nos dias atuais — intitulados contemporâneos — qualquer pessoa… com ou sem talento — não apenas escreve, como também publica seu livro sem cuidado algum. E há quem se sinta imensamente feliz com esse “admirável mundo novo” em que o ator da novela das nove, o jornalista que escreve (com seus mil erros de português) uma coluna no jornaleco da cidade onde mora e, por que não, o ex-presidente do país, o senador e outros tantos… publicam suas ricas e inspiradoras histórias de vidas, como se fossem um personagem próprio…

Tenho para mim que a pessoa que disse a famosa frase — “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” foi bastante infeliz na citação. Basta reparar que há pouquíssimas árvores na cidade, mas filhos há aos montes e livros então…

Talvez, dadas as circunstâncias, deveríamos mudar o substantivo que classifica os autores. Não mais vamos chamá-los escritores… vamos denominá-los apenas: “o jornalista, o senador, o ex-presidente, a pseudo-celebridade do momento… que por não terem nada mais interessante a fazer em suas parcas vidas resolveram escrever um livro“.  E nos tempos — cada vez mais atuais — podemos dizer também: “o senador ou deputado, que por não saber o que fazer, em Brasília… optou por escrever um livro” ou ainda “com tanto tempo livre em sua cela particular, optou escrever um livro”…

Todas essas pessoas, devidamente auxiliadas por uma nova safra maravilhosa de talento-sos Ghosts writes estão contribuindo gentilmente para o aumento considerável de livros nas prateleiras das livrarias. E não pensem que o fazem pelo bem comum da literatura.

Mas o pior, no entanto, é verificar que os leitores — mergulhados em qualquer coisa de curiosidade… e totalmente incapazes de devorar literatura, dado ao trauma que os tempos colegiais, infligiram em seus olhos e almas — devoram a ‘não-literatura’ como se afrontassem seus velhos professores.

Por isso, penso que, o melhor a fazer… seria deixar o substantivo “escritor” liberto de certos pesos. Cabendo o mesmo apenas as pessoas com raro talento que dedicam seus dias a pesquisas e estudos — numa tentativa natural de evolução — porque, talento sozinho não basta. É o mesmo que jogar sementes no asfalto duro: não germina-não brota.

Histórias não nascem prontas… é preciso dedicar-se a elas. Na maioria dos casos, é preciso guardá-las em alguma gaveta e aguardar pela maturidade literária. O dia seguinte sempre tem algo a nos oferecer… como um bom vinho que necessita de tempo-repouso-maturação.

Um romance não fica pronto em um punhado de dias… e há a possibilidade de nunca escaparem da condição de inacabados.

Mas como vivemos o tempo do “produto descartável”… onde basta um único e mísero dia para que o novo seja considerado velho… os novos escrevinhadores não querem esperar. Querem o sucesso para ontem… o reconhecimento imediato. Os holofotes da fama.  A tempestade de gritos. As platéias repletas de fãs. Não querem passar seus dias nos bastidores de si mesmos.

Hoje o desejo é por multidões… e não interessa se amanhã serão esquecidos… se seus livros não terão espaço nem mesmo nos sebos das cidades. O importante são os cinco segundos… o tempo também é outro.

Amanhã é uma palavra em desuso… o importante é o hoje, o tempo é agora. É preciso conquistar ‘likes‘… colecionar seguidores.

Eu não tenho dúvidas que as prateleiras das livrarias continuarão — por muito tempo — abarrotadas com seus livros coloridos, títulos estranhos e conteúdos toscos… enquanto existirem livrarias e suas prateleiras.

Mas, por enquanto, vou continuar com os meus rituais particulares. Separo a literatura contemporânea em duas novas sessões: escritores e não-escritores — porque eu sei que ainda existem nesse mar contemporâneo… escritores que vivem pela palavra e seu tempo sagrado de maturação e não pelo barulho das multidões, que mudam de direção com a mesma velocidade que as frentes frias, que a ‘moça do tempo’ anuncia no Jornal da noite.

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