COLUNA PLURAL | Vida percorrida em livrarias…

Por Roseli Pedroso… 


MINHA RELAÇÃO COM LIVROS se deu ainda pequena, quando meu pai — na época trabalhando numa empresa de mudanças, ganhou de um cliente, uma coleção de livros em miniatura. Fiquei encantada com aqueles livrinhos minúsculos escritos em francês, inglês e alemão. Tão bem feitos em capa de couro e detalhes dourados que, para mim, eram mágicos. E eram!

Livros são portas abertas para a fantasia e a magia. Aprendi muito cedo.
Lembro-me que, ainda pequena, acompanhava minha mãe às compras e numa dessas saídas em sua companhia, entrei pela primeira vez numa livraria. Meus olhos se perderam diante de tantas prateleiras altas e centenas de livros! Mal sabia que — num futuro, esse seria meu material de trabalho.

Enquanto minha mãe se entretinha escolhendo livros de técnicas de bordado, eu circulava passando as pequenas mãos nas lombadas dos livros. Eram tantos… Pela primeira vez me senti em casa. E olha que essa livraria era pequena e antiquada se comparada às mega livrarias que surgiram décadas depois. De qualquer forma, foi o pontapé inicial de uma vida dedicada aos livros. Já na juventude, conheci a Livraria Martins Fontes, na Rua Doutor Vila Nova. Tornou-se o espaço preferido para minhas incursões entre livros diferentes que não encontrava em outras livrarias. Principalmente na área das Artes. Gostava também de garimpar livros em promoção. Comprei excelentes títulos. Mas não gostava do atendimento…

Com o tempo, percebi o atendimento diferenciado quando por lá aparecia artistas e escritores. Para esses, estendiam o tapete vermelho e uma enxurrada de sorrisos e mimos.

Fazendo faculdade lá perto, descobri a Livraria Nobel que hoje já não mais existe no endereço que frequentava. Uma pena. Lá, me sentia a vontade para explorar ao máximo sem ninguém para me pressionar ou olhar com cara amarrada. Trago de lá boas recordações e livros comprados que tenho até hoje.

Ao começar a trabalhar na região da Avenida Paulista, fui apresentada à livraria que ganhou meus olhos e coração: Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Transformou-se na extensão de minha casa e meu trabalho. Percorrer seus espaços, descobrir livros e títulos que até então não conhecia, passou a ser minha diversão. Na mesma época, conheci a unidade da Fnac, em Pinheiros. Gostei dela, mas pela localização, não frequentei muito. Sei lá, havia nela certa frieza que não me conquistou. Após um tempo, conheci a unidade da Fnac na Avenida Paulista que me agradou pero no mucho. Espaço excelente, acervo idem. Tanto de livros quanto de vídeos, CDs e DVDs. Cafeteria boa. Mas mesmo assim, ainda não me conquistou. Sentia que faltava algo que não conseguia identificar. Saía de lá sentindo uma lacuna a se completar. Nunca obtive resposta para essa sensação. Mais tarde, conheci a unidade da livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. Fiquei feliz em constatar quantas livrarias na região da avenida mais famosa de São Paulo. Espaço gostoso com o atrativo de uma cafeteria também. Isso é um casamento dos mais felizes, contudo, dificilmente entro nela ou me lembro dela a não ser, quando tem lançamentos de livros de escritores conhecidos. Veio à lembrança, uma pequena livraria, na Rua Augusta — que na época em que a conheci, era a primeira a ter uma cafeteria. Achei-a demais! Foge-me agora seu nome. Acredito que não exista mais. Tantas mudanças ocorrem na cidade. Abre-se e fecha-se num piscar de olhos que chegamos a ficar zonzos.

Nesses trinta e tantos anos de frequência em livrarias, observo a mudança de espaço literário para espaços onde o principal tornou-se o encontro entre diversas tribos e ponto de encontro de uma galerinha mais jovial. A minha tão amada livraria Cultura, transformou-se num espaço assim. Desde que passou por uma grande reforma em seu espaço físico, ela perdeu seu aspecto inicial. Tornou-se um belo espaço onde o design grita aos olhos de quem lá chega. Contudo perdeu aquele espírito de antes: dar atendimento personalizado a quem buscava títulos diversificados. Até sua reforma, sempre que entrava, era atendida por funcionários atenciosos e conhecedores do mundo dos livros. Hoje, caiu o nível de atendimento mais personalizado. São os ventos da modernidade que modificam as prestações de serviços e as relações pessoais. Atualmente, o excesso de possíveis clientes que frequentam a livraria, torna o atendimento mais próximo quase que impossível. Até compreendo. Quem não entendeu, basta fazer uma visita em qualquer horário e dia da semana à livraria para saber do que falo. Tudo muito automatizado e descaracterizado.

A minha livraria preferida da cidade perdeu uma cliente assídua. Mesmo oferecendo aquele espaço do café que — em outros tempos me seduziria, hoje me causa irritação profunda pela espera por um lugar para degustar meu precioso café. Muita muvuca e vitrine para exposição de pseudos intelectuais. Dispenso. Talvez esteja envelhecendo. Talvez. Mas, que as livrarias ganharam em ‘megas’ e perderam em elegância e aconchego, ah isso é fato! Contudo, sigo minha rotina cercada por livros na biblioteca em que trabalho que ganha cada mês mais livros excelentes e perde usuários para sua grande e eminente rival: a tecnologia. Aqui, livros ganham pó por falta de manuseio nas prateleiras e expositores. Espaço transformou-se num imenso lounge onde — alunos e professores, nas suas horas livres, correm para sentar com o máximo de conforto nas poltronas e perderem-se em navegações em seus smartphones.

Livros? Báh!
Para quê?

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