Coluna Plural | Quando eu morrer

Por Aden Leonardo


 

Não me enterrem com almofadinhas*. Não me façam museu. Não criem o dia da livraria de rua, de chão, de antigamente, só de livros. Não me “momenclature”. Agora que sou híbrida, enxertada com cadernos, bolsas, discos, dou crias de autoajuda. Dou mais que isso! Dou lucro de propriedade internacional, sou até muitas vezes passaporte (se guardar o cupom fiscal) para o banheiro do shopping lotado. Visitar-me vale mais ou menos cinquenta centavos.

Estou aqui agora usando um instituto jurídico chamado Testamento Vital. Joga no Google, você nem precisa do livro dos criadores desse anti-martírio de morrer. Tem resumos fáceis, um youtuber explicando, um e-book gratuito com muitas propagandas de sanduíches no canto direito.

Não, não tenham piedade. Sempre evoluímos e hei de dar lugar a uma lanchonete com sushi mineiro a la paulista. Minha doença hoje é existir. Sou um pedaço morto da cultura, um câncer cheio de moscas me comem devagar. Meus proprietários procuram cursos de inovações. Bebem seus prejuízos. Ninguém quer saber mais quem é aquele escritor uruguaio ou português. Tem até sebos on-line, sim, sabia que meus avós não viveriam para sempre.

Convenhamos, a área para crianças gostarem de ler, é linda! Se me movesse, se pudesse eu mesma gostaria de aprender a gostar de ler, lá. Aprendi nomes difíceis. Versos retos. Retóricas, discursos, teses e belezas. A quem importa? Não, me deixem assistir esse protesto de quinze a vinte velhos bobos que escrevem na coluna do Jornal (analógico da cidade). Esses velhos “no meu tempo, era!”. Acabem logo com isso! Não me deixe sentir a idade, a poeira. É hora de partir. Deixem-me na saudade da memória.

Falem de mim como se em algum café (com livros) você dissesse ao seu primo “lembra daquele dia em que nos perdemos na Grota dos Urubus e o vovô buscou a gente à cavalo?”. Quero esse gosto de uma lembrança com cheiro de mato, infância, cavalos, estradas, lagos…

Abaixem logo as portas de aço. Deixem-me em meu último arrasto. Dói-me meus restos. Entreguem meus órgãos-livros-últimos para quem precise desses transplantes: essas bibliotecas que mal respiram por serem públicas. Deixem meu coração apagar numa tarde às dezoito horas. Quero escutar o desligamento do aparelho. Quero um atestado: “Acabou-se. Extinta. Fotografada para constar nos livros didáticos do quinto ano do ensino fundamental.” Minha vida vivida, em mim percorreram dedos, passos, vozes, paixões por meus corredores, criações e criaturas. Mas tudo precisa mudar. Preciso nascer de novo e o novo se conhecido bem, precisará de minhas lembranças. De meus conteúdos. De minha vivência. Eu viverei num canto de uma Bookstore, depois de um cinema.

Agora desliguem meus aparelhos quando eu for só pó.

 


*copiado plagiando descaradamente a música eternizada por Elis, de Baden Powell / Paulo César Pinheiro: Lapinha.

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