COLUNA PLURAL | O que acontece com as nossas livrarias?

Por Renato Essenfelder

 

QUANDO MORRE A POESIA? Estou inquieto. Visitas à livraria ultimamente me deixam inquieto — noutros tempos, tinham efeito relaxante.

Em parte é a idiotização do acervo que aborrece. E uso a palavra “idiota”, aqui, lembrando de seu sentido original, grego. Idios: privado, separado, apartado. O adjetivo designava, na antiga Grécia, o cidadão que não participava da vida pública, o ensimesmado, desinteressado do mundo.

Pois: nossas estantes estão repletas de receitas de idiotia. Pílulas de idiotia em todas as cores, mas num único sabor — exageradamente açucarado — Fique Rico Agora, Seja Feliz com o Método X, Aprenda Isso, Siga Aquilo, As Sete Leis Mágicas, O Segredo.

Em torno do melaço, as abelhas: algumas dezenas de idiotas, ou seja, de cidadãos extremamente privados, tão privados que mal ousam levantar os olhos dos celulares, escolhem sua próxima leitura mui dinâmica.

Em parte são eles, os frequentadores de livraria, que aborrecem. Gente com pouco amor ao livro. Consumidores, como novos ricos querendo ostentar aquilo que mal compreendem.

Dia desses, vi uma senhora escolhendo romances pela cor. Comparava as lombadas e suspirava: se fosse um pouquinho mais verde, ficaria ótima. A vendedora disse que isso tem se tornado relativamente comum, a venda de livros para decoração. Disse, é claro, com algum desprezo. De pirraça, empurra as obras mais caras e encalhadas de que dispõe.

Mas se há maus escritores é porque há maus leitores. Ou melhor, nem um nem outro é realmente mau… estão mais para parceiros no crime. Enquanto um finge ter respostas, o outro finge compreendê-las. É mais ou menos o mesmo tipo de relação que se dá entre professores entediados e alunos preguiçosos: um finge que ensina, o outro finge que aprende.

Ah, mas eu não deveria me aborrecer com nada disso. Enquanto os parceiros de crime cometem suas estupidezes, posso caçar por entre as prateleiras tesouros negligenciados…
Acontece que a lógica da relação entre idiotas ameaça já a própria configuração desses espaços. Ir à livraria já não é mais a mesma coisa — especialmente para os que gostamos de livros.

Bons estabelecimentos ameaçam fechar, ou já fecharam, enquanto outros aderem à lógica ultra-objetiva da farmácia e oferecem livros casuais, curtos e coloridos, cheios de “sacadas”, para manter o negócio.

Aconteceu com a Livraria da Vila do shopping JK, em São Paulo, uma das mais borgeanas que eu conhecia na cidade. Mudou-se para um outro espaço no mesmo shopping. Agora repaginada, deixou de ser um jardim de caminhos que se bifurcam para se tornar apenas mais uma loja. Em vez de roupas descoladas, livros. Em vez de hambúrguer e Coca-Cola, livros.

E o café, meu Deus, o que houve com o café?
O acervo segue bom, embora reduzido. A experiência é que empobreceu. Tornou-se principalmente prática, como tantas coisas na vida moderna. Entrar, pegar, pagar, sair. Impossível se perder. Mas calma: a da av. Lorena ainda aconchega.

Entendo perfeitamente a lógica do negócio. Não a condeno — certamente eles sabem mais de negócios do que eu. Mas eu, pobre leitor, gosto de entrar em uma livraria como quem entra num templo perdido, meio empoeirado. Como quem entra na El Ateneo, de Buenos Aires, ou na Lello, do Porto. Como quem se dispõe a se perder. Como quem se dispõe a se encontrar.

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