COLUNA PLURAL O glamour de ser leitor

Por Ester  Fridman
Escritora, filósofa e astróloga


ANTES DE PENSAR, ler e escrever, imaginamos. A criança é dotada de imaginação, e esta vai dando lugar aos conceitos na medida que se aprende a falar e articular ideias. A imagem é anterior ao pensamento. Os adultos vão apresentando uma série de coisas às crianças, como gente, brinquedos, móveis, animais e objetos em geral, dizendo-lhes como os devemos chamar.

Cada objeto tem o seu nome. E, lá pelas tantas, nos apresentam as letras. Ah que encantamento nos suscita aquelas letras! Depois de nos apresentarem somente coisas concretas, de repente, óh! Aparece algo mágico, que não está em parte alguma! Não está em casa, não está nas ruas, não se come, não se pega, não anda nem pula como as pulgas, mas, de alguma forma misteriosa, existe! A letra existe! Vem geralmente inserida em alguma plataforma, como livros, cadernos, revistas, placas, telas de TV ou computador. Então nos ensinam a juntá-las formando palavras, sentenças, parágrafos, páginas, livros, bibliotecas, mundo. Mas não é porque articulamos ideias que devemos deixar de lado a imaginação. Muito pelo contrário. A imaginação cumpre um papel de extrema importância na saúde e equilíbrio de uma pessoa.
Antes de haver escrita, a única plataforma de registro era a memória. As pessoas tinham que guardar tudo na memória. Criavam técnicas e mais técnicas para memorização. E quem quisesse ouvir uma boa estória sentava aos pés de quem a contava de memória. Nesses tempos remotos a linguagem, mesmo a jurídica e a econômica, era poética. A prosa virá posteriormente.
Nós que aqui estamos, já nascemos inseridos em um mundo escrito e continuamos a escrevê-lo. Antes de escrever em papiros, escrevíamos em pedras e argilas. Cópias eram feitas uma a uma pelos copistas. Com a imprensa e a facilidade das cópias em série, o conhecimento escrito pode chegar nas mãos de todos.

Mas quem são todos?
Quem são afinal os leitores?

O filósofo Peter Sloterdijk abre seu livro “Regras para o Parque Humano” dizendo: ‘livros, observou certa vez o escritor Jean Paul, são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas. Com essa frase ele explicitou a natureza e a função do humanismo: a comunicação propiciadora de amizade realizada à distância por meio da escrita. O que desde os dias de Cícero se chama humanitas faz parte, no sentido mais amplo e no mais estrito, das consequências da alfabetização. (…) Que a filosofia escrita tenha logrado manter-se contagiosa desde seus inícios, há mais de 2.500 anos, até hoje, deve-se ao êxito de sua capacidade de fazer amigos por meio do texto. Ela prosseguiu sendo escrita como uma corrente de cartas ao longo das gerações (…). Faz parte das regras do jogo da cultura escrita que os remetentes não possam antever seus reais destinatários; não obstante, os autores lançam-se à aventura de por suas cartas a caminho de amigos não identificados. (…) A escrita (…) estabelece uma ponte telecomunicativa entre amigos manifestos vivendo espacialmente distantes um do outro (…) ela lança uma sedução.

Poder-se-ia remeter o phantasma comunitário subjacente a todos os humanismos ao modelo de uma sociedade literária na qual os participantes descobrem seu amor comum por remetentes inspiradores. Encontramos, no núcleo do humanismo assim entendido, a fantasia de uma seita ou clube — o sonho da predestinada solidariedade dos que foram eleitos para saber ler. Para o Velho Mundo saber ler significava de fato algo como a participação em uma elite cercada de mistérios — o conhecimento de gramática equivalia antigamente, em muitos lugares, à mais pura feitiçaria, e, de fato, já no inglês medieval, a palavra glamour desenvolve-se a partir de grammar. (glamour no sentido de encantamento, feitiço, provém de glammar, variante por dissimilação de grammar, no sentido de conhecimento oculto). (…) No início, os humanizados não são mais que a seita dos alfabetizados, e, como em muitas outras seitas, também nesta despontam projetos expansionistas e universalistas”.


Será que o projeto expansionista da seita de leitores encontrou crentes por todo o mundo? Poderíamos dizer que hoje, de certa forma, estamos todos ligados por laços de amizade através da escrita? Será que há diferença entre os leitores dos séculos anteriores e os leitores contemporâneos?
À primeira pergunta eu diria que hoje temos leitores espalhados por quase todo o mundo, mas não de maneira uniforme. Em alguns lugares temos muitos leitores, em outros, quase nenhum.
À segunda pergunta, não temo arriscar em dizer que estamos sim ligados por laços de amizade através da escrita, laços estes que se fortaleceram com a chegada das redes sociais. Escritores e leitores hoje estão mais perto do que nunca, tendo muito mais facilidade em trocar ideias e até se conhecerem pessoalmente. Mas, não obstante as tecnologias, algumas pessoas nascem em lugares onde livros não chegam. Outros vivem ao lado de uma biblioteca, aprendem a ler na escola, mas não tem nenhuma curiosidade de entrar, manusear os livros, ver o que tem dentro.

Por quer isso acontece?

Me parece que, de uma maneira geral, nos sentimos atraídos e identificados com as coisas que nos são apresentadas e com as quais convivemos, desde que tenhamos por elas o mínimo de apreço. Vejamos a arte, por exemplo. É necessário um convívio com as obras de arte para nos familiarizarmos com elas. O primeiro contato com uma tela, uma gravura, uma escultura, pode nos causar um impacto, mas só iremos compreendê-la depois de um certo convívio com a obra e sua história.

O mesmo se dá com a literatura.
Não basta apenas aprender a ler.
É preciso cultivar o hábito da leitura.

Falo aqui da leitura de livros, que é diferente da leitura de jornais, ou ainda, da leitura de sites e outras modalidades da internet.
Um livro leva a outro, e quanto mais se lê, mais se entende os livros lidos anteriormente. E, assim como há pessoas que não leem, seja por não terem sido apresentadas adequadamente aos livros, seja porque seu temperamento não é dado à essa atividade, há aqueles que leem muito durante um período da vida e depois deixam os livros de lado, perdem o interesse pela leitura.
Isso pode acontecer, da mesma forma que uma pessoa começa a estudar piano entusiasticamente, mas depois de alguns anos parte para outra coisa. Um ex pianista pode ter seus dedos enferrujados, mas um ex leitor não terá nada de si enferrujado, podendo voltar a ler no momento que quiser — essa é a grande vantagem.
O encantamento que nos proporciona um bom livro é o segredo do contínuo expansionismo da seita de leitores.
Assim, não há uma regra para a atividade da leitura, mas é importante que coloquemos todas as crianças, e todos os adolescente e adultos que não tiveram oportunidade na infância, em contato com o mundo escrito, pois toda a vastidão de assuntos que um ser humano pode viver e sentir estão lá, retratados para que nos identifiquemos e nos reconfortemos com vivências similares, e que aprendamos formas outras de experiências, seja de nosso próprio meio e cultura, seja de culturas e costumes distantes, intrigantes por também serem humanos.
A leitura, seja de qual gênero for — romance, ensaio, poesia, conto, crônica — faz com que nossa imaginação seja ativada, com que nossa memória trabalhe, e com que nos sintamos profundamente ligados com seus autores e suas vivências pelos laços da emoção.

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2 comentários em “COLUNA PLURAL O glamour de ser leitor

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  1. Precisamos trazer com urgência as políticas de fomentação da leitura. Estamos décadas atrasados. A leitura é um exercício para se alcançar o conhecimento. Parabéns, Ester Fridman por sua reflexão sobre o encantamento do livro, das artes, apresentada com propriedade nesse seu ensaio.

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