Por Emerson Braga


 

Estou a ler um livro diabólico… em desavergonhadas páginas, a dizer mentiras com sabor de celulose – não o papel vulgar – mas, aquele outro: agridoce… É um livro que se deixa ler sem pressa! Que devora a atenção com seu sadismo de criança homicida. Seus parágrafos são fragmentados – como brinquedos de infância destruídos a marteladas – ali, o sangue não jorra.

…este não é um livro qualquer! Ele brinca de negar-me o tato sobre suas páginas – tão alvas – as palavras nele contidas possuem a aspereza da língua de um lagarto que se enrosca em meus porquês.

Percebo a cada olhar, o talento em esmagar meu sexo entre o prefácio, que só me diz frases enganosas e o epílogo… em vacilante construção a entregar verdades que eu não quero saber.

Todas as folhas, desse pequeno diabo, saltam da gaveta de minha mesa de cabeceira, quase que diariamente e, voa vampírico na direção de meu pobre desejo de sabê-lo… estraçalhando-o…

A tinta das palavras parece um veneno, talvez por isso seja tão “saboroso” saber suas maldades de livro jamais manuseado por outro homem que não eu. Subserviente, sigo feito perdigueiro, a assinatura de seus pequenos crimes: o erro ortográfico, os vícios de linguagem, a falta de concordância verbal… percebo, contudo, um cheiro inebriante de revista pornográfica a atiçar minha libido, a cutucar minhas estranhezas… todas famintas.

Reside em suas linhas, ouso dizer, alguma beleza em sua arquitetura, mas ele não está concluído – trata-se de um livro inacabado – que insiste em alcançar uma irresistível narrativa elaborada pelas hábeis mãos de um escritor fantasma.

Tenho medo – não nego – da confusão burlesca de capítulos que se abrem como carnes glúteas e grandes lábios… penso que o leio porque preciso descobrir seu fim, mas confessarei por meio de ardiloso sussurro o que realmente se passa aquém das cortinas de meu teatro mudo… de meu silencioso enredo: o livro, quando concluído, exalará luxuriante perfume de apócrifos manuscritos, de brochuras pérfidas, asfixiando todos os meus sentidos de leitor muito exigente… e, por algum tempo será apenas meu, pois criatura alguma merece tantos hiatos.

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Um comentário em “Cafeina na veia | Leitura fria…

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