Por Adriana Aneli

Nunca fui uma sabe tudo; embora o desejasse profundamente. Esforçada desde a corrida no útero… tenho a constituição orgânica do tudo ou nada. Foi assim que, aos quatro anos, vi a caneta eloquente nas mãos da minha mãe se transformar no desejo de ler e escrever antes mesmo de entrar na escola. Também por esta razão, leio e releio rótulos, manuais, livros de receitas, bulas de remédio… metamorfoseei garranchos em letras redondas, instalei resistência de chuveiro, treinei a voz para recitais, sambei com o Zé Kéti, troquei fraldas, tirei manchas, fiz panquecas e bolinho de arroz.

Entre desafios de tamanhos variados, capítulos da Sebastiana Quebra-Galho e tutoriais do Google… sobrou uma vasta coleção de tentativas e erros.

Entre eles, três desafios teimando em me incomodar: como arrumar a cama perfeita? Qual o segredo para descascar uma laranja inteirinha, sem romper a casca? Como decidir pelo começo perfeito de um livro?

O primeiro era um sonho que aprendi dos gibis: o lençol deveria estar esticado a ponto de a moeda quicar ao ser jogada contra a cama. Por mais que esticasse, alisasse e puxasse, porém, a moeda sempre se espreguiçava confortável e preguiçosa no lençol enrugado. Quem me entregou a chave foi a amiga arrumadeira, com seu segredo simples: é preciso envelopar o colchão. Voilà! Técnica explicada, treino executado sob supervisão e, semana passada a moeda repicou. Manda o próximo!

Como fazer, Joana me explicou certa vez na infância. Ela segurava com ternura a fruta, cravava suave a faca na casca e assim escorregava com firmeza, enquanto a cozinha ia se perfumando com uma espiral contínua, translúcida e… irrepetível.

Muito aprendi sobre livros, desses que arrebatam sem truques logo na primeiríssima página. Em quatro décadas testemunhei inúmeros destes acertos; Cândido, Dom Quixote, O Estrangeiro, O processo, A servidão humana… vi sendo usados por Nabokov, abusados por Henry Muller e Nelson Rodrigues; surgidos das mãos de Graciliano, esculpidos por Guimarães, Jorge Amado, em contos da Lygia e da Lya, no Tremor de Terra, n’O Homem do Furo na Mão, em origamis emocionais de Lunna Guedes, este último que li.

O começo perfeito crava com ternura, suave e firme, frases que descem em espiral perfumada. A vida simples assim. Não creio que se possa imitar.

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Um comentário em “PLURAL 1900 | A casca da laranja

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