Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos.

Cada qual com sua história foi me levando ao passado e me encontrando na velha Papelaria Apollo. Até o cheiro de armário escolar pude sentir, onde cada peça foi comprada juntamente com as belas bolas da antiga árvore de natal prateada da minha mãe. O Natal aqui era de encher os olhos de qualquer criança.

Corremos, eu e Miguel, na casa do marceneiro, o bom amigo Armandinho, buscar pó de serra, depois comprar no mercadinho as tintas Guarani para tingir o pó de serra que virariam grama e flores coloridas, o chão do nosso presépio.

Ano passado na retomada da tradição, resolvi inovar e construí com palitos de sorvete a casinha que abrigaria a santa manjedoura, e o pai do Miguel deu uma ideia muito boa: ‘Porque não passa um verniz na casinha?’ — foi feito.

O Presépio entrou na minha vida por conta de uma família de italianos… meus vizinhos durante os primeiros doze anos da minha vida, e meu eterno amigo Neno que em um certo ano me chamou para ajudar na montagem, tinha sessenta e cinco peças e um moinho que com a ajuda de uma bombinha dessas de aquário rodava a água o tempo todo. Nunca consegui construir o tal moinho, mas peguei gosto por presépios.

Todo dia 6 de janeiro Dia dos Santos Reis se comia a Romã colhida no pé do nosso quintal e se desmontava o presépio, enrolando peça a peça com jornal e guardando sem aperto na caixa para não lascar ou quebrar, o pó de serra era guardado separado já por cor nos vidros de maionese e a espera já começava por um novo dezembro.

O Miguel, tão acostumado com os tais jogos eletrônicos, bichinhos virtuais e televisão, vibrou na montagem manual de algo que passou a compreender fazendo perguntas e comentando as respostas, às vezes, bem complexas porque aprendi que com os meus sobrinhos não adianta dar evasivas é pedir para ser sublimado.

Depois do período de exposição de tão saudoso e sacro objeto profano porque São Francisco ao montar o primeiro presépio da história teve a intenção grata e lúcida de humanizar o Messias que nascia , veio o dia de comer romãs… compradas no mercado e com gosto de isopor, e guardar nossa pequena sinfonia ao Salvador.

Miguel não comeu a romã, deixando esse fardo para o irmão mais novo Joaquim , que nunca compreendera porque só comer nove carocinhos e não a romã toda. Nesse dia começou o então Feliz Ano Velho que se encerra já precoce e tão tardiamente, um ano que passou “Voado” como dizia meu Pai. Um ano em que me redescobri capaz de ser resiliente. Não que me agrade nenhum um pouco, mas me faz sentir alguém que consegue nadar contra a maré de gente que apenas segue a correnteza. Me entregar nunca foi meu forte, não conheço rendição, mas assim como chega o dia de guardar o presépio, me guardo… num recuo de maré constante para avançar depois com força, para me remontar mais belo e maior a cada ciclo.

Esse ano, belo nos números, aconteceu, mesmo que guardado na caixa… nele fiz novos atos, novos versos, velhas rimas, reencontrei amigos, perderam-se pessoas, se solidificaram sentimentos e nasceram novos laços suplantando os antigos de forma mais apertada. Foi uma reconstrução.

Dois mil e dezessete, esse espaço de vida entre o brinde espumante da sua hora zero até a última respiração do seu trinta e um de dezembro será revelação… um solo de sax soprano sobre um oceano de notas, rudes, tristes e ao mesmo tempo maravilhosas.

Nesse espaço de universo que, soberbos, denominamos ano… me compreendi capaz de trabalhar solenemente minhas limitações e a lidar com o que todos lidam, hora ou outra, de forma mais razoável, distancia, saudade, anseios, ansiedade e dor, tudo me bateu mais real e sólido.

Trezentos e quarenta e tantos dias até aqui de sutilezas que fizeram diferença no meu pulsar como integrante desse inexorável infinito de pulsações, tão perto e tão distantes. Os conselhos noturnos da Caríssima T., o afeto marginal do menino Joaquim, a inteligência esvoaçante do garoto Miguel, um Tom Sawyer pós-moderno, o nascimento dos gatinhos dentro de casa, uma escolha inusitada da Mãe Marla assim a chamamos aqui. Dia após dia vão mostrando que há vida além das nossas vastas obsessões.

E entre um Jean Michel e outro aqui vou recordando as fronteiras das estações, já quase verão, do meu mergulho profundo ao mundo da fotografia amadora, que seja bem-dito que deu paz, se é que esse isolamento acústico é possível num mundo extremamente barulhento e desnecessariamente sujo.

Das gentilezas todas é bom louvar as de pessoas anônimas que conseguiram num ambiente caótico cuidar e trazer conforto e alívio corporal a minha querida T., numa tarefa odisseica de fazer o bem sem saber a quem, inesquecível isso… inesquecível dois mil e dezessete.

Inesquecível o prazer que me concedeu Maria ao me presentear, gentil e sutilmente com as experiências literárias mais belas e criativas concebidas nessa Terra Brasilis, digo que cada caixa que eu abri foi como desenrolar cada peça do velho presépio e meus olhos brilharam como os do Miguel ao tocar cada experiência viva trazida ali. Muito obrigado dois mil e dezessete.

Fiz quarenta e sete nesse ano e ainda nenhuma tatuagem, me arrependo disso, do que fiz nunca me arrependerei. Vou deixando esse ano fluir seus últimos passos porque também compreendi que a vida é um rio e quem represa pode acabar inundado de passado revolvendo as mesmas águas…

Um feliz Ano Velho a todos!!!

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