Por Mariana Gouveia


 

Sophia,

 

Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.
Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.
E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri — ou ganhei — nunca sei ao certo.
Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola. Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce.
Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica. A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras — parecia que havia cometido um pecado — era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.
Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.
Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.
Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, em apresentações para a família em dia de festa ou a sós, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…
Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais soube dela.
É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta-se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus. Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”
…eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

 

Beijos

 

Anúncios

2 comentários em “CARTAS PARA ABRIL | Aceitas um café?

  1. Deus do céu!
    Como é gostoso ler você. Tu tens uma oralidade na escrita tão gostosa que me cativa a cada oportunidade que tenho para devorar e viver a sua escrita.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s