PALAVRA DO EDITOR | S A D N E S S

Por Lunna Guedes

 

Maria Florêncio
Maria Florêncio, autora de S A D N E S S

 

 

Um dos meus jogos favoritos na infância era o dominó. Gostava imenso de espalhar-empilhar as peças — com suas alusões de números — por cima da mesa. O amarelo tom sempre me remeteu às folhas de papel e às sutis gotas de nanquim à manchá-las com singulares-símbolos: vogais aos pares, consoantes em ímpares. Eram tantas as combinações possíveis-impossíveis no jogo… que eu me esvaziava de mim naquele gesto solitário de peça e números — vogais e consoantes.

E foi repetindo o ritual da infância, que espalhei os poemas de sadness — coletados peça a peça, como se a autora soubesse desse meu singular prazer em observar linhas-figuras… humanas: combinando-as em mim.

A leitura acontecia sempre na última hora — como se trocássemos correspondência à moda antiga. Uma missiva que chega sem que por ela se espere… depois que o mundo faz silêncio e os enforcados se convencem da morte no breu. Tive a irrestrita companhia das xícaras de café, Turandot e um punhado de sensações-devaneios-memórias, além, é claro, da ilustre figura da poeta e seus versos alquebrados: “Maldizentes atmosféricos… de ontem | De vazios… mentiras-verdades | Um limbo convidativo… | o paraíso! …um eterno escrever-se na alma”

Traguei as combinações oferecidas em cada linha-peça, analisei cada quebra até aprendê-las pelo avesso — “Ateado às chamas. | — um Final… | A página crua! | Aquém de datas futuras. | A trama. | — o Fim. | O fogo a propagar — árduo — | pelo ‘céu da boca’.”.

As peças do dominó se ligam uma à outra e se desdobram em formulações novas, que são — enquanto poesias — fotografias antigas-e-novas. Um olhar polaroid. Um sentimento herdado dos tempos de ontem, onde tudo se organiza e materializa. Quando tudo era menos e a pressa inexistente. Quando tudo simplesmente era… as coisas inteiras-intensas e definitivas… sem amanhã para florear! Sem congestionamentos de olhos-bocas-mãos-braços-pernas. Tudo é barulho até que o silêncio se imponha…

Nesse livro-jogo-de-maria-florêncio percebemos que é preciso arqueologia para se fazer poesia e oferecê-la… ao outro, que não é convidado ao gesto mecânico de folhear páginas em busca de versos pela autora. A idéia nesse conjunto de folhas amarradas por linhas vermelhas é outra! Provocar com o que não se diz e conduzir às frestas de si… conscientemente de que é impossível evitar o pulo…



S A D N E S S
MARIA FLORÊNCIO

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2 comentários em “PALAVRA DO EDITOR | S A D N E S S

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