Rua 2 | Obdulio Nuñes Ortega

R$ 40

 

 


Pelos contos da Rua 2 passeiam personagens que se conhecem-desconhecem em sentidos contrários e direções marcadas. Vida e morte se confrontam nessa via de mão dupla. Pertencem ao mesmo caminho. Têm a mesma intensidade e propósito — provarem-se a si como senhores do Mundo/Periferia — ilusão real de todos nós, ao rés do asfalto.

 

 

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Corredores, codinome: loucura

$ 40

 


Corredores, codinome: loucura“, primeiro romance de Mariana Gouveia traz a tona a história de Maria, que é levada para um hospício onde vive incontáveis anos, sob os cuidados de Matilda, a guardiã legal dos excluídos.

 

Palavra do editor | Corredores, codinome: loucura

Por Lunna Guedes


 

“Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. Há, como em todas as manifestações da natureza, indivíduos, casos individuais, mas não há ou não se percebe entre eles uma relação de parentesco muito forte. N]ao há espécies, não há raças de loucos; há loucura só.”

— escreveu Lima Barreto,
in; ‘diário do hospício’.


 

Começo dizendo que pode e deve fechar as janelas, mas não as do lugar onde vive e, sim, as de tua casa-corpo. Feche os estores, respire fundo e coloque a água no fogo. Escolha entre chá ou café, xícara e lugar. Antes, feche os olhos por alguns minutos e se esvazie de quase tudo, porque o mundo irá permanecer em ti, ou pelo menos, naquilo que de ti restar ao fechar a porta de tua morada, dessa casa que és… deixando o ruído do dia do lado de fora.

É nessa hora que eu me lembro de ontem, aquele dia em especial… ontem, na hora do almoço eu ouvi as mulheres falarem de uma parenta que havia enlouquecido. Foi de repente. Ela abandonou o curso natural da vida. Parou de falar com as pessoas e passou a dialogar com as paredes. O olhar dela transmutou. Havia medo e desconfiança. Tudo parecia lhe incomodar. Todas, exceto a nonna, terminavam as frases com alguma palavra de pesar.

A parenta foi levada após alguns meses para um Hospital Psiquiátrico, de onde não mais saiu. Estava louca, impossibilitada de conviver com as pessoas sãs.

Eu abandonei a cozinha e a conversa pelo meio… fui em busca de refúgio em um dos dos meus esconderijos — quase — secretos. Estava com o cuore na garganta, a pulsar forte. As mãos frias e um desconforto no fundo de mim. Não era fome nem sede o que eu sentia. Era a certeza de um destino inevitável. Eu teria o mesmo fim que a pobre mulher. Passaria dias trancada em uma sela, enfiada naquelas roupas brancas, descalça, com grades a me proteger do mundo, para que as pessoas se sentissem seguras… à salvo.

Tentei domar os sintomas. Mas confesso que não levou muito tempo para perceber que a sanidade era uma coisa muito monótona e irritadiça. Não sabia o que tinha levado a parenta a enlouquecer, mas sabia certamente que a sanidade me levaria à loucura, fatalmente.

Algum tempo depois, fomos visitá-la… o lugar não era horrível como eu o imaginava, motivada pelas histórias de Edgar Allan Poe, de quem era leitora fiel-e-infiel. Sempre reclamei com ele — como se fosse um amigo sentado ao meu lado — de certos desfechos.

A parenta estava enfiada em um vestido branco, tinha cabelos brancos, rugas pela face. Era impossível saber sua idade. Nos entregou uma boneca de pano. Tinha regressado à infância. Sempre sorridente, dizia não gostar de adultos e segurou minhas mãos, largando-a em segundos. Arregalou os olhos. Não senti medo. Entendi que ela era uma menina de poucos anos, presa em um corpo muito velho. Entendi que ela tinha sofrido algum trauma tão horrível, que só quem poderia socorrê-la era a menina que hoje habitava seu corpo, arrancando-a de seus temores. Entendi que a infância era seu abrigo-esconderijo… e eu a assustava porque eu era seu contrário, um adulto preso em um corpo pequeno.

Nunca falamos sobre aquela visita, mas uma parte de mim sempre quis saber o que tinha atingido aquela pessoa — como um raio atinge uma árvore, partindo-a ao meio — para entender o porquê de sua necessidade de se refugiar em algum lugar em si mesma… para sobreviver.

Ao ler “Corredores”, regressei a esse ontem e pousei nessa conversa de mulheres, na cozinha da casa da nonna e a todos os dias seguintes àquele encontro.

Me incomodei com a falta de sanidade de alguns personagens e com a loucura atribuída à Maria… uma menina-mulher-fantasma-coisa-objeto, escondida do mundo pela pessoa que deveria protegê-la de tudo-todos. Entregue às mãos de uma criatura sem alma-rasa, que punia por ser incapaz de punir a si.

Recordei o livro de Lima Barreto e suas narrativas sobre o lugar para onde havia sido levado por ser considerado impróprio… um alcoólatra indócil. Lugar em que conheceu outros tantos “loucos”… misturando-se a eles.

A loucura, como doença, não é contagiosa, mas quando se apoia em argumento… é o que é? Será que não optamos por enlouquecer, assim como a mente opta por nos esconder do mundo que nos agride-machuca-mutila? Será que não optamos pela loucura para preservar a nossa sanidade?

Eu não tenho respostas a oferecer, mas as linhas do livro, tecido por Mariana Gouveia em momentos plenos de uma loucura tenebrosa-e-maravilhosa… te servirão de afago-guia… ou não.

 


 

CORREDORES, CODINOME: LOUCURA
MARIANA GOUVEIA

Palavra do Editor | Rua 2

Por Lunna Guedes


 

…quando eu nasci, a minha família vivia em uma casa antiga, de pedras… que tinha pertencido à outra família, sem uma história conhecida por mim. Não sei quem eram, tampouco o que faziam. Partiram sem deixar marcas-rastros. Apenas uma placa deixaram:”vende-se essa propriedade”.

Cresci ali, na segunda rua de uma simpática Vila… que tinha uma bela vista. Nossa casa era a de número 141, quase esquina… quase fora da rua. Eu sabia cada morador-vizinho das outras casas… os dois irmãos na casa da frente, a signora falante que ia sempre à frente do marido, a tecer seu rosário de reclamações, o sargento e seus dois cães pastores, a professora e sua filha com o rosto queimado. E a melhor de todas: a casa da portuguesa, com seus cães-gatos-pássaros… e as lendas cantadas pelos moradores-vizinhos — que a anunciavam como sendo uma stregga.

Para mim… a melhor das amigas. A dama que me ensinou um idioma-novo, ao qual escrevo essas linhas.

Havia muitas outras casas com moradores peculiares, que povoaram a minha infância. Se você teve o prazer de viver em um bairro antigo-novo… feito de casas, certamente irá pousar em uma Rua 2 — ainda que tenha outro nome, como a rua onde nasci-cresci —, e se deliciar com lembranças saborosas de seus moradores.

E nesse jogo de casas pares e ímpares — proposto pelo autor — sobra vento, falta ar… e recordo-me dos precipícios de cesariny. Penso em ser nuvem, perder a forma e dissolver-me por cima dos telhados. Ser raiz nesse bairro e misturar-me a cada um desses personagens.

Chegar com um punhado de caixas, passar pela porta e dar pelos cômodos de uma casa-vazia. Ter dificuldade com o endereço, o número nos primeiros dias. E consciência de que sou estranha nesse cenário de casas altas e baixas, de formas conhecidas… como se tivessem sido pré-moldadas no lugar de onde vim.

Dou voltas e voltas na rua de cima, de baixo… e volto a esse traço — nada — reto… esbarro em personagens-personas, a bordo de suas vivências que posso espiar-aprender ao virar das páginas e concluir que é impossível sabê-las reais… ou inventadas.

São peças de um quebra cabeças… e todas se encaixam porque estão todas enlaçadas pelo autor, seu morador com vivências que se entrelaçam em encaixes impossíveis.

 


 

R U A    2
OBDULIO NUÑES ORTEGA

Andri Carvão

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Nascido em 1978, auge do movimento punk, o autor é pesquisador e colecionador inveterado de livros, LPs, CDs, HQs. Oscila entre períodos de produção intensa e bloqueio literário. Talvez por isso preencha esses momentos de bloqueios criativos, aumentando, devorando e babando em suas coleções. Estudou artes plásticas, mas trocou o pincel pela pena ao tomar contato com a poesia. Já foi skatista, pichador, grafiteiro. Mas, hoje, casado, pai de duas filhas, divide seu tempo entre a família em passeios aos finais de semana e o trabalho burocrático repetitivo. Não toma refrigerante há pelo menos cinco anos e corre 5 km dia sim dia não. Viciado em cafezinho, só bebe até cair, socialmente.

 


Autor do  livro “puizya pop & outros bagaços no abismo
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Anselmo Vasconcellos

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Aprendi a ser engenho de mim mesmo. Crio labirintos com o corpo, com a intuição, com a racionalidade e assim me transporto para outros, provoco, compartilho invenções, perdido dentro dele. Quem me acolhe ou me nega de alguma forma é a saída.

 


Anselmo Vasconcellos é autor de Mia e Zine Comédia
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O mapa de vênus | poesias

R$ 50

 

 


 

O mapa de vênus é um coletivo poético, organizado por Lunna Guedes que escolheu sete damas da poesias, que ronda sua vivência para traduzir. Nessa seleção, lê-se a poesia de Alejandra Pizarnik | Anne Sexton | Emily Dickinson | Laura Riding | Maria Gabriela Llansol e  Wislawa Szymborska… intercaladas por missivas que apresentam ao leitor o momento em que cada poeta atravessou o caminho da autora-editora-mulher-organizadora desse projeto.

 

Palavra do Editor | O mapa de vênus

Por Lunna Guedes


Numa primeira fase, esse original destinava-se à revista Plural e dele se deveriam fazer separatas. Mas, por vicissitudes várias, não foi nunca publicado e acabou esquecido no fundo de alguma caixa-gaveta.

No final do ano passado, no entanto, reencontrei a pilha de livros selecionadas para leitura e os esboços das missivas escritas nas manhãs de domingo a uma correspondente habitual desde 2014. E, ocorreu-me rever a proposta original, dando novo ritmo ao material. Me rendi à publicação, como algo novo-inédito para a Scenarium, que ainda não tinha publicado algo nesse sentido, embora tenha flertado em vários momentos com propostas outras… todas descartas sequencialmente.

Em missiva escrita no começo desse mês — conclui com visível satisfação a possibilidade de ‘fazer um livro bonito’ com minhas poetas-mulheres… pelas quais tenho imenso apreço. Fui alfabetizada com poesias. Os versos de Dickinson me fizeram compreender sentimentalidades dissonantes em minha pele. Ela foi a primeira a se aninhar em minhas entranhas. Depois vieram outras tantas… e para a minha alegria, em tempos distintos, permitindo um respiro ao meu íntimo, que considero necessário.

Concluído esse original, só posso dizer que espero que o eco que as linhas dessas senhoras-damas-da-poesia deixa em minha pele, varra sua amalgama do leitor

 


 

 

Caetano Lagrasta

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“J. D. Salinger escreveu uma obra prima, O apanhador no campo de centeio, recomendando que os leitores que tivesse gostado do livro ligassem para o autor; depois passou os vinte anos seguintes sem atender o telefone”
John Updike

CAETANO LAGRASTA NETO de italianos, paulistano do Brás; ocupa a Cadeira Graciliano Ramos – Acadêmico da Faculdade de Direito da USP; Menção Honrosa do Prêmio Governador do Estado, 1967, com o livro de contos Abecedário (Ed. Scenarium, em 2016).

Corroteirista, ator e autor de comentário musical, em longas e curtas metragens; fotógrafo; O Fazedor, 2001; Livro de Horas, 2004 e Ópera Bufa, 2007, poemas, em edição do autor; 1968 e outras estórias, Le Calmon em 2013, contos.

Arriscou-se, sempre, a ideias jurídicas, também sobre a Família (a dele e a dos outros).
Durante estes anos, atendeu telefone.


Caetano Lagrasta é autor de ‘abecedário’
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Cintia Araújo

Cintia Araujo

Nasci no outono. Manhã de sol enluarado. Ditadura imposta garganta abaixo. Por isso sou uma coisa escancarada. De derramamentos. Onde tudo brota! Mas paradoxalmente eu sou uma coisa hermética. De emburramentos. Onde tudo se guarda. Eu sou o outono. Com seus guardados. Suas exposições. Folhas penduradas nas árvores. Desfolhadas nas calçadas…

 


Cintia Araujo é autora do livro ‘impressões’
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Chris Herrmann

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Nascida no Rio de Janeiro às nove horas da noite de uma sexta-feira sob o signo de câncer, Chris Herrmann cresceu numa família numerosa. Quando aprendeu a escrever, antes mesmo de ir para a escola, desenhou suas primeiras palavras nas paredes de casa para desespero de seus pais. No Brasil estudou Letras, Música e trabalhou como secretária. Após mudanças de planos e águas foi recomeçar do outro lado do oceano. Na Alemanha, constituiu família, trabalhou como tradutora, webdesigner e fez a pós-graduação ‘Musikgeragogik’. Trabalhou mais de dez anos como musicoterapeuta. Porém, o amor pela literatura sempre foi seu porto seguro, como podem testemunhar seus livros de poesia “Voos de Borboleta”, “Na Rota do Hai y Kai”, “Gota a Gota” e o romance “Borboleta – a menina que lia poesia”. Além das diversas publicações e antologias das quais participou, editou e organizou. É uma das autoras da Revista Plural e edita em parceria com Adriana Aneli o blog ‘Boca a Penas’. Os ventos a levaram para outros mares, mas a metamorfose do voo a penas não calou o grito do céu da boca… apenas o provocou.


Chris Herrmann é autora do livro ‘gota a gota’
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Emerson Braga

SONY DSC…nasceu em 12 de agosto de 1976, é brasileiro e natural de Fortaleza, no estado do Ceará. Nos primeiros anos de sua vida, teve problemas de aprendizado. Não conseguia ler ou escrever coisa alguma, o que se tornou motivo de muita infelicidade. Empenhou-se tanto na conquista de sua alfabetização que a palavra acabou por ganhar importante significação em sua vida. Adquirido o conhecimento, ainda aos sete anos de idade, escreveu seu primeiro conto: A Praia Ruim.
Cursou Letras na UECE (Universidade Estadual do Ceará) e hoje trabalha no Sindicato dos Corretores de Seguros no Estado do Ceará, SINCOR/CE. Tem vários trabalhos literários publicados, inclusive sua primeira antologia de contos.

 


Emerson Braga é autor de ‘muiraquitã’
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