Palavra do Editor | Rua 2

Por Lunna Guedes


 

…quando eu nasci, a minha família vivia em uma casa antiga, de pedras… que tinha pertencido à outra família, sem uma história conhecida por mim. Não sei quem eram, tampouco o que faziam. Partiram sem deixar marcas-rastros. Apenas uma placa deixaram:”vende-se essa propriedade”.

Cresci ali, na segunda rua de uma simpática Vila… que tinha uma bela vista. Nossa casa era a de número 141, quase esquina… quase fora da rua. Eu sabia cada morador-vizinho das outras casas… os dois irmãos na casa da frente, a signora falante que ia sempre à frente do marido, a tecer seu rosário de reclamações, o sargento e seus dois cães pastores, a professora e sua filha com o rosto queimado. E a melhor de todas: a casa da portuguesa, com seus cães-gatos-pássaros… e as lendas cantadas pelos moradores-vizinhos — que a anunciavam como sendo uma stregga.

Para mim… a melhor das amigas. A dama que me ensinou um idioma-novo, ao qual escrevo essas linhas.

Havia muitas outras casas com moradores peculiares, que povoaram a minha infância. Se você teve o prazer de viver em um bairro antigo-novo… feito de casas, certamente irá pousar em uma Rua 2 — ainda que tenha outro nome, como a rua onde nasci-cresci —, e se deliciar com lembranças saborosas de seus moradores.

E nesse jogo de casas pares e ímpares — proposto pelo autor — sobra vento, falta ar… e recordo-me dos precipícios de cesariny. Penso em ser nuvem, perder a forma e dissolver-me por cima dos telhados. Ser raiz nesse bairro e misturar-me a cada um desses personagens.

Chegar com um punhado de caixas, passar pela porta e dar pelos cômodos de uma casa-vazia. Ter dificuldade com o endereço, o número nos primeiros dias. E consciência de que sou estranha nesse cenário de casas altas e baixas, de formas conhecidas… como se tivessem sido pré-moldadas no lugar de onde vim.

Dou voltas e voltas na rua de cima, de baixo… e volto a esse traço — nada — reto… esbarro em personagens-personas, a bordo de suas vivências que posso espiar-aprender ao virar das páginas e concluir que é impossível sabê-las reais… ou inventadas.

São peças de um quebra cabeças… e todas se encaixam porque estão todas enlaçadas pelo autor, seu morador com vivências que se entrelaçam em encaixes impossíveis.

 


 

R U A    2
OBDULIO NUÑES ORTEGA

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