Palavra do editor | Corredores, codinome: loucura

Por Lunna Guedes


 

“Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. Há, como em todas as manifestações da natureza, indivíduos, casos individuais, mas não há ou não se percebe entre eles uma relação de parentesco muito forte. N]ao há espécies, não há raças de loucos; há loucura só.”

— escreveu Lima Barreto,
in; ‘diário do hospício’.


 

Começo dizendo que pode e deve fechar as janelas, mas não as do lugar onde vive e, sim, as de tua casa-corpo. Feche os estores, respire fundo e coloque a água no fogo. Escolha entre chá ou café, xícara e lugar. Antes, feche os olhos por alguns minutos e se esvazie de quase tudo, porque o mundo irá permanecer em ti, ou pelo menos, naquilo que de ti restar ao fechar a porta de tua morada, dessa casa que és… deixando o ruído do dia do lado de fora.

É nessa hora que eu me lembro de ontem, aquele dia em especial… ontem, na hora do almoço eu ouvi as mulheres falarem de uma parenta que havia enlouquecido. Foi de repente. Ela abandonou o curso natural da vida. Parou de falar com as pessoas e passou a dialogar com as paredes. O olhar dela transmutou. Havia medo e desconfiança. Tudo parecia lhe incomodar. Todas, exceto a nonna, terminavam as frases com alguma palavra de pesar.

A parenta foi levada após alguns meses para um Hospital Psiquiátrico, de onde não mais saiu. Estava louca, impossibilitada de conviver com as pessoas sãs.

Eu abandonei a cozinha e a conversa pelo meio… fui em busca de refúgio em um dos dos meus esconderijos — quase — secretos. Estava com o cuore na garganta, a pulsar forte. As mãos frias e um desconforto no fundo de mim. Não era fome nem sede o que eu sentia. Era a certeza de um destino inevitável. Eu teria o mesmo fim que a pobre mulher. Passaria dias trancada em uma sela, enfiada naquelas roupas brancas, descalça, com grades a me proteger do mundo, para que as pessoas se sentissem seguras… à salvo.

Tentei domar os sintomas. Mas confesso que não levou muito tempo para perceber que a sanidade era uma coisa muito monótona e irritadiça. Não sabia o que tinha levado a parenta a enlouquecer, mas sabia certamente que a sanidade me levaria à loucura, fatalmente.

Algum tempo depois, fomos visitá-la… o lugar não era horrível como eu o imaginava, motivada pelas histórias de Edgar Allan Poe, de quem era leitora fiel-e-infiel. Sempre reclamei com ele — como se fosse um amigo sentado ao meu lado — de certos desfechos.

A parenta estava enfiada em um vestido branco, tinha cabelos brancos, rugas pela face. Era impossível saber sua idade. Nos entregou uma boneca de pano. Tinha regressado à infância. Sempre sorridente, dizia não gostar de adultos e segurou minhas mãos, largando-a em segundos. Arregalou os olhos. Não senti medo. Entendi que ela era uma menina de poucos anos, presa em um corpo muito velho. Entendi que ela tinha sofrido algum trauma tão horrível, que só quem poderia socorrê-la era a menina que hoje habitava seu corpo, arrancando-a de seus temores. Entendi que a infância era seu abrigo-esconderijo… e eu a assustava porque eu era seu contrário, um adulto preso em um corpo pequeno.

Nunca falamos sobre aquela visita, mas uma parte de mim sempre quis saber o que tinha atingido aquela pessoa — como um raio atinge uma árvore, partindo-a ao meio — para entender o porquê de sua necessidade de se refugiar em algum lugar em si mesma… para sobreviver.

Ao ler “Corredores”, regressei a esse ontem e pousei nessa conversa de mulheres, na cozinha da casa da nonna e a todos os dias seguintes àquele encontro.

Me incomodei com a falta de sanidade de alguns personagens e com a loucura atribuída à Maria… uma menina-mulher-fantasma-coisa-objeto, escondida do mundo pela pessoa que deveria protegê-la de tudo-todos. Entregue às mãos de uma criatura sem alma-rasa, que punia por ser incapaz de punir a si.

Recordei o livro de Lima Barreto e suas narrativas sobre o lugar para onde havia sido levado por ser considerado impróprio… um alcoólatra indócil. Lugar em que conheceu outros tantos “loucos”… misturando-se a eles.

A loucura, como doença, não é contagiosa, mas quando se apoia em argumento… é o que é? Será que não optamos por enlouquecer, assim como a mente opta por nos esconder do mundo que nos agride-machuca-mutila? Será que não optamos pela loucura para preservar a nossa sanidade?

Eu não tenho respostas a oferecer, mas as linhas do livro, tecido por Mariana Gouveia em momentos plenos de uma loucura tenebrosa-e-maravilhosa… te servirão de afago-guia… ou não.

 


 

CORREDORES, CODINOME: LOUCURA
MARIANA GOUVEIA

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Um comentário em “Palavra do editor | Corredores, codinome: loucura

  1. Aí, meu Deus!
    Eu sempre digo que sou abençoada. O universo coloca em meu caminho pessoas que são presentes, aqueles tipo relicários.
    Com tua sensibilidade única você abraçou minha ideia e transformou ela em uma história linda.
    Grazie, bambina! Tanto!

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