Dedica-se…

“À memória de ‘Erneste Becker’(…)”

 

Ao preparar um livro para a impressão, depois de realizado todo o processo de edição-revisão, e uma vez aprovado por todos os envolvidos no projeto-livro… é necessário  ao paginar — reservar espaços para o Autor, que geralmente… quer dedicar o seu feito à alguém. Não são todos que o fazem… mas há dedicatórias curiosas, que contrariam a monotonia e fogem do script habitual de obrigação de dizer que o livro foi feito para a mãe-pai-amigo-irmão-esposa-filhos…

Hilda Hilst escreveu, imediatamente na primeira página do seu livro de poesias a frase solta… sem Norte-Sul-peso (acima mencionada). Já tinha lido o livro algumas vezes, quando me deparei com a dedicatória deixada ali… porque não sou o tipo de leitora que se ocupa do destino dado a um livro, pelo seu autor.

Dedicatória é pessoal e, na maioria das vezes, é monótoma e não sabemos a quem pertencem os nomes deixados ali… quem é a alma, que de alguma maneira, participou  ou não  do livro.

Mas, ao dar pela dedicatória… fiquei intrigada. De imediato tentei imaginar o que teria levado Hilda Hilst a dedicar o livro “à memória” de alguém.

Gostei do som da palavra dentro da frase… e da frase como um todo. Eu sei quem é Erneste Becker. Conheço alguns de seus feitos. Mas, e se não o soubesse?  o homem que determinou a “ciência do mal” e que gritou que “a morte é a verdadeira fonte da fragilidade do homem”

Se eu nada soubesse acerca dessa figura humana, além de um simples nome deixado ali… feito uma sombra que surge para seu conforto no meio de uma rua, em uma tarde de sol quente, em pleno verão? Seria diferente?

O fato é que ao paginar um livro, pergunto ao autor: irás inserir dedicatória? E já ouvi respostas bem interessantes, a melhor até agora foi quando o Autor me olhou e depois de alguns segundos quieto, disparou: “eu devo? Mas, a quem?”

 

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Regras de um bom Editor…

randon house

Terminei a leitura do livro de memórias de Bennett Cerf… fundador da Random House e, Editor de James Joyce, Truman Capote… entre outros tantos-muitos nomes da literatura, em língua inglesa.

Cerf (deu sorte) ao viver uma época especialmente rica em talentos. Mas, enfrentou um dos piores momentos da história…  o famoso crash de 1929. Trabalhou feito um louco… acumulou vivências e um bom quinhão de histórias  algumas divertidas, outras nem tanto  para serem contadas nas muitas páginas de um livro de memórias.

O Editor Cerf tinha os seus sagrados mandamentos — como a maioria dos editores, deve ter — e, segundo consta, os matinha anotados, na primeira página de seu diário-pessoal, que ficava posicionado estrategicamente, em sua mesa de trabalho. De tal maneira, seria sempre o primeiro e o último item do dia… onde pousar os olhos.

Sempre que o abria… esbarrava o olhar nas suas regras pessoais de editor.
Check.

1. Ter boa memória e alguma imaginação
2. Ter um vasto leque de interesses
3. Usar de considerável diplomacia
4. Perceber que a paciência é uma qualidade indispensável
5. Ter sorte.

 

R E D E M O I N H O

A Revista Literária Plural completa mais um ano de existência… nesse ano. E vamos firmes-fortes-valentes para a última edição — R E D E M O I N H O  para provar que com muito trabalho-empenho-dedicação, um pesado gole de café e com muita paixão envolvida… se consegue fazer um belo e delicioso trabalho.

Com o propósito de divulgar a literatura contemporânea, nos seus diferentes estilos-linguagens, e partilhar da visão de mundo dos nossos pares… esse último volume espera contar com a vossa participação.

 


contos-ensaios-poemas-crônicas-artigos

 

Para quem queira participar, envie-nos as vossas linhas:
scenariumplural@gmail.com até o dia 20 de outubro

 

perfumes e palavras

Por Lunna Guedes


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Um dos primeiros livros publicados pela Scenarium foi: “perfumes e palavras”, de Ingrid Caldas, que escrevia poesias em seu blogue pessoal, que serviu de ponte para o nosso encontro real.

Eu nunca me considerei uma blogueira e sim uma pessoa que tinha um blogue, usado como gaveta-caixa onde deixar-abandonar meus exercícios de escrita e que me aproximava de outras pessoas pelo prazer de ler-conhecer-saber… uma troca.

Nos sentamos no café entre esquinas e demos início ao processo de colheita. ‘Folheamos‘ as páginas de seu blogue… e selecionamos 50 poemas, para compor o que eu chamei de ‘série exemplos’ — uma das muitas ídéias que tive, ao criar o selo artesanal, em parceria com o Marco, responsável pela qualidade impressa  sempre elogiada  de nossos livros.

Eram os primeiros passos da Scenarium… o que nos permitia experimentar os formatos. Nada estava decidido e tudo mudava de um dia para o outro. O tipo de papel usado na capa-miolo… de fita na costura dos blocos e a maneira como furar os livros.

Foram muitos erros e poucos — quase nenhum  acertos. Irritamos autores-leitores e a nós mesmos. Houve dias mais difíceis… que pôs a prova a nossa paciência, bom humor e comprometeu a nossa paz. Não passou um único dia sem que tivéssemos uma escolha a fazer, uma decisão a tomar. De caminho a percorrer. De norte a seguir. De intuição a acatar. De coração a ascuitar.

Não recuamos diante das dificuldades-erros-e-transtornos, nem mesmo quando o desânimo insistia pelas paredes do corpo-pele-alma. Às vezes, é preciso ir até o fundo. Aprendi com a realidade que quando se vai ao fundo, é preciso olhar para cima e ver quem nos espia… estende a mão, e quem vai embora. É justamente quando sabemos com quem iremos contar no tal do dia seguinte… ou não!

O livro ‘perfume & palavras‘ teve uma primeira edição simples… como foram os nossos primeiros livros. Trinta exemplares… vendidos na noite de lançamento. Cometi erros… que resultou em sorrisos-amarelos-abraços-fortes e na fala carinhosa-gentil da autora: ‘na próxima você acerta‘.

Fizemos nova edição recentemente… com capa gráfica-artesanal e miolo com a qualidade atual, que a Scenarium leva aos autores-e-leitores e que me fez ter certeza de que valeu a pena insistir.

Eu poderia ter desistido e ficado pelo caminho  mas resolvi errar… até acertar. E cá estamos nós, nesse scenarium… composto pelos personagens, que assim como nós, assumiram o risco do erro… merci. 

Adriana Aneli

Lembro-me — e não sou boa em recordar pessoas — de nosso primeiro contato: apressado.  Seu passo pequeno sem deixar rastros. Olhar dissimulado… sem vertente de fazer somas. Nem mesmo voz parecia ter… foi apenas um gesto: cartão deitado em minhas mãos.
Bastou, no entanto, uma xícara de café, para sabê-la Mulher… de palavras e traços… de azul a bordô. Uma sombra no chão a marcar seus contornos, como se calculasse o espaço vago para si mesma.
Sempre breve e exata… um expresso degustado no final da tarde. Um bom presságio para um diálogo que não retorna… se espalha e se conjuga com sorriso esquadrilhado.
Foi café-amor, com narrativas que são tatuagens em busca de pele… e em linha reta foi… diário a narrar as peripécias do verão ao inverno, em poucas horas.
Também é poesia… missiva… é tudo que o papel aceita quando o silêncio se aconchega e e pais, mar… um céu esquecido. Memória. Ausência das horas. Caderno aberto. Xícara de chá quente. Um degustar demorado.

Senhoras e senhores: Adriana Aneli

 

 


 

Autora dos livros
| amor expresso | a construção da primavera | o sol da tarde |

o meu scenarium editorial

Por Lunna Guedes


“Ter sorte é imprescindível — a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência”…

Kurt Wolff — editor


Assisti mais uma vez ao filme Genius  o mestre dos gênios  em que Colin Firth interpreta Max Perkins, editor da Scribner que, além de descobrir e publicar, aturou as intermináveis bebedeiras do signore Hemingway, emprestou grande soma a Fitzgerald e perdeu tempo-saúde-física-e-mental com Thomas Woolff.

O filme é baseado no livro, que narra a história do homem, por trás dos gênios literários… e nos lembra que Editar livros é um processo de troca que exige generosidade de quem escreve e de quem corrige os originais  escolhendo o que salvar-descartar-rasurar-reescrever. Partindo do principio que todo texto é uma pedra bruta… que precisa ser lapidada.

Em uma das cenas mais deliciosas do filme… o personagem, interpretado por Jude Law, entrega o seu segundo livro  cinco mil páginas escritas à mão  uma obra de arte, segundo ele mesmo, nas mãos de Perkins, que determina o prazo: nove meses de trabalho  se o autor conseguir conter suas euforias-rebeldias…

Não existe um único Editor no mundo que não tenha histórias chocantes-curiosas-engraçadas acerca de sua realidade editorial.

Eu não planejei editar livros… os caminhos que eu percorri, me trouxeram para essa curiosa e perigosa estrada. Aprendi o ‘riscado’ com pessoas generosas-pacientes, que me disseram para nunca abandonar o ‘instinto’ e sempre respeitar o meu ‘olhar de leitor’.

Me lembro do primeiro original que ‘recebi’… para editar, sob a orientação e supervisão de A.G  com quem tive o prazer de conviver diariamente durante seis meses. Foi um aprendizado… sem o peso da responsabilidade. Gostava imenso de me sentar em sua companhia  em sua sala repleta de livros por ele editados-e-publicados  para lhe apresentar minhas anotações… um conjunto de folhas riscadas-rabiscadas… com trechos ignorados-reescritos e um sem-fim de anotações particulares.

Quando optei pela Scenarium… também não houve planejamento. Era apenas um projeto pessoal. Um caminho para os meus passos  um andar solitário. Quando dei por mim já estava a ler originais confiados a mim e a fazer anotações. Descartei manuscritos e recomendei cuidados com uma estranha naturalidade.

Ainda me lembro do olhar de espanto de uma Autora que me apresentou os seus originais. Cinquenta poemas que, após leitura atenta, comprovei que precisavam de cuidados. Não estavam prontos… eram escritos de gaveta, sem um segundo olhar do autor-poeta. Qualquer leitor perceberia essa condição.

Cortei-risquei-rasurei-anotei-dúvidas e ganhei minha “primeira inimiga”… que deixou o café entre esquinas indignada com a minha audácia  a esbravejar em voz alta: ‘poesia nasce pronta, não se edita’.

Eu, contudo, só conseguia pensar em Mário de Andrade… seus originais repletos de riscos-rabiscos e nas considerações feitas acerca de seus escritos. Amém.

Envio de originais

Caro autor,

De 17 de setembro à 31 de outubro de 2018… a Scenarium livros artesanais receberá novos originais.

Antes de enviar o vosso original, peço que confira as ‘instruções para envio do seu original‘ descritas abaixo.

 



A Scenarium livros artesanais publica: contos, crônicas, poesias e romances na categoria adulto. Não publicamos títulos que se afastem desta linha editorial.


 

Prepare o seu original, seguindo as seguintes características:

Documento. Word
Fonte: Times New Roman
Tamanho: 12
Espaçamento: 1,5.

Na folha de rosto, coloco as seguintes informações:

Titulo da obra
Nome do Autor
E-mail de contato

Nomeie o seu arquivo com o seguinte padrão:
Nome do autor_Nome da obra_Gênero (poesia, ensaio, conto, crônica, novela ou romance)

Ex: Mar de dentro_Lya Lyft_Crônica

Faça uma breve descrição de vosso livro: 10 linhas, no máximo.
Em caso de romances: acrescente o primeiro capítulo da história.
Contos, poesias e ensaios: favor enviar 03 textos completos.

Na linha de ASSUNTO do e-mail… favor anotar: “Original Scenarium 2019 (Gênero do livro)”.

Ex: “Original Scenarium 2019 Contos.

 

E,  no corpo do e-mail, o autor deverá acrescentar uma breve biografia.

Envie para: scenariumplural@gmail.com.


 

A Scenarium livros artesanais informará através do e-mail informado pelo autor, até o dia 30 de novembro de 2018, se a proposta apresentada foi aceita para publicação em formato artesanal.

Os originais selecionados serão publicados a partir de março de 2019.

 


 

Em caso de dúvidas, entre em contato
scenariumplural@gmail.com.

Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

Obdulio Nuñes Ortega — o homem — nasceu como todos nascem, do ventre de uma mulher, após nove meses. O escritor, no entanto, foi gerado pela Realidade… pelo mundo-vida… e alimentado diariamente com as muitas cenas de momento. Cresceu… entre corpos-esferas — transpassando-os. Naturalmente observador-contestador… se deixou enraizar no corpo do homem, de onde emerge para reconhece a si nos outros ou seria os outros em si?

Obdulio, Rua Dois

Scenarium — O título de seu livro é ‘Rua 2’. Como é a sua relação com a rua?
Obdulio — Quando cheguei à ‘Rua 2’, a região era quase deserta. Durante muito tempo, não havia asfalto. Nem água encanada. Puxávamos água de poço. O esgoto era de fossa séptica. O fornecimento de luz elétrica era intermitente. Tapumes de madeira nos serviam como portas e janelas. O chão era de “vermelhão”, as paredes, de cimento cru. Eu jogava bola na rua com os vizinhos, apenas tomando cuidado com a passagem das charretes e dos pouquíssimos carros. Nessa época, tinha uma relação mais íntima com a rua e era mais conectado às pessoas. Ao longo dos anos, com a melhoria das condições estruturais e padrão de vida, as relações sociais se tornaram menos íntimas. Hoje, a rua serve apenas como caminho para chegar e sair. Contato com os vizinhos, apenas esporádicos e rasos, com alguns poucos mais próximos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Obdulio — Foi errático. No início, até que fluiu com certa facilidade. A ideia central que o permeava era diferente da que acabou por prevalecer. Eu o havia intitulado “Viver E Morrer Em Movimento”. Após haver a percepção que a origem dos personagens era a mesma – a periferia – surgiu a forma que se estabeleceu: personagens que vivem na mesma rua, a 2. Algumas histórias se imbricam, para além da localização em que moram. Por quase um mês, fiquei sem escrever uma linha. Um conto que acabou por não fazer parte do arranjo final, destrancou a porta pela qual continuei a caminhar.

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Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Obdulio — Gosto francamente de alguns personagens. Principalmente daqueles que chegaram sem pedir licença, como a da Casa 4. O da Casa 1, é um moço que conheço particularmente. Pelo “Morador da Rua 2”, tenho muito carinho e o da Casa 18, talvez tenha características parecidas com as minhas – quando criança, desejei ser motorista de ônibus. Estranho, já que nem dirigir automóvel, dirijo…

Scenarium — Antes de Rua 2, você publicou um livro de crônicas ‘REALidade’. Como foi migrar da crônica para o conto?
Obdulio — Sempre pratiquei escrever contos. Mas não tão curtos como os da Rua 2. Aliás, peco pela prolixidade. Estou aprendendo a me conter. Gosto de detalhar, talvez até demais. Tive a orientação de Lunna Guedes e sofri a influência de Adriana Aneli, de Café Expresso.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Obdulio — Se gosto de respirar?…

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Obdulio — Amor e desamor. Quando mais novo, comecei a ficar muito envolvido com a literatura. Lia e escrevia compulsoriamente. Erroneamente, acreditei que a isso me afastava das pessoas. Costumo dizer que vivia mais literariamente do que literalmente. Eu me afastei radicalmente. Exageros de minha personalidade. Acho que agora mantenho uma relação mais equilibrada com ela.

ob e claudia

Scenarium — Quem são os seus pares?
Obdulio — No Romance, Machado de Assis. Na Poesia, Drummond de Andrade. Na Crônica, Lourenço Diaféria e Érico Veríssimo.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Obdulio — Mais uma vez, Lunna Guedes, por intermediação de Edward Hopper. Eu estava, junto a um grupo de amigos, em visita ao estúdio de Maria Cininha, que já ilustrou para a Scenarium Plural – Livros Artesanais. Lá, encontrei um livro com obras do pintor Edward Hopper. Eu me apaixonara por seu trabalho desde que o conhecera pela Internet. Depois de explorá-lo por duas ou três vezes, abri a porta para uma nova visitante, Lunna. Continuei a folhear o livro enquanto era observado por sua insuspeita proprietária, que havia emprestado a obra para Maria Cininha. Após Hopper nos apresentar, desenvolvemos a relação literária, através das redes sociais, onde publicava os meus textos. Lunna me apresentou o projeto artesanal da Scenarium, bastante encantador por sua proposta na busca da expressão literária independente de esquemas mirabolantes e improdutivos e da relação direta do escritor com o leitor. Um fator enriquecedor.

Obdulio e Marcelo Moro

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Obdulio — No meu caso, sim. Busquei, desde a época do Orkut e do início dos blogues, divulgar os meus textos. Depois, no Facebook. Porém, como alguém já disse, sendo “terra de ninguém”, talvez não seja a melhor plataforma de expressão. No entanto, apenas recentemente consegui desenvolver a minha página na WordPress, que tem sido a minha principal atividade, além das publicações da Scenarium.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Obdulio — Com a minha atenção voltada para a produção de Rua 2, fiquei afastado de leituras mais atentas, a não ser nos blogues. Publicado o meu livro de contos, inicialmente colocarei as publicações de meus colegas de selo em dia. São autores aos quais admiro e gosto de acompanhar.

Entrevista | Mariana Gouveia

 

Mariana-menina nasceu no interior de si e brotou para o mundo a partir das linhas tecidas desde a infância. Se fez mulher em linhas retas, remendos de tempo e tecitura de urgências. Se reinventou poeta ao espiar a realidade que ela modela em versos que a pena nem sempre escreve. Se deparou com a loucura em algum momento e decidiu que seria seguro-confortável falar desse temido tema em seu primeiro romance, escrito nesse seu último ciclo de vida porque todo fim é também começo quando o fundo de si é abrigo para o escritor que se conjuga em primeira-segunda-terceira pessoa.

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Scenarium — O título de seu livro é ‘corredores, codinome loucura’. Como é a sua relação com a loucura?
Mariana Gouveia  desde pequena a loucura é uma constante em minha vida. Havia uma tia casada com meu tio, que tinha os rompantes de loucura nas reuniões de família, além da menina da casa ao lado, que gritava o tempo todo — mas com quem eu brincava nas horas de descuido das mães — e que era considerada louca pela cidade inteira.
Aquela menina tinha alguma coisa que me fascinava. Os olhos não diziam o que todo mundo falava. Mas, loucura mais próxima era Lavorí, o homem do saco — escrevi sobre ele na Plural BLUE — Lavorí era a palavra loucura mais lúcida para mim. Vez por outra, aparecia em nossa fazenda e embora despertasse medo nas crianças, trazia o fascínio da loucura nos gestos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita de seu romance?
Mariana Gouveia — primeiro com um pequeno esboço, porque faltava peças para alinhar dentro da história. Fiz uma visita ao local e ali, foi onde concebi o formato entregue a editora.

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Scenarium — Como foi a sua relação com a personagem de seu livro?
Mariana Gouveia — no primeiro momento foi mais de aconchego. Abri os braços e deixei ela se aninhar. Daí, foi mesmo reencontros e emoção.

Scenarium — Corredores foi o seu primeiro romance publicado. Antes você publicou um livro de poesias ‘o lado de dentro’. Como foi migrar da poesia para o romance?
Mariana Gouveia — não sei se a poesia não se deixou escapar. Afinal, para escrever um romance é preciso estar prenha de poesia. Na verdade, sempre quis contar histórias. Corredores foi ganhando vida através dos dias e agora vagueia por aí.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Mariana Gouveia — acho que já nasci escrevendo. Minha mãe contava que eu acabava com os cadernos primeiro do que os outros irmãos — ela costurava os papéis de embrulho na máquina de costura e os transformavam em cadernos — aprendi a ler muito cedo e desde então escrevo. Adoro ver a caneta/lápis a deslizar pelo papel.

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Mariana Gouveia minha relação com a literatura também começou cedo. Minha mãe era apaixonada por fotonovelas e livros. Como morávamos no Interior de Goiás, a maioria dos livros chegavam até nós pelos Correios e quem nos enviavam eram os nossos correspondentes que conseguíamos através do rádio — outra paixão — e como morávamos em fazenda, os livros eram enviados junto com as cartas. Claro que alguns livros eram confiscados pela minha mãe ou a professora da escola da fazenda. Me lembro que quando li meu pé de laranja lima foi encanto a primeira lida.
Com a mudança para a cidade e alguns fatos que aconteceram, o meu lugar preferido era a biblioteca da escola. Ali, eu ficava horas, de amor explícito com alguns autores. Desde então, tenho um casamento com a literatura. Quando me encontrei com a Scenarium, foi como tivesse encontrado a ponte para atravessar para o outro lado da literatura.

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Scenarium — Quem são os seus pares?
Mariana Gouveia — na biblioteca da escola quando me deparei com Manoel de Barros, fui conquistada. Parecia que ele estivera comigo a infância toda e escrevia sobre isso. Me encantei com Manuel Bandeira, Saramago e Mia Couto. Ao mesmo tempo descobria Clarice, Ana Hatley, Cora Coralina e outros.
Atualmente, namoro com o mundo Scenarium. Há muita gente boa e em especial, gosto muito de Aden Leonardo, Lunna Guedes, Adriana Aneli,Nic Cardeal e outros.

Scenarium — Nos conte como foi descoberta na literatura?
Mariana Gouveia — foi através de Lunna Guedes, editora da Scenarium. Eu a encontrei em um blog e me vi envolvida na escrita dela. Recebi um convite para participar de uma publicação do Caderno de Notas e fui acolhida pela família Scenarium. Em 2015 fui convidada a escrever um livro de poesias, da Série Exemplos e estou aqui.

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Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Mariana Gouveia — acredito que sim. As redes sociais tem um alcance maior hoje. Eu, por exemplo, uso apenas as redes sociais onde divulgo os livros, o blog e meus textos e com isso consigo atingir até mesmo leitores de outros países.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Mariana Gouveia — além dos livros da Scenarium, com seus vários autores maravilhosos estou lendo Asas da Loucura — a extraordinária vida de Santos Dumont; Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves e O colecionador de conchas.

Palavra do Editor | S.e.t.e L.u.a.s

Por Lunna Guedes


 

Eu nunca sei como as coisas acontecem em mim… sei que ganham forma no decorrer do dias-horas — aos poucos… em pequenos punhados de tudo, em poucos goles de nada. Fico a espiar a parede e suas ranhuras, a pilha de livros por ler e a xícara vazia no canto da mesa. Em meio a tudo isso, há o branco da tela do Word a chamar por mim com seu cursor a piscar: escreva-me! — convite que eu nem sempre estou disposta a aceitar porque sou uma ávida colecionadora de desaforos.

De repente — como um estalo-trovão — acontecem palavras dentro da pele-mente… e eu escrevo no ar. Um sorriso ardiloso-ligeiro escorre pelos lábios e o olhar se perde em distâncias incalculáveis.

Dentro de mim tudo faz sentido.
Antevejo tudo e nada… em somas impossíveis.

Com Sete luas foi exatamente assim. Estava quieta… a observar as minhas paisagens favoritas quando vi a lua emergir imensa-cheia-poderosa no negro céu. Pensei — quase que imediatamente —, no poema de Cecília Meireles: “tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de ir para a rua”.

Eu enxergo as fases lunares como ciclos improváveis… que se dependem. A Lua é nova por um curto período de tempo… e cresce até alcançar a fase cheia. Ao atingir o seu apogeu — esvazia-se gradativamente até minguar… nada mais restar e ser apenas Lua — sem brilho-opaca-vazia. A mais intrigante-instigante-e-ignorada fase: negra-escura…

Há quem estabeleça paralelos entre: nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-e-morrer.
São processos unos, que cada um preenche com silogismos particulares. Algarismos, que nem sempre podem ser medidos — somados tampouco.

Eu considero que nós mulheres, somos a própria Lua… com ciclos e fases que começam e terminam e recomeçam — imprecisos e não-absolutos.

Sete Luas foi pensado a partir dessa premissa… sete mulheres-poetas a conceber-Ser enquanto fases-ciclos… de vida-morte-arte. Cada qual a partir de suas vivências múltiplas, orientadas por um Norte que é o olhar no espelho… essa fina lâmina lunar onde reconhecemos rastros-restos-retalhos do que somos — ou não!

 


 

Aden Leonardo |  Adriana Aneli |  Adriana Elisa Bozzetto |
Ingrid Morandian |  Mariana Gouveia |  Nic Cardeal  | Rebecca Navarro

Tiragem única de 15 exemplares
Pedidos: scenariumplural@gmail.com


 

Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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