Entrevista | Mariana Gouveia

 

Mariana-menina nasceu no interior de si e brotou para o mundo a partir das linhas tecidas desde a infância. Se fez mulher em linhas retas, remendos de tempo e tecitura de urgências. Se reinventou poeta ao espiar a realidade que ela modela em versos que a pena nem sempre escreve. Se deparou com a loucura em algum momento e decidiu que seria seguro-confortável falar desse temido tema em seu primeiro romance, escrito nesse seu último ciclo de vida porque todo fim é também começo quando o fundo de si é abrigo para o escritor que se conjuga em primeira-segunda-terceira pessoa.

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Scenarium — O título de seu livro é ‘corredores, codinome loucura’. Como é a sua relação com a loucura?
Mariana Gouveia  desde pequena a loucura é uma constante em minha vida. Havia uma tia casada com meu tio, que tinha os rompantes de loucura nas reuniões de família, além da menina da casa ao lado, que gritava o tempo todo — mas com quem eu brincava nas horas de descuido das mães — e que era considerada louca pela cidade inteira.
Aquela menina tinha alguma coisa que me fascinava. Os olhos não diziam o que todo mundo falava. Mas, loucura mais próxima era Lavorí, o homem do saco — escrevi sobre ele na Plural BLUE — Lavorí era a palavra loucura mais lúcida para mim. Vez por outra, aparecia em nossa fazenda e embora despertasse medo nas crianças, trazia o fascínio da loucura nos gestos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita de seu romance?
Mariana Gouveia — primeiro com um pequeno esboço, porque faltava peças para alinhar dentro da história. Fiz uma visita ao local e ali, foi onde concebi o formato entregue a editora.

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Scenarium — Como foi a sua relação com a personagem de seu livro?
Mariana Gouveia — no primeiro momento foi mais de aconchego. Abri os braços e deixei ela se aninhar. Daí, foi mesmo reencontros e emoção.

Scenarium — Corredores foi o seu primeiro romance publicado. Antes você publicou um livro de poesias ‘o lado de dentro’. Como foi migrar da poesia para o romance?
Mariana Gouveia — não sei se a poesia não se deixou escapar. Afinal, para escrever um romance é preciso estar prenha de poesia. Na verdade, sempre quis contar histórias. Corredores foi ganhando vida através dos dias e agora vagueia por aí.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Mariana Gouveia — acho que já nasci escrevendo. Minha mãe contava que eu acabava com os cadernos primeiro do que os outros irmãos — ela costurava os papéis de embrulho na máquina de costura e os transformavam em cadernos — aprendi a ler muito cedo e desde então escrevo. Adoro ver a caneta/lápis a deslizar pelo papel.

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Mariana Gouveia minha relação com a literatura também começou cedo. Minha mãe era apaixonada por fotonovelas e livros. Como morávamos no Interior de Goiás, a maioria dos livros chegavam até nós pelos Correios e quem nos enviavam eram os nossos correspondentes que conseguíamos através do rádio — outra paixão — e como morávamos em fazenda, os livros eram enviados junto com as cartas. Claro que alguns livros eram confiscados pela minha mãe ou a professora da escola da fazenda. Me lembro que quando li meu pé de laranja lima foi encanto a primeira lida.
Com a mudança para a cidade e alguns fatos que aconteceram, o meu lugar preferido era a biblioteca da escola. Ali, eu ficava horas, de amor explícito com alguns autores. Desde então, tenho um casamento com a literatura. Quando me encontrei com a Scenarium, foi como tivesse encontrado a ponte para atravessar para o outro lado da literatura.

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Scenarium — Quem são os seus pares?
Mariana Gouveia — na biblioteca da escola quando me deparei com Manoel de Barros, fui conquistada. Parecia que ele estivera comigo a infância toda e escrevia sobre isso. Me encantei com Manuel Bandeira, Saramago e Mia Couto. Ao mesmo tempo descobria Clarice, Ana Hatley, Cora Coralina e outros.
Atualmente, namoro com o mundo Scenarium. Há muita gente boa e em especial, gosto muito de Aden Leonardo, Lunna Guedes, Adriana Aneli,Nic Cardeal e outros.

Scenarium — Nos conte como foi descoberta na literatura?
Mariana Gouveia — foi através de Lunna Guedes, editora da Scenarium. Eu a encontrei em um blog e me vi envolvida na escrita dela. Recebi um convite para participar de uma publicação do Caderno de Notas e fui acolhida pela família Scenarium. Em 2015 fui convidada a escrever um livro de poesias, da Série Exemplos e estou aqui.

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Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Mariana Gouveia — acredito que sim. As redes sociais tem um alcance maior hoje. Eu, por exemplo, uso apenas as redes sociais onde divulgo os livros, o blog e meus textos e com isso consigo atingir até mesmo leitores de outros países.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Mariana Gouveia — além dos livros da Scenarium, com seus vários autores maravilhosos estou lendo Asas da Loucura — a extraordinária vida de Santos Dumont; Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves e O colecionador de conchas.

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5 comentários em “Entrevista | Mariana Gouveia

  1. Mariana é uma escritora apaixonante, intensa. Os seus textos inspiram sentimentos, memórias, vida. Uma provocaçao para a reflexão da nossa existência. Que venham muitas obras outras.

  2. Mariana querida, já mandei buscar teus corredores, preciso caminhar por eles pra sentir tua ‘pele’, tocar tuas asas e sentir a ventania da tua palavra!
    Gosto demais da tua escrita!

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