Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

Obdulio Nuñes Ortega — o homem — nasceu como todos nascem, do ventre de uma mulher, após nove meses. O escritor, no entanto, foi gerado pela Realidade… pelo mundo-vida… e alimentado diariamente com as muitas cenas de momento. Cresceu… entre corpos-esferas — transpassando-os. Naturalmente observador-contestador… se deixou enraizar no corpo do homem, de onde emerge para reconhece a si nos outros ou seria os outros em si?

Obdulio, Rua Dois

Scenarium — O título de seu livro é ‘Rua 2’. Como é a sua relação com a rua?
Obdulio — Quando cheguei à ‘Rua 2’, a região era quase deserta. Durante muito tempo, não havia asfalto. Nem água encanada. Puxávamos água de poço. O esgoto era de fossa séptica. O fornecimento de luz elétrica era intermitente. Tapumes de madeira nos serviam como portas e janelas. O chão era de “vermelhão”, as paredes, de cimento cru. Eu jogava bola na rua com os vizinhos, apenas tomando cuidado com a passagem das charretes e dos pouquíssimos carros. Nessa época, tinha uma relação mais íntima com a rua e era mais conectado às pessoas. Ao longo dos anos, com a melhoria das condições estruturais e padrão de vida, as relações sociais se tornaram menos íntimas. Hoje, a rua serve apenas como caminho para chegar e sair. Contato com os vizinhos, apenas esporádicos e rasos, com alguns poucos mais próximos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Obdulio — Foi errático. No início, até que fluiu com certa facilidade. A ideia central que o permeava era diferente da que acabou por prevalecer. Eu o havia intitulado “Viver E Morrer Em Movimento”. Após haver a percepção que a origem dos personagens era a mesma – a periferia – surgiu a forma que se estabeleceu: personagens que vivem na mesma rua, a 2. Algumas histórias se imbricam, para além da localização em que moram. Por quase um mês, fiquei sem escrever uma linha. Um conto que acabou por não fazer parte do arranjo final, destrancou a porta pela qual continuei a caminhar.

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Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Obdulio — Gosto francamente de alguns personagens. Principalmente daqueles que chegaram sem pedir licença, como a da Casa 4. O da Casa 1, é um moço que conheço particularmente. Pelo “Morador da Rua 2”, tenho muito carinho e o da Casa 18, talvez tenha características parecidas com as minhas – quando criança, desejei ser motorista de ônibus. Estranho, já que nem dirigir automóvel, dirijo…

Scenarium — Antes de Rua 2, você publicou um livro de crônicas ‘REALidade’. Como foi migrar da crônica para o conto?
Obdulio — Sempre pratiquei escrever contos. Mas não tão curtos como os da Rua 2. Aliás, peco pela prolixidade. Estou aprendendo a me conter. Gosto de detalhar, talvez até demais. Tive a orientação de Lunna Guedes e sofri a influência de Adriana Aneli, de Café Expresso.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Obdulio — Se gosto de respirar?…

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Obdulio — Amor e desamor. Quando mais novo, comecei a ficar muito envolvido com a literatura. Lia e escrevia compulsoriamente. Erroneamente, acreditei que a isso me afastava das pessoas. Costumo dizer que vivia mais literariamente do que literalmente. Eu me afastei radicalmente. Exageros de minha personalidade. Acho que agora mantenho uma relação mais equilibrada com ela.

ob e claudia

Scenarium — Quem são os seus pares?
Obdulio — No Romance, Machado de Assis. Na Poesia, Drummond de Andrade. Na Crônica, Lourenço Diaféria e Érico Veríssimo.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Obdulio — Mais uma vez, Lunna Guedes, por intermediação de Edward Hopper. Eu estava, junto a um grupo de amigos, em visita ao estúdio de Maria Cininha, que já ilustrou para a Scenarium Plural – Livros Artesanais. Lá, encontrei um livro com obras do pintor Edward Hopper. Eu me apaixonara por seu trabalho desde que o conhecera pela Internet. Depois de explorá-lo por duas ou três vezes, abri a porta para uma nova visitante, Lunna. Continuei a folhear o livro enquanto era observado por sua insuspeita proprietária, que havia emprestado a obra para Maria Cininha. Após Hopper nos apresentar, desenvolvemos a relação literária, através das redes sociais, onde publicava os meus textos. Lunna me apresentou o projeto artesanal da Scenarium, bastante encantador por sua proposta na busca da expressão literária independente de esquemas mirabolantes e improdutivos e da relação direta do escritor com o leitor. Um fator enriquecedor.

Obdulio e Marcelo Moro

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Obdulio — No meu caso, sim. Busquei, desde a época do Orkut e do início dos blogues, divulgar os meus textos. Depois, no Facebook. Porém, como alguém já disse, sendo “terra de ninguém”, talvez não seja a melhor plataforma de expressão. No entanto, apenas recentemente consegui desenvolver a minha página na WordPress, que tem sido a minha principal atividade, além das publicações da Scenarium.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Obdulio — Com a minha atenção voltada para a produção de Rua 2, fiquei afastado de leituras mais atentas, a não ser nos blogues. Publicado o meu livro de contos, inicialmente colocarei as publicações de meus colegas de selo em dia. São autores aos quais admiro e gosto de acompanhar.

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3 comentários em “Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

  1. Amo seus escritos Obdulio, e você é um amigo que amo, um irmão caído da mesma nave. Sou grata por estarmos na mesma vida e por termos nos achado.
    Abraçãos,

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