A ordem no caos

Por Manoel Gonçalves


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Não, não estou escrevendo sobre o país nem fazendo menção a qualquer movimento imputado à sociedade por vias duvidosas. Embora a arte não deva fugir ao seu papel de estar integrada e mexer com a percepção do cotidiano. Mas, ao ser questionado sobre como organizo minha biblioteca, a primeira coisa que me veio à mente foi essa frase do título. E para reforçar a imagem basta dizer que atualmente estou sem um lugar adequado para armazenar e organizar livros, apostilas e cópias. Até que a estante fique pronta, certo caos impera na minha (des)organização.

Mas assim como no exercício da criação, no qual se inicia com um emaranhado de ideias e situações, uma série de pontas soltas, beirando um cenário caótico, para dali emergir uma linha, um caminho, algo a seguir, minha “bagunça” tem uma ordem que pode variar com o tempo.

Nessa conjuntura do país, por exemplo, deixaria à mão livros como 1984 ou Revolução dos Bichos, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas não dispensaria um dos preferidos que é O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Livros que retratam polaridades, controle, inquisição, manipulação e distopia. Infelizmente, coisas bem próximas dos dias atuais.

Sempre tenho algum livro de poesia por perto. Não para ler se forma sequencial como um romance. Já fiz assim também. Mas um texto poético merece uma pausa, reflexão, às vezes até solidão. Café ou vinho também podem fazer uma boa combinação. Penso a mesma coisa sobre os contos. Cada conto deve ser “digerido” sem pressa. Sentir as palavras, o desenrolar das frases, da intenção do autor.

Às vezes tento seguir a ordem de leitura por aquisição ou presente, mas com leitura nem sempre funciona assim. Há casos em que somos “atropelados” por algum título, que as personagens parecem gritar de seus livros e nos chamam a atenção, como se nos puxassem pelas mãos quando passamos os dedos sobre suas lombadas. Aí a fila se forma e alguns livros parecem impacientes como se o lembrassem a todo momento que você ainda não o pegou para ser lido. Nessa linha tem um que está quase me batendo (risos), Os Miseráveis, de Victor Hugo.

Ultimamente, tenho lido bastante coisa de escritores talentosos e que não são alardeados pela mídia. Pessoas que conheço em eventos literários ou saraus e que batalham bastante para ter sua voz em um mercado sem muito incentivo e de muita paixão. Tenho aí, também, um bom tempo de leitura atrasada, pois há uma fila considerável de bons escritos a apreciar.

Dessa forma, alterando ordens de vez em quando, influenciado pela emoção, por indicação ou por necessidade, vou organizando minha biblioteca ou pincelando do meu caos a ordem que se encaixa melhor no meu gosto.

Ps: assim que a estante for montada prometo dar uma ordem aos livros. Ou não, rs.

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Resenha | Indizível

Por Adriana Aneli


indizivel

Antidotum tarantulae ♫

 

… miudezas tão imensas
miudezas que percorrem a intimidade
e permanecem
miudezas perenes
serenas melodias de sol
.

 

Para algumas pessoas, a poesia acontece na pele… para outras, fala ao coração. Para mim, a poesia acontece na boca do estômago, “cachoeira em ebulição/corredeira dentro do ventre”. A palavra é experimentação e, cada livro, uma nova jornada.

Atravesso o portal Indizível, de Bianca Velloso e Vê Almeida. É ali — onde as ervas têm flores e a palavra é maresia — que o amor acontece.

.
luz de acender o verbo
imagem que se faz verso
que se faz carne

De mãos dadas, poema e fotografia executam seu compasso binário, parceria inevitável em círculo convulsivo: imagem que sussurra versos, instantâneo capturado na alma. O poder feminino do poema: possuir e prender.

Elas nos levam, lycosa tarantulae, por sua febre. Em paisagens de paixão e melancolia, dançam: veneno inoculado, vida em suspenso.

Indizível é silêncio… Calado num talvez, num quase, espiado por trás da janela, barra de vestido, mãos e bocas em delicadeza. A estrada sem volta é sonho e sonhar, fabricar coincidências.

Indizível também é grito e espasmo. Certezas desfeitas pelo benefício da dúvida: as histórias acontecem por trás do voal e por isso tomam a forma de gigantes: “fale de sua aldeia…”; Bianca e Verônica falam para o mundo:


tudo aquilo
que já não cabe
na cidade
cabe dentro da praça
:
A praça ainda cabe na cidade

Indizível transformado em gestos; caminhos percorridos com pés descalços. Aqui a poesia acontece: no estômago, na pele, no coração.


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Resenha | Dentro de um Bukowski

Por Marcelo Moro


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Foi apreciando uma poesia que falava de uma pedra que conheci Aden Leonardo — numa dessas madrugadas insones tão comuns para mim —, e depois descobri , tão comuns para ela também.

A pedra poderia ser na Lua ou em Marte, como gostam meus exageros, mas era uma pedra em Itaúna e, de tão curta descrição, me levou a imaginar um Everest dentro de uma caixa de fósforos… e me deu vontade de ouvir Wagner.

Sendo assim, segui seus ensaios e crônicas, sempre atualizando o cotidiano, o pãozinho do padeiro, a moça no ponto de ônibus e o beijo dos meninos terráqueos.

Troquei com ela algumas impressões, versos, cenas… e tive o prazer de conhece-la pessoalmente no lançamento dos Sete Pecados femininos, no coração da besta, na Pauliceia Desvairada… e logo ela, tão cheia de desvarios.

Dentro de um Bukowski”, é seu livro de estreia (e que estreia)… deslizar pela pele de cordeiro do velho Lobo é um ato desmedido de coragem, é um desvario ousado, e a moça Aden com seu tom quase juvenil — não só o fez, como deixou cair as máscaras do velho Buk.

Confesso que matei o livro naquela tarde/noite do lançamento enquanto voltava de São Paulo para Americana, e necessitei beber um pouco para iluminar de uma só vez os becos escuros iluminados aos poucos por Aden Leonardo na sua viagem… e é fantástico o número de caminhos propostos ao leitor.

Sempre que lia algo de Charles Bukowski eu ignorava as resenhas e evitava as críticas literárias, afinal, o velho Buk escrevia para mim… e, Aden, em seu excelente trabalho, escreveu suas linhas brilhantemente amarradas, de dentro do lobo… e já sem o disfarce.
Li mais algumas vezes ele todo… num gole só. E desce sem engasgar, queima na medida certa.

“Dentro de um Bukowski” traz Los Angeles para dentro de Itaúna, como o Everest para caixa de fósforos e… só me basta aplaudir e tomar mais alguns drinks em homenagem à tentativa totalmente bem sucedida e desassossegada que Aden Leonardo fez, ignorando o aviso da lápide do Velho Buk que diz “Don’t Try”.

Aden Leonardo é para mim a melhor ensaísta da nossa geração, e “Dentro de um Bokowski”… um dos melhores livros lançados em 2015.

Em tempo, quero destacar o efeito da arte do Livro concebido pela artista Lunna Guedes, aquela obra é como a mágica saindo e voltando para a caixa do mágico, sem mais…

Um salve para Charles Bukowski!
Um salve para Aden Leonardo!

 

 


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Resenha | Café Aneli

Por Emerson Braga


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Você já bebeu café Aneli? Não? Bem, vamos à receita: Pegue uma jovem linda, formada em Direito pela USP; adicione uma pós-graduação em Direito da Família e Mediação de Conflitos Familiares; acrescente à mistura um punhado de dramaturgia, uma boa dose de literatura e derrame sobre tudo muita graça, inteligência e irreverência. Depois, leia até encorpar. Pronto! Está servido o café Aneli, uma delícia em forma de microcontos, capaz de satisfazer até os mais exigentes apetites literários.

É verdade. Adriana Aneli e seu livro, Amor Expresso, parecem uma receita maluca que combina coisas bem diferentes, mas que deu muito certo.

Amor Expresso nos fala de uma humanidade transformadora, da alquimia que converte alimento em gestos de luz. E, nem por isso, deixa de trazer o sabor amargo dos arrependimentos, o gosto acre daquilo que poderia ter sido e não foi. É impossível não se deixar levar pela maneira suave com a qual Adriana nos cativa com histórias curtas, enquanto suas palavras nos aquecem por dentro. Em seu livro, nos deparamos com construções lindamente apuradas, como nesse trecho do texto Homo fugit velut umbra: “Quando a luz natural invadiu o quarto, não encontrou a si mesma no espelho”.

Antes do café, desabrocha — com sutileza — o que se passa durante o tempo de espera. Aquele momento em que tudo parece um hiato, quando ninguém está olhando: é aí que as coisas acontecem. No texto Amizades Particulares percebemos a narradora ousada, que desconstrói nossa primeira impressão e revela outra imagem por debaixo do verniz que se impregna sobre a superfície das coisas.

O café se encontra em todos os textos não apenas como coadjuvante das histórias — batizadas com nomes de filmes, pinturas, músicas, contos, romances, novelas e poemas que a escritora saboreou no decorrer de sua vida —, mas como criatura oracular que observa o desenlace de muitos destinos. Amor Expresso é um convite à simplicidade. Nos leva a descobrir substitutos singelos quando a vida que vivemos nos é roubada, como lemos em O pescador de ilusões.

O livro apresenta pequenos gestos de rebeldia, daqueles que dão liberdade em drágeas (Gato preto, gato branco). Também fomenta o leitor de quentura e sabor capazes de salvar uma existência, mesmo quando tudo parece insípido (Um dia perfeito para o peixe-banana).

Lá, nos chocamos com aquelas esperanças que se perdem quando o objeto de nossa paixão rejeita toda a graça e sabor que temos a oferecer. Podemos revisitar a quebra do encanto que experimentamos ao descobrir que as pessoas mudam, que deixam de atender nossas infantis expectativas. É um livro capaz de nos apresentar a mais sórdida das vinganças através de posturas que, a um olhar desatento, pareceriam inócuas, como percebemos em O ovo da serpente.

Recomendo atenção na leitura de A vida em preto e branco, que é um belo retrato poético dos encontros que realmente valem a pena.

Adriana Aneli nos brinda com refinado humor ao transformar situações cotidianas em eventos dotados de deliciosa pirotecnia, como revelado nos contos Mesmo se nada der certo, O diabo veste Prada e O jogo de emoções.

Amor Expresso é um livro que nos amorna por dentro. Verdadeira experiência astronômica que delicia com o néctar extraído do grão da palavra. Enfim, trata-se de uma linda declaração de amor.

E você? O que está esperando para provar dessa leitura quentinha, saborosa e que não esfria, até a última pagina?

 


 

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