Meus incêndios…

Por Lunna Guedes


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Ciao Al Berto,

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Aqui jaz o fim de tarde e não há silêncio na cidade, nas ruas, nas esquinas onde acontecem encontros inesperados, ao acaso da vida. E eu a tudo assisto… sem nada registrar ou guardar.
Leio-te, meu caro… uma página por vez. Tomo folego e mergulho… sem saber se a volta é possível —  de certo que não é.
O teu último poema me acertou em cheio… regressei dele como pude. não nos conhecemos nunca… fiz uma pausa para tomar fôlego enquanto observava a realidade e suas engenhosidades humanas, em busca de distração. Algumas nuvens escuras passeavam ligeiras por cima dos telhados. Não há promessas de chuva. As tempestades não cabem dentro de Abril…
Tentei retomar a leitura… avançar para outro verso-poema de horto de incêndios — virar a página em busca de silêncio. Mas o teu verso não se calou — começou a soluçar a mesma linha: não nos conhecemos nunca…
Ouvi a tua voz de homem-menino-poeta a reverberar pelas paredes de meu corpo, convertido em esquinas da tua cidade. Em fuga, busquei pela xícara no canto da mesa —  estava vazia! O último gole ficou dentro da hora anterior. Perdi o sossego, a paz. Fechei o livro… os olhos. Fechei-me dentro… mas o verso perseguiu-me por todos esses labirintos — não nos conhecemos nunca…
Respirei fundo… guardei o poema no bolso da alma, abandonei o livro e me dei conta do inevitável: sou apenas um verso teu, meu caro — um daqueles que você se recusou a escrever… e lhe sou grata por esse trago que falta!

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Au revoir

6 comentários Adicione o seu

  1. Jull Palmer disse:

    Sabe que sempre que leio um escrito, pode ser um poema ou um romance? Sinto uma emoção tão forte, algo em mim começa e acaba e eu nunca soube descrever. Então você escreve ao seu Al Berto (ainda não li esse menino) e pronto. É isso que eu sinto, um incêndio a consumir o meu corpo. Grata menina Lunna, ou seria Catarina?

  2. Lua Nova disse:

    Que delícia ler esse livro-poema com você.
    É engraçado como alguns escritos nos bagunçam a pele.
    Maravilhoso isso.

    bisous

  3. Maria Gonçalves disse:

    Enquanto leio sua carta a Al Berto, penso no poder da palavra que nos toca e nos desinstala de nossas certezas… Quase pude ver a inquietude que se instalou na sua alma e que me revelou um pouco do que és. Lindo texto!

  4. emersonconto disse:

    “Não nos conhecemos nunca…” Bate um desespero, mas não deixa de ser excitante, acredito. Seu texto nos desperta a ousadia de tentarmos nos conhecer de fato (por mais que isso nos pareça, ou realmente seja, um exercício inútil). Afinal, o que não tem preço se manifesta na procura e não no encontro. Obrigado por nos permitir espiar de tão perto sua escrita, menina-lua.

  5. obduliono disse:

    Tão lindo ser o verso de um poeta. Ainda mais, Al Berto. Cismei que queria ser um verso de Drummond. No entanto, sou tantos…

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