®existir | Julia Raiz

2lança

adrienne, a rica,

estou com raiva.
não sei quase nada de você, mas tenho certeza que você sabe o que quero dizer.
ontem uma menina chamada brenda (você conheceu alguma brenda, adrienne?) me contou de uma escritora de portugal que escreveu um livro de cartas. uma morta escreve cartas para um homem vivo que não as recebe. um vivo escreve cartas para uma mulher morta que não as recebe. as cartas que se perdem, como se perde essa. então, não interessa que eu escreva em português, esse é um caso de tradução transdimensional.
sempre pensei que vocês mortas compartilhassem um segredo, é como se fossem iniciadas num ritual (li dois poemas seus com “like” hoje. traduzi o seu “like” pro meu “como”). não penso mais assim e não é sobre isso que quero escrever. uma amiga nossa morreu na segunda passada, não consigo imaginar vocês duas juntas. ela também amava outras mulheres. como a Sarah, como eu.
a Sarah também tem raiva, às vezes. ela chama seus poemas, adrienne, de “enfarpados”. eu quero te desenhar o que é uma malha de arame farpado com a qual você pode se cobrir:

adrienne

você está atrás de mim, adrienne com dois enes (a Sarah não vai gostar dessa parte), um fantasma que saiu da california pra chegar num quartinho nos fundos desse apartamento no brasil (o seu país fode com o nosso, dear. mas disso você já sabia). é muito difícil decepcionar alguém que a gente ama, gostaria de falar com você sobre isso. queria te fazer algumas perguntas se pudesse. como foi decepcionar seus três filhos? como foi decepcionar o homem que você amava? como foi decepcionar a mulher que você amava? como você sobreviveu e depois não sobreviveu a tudo isso? dói mais ou menos do que não poder escrever uma carta pra si mesma à mão e ter que batê-la à máquina? repetiria as mesmas perguntas se estivesse escrevendo pra patrícia pagu, ela sofreu às vezes como você, às vezes não. me importa muito que a pagu tenha sido brasileira, xuxu (chuchu é um legume com “ch” e com “x” um apelido carinhoso como “pumpkin”). vou te copiar aqui um pedacinho de poema que eu traduzi pra você saber do que ela foi capaz:

nothing nothing nothing
nothing more than nothing
cause you want that nothing exists besides nothing
only the nothing exists
a child’s cry
a tear from a loose woman
that means nothing
a room kind of dark
with a broken lampshade
girls that danced
that talked
nothing

eu choro porque essa é uma carta sem resposta.
Sarah te traduziu dentro de um lento trem a vapor. eu não to com você, adrienne. eu to num rápido, vertiginoso que vai bater daqui a pouco e explodir. não somos heroínas, a Sarah te escreveu, acidentes acontecem como batidas de carro, batidas de trem. nós ainda não aprendemos a diferenciar a morte e o amor. estamos agora num futuro próximo, se você pode nos ver, me diga se é assim que você imaginou que seria quando era menina. WHAT KIND OF TIMES ARE THESE você nos perguntou. você foi uma menina, certo, right, adrienne? were you a girl ou nah? we all got to suffer the consequences, eu ouvia quando era menina, na sua língua. coloco um vídeo seu declamando poemas na wellesley college, pra me despedir de ti. 09’05’’ você fala de brecht de quem roubou WHAT KIND OF TIMES ARE THESE.
te espero hoje à noite na cozinha, passa pra me dar um alô na forma de um rato lento ou da sombra de um pássaro veloz que cruza a janela. o que querem nos dizer as velocidades?

nunca sua, mas rápida em direção à verdade,
julia.

 

*******

 

Adrienne, my dear,

escrevo esse bilhete depois da Julia porque ela é mais desenvolta e menos séria que eu e teve a coragem de te perguntar algo que eu queria saber, mas que, imitando o seu próprio silêncio, contornei. É a Julia, menos tradicional, menos enfarpada, menos austera que nós duas, a mulher que nos coloca em contato. Você queria me ensinar a dialogar. E agora, quase no fim, sinto que escrevi essa dissertação te evitando, traduzi os poemas pelas bordas, sem te encarar nos olhos, porque eu não estava pronta. Faltam dias e por fim é verdadeira essa dissertação? Acho que eu não teria aprendido a traduzir (quase me sinto pronta) se você não tivesse me puxado para esse trem lento a vapor, onde nossas mãos inchavam. Eu queria pegar suas mãos e não as canetas, as teclas. Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas. Eu via a palavra feminismo e a palavra mulher fazendo caretas, você já me deu vários banhos frios. Tudo o que me ensinou – fantasmagoria das mulheres, fantasmas por cidades fantasmas, fantasmas de livros não escritos, o gravador que não pegou nosso fantasma. Eu perguntei como eu ia viver o resto da minha vida. Depois vi aquela foto sua, suas mãos não eram pássaros, eram bulbos. E a dor não era minha, era das mulheres das colinas dos uivos, dos seus filhos, do homem que você amou (?), dos Estados Unidos da América. Eu vou dar um jeito, resistir à tentação de fazer uma carreira de estupor, caramelizar, evaporar, remediar as forças que alastraram contra e dentro de nós (foi a Julia que arranjou o verso). Graças a ela, que tem uma força de remexer as coisas e também não está aqui senão como uma voz, que você virá (você é a minha fantasma, não tem outra). Tomaríamos um chá (eu e você lentas, ela incendiária inquieta observando seu apartamento, com a caneta na mão enquanto eu sublimaria meus sentimentos no ar da sua integridade austera e inatingível, hibernando ao redor da serenidade de pedra que legitima os meus estranhos combates). Essa é só uma primeira carta. Queria tentar fazer você rir. Eu não gosto de falar inglês. Tenho que ir para a Escócia falar sobre seus poemas feministas e é uma boa hora para falar com você sobre a lacuna entre o que amo e esses países. Eu tenho algum medo da viagem. O poema que a Julia retraduziu hoje vai pro Arame Farpado, da Lisa. Você escreveu que sabia que eu lia seus poemas adivinhando algumas palavras enquanto outras me mantinham lendo e você queria saber quais eram essas. Não choro porque essa é uma carta sem resposta, mas porque essa abertura me dá um lugar para sentar. Você sabe que leio esse poema em busca de algo torcido entre a amargura e a esperança, lançada à tarefa que não posso recusar. Preciso lembrar as outras coisas que queria te perguntar.

Sigo aqui,
Sarah

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julia raiz escreve e traduz. sua pesquisa no doutorado abrange tradução, ensaio e crítica literária feminista. constrói, como militante, a frente feminista de curitiba e região. também edita os blogs literários totem & pagu e pontes outras. seu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela contravento editorial.

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 ®existir | Maria Florêncio

Maria Florêncio
Maria Florêncio, autora de S A D N E S S

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Para você.
Minha querida ‘Menina’

Hoje reli teus desejos, dentre alguns…
de seus tantos contos e versos escritos…
ou seria melhor dizer
— reescritos?

Sempre me perguntei
— em quaisquer que sejam minhas leituras —
onde desembocam as verdades que
os ‘escritores’ trazem na alma…
E o que seriam meras linhas íngremes
a entoar os pequenos fluxos
em uma ficção bem tramada.

(Ou não)

Mas em você, algo sempre
me alimenta a dúvida.
Talvez o que lhe molde,
seja esse seu paralelo linguístico,
desses — estudados em matérias didáticas
que aprendemos em salas de aula
— nas disciplinas de humanas.

Juntamente com essa perda que
carregas dentro de si,
— arroubo juvenil —
Um maldito ‘não’ sincronizando o tempo
que nunca morre
…e a sua agonia.
Ilusão guardada nos rodapés de cadernos antigos,
…tintas gritos e solidão.

Um brevê enigmático cujos punhos
se solidificaram por covardia‘.

Desse algo que tanto alimentou teus sonhos
mais inquietos e lhe tirou o desejo
pela vida.

Eu sei que você
— hoje —
Apenas está… por aqui.

Desculpe-me pela ousadia,
mas confesso que lhe roubei
algumas fotografias mentais
— durante as visitas —
Para observar a geografia dos seus lindos
— tão tristes olhos.
São doces e ao mesmo tempo,
persuasivos.
Possuem tons indecentes
de pequenas vontades amordaçadas,
sem nada conseguir fazer.

Um pré-outono em cores opacas
de culpa e medo.
Um dom hiato, agudo e sincero
que muito aprecio.

Sabe, minha querida… (?)
muitas vezes, eu gostaria de saber como
abrandar a sua dor,
Te acalentar em um refúgio-abraço-mudo…
Ouvir de você uma pequena resposta.
Mas não me compreenderia.
Entendo isso.

Réstias de pretensão lhe acompanham
os passos neste momento, e seu maior rival,
é o mesmo a ocupar o travesseiro
que lhe adorna“.

Você busca tantos ritos para ser ouvida,
Que seria incapaz de ouvir…
a si mesma.
Não seria?

 


Maria Florêncio… parida na acidez de Áries, em uma madrugada de Abril… sob as águas mornas de uma cidade litorânea tupiniquim qualquer. Não gosta das ondas calmas. Brinca até hoje com todas as Manias que lhe habitam. Rabisca suas emoções desde que lhe ‘disseram’ ser gente, entre grafites e tintas. Aprendeu com os Anciões que linhas possuíam formas-dores e alegrias e cabiam em envelopes. Vive com os pés na Lua. Alma sem raízes ou culpas. Sorve bebidas quentes por compulsão… se veste de nostalgia para ir à guerra. Perde-se entre amores irracionais e ilógicos. Cansou de delegar ambições alheias. Jogou folhas e contratos ao vento e voltou a respirar. É mãe por acaso-pretensão instintiva e cheia de porquês… Sem respostas.

 ®existir | Obdulio Nunes Ortega

 

Obdulio, Rua Dois

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PENSAR COMO UM LADRÃO

Certa vez, ouvi do Alemão, com o qual instalava um equipamento, a frase: “Ladrão! Ladrão!”. Perguntei: “Por que ladrão”. “Porque se não é ladrão, é roubado!”. Entendi, com seu jeito simples e direto de falar, que se referia à presteza com que deveria ser realizada uma tarefa.

A partir dessa premissa, conjecturei que agir fora das regras e leis vigentes nos garantiria vantagem sobre o próximo, que é, em suma, adversário na luta pela sobrevivência. No mínimo, assumimos mentalmente um comportamento similar. Por exemplo, ao estacionarmos o carro, tomamos todas as precauções possíveis para que o nosso bem móvel não seja removido para longe de nossos olhos e mãos – somos obrigados a pensar como um ladrão. Constato, mas não valido. De espírito, sou franciscano. Isto não impede que ainda que tenha a melhor das intenções, eu e muitos outros terminamos por trabalhar para que o Sistema se perpetue.

Agimos feito criminosos amadores. Corruptores, distribuímos agrados para sermos privilegiados em várias ocasiões. Pagamos planos de saúde – um extra para garantir melhor atendimento quando nossas vidas e a dos nossos familiares estão ameaçadas por acidentes ou doenças. Como também somos impelidos a pagar seguros de vida, a fim de dar segurança financeira aos nossos beneficiários, caso um dos acasos pelos quais passamos todos os dias nos levem a óbito – passamos a valer mais mortos do que vivos.

Reunidos em torno de uma sociedade que exalta como valor maior sobrepujar metas de produtividade e acumular bens em contraponto à expansão da consciência pessoal e social, a tendência é que desenvolvamos a visão que associe progresso material à profissão de fé. Religiosamente, todas as manhãs, levantamos e nos dirigimos em séquitos às igrejas patrimoniais. Nada que finais de semana – sextou! – regados à entorpecentes, futebol, festas ou orações não nos aliviem para que, às segundas-feiras, retornemos aos expedientes, semivivos, mas funcionais.

Para defender o status quo, vemos ações cada vez mais violentas dos combatentes aos elementos à margem, enquanto estes investem cada vez mais ferozmente contra os agentes da Matrix econômica: trabalhadores, inclusive. De muitas maneiras, enredados por uma doutrina que produz desarmonia humana e desequilíbrio social, fabricamos deserdados que, a ferro e fogo, não dão valor a vida de outrem. Alijados desde cedo de melhores perspectivas, se utilizam da moralidade de um ponto de vista básico – eles contra os botas – escudos a soldo, que matam em nosso nome. Há quem veja sinais de rebeldia contrarrevolucionária nas ações dos marginalizados, quando ao final de tudo, ficamos em meio ao fogo cruzado – os bem e os mal-intencionados.

Em álbuns antigos, ao rever imagens de minhas filhas pequenas, além da saudade, fiz um exercício sob o olhar do “politicamente correto”. Reavaliei cenas e situações naturais, mas que sob esse novo critério, poderiam ser consideradas duvidosas, como a em que estou a me divertir com as três meninas na grande banheira no, até então, único banheiro da casa. Era comum que todos nós nos víssemos nus, sem o puritanismo retrógrado em que a liberdade e a aceitação de nossas diferenças fossem vistas negativamente.

Sempre julguei que dar a elas a oportunidade de ver o corpo de um homem (no caso, o meu), seria bem mais educativo do que aplacar a curiosidade através de informações normalmente eivadas de preconceitos e ignorância. Minha esposa, sempre presente, agia da mesma forma. Profissional da saúde, nunca deixou de informá-las sobre as questões mais espinhosas com relação ao corpo feminino – o objeto primordial de culto e culpa da sociedade patriarcal. Se bem que formemos uma família tradicional, nunca apresentamos restrições àquelas formadas de maneiras diversas, como as homoafetivas, por exemplo. Aliás, ainda que todos nós apresentemos a heterossexualidade como orientação atual, vemos os outros de perfis diversos, acima de tudo, como pessoas.

De alguma maneira, vivemos um processo de “reeducação” através do olhar doente daqueles que sentem prazer obsceno à vista de imagens inicialmente cândidas, mas que se revertem em fetiche predatório. Ao mesmo tempo, há pessoas que não conseguem construir uma personalidade autônoma dos mandamentos postulados por falsos moralistas, atacando tudo que pareça diferente da normatividade propalada como ideal, enquanto vivemos uma guerra fratricida, estimulada pela atual estrutura social carcomida.

Vertente da criatividade humana que deveria avançar-provocar reflexões para além da mesmice, igualmente quaisquer manifestações artísticas são julgadas e condenadas com base na visão do cidadão médio. Ousadia, aquela apenas aparente, em canções populares de conotações duvidosas – voos rasos de moscas em torno do estrume.

O que vimos acontecer ultimamente foi um fenômeno revelador – a chamada maioria silenciosa, que de início reagia como manada-bando – repentinamente passou a agir como matilha-hoste armada de intolerância, racismo, xenofobia, homofobia, com pendores ditatoriais. Quem acredita, como eu, que o ser humano existe com um propósito maior do que servir a esquemas predeterminados e ao imediatismo funcional, deve, como coparticipante do concerto social, fazer ouvir nossas vozes de resistência ao retrocesso e ao processo de alienação. Dignamente, por nós e por todos, apesar deles, apesar de tudo, lutemos!

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Obdulio Nuñes Ortega… nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.  Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.

®existir | Maria Vitória

maria vitoria

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Resisto, enquanto tenho um cano molhado de garoa pousado em minha testa. É noite. Nos bares as vidas seguem sem que olhos me notem.
Resisto, quando tenho um estômago gritando de fome e me encontro muito longe de casa, sem uma finada nota nos bolsos, apenas com uma mochila preta nas minhas costas corpudas.
Resisto, quando meu estômago embrulha ao avistar duas mulheres comendo espiga de milho do lixo entregues pelas mãos de um homem com mãos severas e sujas.
Resisto, quando os corpos se levantam quando eu me sento.
Resisto, quando entro em algum lugar e um homem/mulher, me acompanha por entre os cabides ou prateleiras.
Resisto, quando minha mãe me olha como se me odiasse ao mesmo tempo que sente uma pena mortal de mim.
Resisto, quando meus mamilos se despontam e pra tudo apontam. E consequentemente, recaem os olhares. Alguns dizem: humm. Outros dizem: cubra estas suas vergonhas.
Resisto, quando minhas mãos tocam nas mãos de outra mulher.Resisto, quando meus cabelos se armam, crescem e tomam vida própria.
Resisto, quando nas entrevistas de emprego sou a negra incapaz de ser inteligente.
Resisto, quando me calam a voz vedando meu grito.
Resisto, quando um homem se sente no direito de beijar-me o rosto ou tocar-me a pele.
Resisto, quando estou desprovida de feminilidade.
Resisto, quando tento não me atirar a morte.
Resisto, enquanto existo.

Sou, até quando me permitirem reexistir para ser apenas eu.

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Maria Vitória… andarilha de cidades cinzas, nascente avoada da terra da garoa. Entre poemas líricos e crônicas transparentes pincela a própria vida para que a mesma não se desgaste tão pesadamente. Aos 7 anos de idade as primeiras linhas inventadas artisticamente. Depois, lá longe aos 20, seu primeiro livro de poemas intitulado: Meu Interior Que Vos Fala. Logo após, aos 26 mais uma vez derramou teus versos poéticos sofridos nas páginas de: Coletivo. Livro magicamente criado e artesanalmente vivido pela editora, Scenarium. Passa dia, menos dia e tudo em torno é uma tela com vômitos quentes e calejados, a autora com suas observações fotográficas e suas descrições meticulosas põe-se a criar crônicas mortíferas sobre uma cidade cinza. Aguarde e verás.

 ®existir | Beatriz Aquino

Beatriz Aquino

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Bate o sino pequenino. Sino de Be…

Não. Não é o sino que bate não.
É a bala perdida que chega certeira na porta do cidadão.

Bate o sino
Bate a carteira
Ganha quem grita mais alto
Bate a cabeça no meio fio
O atropelado esquecido no asfalto.

Bate estaca a juventude
Nas matinês e nas baladas
E consomem seus neurônios
em bocas estúpidas e aditivadas

Bate sem dó o skinhead
na cabeça do rapaz afeminado
Que apanha todo dia
só por ter nascido viado

Bate o indicador no gatilho,
o pai de família que ri
que mata ainda de quatro,
com raiva do travesti

Bate o prato de sopa
o morador de rua
Vergonha ele não tem não
Bate cachimbo e punheta atrás da caixa de papelão

Mas quem goza é o banqueiro
De ética não entende não
Bate a carteira do Estado
No esquema de corrupção

Bate a bolsa de NY, bate Bovespa
Bate em tudo que é gente
Bate na cara do amigo
Por ter escolhido candidato diferente

Bate a esquerda
Bate a direita
Bate o sicrano e o fulano
Bate no botão da Urna
E contabiliza o voto do tirano

Bate a escopeta
Bate a bazuca
Bate no preto e na puta

Retrocede Brasil
E bate na cara de quem te pariu!!


Beatriz Aquino …atriz e escritora. Às vezes, mais escritora que atriz. Mas, no fundo, só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helenica. Às vezes, escreve com a bilis. Às vezes, com a ponta da língua. Pode ser doce, ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas, é apenas uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu para entender? Se não, melhor ainda.

 

®existir | Alice Vieira

alice barros

ORFEU

fonte de Hélicon: eu desisto
envergonhado até a notocorda
porque sobrevivo
ao genocídio da aldeia
vai-te embora ou consagra-te aos cavalos

eu canto pra provar que sou possível
ou porque nascido além
não há nada

 

BARTHES

não se mate, alice
na sala de espera há ainda
uma nova tradução do trótski
um novo espécime de torpor (será vencido)
um poema sonoro do tiútchev
e as ideias de uma obscura semiologia
de um dia após o outro
agora diz muito teu nome:
hoje um alfabeto de cores
amanhã (com sorte) noctívago
arame farpado

 

em 1930 com o apoio dos Estados Unidos
Rafael Trujillo dá um golpe
na República Dominicana
com o apoio dos Estados Unidos
faz-me privilégio ser eu e
ainda não ter me atirado da janela
ninguém me deseja
ninguém me espera
atravesso a ponte – porra Caronte –
é ele que diz
“lá vai o comunista
defender o indefensável”
eu não respondo
há nuances de sufocamento
muito dignas eu não respondo
eu sou uma mulher lésbica
(fazendo versinhos)
não há inferno
que não me seja familiar

 

 


Alice Vieira Barros… nasceu em Guanambi-BA, em abril de 1994. Mora em Belo Horizonte desde 2009. É mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Possui poemas publicados nas revistas Germina (2016), Em Tese (2018) e Gueto (2018). Lançou esse ano seu primeiro livro de poemas – {Open Source} – pela Editora Penalux.”

 ®existir | Mariana Gouveia

Mariana Gouveia, autora

 

Querida Maria,

 

Como vai? A leveza de tua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que percorre? Espero que sim… eu quero saber de você e também preciso entender como ignora a tarja exposta sobre meu país…
Se bem que hoje… eu prefiro não perguntar sobre o tempo… que é esse menino fujão a nos roubar a razão. O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias, onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que atravessou o dia em que meu país errou feio, perante o mundo — e eu, que simpatizava com astrologia — , me desencantei.
Eu vi no cartum do jornal do dia, bem no meio da página, a sua pergunta — “você votou em quem?” — e colhi o seu espanto diante de minha resposta, que foi cercada de outras perguntas.
Logo você, que possuía todas as probabilidades de ser afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente. Falei sobre o que acredito. Da liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos, que sofrem todos os dias na rua. Maldita indiferença, intolerância, desrespeito que marca muros e calçadas das cidades desse país, tão cheio de fronteiras e divisas.
Se eu te contar que minha posição é ideológica, será uma mentira. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava no meu jeans rasgado e no Karaokê: “ideologia, eu quero uma pra viver”. E você queria me ver ideológica aos 40… depois aos 50. Impossível… tudo se quebrou diante dos mitos falsos…eu sei o nome de todos que surgirão ao longo dos anos que somo desde o nascimento.
Não, Maria! A ideologia é apenas mais um cartaz exposto nas estações e nos muros pichados. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes — como eu fui nesse antigamente, que ninguém se lembra.
Não pude fazer grande coisa, o medo tornou-se real e a afronta diária.
Hoje, no entanto, o meu medo tornou-se aliado do existir e com isso (r)einvento uma cidadã, que achei não pensei existir ainda. Sou a própria resistência e indecência… a própria (r)existência dentro de um Sistema… e é como estar a bordo de um trem, que me renova a cada parada ou obstáculo. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. É pelos que amo que saio de casa. É por estranhos que insisto.
A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias, me vejo boicotando-as. Pior, duvido de tudo que leio e me espanto no que ouço-vejo nas pessoas, essa fé cega, essa esperança de futuro.
Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, ao meu lado… logo mais adiante, em um bairro distante… noutra rua-casa. No meu país e talvez eu não seja afetada pelas manobras do governo eleito. Talvez muitos não sejam. Mas sei que alguma pessoa, em algum lugar, será… e por isso cumpro meu estado de (r) Existir. Preciso ser forte e seguir adiante, com a minha luta diária, que é a mesma luta de muitos. #ninguémsoltaamãodeninguém.

 

Beijo,

 


Mariana Gouveia… nasci numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas que todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965. Era inverno, mas parecia primavera… Ali, cresci e vivi um conto de fadas entre sete irmãos. Mudei para Mato Grosso por conta de uma doença de minha mãe, num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e vim descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação… Desde pequena as palavras me invadiram e escrevia em tudo que podia. Papel de pão, papel de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava eles para depositar sonhos, história e o dia a dia vivido. Tornei-me radialista por vocação e isso me dava a liberdade de espalhar as palavras que eu escrevia nas ondas do rádio. Sonhadora. Adoro as noites de lua, borboletas, joaninhas, libélulas e fotografias — não necessariamente nessa ordem — artesã de alma e de paixão.
Amo o rádio. Aproveito o eu lírico e enfeito o papel com os sonhos — os realizados e os que ainda vou realizar. Apaixonada, dedicada e toda coração. Essa sou eu.

®existir | Nic Cardeal

nic cardeal

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‘PROIBIDO PISAR NOS SONHOS’

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Abri o dicionário porque secaram-me as palavras. Folheei durante algumas horas, procurando aquelas mais exatas para significar o que vai pelos vãos entristecidos da alma, nessa ressaca de interminável desalento… Teimosas, chateadas, nenhuma delas ofereceu-se ao sacrifício de dizer o ‘indizível’ (tomando por empréstimo essa qualidade imensa nomeada ao sentido do amor por minha querida amiga fantástica escritora Rosângela)…

Fiquei abatida. Eu, que preciso tanto de palavras que me salvem do quase diário transtorno obsessivo compulsivo que tenho por sentidos havidos no coração… Que faço eu, sem palavras que me arranquem ervas daninhas dessa minha floresta tão densa, a que chamo emoção? Que faço eu, sem palavras escritas, se nem dizê-las na voz eu sei, porque a voz não me vem, porque a voz não me convém, porque na garganta eu tenho usucapião de silêncios tão inteiros e medonhos, que me fazem ouvir o palpitar do peito e o navegar do rio vermelho que escorre interminável pelas veias?

Não houve jeito. As palavras em mim viraram estranhos pássaros sem ninhos. O que se faz sem palavras a dizer o desalento do viver? Terceirizando meu coração, haverá quem pague um mínimo ‘salário’ de paixão por palavras a desabar o que de mim sobrou em retalhos de uma alma descosturada? Como será possível conjugar um verbo bem transitivo e direto a dizer um bom recado, desses de ‘esperançar’ a vida, em boas varandas de aguardar o futuro no amanhã? Haverá um amanhã de horizontes mais verdadeiros que nos resguardem novos frutos de bem viver?

Não sei dizer. Por ora, só sei sofrer a dor servida em dilaceradas e desmedidas ranhuras nessas minhas estranhas entranhas entre as vértebras, as veias, as pulsações e os pulmões que me teimam latente, feito gente que resiste decente.

Fechei o dicionário. A palavra veio ao mundo. Sinto-a trôpega a parir ausências de sentidos nesse pesadelo que, a olhos vistos, vai seguindo tão imundo pelas mãos de falsos homens ‘de bem’… Ilimitados não sejam apenas o sonho, a fé, a esperança, mas o significado de tudo isso depois do que a história irá dizer…

 


Nic Cardeal… na grafia da vida que se fez minha, não sei dizer ao certo a que fim eu vim. Só sei que vim. Nascida depois de um ovo partir-se ao meio, cheguei ao planeta em parceria. Talvez por medo de descer por aqui sozinha. Andei por lugares diversos, contei estrelas, juntei pedrinhas (e livros) pelos caminhos. Sou desajeitada. Calada. Quase esquisita. Minha voz tem som de silêncios. Enquanto não consigo dizer-me muito, faço de conta que me faço em palavras. Por isso escrevo. Meu manual de sobrevivência.

Plural | Redemoinho

Por Lunna Guedes


Redemoinho...

Ouvi os sons dos fogos a espocar pesado no ar… comemorava-se — como se fosse um gol da “canarinho”… a vitória do “mito”. Mais um herói brasileiro inventado por algum marqueteiro bem pago. Urnas impunham outra derrota ao Comunismo — esse fantasma-vermelho que insiste em rondar o Brasil desde os anos 40.

A bandeira e sua frase remendada está a salvo — para a alegria dos fariseus. E novamente amanheceu o Futuro, e sua (falsa) chama da esperança se reacendeu.

Este, como se sabe, é o país que, ao que tudo indica, inventou o conceito-fórmula de: Futuro… sem testes ou experimentos. Apenas mais uma ideia caseira, com ingredientes conhecidos, para ser vendida em tabuleiros no mercado de pulgas… na praça. Vende-se, troca-se, rouba-se e passa-se adiante… até chegar a alguém capaz de dar ao produto a atenção necessária.

Não há instruções de uso… o consumo é livre — sem restrição. Pode deixar para amanhã, quando o ano for outro-novo. Para depois, quando o presidente-herói assumir e dizer à nação os seus planos para esse Futuro-apimentando, perfeito para as especulações dos mercados financeiros, com suas estratégias de guerra, que
aponta inimigos e elege os amigos certos para o sistema.

O futuro é nosso… basta pagar por ele muito mais do que realmente vale, com um dinheiro que você ainda não tem. Parcela-se tudo em muitas prestações, com juros que você não soma, porque desconhece. Benditas (malditas) letrinhas miúdas.

E avançamos neste dia de sol quente em direção ao Futuro… trôpegos, a equilibrando-se na corda (sempre) bamba por vias esburacadas, mal sinalizadas. Não sabemos o lugar de chegada. Não existe mapa, mas sabemos o que precisamos saber. É uma espécie de horizonte — tão incerto, quanto impreciso. É preciso preservar a ilusão que nos aquece, faz sonhar e acordar para o dia seguinte, que não é Futuro.

Apaga-se o ontem — conjunto de páginas rasgadas, não lidas — com estranha facilidade… feito um mágico, que retira o coelho da cartola e adivinha a carta escolhida, entre tantas. Truques, meu caro… porque é disso que se faz o Futuro, com o qual somos educados, desde cedo — nas aulas sem conteúdo — a lidar.

“Hoje você é quem manda
Falou, tá falado.
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu”

Esqueça esse tal de ontem! Essa não-ficção confiável. Não olhe para trás… é para frente que se vai. Cada minuto desperdiçado com histórias — distópicas —, é tempo perdido! E deixar que ele avance sem você, é ariscado. Perderá seu lugar para outro. Sempre há outro, mais esperto-competente. E nem é necessário talento. Você só precisa estar no lugar certo, na hora combinada para se aproveitar da ideia inicial — pela qual se pagou míseros centavos — aperfeiçoando-a para melhor convencer.

Hoje é possível encontrá-la em grandes lojas… em vitrines iluminadas e coloridas, com uma bela embalagem e um fruto proibido estilizado — com qualquer coisa de divino-profano —, uma frase de efeito e a certeza da qualidade… assegurada pelo herói do dia: aquele jogador de futebol que fez meia dúzia de gols e foi elevado à condição de craque pelos nomes certos. Ele vende o Futuro que você tanto deseja… com seu sorriso remodelado, pele bem cuidada, roupas com corte perfeito.

Um especialista em futuro, porque ele tem o passado-certo-perfeito para esse mundo de faz de conta. Nasceu em condição desfavorável, mas se destacou e seguiu a ordem natural das coisas…

“Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão”

E ainda que alguém grite contrários… poucos irão ouvir. Um ou outro. Meia dúzia — talvez. Mas a engrenagem do Sistema sabe lidar com estes conflitos. É apenas mais um concorrente — outro tabuleiro — querendo uma fatia neste mercado de poucos. Não há com que se preocupar… o alcance é restrito. Em pouco tempo o Sistema o engolirá. Comprará os “direitos”… apagará-abafará o grito e o reinventará — sendo oferecido como uma segunda opção… perfeito e acessível a esse novo grupo, tão ignorante quanto o outro, mas com uma embalagem nova, porque a imagem é que realmente importa.

E, se por acaso, alguém se sentir desconfortável-enga-nado com o produto… especialistas te convencerão de que o Futuro é mil vezes melhor que o passado e, para provar, surgirão campanhas publicitárias de peso… uma onda retrô: músicas, festas, roupas. Tudo para te fazer entender que o Futuro é mesmo o que tem de melhor no mundo das coisas, afinal, ainda não está pronto e você poderá ter esperança.

E você se deixa convencer-enganar. Se conforta-consola e se rende — enquanto isso —,  nos bastidores do mundo… remodelam o produto com as cores-formas certas. Reinventam o fruto proibido. Escolhem outro herói… e te oferecem um “bom desconto” no Futuro de hoje, pelo futuro de ontem — ultrapassado. E você se repete e nem percebe o que há e não há.

“Amanhã vai ser outro dia…”


Participam dessa edição

Adriana Aneli | Beatriz Aquino | Juliana Sales |  Manoel (Manogon) Gonçalves
Maria Florêncio | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Marcelo Moro
Mario Deggas | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | Roseli Pedroso

Apresentação de lunnaguedes


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®existir | Manoel (Manogon) Gonçalves

Manogon

 

Corre em boatos e jornais
Em fotos e fatos
Nem sempre reais
Em mundos binários
Das redes sociais
Onde o bonito é fake
E correto são só os iguais
Corre à boca pequena
Nas esquinas nos becos
Nos abismos sem ecos
Nas calçadas vomitadas
Nas privadas de bocas largas
Por ruas mal iluminadas
Corre pelos fios desencapados
Por entre choques tomados
Em gatos mal-arranjados
Nos canos enferrujados
Cheios de cloro tratado
Corre em gosmas e lodos
Dos rios e dos esgotos
Livres e fétidos a céu aberto
Passeia nas frutas podres
E nas barrigas vazias
De famílias semafóricas
E de sacoleiras eufóricas
Nos pobres que tudo possuem
Ricos em sua aparência
E pobres na existência
Boia sobre as valetas
Em bueiros entupidos
Sob ruas e casas alagadas
Nos buracos das estradas
De um asfalto carcomido
Esconde-se nas salas de luxo
E em celas cheias de lixo
Dejetos assim tratados
Da sobra de ser humano
Flutua livremente
Nas drogas entorpecentes
Que alienam as mentes
Algumas dizem “boa noite”
Pra Cinderela dormir bela
E acordar sem seu rim
Ouvindo ao longe um plim-plim
Voa em drones banais
Substituindo pardais
Sem penas de pássaros reais
Viaja rapidamente
Em trilhos esquecidos
E nas grandes multidões
De predadores leões
Daqueles que matam
E dos que morrem todo dia
Permeia as fofocas
Dos realities boçais
Que entopem os canais
Forçando algumas safenas
Em tubos de mentes pequenas
Todos comentam a cena
Aumentam seus likes
Passam por cima de bikes
Com carros paralisados
Em legos não encaixados
Pagaram uma propina
Só pra ver tudo de cima
Voraz ave de rapina
Na vantagem da carnificina
São reis ditando ordens
E ordem são aspirinas
Engole-se sem saber o gosto
Mesmo a contragosto
Mesmo que não se impeça
A constante dor de cabeça
Desfila moribunda
A olhos vistos sobre ataúde
A quase terminal saúde
Ouve-se um palavrão
Dois ou mais “empurrão”
Sem nem uma desculpa
É a fata de educação
Ninguém mais tem paciência
Umbigos de grande saliência
Pivôs da grande falência
Dos órgãos e órfãos
Da irracional violência
E corre, corre sem parar
E nem adianta gritar
Nem mesmo pega ladrão
A lâmina cega a visão
É tênue a divisão
Da justiça do cidadão
Seja pro bem ou não
Calou-se até o sermão
Da batina do velho babão
Da bíblia suada na mão
Do messias charlatão
Mesmo aqui nessas terras
De grandes proporções
Que tanto abriga as nações
Em terras não possuídas
E infindáveis dimensões
Difícil de crer na verdade
Que se possa ser realidade
Nem mesmo na grande família
De párias e parasitas
Há quem nisso acredita
Seja pelos porões espalhados
Ou no covil das velharias
Nessa cultura arraigada
Nessa pobre e triste sina
De servir como latrina
E na porta dessa pocilga
Entre versos de baixa conduta
Pinceladas de bosta rota
E telefones de putas
Esconderam a anedota
Aquilo que ninguém achou
Em garranchos colossais
Furo de grandes jornais
A frase que tudo calou
Até ser apagada
Pela enxurrada de risadas

“O Gigante Acordou!”


Manoel (Manogon) Goncalves... é homem-filho-irmão-marido-pai-amigo-amante… e é também um Poeta, que parece explicar-se em versos, como se precisasse dizer ao leitor o motivo de sua escrita {não escrevo poesia, derramo sentimentos} afirma e reafirma {não sou poeta escritor, sou vento branco acariciando as madeixas}…

A poesia de Manogon é um andar na corda bamba… gestual, quase circense. É o instante anterior ao abrir das cortinas. O passar das falas no camarim. O último olhar no espelho… o último aviso antes do breu da vida-memória-cena.

Palavra do Editor | Religare

Por Lunna Guedes


Me sentei aqui, diante da janela, do Café entre esquinas, com seus muitos movimentos humanos… para esse conhecido ritual: folhas-numeradas-impressas-lapiseria. E, enquanto esperava que meu nome fosse chamado pelo Barista… me lembrei do movimento de páginas, do livro ‘só garotos’ de Patti Smith — escrito no famoso-fechado Ino, em Nova Iorque.

Aroma do café, pessoas em movimento, mesas-cadeiras e a fumaça dos cigarros a esbranquiçar o lugar. Certos elementos são indispensáveis ao processo de ‘construção’ do projeto-livro da escrita ao jeito de fazer-ser-existir.

Cada personagem nessa trama tem seu próprio ritmo. O escritor Marcelo Moro rascunhou suas tramas, dentro da noite-madrugada, regado a goles de tudo e nada, misturando realidades, alternando possibilidades — dentro e fora de si… e as entregou a mim, como um peregrino, após sua jornada de fé.

Trabalhei a partir dessa rendição. Leituras. Rasgos. Riscos. Rasuras. Re-leitura. Mais riscos. Diálogos. Novas re-leituras… até que tudo se organizasse. Os elementos da trama se uniram-misturaram aos muitos goles de latte e foram se dissolvendo dentro das horas seguintes.

Sai para andar a cidade… e tragar de seu ar poluído levando as histórias a tiracolo. Anoiteceu no meio do passo, enquanto avançava pelas ruas quase-desertas e esbarrava em sombras que são tudo e nada. Os personagens da vida-realidade se apresentavam a cada esquina…

Um mendigo dormia entre jornais… virava o corpanzil de um lado para o outro, tentando se ajeitar em sua desgraça imaterial, sem que o corpo se deixasse moldar à dura realidade das calçadas sujas. Uma dama da noite acendeu um cigarro, iluminando seu rosto com as faíscas do fósforo. Uma criatura andrógina a se vender por qualquer punhado de moedas, o primeiro que passar e pagar: leva alguns minutos.

Me distraí com as janelas acesas indicando a hora do jantar… o som dos talheres. Famílias inteiras se amontoando à mesa. Risos. Silêncios… uma enorme solidão urbana-nada-humana.

Tenho essa tendência… imaginar o que esta do lado de lá, fora de meu alcance. Passo minutos-inteiros com os olhos grudados nas molduras dos apartamentos-casas-lugares… a desvendar esse cotidiano irregular.

A vida acena com os seus muitos personagens… e o Autor leva o que puder-quiser une os pontos e conta as histórias que inventa-reinventa e nos oferece como Maldivas, nos obrigando a espiar vidas que não são suas… silêncios outros, estrondos. Uma realidade advinda de janelas… sempre abertas.

Religare é convite a dança, ao som de um velho vinil, a girar na sonata, despejando no ar a voz rouca-monstro de Patti Smith I’m dancing barefoot / Heading for a spin / Some strange music draws me in / Makes me come on like some heroin/e“…

 


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— R E L I G A R E
Marcelo Moro
178 páginas
$45,00


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Meus naufrágios | Lunna Guedes

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R$ 35

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meus naufrágios não é um livro, é um calhamaço de páginas onde textos se escrevem, em forma de ensaios-crônicas-diálogos, que levam de encontro a um questionamento natural: de quantos fracassos é feita uma vida? Essa pergunta é como um mar em movimento e a palavra flutua através das ondas num curioso percurso de si… sem mapas-bússolas, apenas o passado como ponto de partida-e-chegada.

 

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