Junho | Perigo

Por Mary Prieto


 

Aviso: essa narrativa é também um alerta. Quem quer que tenha esse texto em mãos pode prevenir-se da queda livre e espiralada em imensos abismos. Pode evitar insônia, ou o susto de ser acordado de madrugada sem razão aparente. Quem quer que flerte com as palavras, ainda tem tempo para repensar estratégias de conquista, transformando-as em plano de fuga.

Falo por experiência própria – não que a autoria interesse muito, porque autor só existe durante o exercício de preencher o papel – mas porque a propriedade experimentada de ideia não aceita (nunca!) meias palavras. Os verbos são medusas! Sob um enganoso e oferecido poder de ação, seduzem a manifestação ativa do sujeito pensante (iludido!) de que terá controle sobre as mil variáveis que serpenteiam na cabeça. Não terá.

E é por isso que quem escreve não tem rumo, não tem horário, não tem parada senão vazio… o vazio de esvair-se do fôlego que produz o verbo. A verdade é que não tem nada senão um fio, que chamam fio da meada, mas que em si não diz nada do que se deseja de fato saber.

Também não tem a pretensão de esclarecer, (como o pesquisador) mas de pesquisar a palavra, como um escavador. Os seus fundos são mundos de sede e de água, como as veredas do Grande Sertão, ou o Reino Perdido de Atlantis. A palavra perfeita exige sempre uma odisseia a um reino perdido, sem garantia de existirem ambos: lugar e artefato. Mas é quando apesar da procura, do cansaço e do percalço desértico, elas aparecem lúdicas e lúcidas, que o autor experimenta um nível alcalino de transparência do qual dificilmente vai se esquecer ou se livrar.

O corpo purificado, agora brilhante em conceito, contexto e emanação, não pode e nem pensa, nunca mais, em ignorar o fluxo. Ter servido de filtro ou ter sido filtrado pouco importa em ordem de fatores, o fato é que a clareza da percepção desperta, – e deseja sempre ser mantida – seja no silêncio, seja na expressão.

Converte-se dessa maneira o impulso em manutenção e, para o filtro ter vazão, todo o ciclo recomeça: desertos, medusas, areias movediças, poeiras nos olhos, cansaço, insolação, as veredas do sertão, a sede, e as miragens… até encarar de perto e por dentro o turbilhão-brainstorm que desce como chuva ou que sobe como furação, varrendo e diluindo a exaustão em puro alívio. Depois das enxurradas, o alívio em conta gotas vai pingando do ser escrevente – sal suor e lágrimas – vai germinando sons e imaginações despetrificadas, fotossintéticas, cheias de luz… e de mel.

Ah, e como seduz o doce das sílabas, fadas do vento encantadoras… para quem não as conhece. Eu, criatura transeunte entre paisagens extremas, sugiro, através da água e da terra que formam esse corpo escrito no barro e filtrado por pedras, que talvez seja melhor apelar ao fogo, e queimar esse relato. Quando se é escritor, tudo se consome em pó ou solvente. Quando não se é, também.

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Junho | Tipos colecionáveis ou Personagens Clandestinos

Por Manoel Gonçalves (manogon)


As pedras cintilam pelas ruas. Feito exímio catalogador as examino e determino se vale a pena ou não guardá-las em meu acervo. Algumas podem servir para enfeite, outras para compor cenários, outras ainda, parecem ocultar feições e histórias. São verdadeiros personagens. E assim, vou coletando as espécies e as pegadas que as marcam.
Quando pequeno tinha a mania de colecionar coisas que me pareciam interessantes. Minúsculos tesouros de um desbravador em busca de pequenas aventuras. Nada de serventia ou de valor. Coisas que poderiam ser desde uma pedra diferente, seja pela cor, seja pelo formato, até mesmo uma ponta de lança de portão que por algum motivo curioso acabou parando bem no meu quintal. Tentava imaginar de onde vinha ou quais caminhos percorridos pra chegar até ali. E mais ainda, o que poderia fazer a partir das bugigangas. Às vezes não surgia nada e com o tempo o artefato era descartado para dar lugar a outro encontrado. Mas não raro brotavam do meio das quinquilharias um carrinho Frankenstein com peças variadas e um pedaço de madeira, lança de caçador, um monstro ou algo que pintado daria outra cara, cenário pra guerra de soldadinhos, entre outras invencionices. Tantas coisas quanto a curiosidade de menino poderiam bolar.
Como designer já armazenei inúmeras coisas que depois fui intimado a jogar fora, tanto pela falta de espaço quanto pelo apelo “convincente” da esposa. Mas quem é designer sabe bem dessas manias… Ou não, caetaneamente falando. Quem resiste a uma embalagem bem criada, com todo tipo de dobra ou engenharia de papel? Ou um cartaz bem elaborado, um livro, uma revista. Enfim, uma criação bem feita. Fica pra estudo, pra inspiração, pra motivação a fazer um trabalho tão inspirador quanto. Por esse prisma, o que pode ser lixo pra alguns é combustível pra ajudar no funcionamento da máquina.
Ao me descobrir domador de estrelas, manipulador de sonhos e constelações, artesão de meias palavras ou de falas inteiras, percebi que a velha mania de colecionador não havia me abandonado. Afinal, quem sai de casa e fica olhando os tipos de pessoas que cruzam seu caminho, as formas diferentes de falar ou andar, estaturas, cores, cheiros? Sair de ônibus e prestar mais atenção ao desenho das sombras ou às figuras que passam disformes pela janela, o asfalto que corre rápido ao olhar pra baixo ou o prédio que se arrasta lento ao longe, um gesto do cobrador, alguma cena de passageiros… são desenhos de uma cidade em constante efervescência, criando suas personagens reais, mas de grande riqueza fictícia.
Por essas andanças já topei com tipos ou situações dignas de crônicas, contos, poesias… Algumas se fizeram em letras e linhas. Outras estão naquele amontoado de quinquilharias, esperando se fundirem para dar vida a outras histórias e sentimentos.
Paro no ponto de ônibus, uma mulher se aproxima, pergunta sobre determinada linha. Começa a conversar, falar de sua vida, mesmo que eu nada tenha perguntado. Ela só queria alguém pra desabafar. Talvez se soubesse que sua história poderá ajudar a criar outra ficasse mais feliz. Ou nem tivesse contado nada. No trem o rapaz conta, todo orgulhoso, como fez para enganar a namorada e ficar com outra. Se ele soubesse que bem ali há escritores e escritoras… ou talvez saiba e queira isso mesmo: flashes, holofotes e uma alcunha de “pegador”. De outra vez, desço do ônibus, atravesso a avenida e, logo do outro lado de outro farol, presencio a cena de uma moradora de rua sentada na mureta da calçada, vasculhando os sacos plásticos que carrega. De lá retira uma camiseta, tão surrada quanto a que estava vestindo. Talvez mais leve, mais limpa ou menos usada. Sem a noção de pudor vigente na sociedade que a colocou à margem e sem se importar quem estaria por perto, acostumada quem sabe com a invisibilidade de mobília que foi condicionada a se acomodar, despe-se na parte de cima e fica ali arrumando a camiseta tirada nos sacos, sem pressa para se vestir novamente. Ônibus param e os passageiros mexem, falam asneiras. Um carro praticamente para e, atrás do volante, seu motorista expõe uma face risonha e embasbacada. A mulher vira para o ônibus e veste-se tranquilamente, pega seus sacos e sai pela calçada, levando consigo seus pensamentos e a sua verdadeira história. Eu, espectador clandestino de seu momento, fico apenas com o arquétipo ali representado. Na impotência ante ao fato, na importância do trato, na pressa cotidiana de trabalhador com receio de chegar atrasado e ver descontado parte de seu provento ou de uma possível bronca, saio apressado, impactado e incitado em imortalizar a cena em um poema. Deixar para o tempo futuro o registro de uma cena marcante, uma pincelada da vida real, mesmo que vista apenas por meus olhos, distante da rotina ou da história verdadeira daquela senhora anônima, a qual, muito provavelmente, já observou outras pessoas, outras histórias, outras cenas. Fico a imaginar se ela mesma, um dia, não poderia ter sido uma das escritoras clandestinas envoltas na neblina da cidade e seu ritmo alucinante.
Amantes das letras, esses magos alquimistas de inúmeros ingredientes, cientistas malucos a fazer experimentos com suas peças guardadas, colecionadas e catalogadas, transitam livremente na dualidade da arte que imita a vida ou a vida que imita a arte, mistério que, no mínimo, fomenta suas mentes e fornece materiais suficientes para suas criações.
Sigo coletando impressões, opiniões, sentimentos, texturas, sons, cores e cheiros por aí. E, evidentemente, sei que também pertenço a esses tipos, alimentando a observação de outros autores camuflados no público.

Junho | Caminhos ínvios do escritor que pretendo ser, fui ou serei

Por Caetano Lagrasta, escriba geral do país da galhofa.


Poizé.
O tema exige reflexões:

a primeira: pretendo ser o novo cacique da pajelança literária (não há negar, uma bela definição para uma carreira em todos os mundos dificílima, cheia de obstáculos, invejas, panelas e danças ao pé do fogo); mas pretendo ser um escritor sério, respeitador de pontuações e parágrafos, digno da imensa cultura-pátria; logo, existo; ou seja, em breve estarei de pires ou objeto mais prosaico a esmolar se dignem editores/revisores e alhures a dar uma vista d’olhos aos meus testículos, ops, breves textos que pretendo amontoar em estilo novela ou romance – diga lá quem sabe definir ambos – ou em caso extremado e nada ocorrente neste país da galhofa em “edição do autor”; essa, essa mesma, que a gente se esfalfa também em arrumar ilustrador e dinheiros para tudo; e, aqui, não vai crítica a ninguém que seja do ramo ou que a ele está a se aventurar: dinheiro não tem pra isso, salvo pros iluminados e paneleiros (não no sentido português, de Portugal, da palavra); o que não impede sejam as panelas também constituídas de paneleiros; capítulo dos mais interessantes e prosaicos nos deparamos também ao enviarmos o tal do bagulho à gentil crítica literária do país, constituída dos elementos mais agregadores e por isso mesmo defensores do espaço que a duras penas e muita calça abaixada conquistaram para protegerem amigos e aos outros dispensarem as leis draconianas do desrespeito e da superficialidade dos conhecimentos pelas beiradas; assim, estou a cogitar por onde começo a baixa-las e de que forma irei me integrar nesse mundinho imundo que se convencionou chamar de literatura, daí a pretensão ignóbil de pretender ser um escritor;

a segunda é aquela que foi me amparando nesses anos todos, sob a capa negra do sucesso (pra inglês ou a mamá verem) em que elogios sobraram e por consciência pura saber que não passaram de incentivos – puros na origem e que não pretenderiam que o neném se perdesse nos desvãos ínvios de proteção por parentesco – acabaram-se na venda de alguns exemplares, por favor dos que os compraram, e que jamais foram lidos, até mesmo folheados antes de com o maior dos respeitos lançados ao lixo juntamente com os dejetos mais tristes do próprio cão;

a terceira como sinfonia catatônica e religiosa, defino-a em três palavras: “a deus pertence” e me ponho a imaginar a que deus, que com desfaçatez se apresenta como proprietário de tudo: ideias, devaneios, surtos e outros desvãos da cabeça cheia, quase sempre de cachaças e, até, quando a maré ajuda, de vinhaças e uiscadas; se Macunaíma vivo estivesse com certeza saberia responder a este profundo questionamento também com uma bela e pequena frase: ‘FALTA QUEIJO’ e assim continuaria por muitos destes anos a tripudiar o governante do dia, sem esquecer os encantos das belas índias e seus peitinhos ou peitões de fora, desviando o olhar dos aparatos humanos masculinos, ao temor de aos paneleiros ser confundido;

assim nada mais possa augurar ao jovem ou velho ou temperado escritor do que um feliz natal!

Junho | sem clã…

Por Silvana Schilive


O sol rasga o horizonte, o café me acorda, a vida me leva escadaria acima! Desenho a giz o dia todo, substantivos, pronomes, adjetivos e verbos indicativos/futuro do presente/mentirosos…
O jaleco revela a clandestina que sou!
Grito incessantemente coisas-sem-muita-razão que devem ser ditas, registradas e avaliadas. Pelas frestas da janela o mundo lá fora tenta avançar o mundo pretérito aqui dentro… As ondas wi-fi navegam celulares que tremem também clandestinos em mochilas largadas pelo chão ou penduradas desconfortavelmente nas duras cadeiras do tempo.
A rotina segue o planejamento do curso elaborado a séculos…
Eu grito, ele/ela grita, nós gritamos, eles/elas gritam.
Ninguém ouve! Todos reclamam…
A rotina conjuga a batalha misteriosa da inercia dispostas nos tijolos encobertos pela argamassa das artimanhas do poder.
Uma clandestina sou eu! Rabiscando relâmpagos poéticos nas portas dos banheiros femininos esperançosa por leitoras atentas… Revelando segredos pelas frestas do tempo roubado, enquanto o relógio marcas as oito horas diárias vendidas por preços módicos.
Discretamente vestida, lanço palavras ousada para muitos que não querem ouvir, ansiosos por um sinal de dispensa.
O dia passa… Sem muito acontecer!
A mochila, quase um membro extra… Sorrateiramente esconde as asas da literatura que, por muitas vezes, a salva… Um simples toque silencioso, duas capas se abrem e o voo inicia-se… Transporta-se para lugares imaculados, revigorando sua clandestinidade necessária por tempos sombrios. Saca um poema vigoroso e adentra um novo dia. A luta diária a faz gritar, quem sabe um dia… o silêncio rompido torna-se real aos ouvidos ouvintes.
Quando despe-se ao anoitecer, revela-se em sonhos… Paraísos minúsculos, delicados. Esculpe na brancura do papel, as mais intensas verdades, os medos desenhados nas cicatrizes queimadas pelo sol, transformadas pela chuva. Deixam de existir. Despojada… Revela-se… Entorna-se! Aprisionando o tempo nas palavras lançadas, ora delicadas, ora impetuosas! Assim vinga-se da clandestinidade a qual é submetida rotineiramente…

 

Junho | Rotinas

Por Joakim Antonio


Estou aqui, em meu local preferido, de onde as palavras saem macias pela ponta dos dedos. Como um ritual, chego e faço um café, um dos elementos sagrados da minha comunhão com as letras. Logo após, abro as portas, cumprimento as pessoas e dou bom dia a vida, direto no brilho dos olhos, em cada um. Cada pessoa que chega é um livro. Cada momento, uma crônica a ser contada. E se me fizer sorrir leve, será poesia. Mas essa é apenas uma das minhas rotinas diferentes.

As pessoas acreditam que a rotina as salva do desconhecido. Ledo engano. Vejo-as bendizendo dias iguais. Tudo correu como planejado. O lixeiro passou cedo, a escola abriu suas portas, os pés fizeram o mesmo caminho e os antigos amigos aparecem sempre. Se observarmos bem, esperar tudo formatado e perfeitamente igual, é a mais pura perdição. Se existir um inferno, ele é feito de dias iguais. Nenhuma folha cai. Nunca se encontra um filhote precisando de ninho. E não se olha o céu, sabendo ser sempre azul e não sentindo o chamado das próprias asas.

Mas também vejo as pessoas sendo salvas. Mesmo que reclamando constantemente de algo, que no final lhe dará uma nova vida. Caminhos diferentes que os obrigam a se virar. Pode ser que você me ache louco, mas procuro sempre novas rotas. Aquele algo que falta dentro da rotina, mesmo que ainda não saiba o que ando procurando. Passo do bar da moda, ao boteco do seu Zé. Deixo a linha reta e prossigo formando um semicírculo, até o destino da noite, nunca final.

Muitos me fazem companhia, mesmo sem saber. Quando vejo e compro aquele doce que a pessoa disse gostar, naquela casa com uma plaquinha na porta. Tiro fotos de pequenezas que contam e complementam seus dias. Apareço com um presente-gesto, intuído ao passar pelo arboreto, em direção ao horto florestal. Passo o dia buscando aquele sorriso guardado, ao descobrir o que dá mais prazer a alguém. E não guardo segredo quando as quero. Nem mesmo é secreto o lugar para onde vamos.

Tenho meus segredos, claro. Rotinas malucas que existem apenas em minha mente. Lugares de campo aberto, com orgias de palavras. Locais fechados ao olhos, dos não convidados. Mas também há os físicos. Como os bares com vitrolas ou rodas de choro, em pleno centro da cidade. Num domingo chuvoso, com voz de um bêbado que revela a vida, entre um gole e outro. Chamando-me pelo nome do melhor amigo. Engraçado que por mais que eu diga que chame Joaquim, só me chamam de Francisco. Quando durmo demais e acordo cansado, lembro desse locais secretos e fico pensando. Se não ando por aí, livre clandestino. Com pseudônimo de santo. Atentando quem quiser conversar.

Junho | Criminoso…

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Houve um tempo que evitava declarar ser escritor. Não porque considerasse algo indigno ou vergonhoso, como se confessasse ser um ladrão. Apesar de sê-lo, também. Mas porque, sendo sonho de menino, não acreditava que o fosse, mesmo depois de certa idade e escrevendo muito. Intitular-me um artesão da palavra, se configurava um projeto para o futuro. Cometia o erro de acreditar que faltasse publicar um livro – objeto icônico – que carrega, por si só, o condão de incensar quem o assina, como “escritor”.

A publicação de meu primeiro projeto não me tornou escritor. Assumir a premência de ser um, sim. Consequência de uma necessidade basal – colocar para fora tudo o que me consumia, para não me envenenar com frases mal digeridas e morrer. Ainda que faça parte do contexto, morrer, matar, odiar, amar, construir, destruir, ser franco, saber mentir – viver-escrever.

Porém, para que produza meus textos, estabeleci uma rotina clandestina – roubo meu próprio tempo. Ajo como ladrão, muitas vezes, arrependido. Arrependimento que se dissolve assim que fico satisfeito com o resultado do furto. Já tentei me redimir. Mas quando percebo que minhas expressões vêm a calar fundo em quem as lê, meu receptador-receptor – um leitor, ao menos – produz-se um sentimento de compensação que me faz reincidir-honrar a persona que finalmente assumi.

Eu não apenas roubo tempo. Também rapto pessoas e seus afazeres, surrupio histórias que ouço ou presencio, acompanho passos de tantos, como se fosse um perseguidor. Esquartejo vivências de vários, para criar “Frankensteins” infames. Fuço vidas alheias para chegar a conclusões irreais. Assumo a identidade de outros, cometo falso testemunho. Por vontade confessa, sou um criminoso contumaz.

A tentar equilibrar os afazeres cotidianos, família e amigos, troco o relaxamento do descanso pelo artesanato da escrita. É um ofício vital, com mais erros do que acertos. Contudo, me garante acessar lugares recônditos de mim mesmo. Eu me surpreendo quase sempre em auto revelar quem sou-estou, ainda que tente esconder essa identidade por trás de artifícios verbais – conto do vigário. Entre ações delituosas que me fazem perder e tentativas arredias de me encontrar posso, finalmente, asseverar: sou escritor.

Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro…

I

Suores noturnos
E cantigas de ninar
Nenhum sonho possível
Para quem não dorme
O homem no espelho
Oferece uma moeda
Não existe o que contar
Nenhum sonho plausível
Digno de mentira
Lá fora, do lado de lá
Da madeira velha da janela
Cimento e saturno
Dá me um olho de vidro
Para enxergar luas e anéis
Quem sabe conto meu último pulsar
Dentro do soturno
Numa caixa forrada de veludo
Vinho piegas
Guardei meus escritos
Como sonhos sólidos
A flutuar num oceano de vidro.


 

II

Não vejo fantasmas a indagar
Apenas sua dança serena
Arrancando sorrisos e reações
No final do corredor
Um cigarro aceso e um gole morno no café
Para praguejar
E dançar contigo
Um rabisco de Deus no seu rascunho
Teatro de fantoches
A pensar sobre porquês
Antes que a bomba caia

 


 

III

Já moço
Encontro-me as duras penas
Com plenos futuros
E perdas
Flores raras que murcham
Cores caras que desbotam
Destoam dos gritos agudos
E choros sem mágoas
Fantasmas de adultos
Pormenorizando o menino
Jogastes com suas mãos
Para meu chute, bola de meia
Centelha fina do religare
Que fatia dividindo
Falta e saudade…

 

_____________________________

Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015 e ‘Alameda das Sombras  — ano 2016.

Junho | a minha rotina clandestina…

Por Mariana Gouveia


Sabe amor, …essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.

Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.

Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.

Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.

Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…

Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.

Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.

Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…

E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.

Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!

 

Nem sempre a lápis | Manoel Goncalves

Broto da saudade

Ah, saudade…
Saudade é feito florzinha
Nasce miudinha
Assim picorruchinha
Guardada na alma
Encoberta no coração
Depois parece ficar murcha
Encolhida no seu botão
Mas aí ela vem danada
Desabrocha nuns olhos
Marejados de água
E encontra solo fértil
Nos momentos de solidão
Cresce tímida tal qual broto
Mas rapidamente ganha corpo
E espalha a vegetação
Seria como árvore frondosa
Se não fosse ao menos bondosa
Brincando com a imaginação
É, saudade é um bicho engraçado
Faz um furdunço disgramado
Um nó dentro do peito
Sem deixar respirar direito
Trazendo de volta o passado
A saudade é uma lembrança
Brincando como criança
Com tudo que está dormente
De tudo que a gente sente
Seja pra nos dar nostalgia
Seja pra ficarmos contentes


 

Prisma

Beleza
Está nos olhos
De quem a veja
Não em embalagens
Nas prateleiras do mercado
Não em desfiles chiques
No look de Fashion Week
Nem em catálogos de moda
Pele perfeita e físico foda
Ou na cultura do superpop
Na self ou retoque de Photoshop
Na exploração às suas custas
No desejo de bumbum na nuca
A beleza eu repito
Está nos olhos de quem vê
Porque se for ver a real
Ela pode ser uma coisa pra mim
E outra diferente pra você

 


 

 

Cicatrizes

Entalhado em madeira nobre
Pelo Mestre habilidoso
Lapidado, tratado e ungido
No veio de rio caudaloso
As marcas que hoje percebe
Sulcos da linha do tempo
Marcas próprias da história
De cada vivido momento
Pele embebida em poesia
Magia de aventuras e lamentos
Costuras de alegrias e dores
Uma colcha de sentimentos


 

Manoel Gonçalves (Manogon) é autor de ‘Caminhos Tortos’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli


 

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Palavra do Editor | o livro é seu, não meu…

Por Lunna Guedes


 

Ao correr meus olhos por cima de uma revista especializada em literatura — uma das últimas no gênero mundial — me deparei com um excelente artigo, escrito por um Editor… à inglesa!

Não é novidade… desde que mergulhei no mundo literário, sempre me senti mais propensa ao estilo inglês e francês de escrita.

No cenário literário europeu prega-se a idéia de “editing“… o que significa que o Editor é alguém que corrige, anota, sugere alterações, risca e rabisca sem receios e, às vezes, muda “todo” o conteúdo… dando nova forma e, sobretudo, melhorando as linhas que compõe o escrito. E não apenas, seleciona títulos e subtítulos para publicação, função específica de um publisher.

No artigo que chegou aos meus olhos, o Editor conta algumas de suas experiências com autores. E nos apresenta uma conclusão necessária, porém, muito difícil, a qual chegou depois de muito esforço: “o livro é seu, não meu”… para em seguida dizer em voz alta: “mas sem mim, não existe livro, porque exageros não vendem e escritores tendem a ir em frente, sem saber quando é o melhor momento de parar”.

Me lembrei — imediatamente — das inúmeras reclamações que eu já ouvi desde que escolhi alinhavar palavras com agulha e linha — exigindo o melhor conteúdo de meus autores.

Recentemente uma autora — após enviar seus escritos —  me disse: “mexe, mas não mexe muito, porque eu tenho ciúmes das minhas coisas”.

Respirei fundo e tracei minha estratégia a fim de fazê-la enxergar que o conteúdo precisava de cuidados. Sugeri mudanças, como se fosse uma vendedora dessas lojas de roupas: “olha, essa não ficou bem em você, quer tentar outro modelo?”.

Mas já houve susto-espanto-desconforto-e-outros-tantos-punhados-de-reações quanto as sugestões apresentadas… porque o autor trabalha com sua idéia — sem ressalvas ou cuidados. Muitas vezes, trabalha a exaustão física… e quando entrega suas linhas a alguém, acredita ter feito o seu melhor… e na maioria das vezes, ele quer receber apenas afagos — elogios —  para amenizar o cansaço…

É um fato bastante complicado/delicado quando o Editor se apodera de um material para “lapidar”… muitos afirmam que editores são em sua maioria, escritores frustrados: “falta-lhe o dom da concepção —  dizem os mais revoltados.  São úteros vazios — afirmam com veemência os mais alterados — resta-lhes apenas a adoção do que é alheio”.

É raro um material chegar pronto às mãos de um Editor… e seu trabalho não é nada fácil. É necessário respeitar a voz que lhe chega em intermináveis frases.

Um bom editor precisa saber calar a própria voz… ter bom senso e, saber exprimir o melhor do material literário que tem em mãos e, que pertence totalmente ao seu autor que, receberá todos os louros das linhas escritas. Restando ao Editor, o anonimato… as sombras! O seu nome escrito, sem destaque, em algum canto do livro…

Um Editor é uma figura descontente-insatisfeita… que tem sempre exigências a fazer e tem plena consciência de que seu nome estará atrelado ao de seu Autor e, se ele fracassar, não o fará sozinho. O Editor não prova do sucesso, mas, saboreia todo o fracasso e vai para o limbo com o seu autor-livro, afinal, foi ele quem deu o aval e o disse estar pronto — autor e livro — para encarar o universo editorial… e os entregou aos leões — os leitores…

Para encerrar, acredito que, fundamentalmente, um Editor precisa ser possuidor de imensa compreensão, afinal, tirar uma vírgula, acrescentar uma palavra, sugerir cortes… pode fazer do Editor um vilão para o Autor que nem sempre consegue compreender que, para ser um diamante… uma pedra bruta precisa ser lapidada

Nota do autor | Vox literary

Por Marcelo Moro


ser escritor: a minha voz de escritor


 

Sempre que leio… e leio sempre em voz alta, imagino as vozes do autor e de seus personagens, como seriam de fato.  Quando o texto é bom, quando absorve e leva junto é mais fácil imaginar essas vozes e o porquê de serem como são. O conceito de voz deve estar implícito na formação do personagem. Mas não é tão somente a voz que se ouve que interessa ao leitor atento.

Da nossa voz de autor, em som, só se percebe uma ínfima porcentagem quando a grande maioria é o silencio sapiente e sepulcral das ideias representadas pelas letras frias sobre o papel. Minha voz de autor está naquilo que destilo, brota dos rasgos que produzo na própria carne para expor a matéria da alma. Uma espécie de vocalização imaterial que vaja em ondas de energia transparente e plena, o plasma que se conecta em tantos outros laços até os sentidos do leitor.

Eles e Elas me ouvem… sabem os sotaques e a dislexia. Tentam adivinhar a próxima palavra ou rumo e se arrepiam por inteiro quando se veem surpreendidos por tons acima, como as fugas fortíssimas das sonatas e sinfonias.

A voz conduz o verbo, leva na correnteza de ar soprada diafragma acima, calor, dor, prazer, intensidade e brilho, entre todas as outras sensações. É fato que as vezes a voz embarga, embaraça, enrola e tropeça nas palavras tudo multiplicado por dez quando a audição é a do aparelho sensitivo. Nasce como rio e devora as almas como o mar essa voz ditada calmamente aos ouvidos, lucidamente clara e indignamente pesada quando preciso for.

É voz de ouvir sentindo, vivenciando, experimentando as paixões mais absurdamente mágicas, ora belas, ora tristes, ora belissimamente tristes. Tem quem ouça como um alegretto de Vilvaldi o rompimento do cinza gelado invernal para o colorido agradável primaveril.

De verdade em verdade voz digo, a voz do autor é a emulação da realidade, é o vento que acaricia o cabelo da menina mais bela enquanto desce o ocaso.