A ordem no caos

Por Manoel Gonçalves


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Não, não estou escrevendo sobre o país nem fazendo menção a qualquer movimento imputado à sociedade por vias duvidosas. Embora a arte não deva fugir ao seu papel de estar integrada e mexer com a percepção do cotidiano. Mas, ao ser questionado sobre como organizo minha biblioteca, a primeira coisa que me veio à mente foi essa frase do título. E para reforçar a imagem basta dizer que atualmente estou sem um lugar adequado para armazenar e organizar livros, apostilas e cópias. Até que a estante fique pronta, certo caos impera na minha (des)organização.

Mas assim como no exercício da criação, no qual se inicia com um emaranhado de ideias e situações, uma série de pontas soltas, beirando um cenário caótico, para dali emergir uma linha, um caminho, algo a seguir, minha “bagunça” tem uma ordem que pode variar com o tempo.

Nessa conjuntura do país, por exemplo, deixaria à mão livros como 1984 ou Revolução dos Bichos, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas não dispensaria um dos preferidos que é O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Livros que retratam polaridades, controle, inquisição, manipulação e distopia. Infelizmente, coisas bem próximas dos dias atuais.

Sempre tenho algum livro de poesia por perto. Não para ler se forma sequencial como um romance. Já fiz assim também. Mas um texto poético merece uma pausa, reflexão, às vezes até solidão. Café ou vinho também podem fazer uma boa combinação. Penso a mesma coisa sobre os contos. Cada conto deve ser “digerido” sem pressa. Sentir as palavras, o desenrolar das frases, da intenção do autor.

Às vezes tento seguir a ordem de leitura por aquisição ou presente, mas com leitura nem sempre funciona assim. Há casos em que somos “atropelados” por algum título, que as personagens parecem gritar de seus livros e nos chamam a atenção, como se nos puxassem pelas mãos quando passamos os dedos sobre suas lombadas. Aí a fila se forma e alguns livros parecem impacientes como se o lembrassem a todo momento que você ainda não o pegou para ser lido. Nessa linha tem um que está quase me batendo (risos), Os Miseráveis, de Victor Hugo.

Ultimamente, tenho lido bastante coisa de escritores talentosos e que não são alardeados pela mídia. Pessoas que conheço em eventos literários ou saraus e que batalham bastante para ter sua voz em um mercado sem muito incentivo e de muita paixão. Tenho aí, também, um bom tempo de leitura atrasada, pois há uma fila considerável de bons escritos a apreciar.

Dessa forma, alterando ordens de vez em quando, influenciado pela emoção, por indicação ou por necessidade, vou organizando minha biblioteca ou pincelando do meu caos a ordem que se encaixa melhor no meu gosto.

Ps: assim que a estante for montada prometo dar uma ordem aos livros. Ou não, rs.

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Resenha | Indizível

Por Adriana Aneli


indizivel

Antidotum tarantulae ♫

 

… miudezas tão imensas
miudezas que percorrem a intimidade
e permanecem
miudezas perenes
serenas melodias de sol
.

 

Para algumas pessoas, a poesia acontece na pele… para outras, fala ao coração. Para mim, a poesia acontece na boca do estômago, “cachoeira em ebulição/corredeira dentro do ventre”. A palavra é experimentação e, cada livro, uma nova jornada.

Atravesso o portal Indizível, de Bianca Velloso e Vê Almeida. É ali — onde as ervas têm flores e a palavra é maresia — que o amor acontece.

.
luz de acender o verbo
imagem que se faz verso
que se faz carne

De mãos dadas, poema e fotografia executam seu compasso binário, parceria inevitável em círculo convulsivo: imagem que sussurra versos, instantâneo capturado na alma. O poder feminino do poema: possuir e prender.

Elas nos levam, lycosa tarantulae, por sua febre. Em paisagens de paixão e melancolia, dançam: veneno inoculado, vida em suspenso.

Indizível é silêncio… Calado num talvez, num quase, espiado por trás da janela, barra de vestido, mãos e bocas em delicadeza. A estrada sem volta é sonho e sonhar, fabricar coincidências.

Indizível também é grito e espasmo. Certezas desfeitas pelo benefício da dúvida: as histórias acontecem por trás do voal e por isso tomam a forma de gigantes: “fale de sua aldeia…”; Bianca e Verônica falam para o mundo:


tudo aquilo
que já não cabe
na cidade
cabe dentro da praça
:
A praça ainda cabe na cidade

Indizível transformado em gestos; caminhos percorridos com pés descalços. Aqui a poesia acontece: no estômago, na pele, no coração.


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Resenha | Dentro de um Bukowski

Por Marcelo Moro


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Foi apreciando uma poesia que falava de uma pedra que conheci Aden Leonardo — numa dessas madrugadas insones tão comuns para mim —, e depois descobri , tão comuns para ela também.

A pedra poderia ser na Lua ou em Marte, como gostam meus exageros, mas era uma pedra em Itaúna e, de tão curta descrição, me levou a imaginar um Everest dentro de uma caixa de fósforos… e me deu vontade de ouvir Wagner.

Sendo assim, segui seus ensaios e crônicas, sempre atualizando o cotidiano, o pãozinho do padeiro, a moça no ponto de ônibus e o beijo dos meninos terráqueos.

Troquei com ela algumas impressões, versos, cenas… e tive o prazer de conhece-la pessoalmente no lançamento dos Sete Pecados femininos, no coração da besta, na Pauliceia Desvairada… e logo ela, tão cheia de desvarios.

Dentro de um Bukowski”, é seu livro de estreia (e que estreia)… deslizar pela pele de cordeiro do velho Lobo é um ato desmedido de coragem, é um desvario ousado, e a moça Aden com seu tom quase juvenil — não só o fez, como deixou cair as máscaras do velho Buk.

Confesso que matei o livro naquela tarde/noite do lançamento enquanto voltava de São Paulo para Americana, e necessitei beber um pouco para iluminar de uma só vez os becos escuros iluminados aos poucos por Aden Leonardo na sua viagem… e é fantástico o número de caminhos propostos ao leitor.

Sempre que lia algo de Charles Bukowski eu ignorava as resenhas e evitava as críticas literárias, afinal, o velho Buk escrevia para mim… e, Aden, em seu excelente trabalho, escreveu suas linhas brilhantemente amarradas, de dentro do lobo… e já sem o disfarce.
Li mais algumas vezes ele todo… num gole só. E desce sem engasgar, queima na medida certa.

“Dentro de um Bukowski” traz Los Angeles para dentro de Itaúna, como o Everest para caixa de fósforos e… só me basta aplaudir e tomar mais alguns drinks em homenagem à tentativa totalmente bem sucedida e desassossegada que Aden Leonardo fez, ignorando o aviso da lápide do Velho Buk que diz “Don’t Try”.

Aden Leonardo é para mim a melhor ensaísta da nossa geração, e “Dentro de um Bokowski”… um dos melhores livros lançados em 2015.

Em tempo, quero destacar o efeito da arte do Livro concebido pela artista Lunna Guedes, aquela obra é como a mágica saindo e voltando para a caixa do mágico, sem mais…

Um salve para Charles Bukowski!
Um salve para Aden Leonardo!

 

 


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Resenha | Café Aneli

Por Emerson Braga


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Você já bebeu café Aneli? Não? Bem, vamos à receita: Pegue uma jovem linda, formada em Direito pela USP; adicione uma pós-graduação em Direito da Família e Mediação de Conflitos Familiares; acrescente à mistura um punhado de dramaturgia, uma boa dose de literatura e derrame sobre tudo muita graça, inteligência e irreverência. Depois, leia até encorpar. Pronto! Está servido o café Aneli, uma delícia em forma de microcontos, capaz de satisfazer até os mais exigentes apetites literários.

É verdade. Adriana Aneli e seu livro, Amor Expresso, parecem uma receita maluca que combina coisas bem diferentes, mas que deu muito certo.

Amor Expresso nos fala de uma humanidade transformadora, da alquimia que converte alimento em gestos de luz. E, nem por isso, deixa de trazer o sabor amargo dos arrependimentos, o gosto acre daquilo que poderia ter sido e não foi. É impossível não se deixar levar pela maneira suave com a qual Adriana nos cativa com histórias curtas, enquanto suas palavras nos aquecem por dentro. Em seu livro, nos deparamos com construções lindamente apuradas, como nesse trecho do texto Homo fugit velut umbra: “Quando a luz natural invadiu o quarto, não encontrou a si mesma no espelho”.

Antes do café, desabrocha — com sutileza — o que se passa durante o tempo de espera. Aquele momento em que tudo parece um hiato, quando ninguém está olhando: é aí que as coisas acontecem. No texto Amizades Particulares percebemos a narradora ousada, que desconstrói nossa primeira impressão e revela outra imagem por debaixo do verniz que se impregna sobre a superfície das coisas.

O café se encontra em todos os textos não apenas como coadjuvante das histórias — batizadas com nomes de filmes, pinturas, músicas, contos, romances, novelas e poemas que a escritora saboreou no decorrer de sua vida —, mas como criatura oracular que observa o desenlace de muitos destinos. Amor Expresso é um convite à simplicidade. Nos leva a descobrir substitutos singelos quando a vida que vivemos nos é roubada, como lemos em O pescador de ilusões.

O livro apresenta pequenos gestos de rebeldia, daqueles que dão liberdade em drágeas (Gato preto, gato branco). Também fomenta o leitor de quentura e sabor capazes de salvar uma existência, mesmo quando tudo parece insípido (Um dia perfeito para o peixe-banana).

Lá, nos chocamos com aquelas esperanças que se perdem quando o objeto de nossa paixão rejeita toda a graça e sabor que temos a oferecer. Podemos revisitar a quebra do encanto que experimentamos ao descobrir que as pessoas mudam, que deixam de atender nossas infantis expectativas. É um livro capaz de nos apresentar a mais sórdida das vinganças através de posturas que, a um olhar desatento, pareceriam inócuas, como percebemos em O ovo da serpente.

Recomendo atenção na leitura de A vida em preto e branco, que é um belo retrato poético dos encontros que realmente valem a pena.

Adriana Aneli nos brinda com refinado humor ao transformar situações cotidianas em eventos dotados de deliciosa pirotecnia, como revelado nos contos Mesmo se nada der certo, O diabo veste Prada e O jogo de emoções.

Amor Expresso é um livro que nos amorna por dentro. Verdadeira experiência astronômica que delicia com o néctar extraído do grão da palavra. Enfim, trata-se de uma linda declaração de amor.

E você? O que está esperando para provar dessa leitura quentinha, saborosa e que não esfria, até a última pagina?

 


 

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Dedica-se…

“À memória de ‘Erneste Becker’(…)”

 

Ao preparar um livro para a impressão, depois de realizado todo o processo de edição-revisão, e uma vez aprovado por todos os envolvidos no projeto-livro… é necessário  ao paginar — reservar espaços para o Autor, que geralmente… quer dedicar o seu feito à alguém. Não são todos que o fazem… mas há dedicatórias curiosas, que contrariam a monotonia e fogem do script habitual de obrigação de dizer que o livro foi feito para a mãe-pai-amigo-irmão-esposa-filhos…

Hilda Hilst escreveu, imediatamente na primeira página do seu livro de poesias a frase solta… sem Norte-Sul-peso (acima mencionada). Já tinha lido o livro algumas vezes, quando me deparei com a dedicatória deixada ali… porque não sou o tipo de leitora que se ocupa do destino dado a um livro, pelo seu autor.

Dedicatória é pessoal e, na maioria das vezes, é monótoma e não sabemos a quem pertencem os nomes deixados ali… quem é a alma, que de alguma maneira, participou  ou não  do livro.

Mas, ao dar pela dedicatória… fiquei intrigada. De imediato tentei imaginar o que teria levado Hilda Hilst a dedicar o livro “à memória” de alguém.

Gostei do som da palavra dentro da frase… e da frase como um todo. Eu sei quem é Erneste Becker. Conheço alguns de seus feitos. Mas, e se não o soubesse?  o homem que determinou a “ciência do mal” e que gritou que “a morte é a verdadeira fonte da fragilidade do homem”

Se eu nada soubesse acerca dessa figura humana, além de um simples nome deixado ali… feito uma sombra que surge para seu conforto no meio de uma rua, em uma tarde de sol quente, em pleno verão? Seria diferente?

O fato é que ao paginar um livro, pergunto ao autor: irás inserir dedicatória? E já ouvi respostas bem interessantes, a melhor até agora foi quando o Autor me olhou e depois de alguns segundos quieto, disparou: “eu devo? Mas, a quem?”

 

Regras de um bom Editor…

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Terminei a leitura do livro de memórias de Bennett Cerf… fundador da Random House e, Editor de James Joyce, Truman Capote… entre outros tantos-muitos nomes da literatura, em língua inglesa.

Cerf (deu sorte) ao viver uma época especialmente rica em talentos. Mas, enfrentou um dos piores momentos da história…  o famoso crash de 1929. Trabalhou feito um louco… acumulou vivências e um bom quinhão de histórias  algumas divertidas, outras nem tanto  para serem contadas nas muitas páginas de um livro de memórias.

O Editor Cerf tinha os seus sagrados mandamentos — como a maioria dos editores, deve ter — e, segundo consta, os matinha anotados, na primeira página de seu diário-pessoal, que ficava posicionado estrategicamente, em sua mesa de trabalho. De tal maneira, seria sempre o primeiro e o último item do dia… onde pousar os olhos.

Sempre que o abria… esbarrava o olhar nas suas regras pessoais de editor.
Check.

1. Ter boa memória e alguma imaginação
2. Ter um vasto leque de interesses
3. Usar de considerável diplomacia
4. Perceber que a paciência é uma qualidade indispensável
5. Ter sorte.

 

R E D E M O I N H O

A Revista Literária Plural completa mais um ano de existência… nesse ano. E vamos firmes-fortes-valentes para a última edição — R E D E M O I N H O  para provar que com muito trabalho-empenho-dedicação, um pesado gole de café e com muita paixão envolvida… se consegue fazer um belo e delicioso trabalho.

Com o propósito de divulgar a literatura contemporânea, nos seus diferentes estilos-linguagens, e partilhar da visão de mundo dos nossos pares… esse último volume espera contar com a vossa participação.

 


contos-ensaios-poemas-crônicas-artigos

 

Para quem queira participar, envie-nos as vossas linhas:
scenariumplural@gmail.com até o dia 20 de outubro

 

perfumes e palavras

Por Lunna Guedes


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Um dos primeiros livros publicados pela Scenarium foi: “perfumes e palavras”, de Ingrid Caldas, que escrevia poesias em seu blogue pessoal, que serviu de ponte para o nosso encontro real.

Eu nunca me considerei uma blogueira e sim uma pessoa que tinha um blogue, usado como gaveta-caixa onde deixar-abandonar meus exercícios de escrita e que me aproximava de outras pessoas pelo prazer de ler-conhecer-saber… uma troca.

Nos sentamos no café entre esquinas e demos início ao processo de colheita. ‘Folheamos‘ as páginas de seu blogue… e selecionamos 50 poemas, para compor o que eu chamei de ‘série exemplos’ — uma das muitas ídéias que tive, ao criar o selo artesanal, em parceria com o Marco, responsável pela qualidade impressa  sempre elogiada  de nossos livros.

Eram os primeiros passos da Scenarium… o que nos permitia experimentar os formatos. Nada estava decidido e tudo mudava de um dia para o outro. O tipo de papel usado na capa-miolo… de fita na costura dos blocos e a maneira como furar os livros.

Foram muitos erros e poucos — quase nenhum  acertos. Irritamos autores-leitores e a nós mesmos. Houve dias mais difíceis… que pôs a prova a nossa paciência, bom humor e comprometeu a nossa paz. Não passou um único dia sem que tivéssemos uma escolha a fazer, uma decisão a tomar. De caminho a percorrer. De norte a seguir. De intuição a acatar. De coração a ascuitar.

Não recuamos diante das dificuldades-erros-e-transtornos, nem mesmo quando o desânimo insistia pelas paredes do corpo-pele-alma. Às vezes, é preciso ir até o fundo. Aprendi com a realidade que quando se vai ao fundo, é preciso olhar para cima e ver quem nos espia… estende a mão, e quem vai embora. É justamente quando sabemos com quem iremos contar no tal do dia seguinte… ou não!

O livro ‘perfume & palavras‘ teve uma primeira edição simples… como foram os nossos primeiros livros. Trinta exemplares… vendidos na noite de lançamento. Cometi erros… que resultou em sorrisos-amarelos-abraços-fortes e na fala carinhosa-gentil da autora: ‘na próxima você acerta‘.

Fizemos nova edição recentemente… com capa gráfica-artesanal e miolo com a qualidade atual, que a Scenarium leva aos autores-e-leitores e que me fez ter certeza de que valeu a pena insistir.

Eu poderia ter desistido e ficado pelo caminho  mas resolvi errar… até acertar. E cá estamos nós, nesse scenarium… composto pelos personagens, que assim como nós, assumiram o risco do erro… merci. 

Adriana Aneli

Lembro-me — e não sou boa em recordar pessoas — de nosso primeiro contato: apressado.  Seu passo pequeno sem deixar rastros. Olhar dissimulado… sem vertente de fazer somas. Nem mesmo voz parecia ter… foi apenas um gesto: cartão deitado em minhas mãos.
Bastou, no entanto, uma xícara de café, para sabê-la Mulher… de palavras e traços… de azul a bordô. Uma sombra no chão a marcar seus contornos, como se calculasse o espaço vago para si mesma.
Sempre breve e exata… um expresso degustado no final da tarde. Um bom presságio para um diálogo que não retorna… se espalha e se conjuga com sorriso esquadrilhado.
Foi café-amor, com narrativas que são tatuagens em busca de pele… e em linha reta foi… diário a narrar as peripécias do verão ao inverno, em poucas horas.
Também é poesia… missiva… é tudo que o papel aceita quando o silêncio se aconchega e e pais, mar… um céu esquecido. Memória. Ausência das horas. Caderno aberto. Xícara de chá quente. Um degustar demorado.

Senhoras e senhores: Adriana Aneli

 

 


 

Autora dos livros
| amor expresso | a construção da primavera | o sol da tarde |

o meu scenarium editorial

Por Lunna Guedes


“Ter sorte é imprescindível — a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência”…

Kurt Wolff — editor


Assisti mais uma vez ao filme Genius  o mestre dos gênios  em que Colin Firth interpreta Max Perkins, editor da Scribner que, além de descobrir e publicar, aturou as intermináveis bebedeiras do signore Hemingway, emprestou grande soma a Fitzgerald e perdeu tempo-saúde-física-e-mental com Thomas Woolff.

O filme é baseado no livro, que narra a história do homem, por trás dos gênios literários… e nos lembra que Editar livros é um processo de troca que exige generosidade de quem escreve e de quem corrige os originais  escolhendo o que salvar-descartar-rasurar-reescrever. Partindo do principio que todo texto é uma pedra bruta… que precisa ser lapidada.

Em uma das cenas mais deliciosas do filme… o personagem, interpretado por Jude Law, entrega o seu segundo livro  cinco mil páginas escritas à mão  uma obra de arte, segundo ele mesmo, nas mãos de Perkins, que determina o prazo: nove meses de trabalho  se o autor conseguir conter suas euforias-rebeldias…

Não existe um único Editor no mundo que não tenha histórias chocantes-curiosas-engraçadas acerca de sua realidade editorial.

Eu não planejei editar livros… os caminhos que eu percorri, me trouxeram para essa curiosa e perigosa estrada. Aprendi o ‘riscado’ com pessoas generosas-pacientes, que me disseram para nunca abandonar o ‘instinto’ e sempre respeitar o meu ‘olhar de leitor’.

Me lembro do primeiro original que ‘recebi’… para editar, sob a orientação e supervisão de A.G  com quem tive o prazer de conviver diariamente durante seis meses. Foi um aprendizado… sem o peso da responsabilidade. Gostava imenso de me sentar em sua companhia  em sua sala repleta de livros por ele editados-e-publicados  para lhe apresentar minhas anotações… um conjunto de folhas riscadas-rabiscadas… com trechos ignorados-reescritos e um sem-fim de anotações particulares.

Quando optei pela Scenarium… também não houve planejamento. Era apenas um projeto pessoal. Um caminho para os meus passos  um andar solitário. Quando dei por mim já estava a ler originais confiados a mim e a fazer anotações. Descartei manuscritos e recomendei cuidados com uma estranha naturalidade.

Ainda me lembro do olhar de espanto de uma Autora que me apresentou os seus originais. Cinquenta poemas que, após leitura atenta, comprovei que precisavam de cuidados. Não estavam prontos… eram escritos de gaveta, sem um segundo olhar do autor-poeta. Qualquer leitor perceberia essa condição.

Cortei-risquei-rasurei-anotei-dúvidas e ganhei minha “primeira inimiga”… que deixou o café entre esquinas indignada com a minha audácia  a esbravejar em voz alta: ‘poesia nasce pronta, não se edita’.

Eu, contudo, só conseguia pensar em Mário de Andrade… seus originais repletos de riscos-rabiscos e nas considerações feitas acerca de seus escritos. Amém.

Envio de originais

Caro autor,

De 17 de setembro à 31 de outubro de 2018… a Scenarium livros artesanais receberá novos originais.

Antes de enviar o vosso original, peço que confira as ‘instruções para envio do seu original‘ descritas abaixo.

 



A Scenarium livros artesanais publica: contos, crônicas, poesias e romances na categoria adulto. Não publicamos títulos que se afastem desta linha editorial.


 

Prepare o seu original, seguindo as seguintes características:

Documento. Word
Fonte: Times New Roman
Tamanho: 12
Espaçamento: 1,5.

Na folha de rosto, coloco as seguintes informações:

Titulo da obra
Nome do Autor
E-mail de contato

Nomeie o seu arquivo com o seguinte padrão:
Nome do autor_Nome da obra_Gênero (poesia, ensaio, conto, crônica, novela ou romance)

Ex: Mar de dentro_Lya Lyft_Crônica

Faça uma breve descrição de vosso livro: 10 linhas, no máximo.
Em caso de romances: acrescente o primeiro capítulo da história.
Contos, poesias e ensaios: favor enviar 03 textos completos.

Na linha de ASSUNTO do e-mail… favor anotar: “Original Scenarium 2019 (Gênero do livro)”.

Ex: “Original Scenarium 2019 Contos.

 

E,  no corpo do e-mail, o autor deverá acrescentar uma breve biografia.

Envie para: scenariumplural@gmail.com.


 

A Scenarium livros artesanais informará através do e-mail informado pelo autor, até o dia 30 de novembro de 2018, se a proposta apresentada foi aceita para publicação em formato artesanal.

Os originais selecionados serão publicados a partir de março de 2019.

 


 

Em caso de dúvidas, entre em contato
scenariumplural@gmail.com.

Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

Obdulio Nuñes Ortega — o homem — nasceu como todos nascem, do ventre de uma mulher, após nove meses. O escritor, no entanto, foi gerado pela Realidade… pelo mundo-vida… e alimentado diariamente com as muitas cenas de momento. Cresceu… entre corpos-esferas — transpassando-os. Naturalmente observador-contestador… se deixou enraizar no corpo do homem, de onde emerge para reconhece a si nos outros ou seria os outros em si?

Obdulio, Rua Dois

Scenarium — O título de seu livro é ‘Rua 2’. Como é a sua relação com a rua?
Obdulio — Quando cheguei à ‘Rua 2’, a região era quase deserta. Durante muito tempo, não havia asfalto. Nem água encanada. Puxávamos água de poço. O esgoto era de fossa séptica. O fornecimento de luz elétrica era intermitente. Tapumes de madeira nos serviam como portas e janelas. O chão era de “vermelhão”, as paredes, de cimento cru. Eu jogava bola na rua com os vizinhos, apenas tomando cuidado com a passagem das charretes e dos pouquíssimos carros. Nessa época, tinha uma relação mais íntima com a rua e era mais conectado às pessoas. Ao longo dos anos, com a melhoria das condições estruturais e padrão de vida, as relações sociais se tornaram menos íntimas. Hoje, a rua serve apenas como caminho para chegar e sair. Contato com os vizinhos, apenas esporádicos e rasos, com alguns poucos mais próximos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Obdulio — Foi errático. No início, até que fluiu com certa facilidade. A ideia central que o permeava era diferente da que acabou por prevalecer. Eu o havia intitulado “Viver E Morrer Em Movimento”. Após haver a percepção que a origem dos personagens era a mesma – a periferia – surgiu a forma que se estabeleceu: personagens que vivem na mesma rua, a 2. Algumas histórias se imbricam, para além da localização em que moram. Por quase um mês, fiquei sem escrever uma linha. Um conto que acabou por não fazer parte do arranjo final, destrancou a porta pela qual continuei a caminhar.

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Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Obdulio — Gosto francamente de alguns personagens. Principalmente daqueles que chegaram sem pedir licença, como a da Casa 4. O da Casa 1, é um moço que conheço particularmente. Pelo “Morador da Rua 2”, tenho muito carinho e o da Casa 18, talvez tenha características parecidas com as minhas – quando criança, desejei ser motorista de ônibus. Estranho, já que nem dirigir automóvel, dirijo…

Scenarium — Antes de Rua 2, você publicou um livro de crônicas ‘REALidade’. Como foi migrar da crônica para o conto?
Obdulio — Sempre pratiquei escrever contos. Mas não tão curtos como os da Rua 2. Aliás, peco pela prolixidade. Estou aprendendo a me conter. Gosto de detalhar, talvez até demais. Tive a orientação de Lunna Guedes e sofri a influência de Adriana Aneli, de Café Expresso.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Obdulio — Se gosto de respirar?…

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Obdulio — Amor e desamor. Quando mais novo, comecei a ficar muito envolvido com a literatura. Lia e escrevia compulsoriamente. Erroneamente, acreditei que a isso me afastava das pessoas. Costumo dizer que vivia mais literariamente do que literalmente. Eu me afastei radicalmente. Exageros de minha personalidade. Acho que agora mantenho uma relação mais equilibrada com ela.

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Scenarium — Quem são os seus pares?
Obdulio — No Romance, Machado de Assis. Na Poesia, Drummond de Andrade. Na Crônica, Lourenço Diaféria e Érico Veríssimo.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Obdulio — Mais uma vez, Lunna Guedes, por intermediação de Edward Hopper. Eu estava, junto a um grupo de amigos, em visita ao estúdio de Maria Cininha, que já ilustrou para a Scenarium Plural – Livros Artesanais. Lá, encontrei um livro com obras do pintor Edward Hopper. Eu me apaixonara por seu trabalho desde que o conhecera pela Internet. Depois de explorá-lo por duas ou três vezes, abri a porta para uma nova visitante, Lunna. Continuei a folhear o livro enquanto era observado por sua insuspeita proprietária, que havia emprestado a obra para Maria Cininha. Após Hopper nos apresentar, desenvolvemos a relação literária, através das redes sociais, onde publicava os meus textos. Lunna me apresentou o projeto artesanal da Scenarium, bastante encantador por sua proposta na busca da expressão literária independente de esquemas mirabolantes e improdutivos e da relação direta do escritor com o leitor. Um fator enriquecedor.

Obdulio e Marcelo Moro

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Obdulio — No meu caso, sim. Busquei, desde a época do Orkut e do início dos blogues, divulgar os meus textos. Depois, no Facebook. Porém, como alguém já disse, sendo “terra de ninguém”, talvez não seja a melhor plataforma de expressão. No entanto, apenas recentemente consegui desenvolver a minha página na WordPress, que tem sido a minha principal atividade, além das publicações da Scenarium.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Obdulio — Com a minha atenção voltada para a produção de Rua 2, fiquei afastado de leituras mais atentas, a não ser nos blogues. Publicado o meu livro de contos, inicialmente colocarei as publicações de meus colegas de selo em dia. São autores aos quais admiro e gosto de acompanhar.