Coluna Plural | A VIDA É BELA

Por Adriana Aneli

 


 

Não mente sempre a arte? E não é quando mente
mais que ela se revela mais criativa?

Konstantinos Kaváfis,
Reflexões sobre poesia e ética.


 

 

Não sei dizer dos animais, senão do homem que os copia. A mentira é a linguagem do mimetismo, a evolução possível: o processo pelo qual nos adaptamos a cada nova situação, conforto na guerra.

Ludibriar, manipular. Há vários propósitos em mentir: enganar, iludir… Os mais óbvios; o mais nobre? Reelaborar certezas e, assim, criar realidades falsas e, por isso, menos dolorosas. Este o papel da arte.

Mentirosos são mestres da ficção e, neste passo, subvertem a consciência do provável, pela mágica delicada do imprevisível. Nada difícil, portanto, entender por que poetas são fingidores: escrever é mentir e mentir — poupar leitores da passagem do tempo.

Quem fala a verdade, vai repeti-la no dia seguinte ou daqui a um ano; mentir é criar truques de ilusionismo, trazer o passado para agora, no instante mesmo em que começa o futuro.

Acreditar naquilo que se queria por verdade, é o primeiro passo para transformar ideias. Preparar na fantasia seu exército de camaleões, prontos a desarticular o modelo esgotado de realidade e gerar novas sínteses emocionais que produzam oxigênio —  num mundo em que há tempos não consegue respirar.

Talvez, só talvez, a mentira seja a lanterna dos afogados, onde nos agarramos temporariamente. Seguros entre poemas e contos, personagens imaginários; sonhamos asas – enquanto sabemos que pernas curtas estão prestes a congelar na verdade escura.

 

Anúncios

RESENHAS | Crônicas da vida pensada em silêncio…

Por Adriana Aneli

 

O encontro é em seu território. O anfitrião chega à página 07 e dedica o livro para mim, que o lê, e a Edward Hooper… a solidão cosmopolita humana. O convite é para seu ato de criação, às forças interiores que mobiliza para expor sua coragem em todas as minhas contradições e pecados — dos quais, aliás, muito me orgulho”.

Continue lendo “RESENHAS | Crônicas da vida pensada em silêncio…”

Lançamento | Amarcord

Por Adriana Aneli…

 

 

 

Inverno. Terça-feira, início da noite na cidade. Um carro branco avança devagar na avenida estreita. De casacos pretos a multidão apressa o passo, afundada nas próprias golas. Por alguns segundos a densa fumaça encobre o congestionamento. Buzinas, risadas de mulheres, a batida de copos nos bares. Pés saltam apressados do táxi. Param à entrada do cine café. A luz morna no corredor de paredes escuras se acende, iluminando cartazes de filmes e mesas para dois. Federico, com flores vermelhas em uma das mãos, acena para sua orquestra: a música começa.

Continue lendo “Lançamento | Amarcord”

Resenha | Detalhes Intimistas

Por Adriana Aneli


“Sou o Albatroz que te espera
no fim do mundo”

Li Detalhes intimistas durante uma viagem de navio: …“espero que goste da leitura”, dizia a dedicatória. Malas prontas, aceitei o convite. Ainda no porto, o aviso: “tem página em branco para ser escrita”.

Embarquei: “Não sei bem para onde, mas a vida me guia e conhece exatamente o local de destino”. Fui conduzida por este cenário. Silenciosamente. Até acostumar os olhos, o exercício de enxergar além.

Continue lendo “Resenha | Detalhes Intimistas”

Coluna Plural | Meu livro de cabeceira

Por Adriana Aneli

 


Livros são muitos… e exatamente por isso eles têm que se diferenciar, conter algo que os saque do orfanato — da livraria e de suas prateleiras medonhas. Livro tem que ter algo de minoria, de quase esquecimento e espera para ser descoberto… Um quê de poeira e relíquia torna um livro especial. Basta olhar para ele, que lhe devolve seu olhar de gato de botas: a beleza irresistível da exclusividade.

Continue lendo “Coluna Plural | Meu livro de cabeceira”

Adriana Aneli

Autora dos livros amor expresso
e a construção da primavera


…nascida e vivida em São Paulo desde 1976. Aos 13 anos acreditou que a literatura era mesmo um bom negócio: depois de lançar livros, fazer recitais (vestida de mamãe Noel em cima de um caminhão) e ganhar um programa de rádio para chamar de seu, achou que estava errada e foi fazer Direito. Após sua metamorfose de décadas, redescobre a Tempestade Urbana e com Boca a Penas está de volta ao Scenarium. Fui!

Coluna Plural | Onde está Wally?

Por Adriana Aneli

 

Não sei você, mas eu estou exausta.
Todo o excesso me abarrota: informações-gestos-certezas-intenções-imposições me jogam nesta ressaca.
Entre anúncios de carros que não cabem na garagem, eletrodomésticos que não cabem na rotina, imóveis que não cabem na cidade, estilos que não cabem na existência e dívidas que não cabem no orçamento, sobrevivo assombrada.
Tento uma fuga clichê e entro na livraria do shopping. Ali, a derradeira avalanche: capas e títulos, cores e letras, best sellers e poket books. Prateleiras – com seus últimos requentamentos e saldões – me intimidam. Assisto a capacidade de criação e de autoria de pensamento ser devoradas pelo consumo.
[A vendedora dá as costas para mim; ela sabe que seus livros não cabem na minha alma].

 

Continue lendo “Coluna Plural | Onde está Wally?”

Coluna Plural | Anonymous Society

Por Adriana Aneli

 


 

Estamos em 1922… Há este inconformismo com as verdades estabelecidas. A necessidade de reafirmação da nossa identidade. O resgate da cultura brasileira em meio ao modelo europeu de comportamento. Aqui a arma é a ruptura. Artistas antropofágicos, em tom de farra e festa,  ruminam antigas ideias e regurgitam  em estética fanfarrona, cores berrantes e versos livres sua “revolução sem sangue”, o ideal da renovação e da transformação através da arte.

Estamos em 2017… Há este inconformismo com as verdades estabelecidas.  A necessidade de reafirmação da nossa identidade, o resgate da cultura brasileira em meio ao modelo globalizado de comportamento.  Aqui a arma é…

Continue lendo “Coluna Plural | Anonymous Society”

Blog no WordPress.com.

Acima ↑