PALAVRA DO EDITOR | S A D N E S S

Por Lunna Guedes

 

Maria Florêncio
Maria Florêncio, autora de S A D N E S S

 

 

Um dos meus jogos favoritos na infância era o dominó. Gostava imenso de espalhar-empilhar as peças — com suas alusões de números — por cima da mesa. O amarelo tom sempre me remeteu às folhas de papel e às sutis gotas de nanquim à manchá-las com singulares-símbolos: vogais aos pares, consoantes em ímpares. Eram tantas as combinações possíveis-impossíveis no jogo… que eu me esvaziava de mim naquele gesto solitário de peça e números — vogais e consoantes.

E foi repetindo o ritual da infância, que espalhei os poemas de sadness — coletados peça a peça, como se a autora soubesse desse meu singular prazer em observar linhas-figuras… humanas: combinando-as em mim.

A leitura acontecia sempre na última hora — como se trocássemos correspondência à moda antiga. Uma missiva que chega sem que por ela se espere… depois que o mundo faz silêncio e os enforcados se convencem da morte no breu. Tive a irrestrita companhia das xícaras de café, Turandot e um punhado de sensações-devaneios-memórias, além, é claro, da ilustre figura da poeta e seus versos alquebrados: “Maldizentes atmosféricos… de ontem | De vazios… mentiras-verdades | Um limbo convidativo… | o paraíso! …um eterno escrever-se na alma”

Traguei as combinações oferecidas em cada linha-peça, analisei cada quebra até aprendê-las pelo avesso — “Ateado às chamas. | — um Final… | A página crua! | Aquém de datas futuras. | A trama. | — o Fim. | O fogo a propagar — árduo — | pelo ‘céu da boca’.”.

As peças do dominó se ligam uma à outra e se desdobram em formulações novas, que são — enquanto poesias — fotografias antigas-e-novas. Um olhar polaroid. Um sentimento herdado dos tempos de ontem, onde tudo se organiza e materializa. Quando tudo era menos e a pressa inexistente. Quando tudo simplesmente era… as coisas inteiras-intensas e definitivas… sem amanhã para florear! Sem congestionamentos de olhos-bocas-mãos-braços-pernas. Tudo é barulho até que o silêncio se imponha…

Nesse livro-jogo-de-maria-florêncio percebemos que é preciso arqueologia para se fazer poesia e oferecê-la… ao outro, que não é convidado ao gesto mecânico de folhear páginas em busca de versos pela autora. A idéia nesse conjunto de folhas amarradas por linhas vermelhas é outra! Provocar com o que não se diz e conduzir às frestas de si… conscientemente de que é impossível evitar o pulo…



S A D N E S S
MARIA FLORÊNCIO

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PALAVRA DO EDITOR | Verbo: proibido

Por Lunna Guedes


 

adriana elisa bozzetto
Autora do livro verbo: proibido

 


 

Cair na primeira pessoa é pior que a queda voluntária de um pássaro, que despenca do azul.Sem saber piso… apenas mergulha inconsciente do pouso e conta com o sopro do vento a favor de suas asas para um plainar seguro no infinito.

A queda de um corpo, no entanto, é vertigem Líquida… resultado da desorientação que o acomete. Uma questão de piso… os pés não tocam o chão, não deixam rastro-marca-lastro. Evapora no passo seguinte: o lugar, o chão, a realidade. É a consequência da degeneração dos sentidos, que acontece primeiro-antes e nos faz pássaro incapaz do vôo.

Diante de cada verso escrito nesse conjunto de folhas amarradas por fitas azuis… acontece uma espécie de milagre dentro de uma esfera azul de tinta — uma queixa no imperativo de vos falar um: verbo proibido.

Adriana Bozzetto confessa ‘o meu corpo cai no vácuo’ das emoções-sensações… cai e não morre, mas não se desfaz de todos os ontens. E, ao renascer, rasga futuros, amassa o tempo presente e esmigalha o que é reflexo. Suas linhas são um olhar cúmplice, coisas mudas em estado de vento, o que fica das vozes que acumulamos dos dias que nem sempre vivemos-levamos-somos.

De quantos personagens somos feitos?

 


Verbo: proibido
Adriana Elisa Bozzetto

 

Palavra do Editor | Muiraquitã…

Por Lunna Guedes


 

Fecho-me dentro… janelas e portas. Lá fora todos os sons se orientam. As reformas-construções de cenários se multiplicam e eu identifico — mesmo sem querer — cada um dos ruídos de máquinas e homens. Tento me afastar da realidade comum — de minutos-horas-dias-semanas-calendário-sobre-a-mesa-relógio-sem-bateria-no-pulso —, a cada pesado gole de vinho tinto…

Descalça, trajando apenas uma peça de roupa… me esparramo sob o lençol e me atraco ao calhamaço de folhas onde os contos de Muiraquitã se orientam. Estou dentro de outro-eu…

Emerson é um autor dual, que resolveu transitar livremente pelo universo feminino — diariamente violentado, silenciado… — que sangra até a última gota de sangue com uma perspicácia típica de quem se alimenta da realidade em cada passo dado, consciente de que ficcionar a vida é para poucos — os loucos.

Depois de uma dezena de leitura… me pus a observar as folhas espalhadas por cima do lençol branco numa desordem natural. Havia muitos riscos-rabiscos e uma desordem natural de páginas. Começo. Meio. Fim… devidamente embaralhados. Mas conhecia muito bem cada personagem-pessoa e suas histórias.

Andei pelo quarto de um lado ao outro, ao redor do próprio eixo. Marcha inquieta. Engoli o que restava de vinho no fundo da taça. Precisava de ritmo… outra taça-garrafa-pele… outros ruídos. Recorri à Patti Smith e sua versão de “smell like teen Spirit” deixada no repeat… que me fez perceber que ler Muiraquitã é deixar a própria pele que habito e ir às ruas… andar calçadas, dobrar esquinas, ver gente, não ver ninguém, entrar e sair de ambientes esfumaçados, esbarrar em anatomias pulverizadas — personagens mambembes… com seus olhares severos-sérios-amedrontados-desconfiados-manchados-indiferentes-delineados-opacos-perversos-raivosos-exaustos — a caminho do trabalho-supermercado-escola-casa. Mulheres acompanhadas-solitárias-perdidas-abandonadas-sem-rumo-desiludidas-sonhadoras-apaixonadas-afoitas… damas da vida. Vida que nem sempre reserva o melhor lugar na platéia-palco-bastidores. Nem sempre reserva porque esse é um mundo de homens, feito por eles, para eles… E estão certos desde o nascimento que o que é deles está guardado, só se precisa pagar o preço.

O autor pincelou a realidade em busca de histórias conhecidas que ninguém quer ouvir-saber. A maioria fica guardada-esquecida no fundo de alguma gaveta. Vez ou outra ganha voz nas falas de certas damas que fazem questão de não deixar esquecer o passado, na esperança de que o futuro seja realmente possível para alguém que não elas.

As famílias — sabemos — são sempre constituídas por Santas… figuras sensatas-prendadas-cabisbaixas que sabem seu lugar no mundo-vida e que foram ensinadas desde o nascimento a honrar o que há de mais sagrado no mundo: pai-mãe-espirito-santo-marido-filho… menos a si, seus corpos-sentimentos-vontades-desejos e, por isso, as portas-pernas devem permanecer trancadas por dentro para que nada escape à meia noite. Amém.

Emerson Braga, no entanto, lhe entrega as chaves…


MUIRAQUITÃ
Emerson Braga

 

R$ 35,

Palavra do Editor | Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas…

Por Lunna Guedes


 

explodiu-se-me
em cores. 

todo o resto
calou-se em rabisco,
tentativa de cinza.

 


 

 

Quando recebi o conjunto poético de Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas, para publicação… respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para caminhar a cidade de São Paulo — não a que conheço, que chega pela janela do carro, que eu chamo pelo aplicativo. Tampouco a do ônibus elétrico, que me conduz por mil hemisférios… outra.

A poesia, para mim, é qualquer coisa líquida, e escorre… é como ter sede e beber um copo de água num gole só. É preciso saciar a carência momentânea e sentir aquela falsa calma a bordo das veias, músculos e nervos.

Claudinei Vieira e seu Yurei, Caberê fizeram isso comigo, assim que pousei o olhar em seu livro… a galope. Virei página por página para saber o lugar do poeta — sua cidade. Ele me atravessou o corpo, a alma. Rasgou minhas memórias. E me apresentou outra São Paulo… me tirou daquele lugarzinho comum no qual nos colocamos, ao deslizar sempre pelos mesmos lugares.

Claudinei é um poeta urbano… metade humano, metade cidadão. Ele atravessa a cidade com seus passos, percebe as ruas cheias de restos humanos… e nos mostra o melhor e o pior de uma Metrópole contraditória.

Eu o li uma… duas… três vezes — novamente a galope — e comecei ali mesmo a pensar as páginas do livro. Queria o movimento urbano… páginas como calçadas… capa como uma das muitas vitrines que São Paulo deita em nossos olhos. Imensidão na pele e, nos olhos, um labirinto.

 


YLIÊ-SAMÊ
Claudinei Vieira


 

Palavra do Editor | Impressões

Por Júlia Bernardes


 

Fosse eu apenas uma leitora, já agraciada teria sido pelo aprendizado transmutado em linhas singelas. Entretanto, tendo eu tido a oportunidade e honra da Editar, testemunho não ter tropeçado em pausas interruptivas, nem tampouco pontos finais desacompanhados de suspiros e breves apresentações de esperança ao pensamento desenhado.

O que pude testificar foi a comunhão do sentir com o dizer, sem os apelos rebuscadores que encontramos em diversos textos que acabam se perdendo em semântica… esquecendo-se da essência do dizer.

Cintia não se atreveu a testar a inteligência emocional dos que pousarão seus olhos sobre suas linhas. Ela, com perspicácia, preferiu compartilhar suas impressões ao invés de impô-las… e o fez com maestria ao traduzir em palavras singelas o que a percepção, por vezes, deixa escapar por não saber transcrever o sentido do que acabara de presenciar.

Permitiu-me alforriar meus ignorantes olhos que, há tempos, não sabiam cores, aprisionados que estavam em alçapão de correria descabida e desenfreada. Os libertei para que pudessem admirar o rapaz no ponto de ônibus a estudar para uma prova. A moça, toda maquiada, a esperar por um amor que é só dela… se há amor no outro… pouco importa. A senhora a olhar para uma jovem, recordando-se de um baile nos anos 50, quando era apaixonada por Dean… e seus 20 anos vestiam saias rodadas e dançavam ao som de Elvis. A borboleta pousada no vidro do carro imóvel… a aguardar o verde do farol… sutilezas, belezas… cotidiano… IMPRESSÕES de um cotidiano que presenteia com o que há de mais abundante, embora sobreviva nas sombras de importâncias desimportantes e, por isso, passe despercebido inúmeras vezes: o simples.

 


 

IMPRESSÕES
Cintia Araújo

Para solicitar o seu exemplar,
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Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Palavra do Editor | vi e ou/vi…

Por Lunna Guedes

 

 

A Poesia pode ser — de acordo com os rótulos tradicionais — uma espécie de etiqueta, que nos avisa da qualidade da roupa que cobre o corpo: moderna, maldita, parnasiana, marginal, contemporânea… mas, nenhum rótulo é capaz de afirmar o sentimento que transborda no leitor ao ler um verso bem feito.

A poesia nos cala, consome… nos deixa nus, a nos equilibrar em epítetos. Julgar a poesia é condenar a si mesmo. Rotular é se repetir… mas, somos assim — e isso parece ser incorrigível.

Outro rótulo muito usado nesse tempo — denominado contemporâneo — é: poeta… no entanto, por mais que se insista, não veste qualquer pele… muito embora se multipliquem nas sombras os que tomam para si a palavra e apontam para nós os seus sufrágios.

Ainda não sei como será classificada essa geração no futuro… um rótulo, certamente, há de surgir na boca dos acadêmicos, ávidos por classificações — como se suas vãs existências dependessem disso.

Mas, para o leitor, o que importará de fato — hoje e sempre — é o lento degustar de um gole sagrado de si mesmo… porque a poesia — independente do rótulo que tentem impor a ela — é o externar de nossos segredos subterrâneos. O poeta — homem ou mulher — compreende nossas falácias, como se, de seu canto de mundo, analisasse cada uma de nossas moléculas.

As diferenças na escrita atual e na fala dos homens são perceptíveis. Somos seres mutantes… por que a palavra seria diferente? A palavra é tão viva quanto nós. E, na atualidade, existe um gozo em escrever, afinal, a liberdade está aí, embora — muitos — insistam em apontar na direção oposta. O epigonismo é cada vez mais verbalizado e as metáforas se amontoam, ainda que de maneira mais discreta.

Virginia Finzetto não é da nova geração — mas segue o fluxo… e se deixa tocar pelo elixir que o contemporâneo exala. Em seu livro ‘vi e ou vi’ — o primeiro da poeta —, existe um desafio para o leitor: entender o jogo proposto através da sua sintaxe, linguagem… da voz que se faz em si mesma. Ela brinca com um sem-fim de imagens espelhadas ao sol, até tudo arder em nossos olhos. O que me fez — após terminar a leitura do conjunto de versos, devidamente separados, como peças de dominó — revisitar o artigo de Susan Sontag sobre fotografias: ‘viver é ser fotografado, ter um registro de sua vida e, portanto, continuar a viver inconsciente’

Bendita seja a inconsciência com a qual Virginia nos acena! Amém…


profissional do amor
nesse campo ela já foi doutora
como arquiteta
planejou uma reforma básica
que virou demolição
como engenheira
construiu um castelo
que terminou em implosão
aí virou alpinista
tentou uma escalada recorde
e foi presa por extorsão
regenerada, virou apenas
amadora

[e foram felizes para sempre]

 


Palavra do Editor | Diário das coisas que não aconteceram

Por Lunna Guedes


 

 

Quando o arquivo do novo livro de Aden Leonardo chegou às minhas mãos… eu aguardei alguns minutos pela impressão das cinquenta e poucas páginas em Word para ler no papel… porque sou antiga — e nem sempre a tela me oferece o conforto que preciso para apreciar as palavras de meus autores. É como beber vinho em um copo de plástico: parte do sabor se esvai.

Eu preciso da transparência do vidro, da cor do líquido, do aroma da uva, de todas as combinações que certas reservas trazem… e do toque.

O mesmo acontece com as palavras, que serão livros depois de passarem por mim… Degustei as muitas linhas de Aden Leonardo, que são confissões diárias, de vida e não-vida… reais ou — talvez — surreais… bem len.ta.men.te.

Fui lendo, rabiscando o papel, invertendo frases… tornando meu o que antes era apenas dela. Um segredo guardado dentro, no fundo de si.

Eu me vesti de suas emoções-confusões-dúvidas-amor-desamor… um sem-fim de coisas, de maneira a organizar-e-desorganizar seus versos. Percorri suas calçadas… atravessei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e sai de vários lugares-cenários. Acompanhei crianças em movimentos, estranhos. Fui seus olhos, pernas, pés… me vesti de sua pele e dialogamos numa frequência inaudível.

Ao final da leitura… as palavras ganham textura… e o livro se torna realidade o bastante  para que a gente sinta a segunde pele coabitando o próprio corpo sem a resposta… para a pergunta nunca feita e uma certeza: as coisas nem sempre acontecem… 



‘diário das coisas que não aconteceram’

Aden Leonardo


Palavra do Editor | A REALidade das coisas…

Por Lunna Guedes

 

Sou o tipo de Editora que leva os textos para andar… pelos cômodos da casa, as ruas e calçadas da cidade porque preciso dar passos com o texto em mãos-mente-memória-cuore para sentir o Autor e seus movimentos. A escrita é movimento das palavras e seus muitos sons, os lugares que pisa e os corpos que habita.

A maioria dos textos-crônicas que compõe essa copilação denominada ‘REALidade’ — uma obvia brincadeira do Autor e sua Editora com a questão da vida-mundo-persona — vieram do Facebook, onde “dom’ Obdulio arremessa vez ou outra os seus pensamentos-ações-olhares — para o meu completo e total desgosto.

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Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes

 

O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Palavra de Editor | M I A

Por Lunna Guedes


 

Passava das seis de um dia de semana qualquer. Eu não somo dias, sou feita de momentos e regida por Kairos. Me sentei no meu lugar de sempre… no café entre esquinas, com um latte extra hot ao lado, lapiseira Pentel 0,5 em mãos. Nos ouvidos ‘hold back the river’ de James Bay e um calhamaço de folhas A4 para os olhos… começava a tomar contato com ‘MIA’… leitura de tato — como gosto e prefiro. Sem pressa, apenas um pesado gole…

Mergulhei na trama tecida por Anselmo Vasconcellos, na condição de leitora — muito embora minha matéria humana hoje seja uma bela confusão de escritora-editora-mulher-leitora.

A leitura levou o tempo de um latte — venti — e, ao terminar, fiquei imóvel… a pontuar minhas emoções, que se misturavam às do personagem-narrador do romance de Anselmo — que, em sua linguagem de autor, apresenta muito de si.

Sabemos que a melhor escrita é aquela que transborda, de tal maneira que não sabemos desassociar o personagem de seu autor, como uma simbiose orgânica. É agradável sentir o homem-personagem-habitante-de-si-mesmo em cada linha, como se estivesse preso a uma majestosa teia…

Em ‘Mia’, o tempo e o espaço também são uma matéria flutuante…a história nos leva para os tumultuados anos 60, quando explode no Brasil a Ditadura militar. Nosso personagem-narrador é vítima dos desmandos militares…

A história começa justamente quando o personagem sai dos porões da Ditadura e emerge em vida… embora sua alma ainda esteja atada ao breu, e sua pele impregnada pelo limbo dos excessos de um mundo onde a palavra ‘liberdade’ não é verbo — substantivo, tampouco. Nosso personagem-narrador-poeta-mendigo-malabarista é ferido em sua sensibilidade e, nas trevas tatuadas em sua derme, uma única luz a incidir-resvalar é Mia, personagem que se projeta para cima de nós — na condição de luz que nos fere os olhos. Somos convidados a nos acostumar com essa figura misteriosa, que vai se descortinando a cada página… e está ali para nos converter em personagem-narrador.

Provamos Mia… com ela — apavorados — abandonamos o Brasil e seu Estado ditatorial — e somos conduzidos — feito crianças, pelas mãos — a Holanda — seu país-lugar-lar onde ser livre é condição-natura.

E, ao chegar à terra estrangeira, a sensação é de mergulhar numa poesia de Adonis: ‘sonha em jogar os olhos nas profundezas da cidade próxima. Sonha em dançar no abismo em ignorar os dias que devoram as coisas‘… e somos novamente, obrigados a experimentar Mia e suas paisagens… sua casa-barco, seus cenários múltiplos e cada uma de suas novidades numa congruência de vida-e-morte… morte-e-vida. E somos abandonados a deriva — em estado latente de solidão — e acostumados a essa luz, desabamos e ficamos sem ar…transeuntes de cafés e praças. Mendigos de notícias que não chegam.

A Holanda que Anselmo Vasconcellos desenha em suas linhas é como a Barcelona de Zafón: só existe no papel, e é maravilhosa porque é exatamente assim que são as cidades todas — inventadas ou re-inventadas… só existem em nós. É tatuagem que a pele acata e a alma aceita. E sua história é um canto de Mercedes Sosa que nos invade-fica e nos modifica para todo o sempre.

Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

Com um punhado de páginas em mãos, percebi que adormecia no papel um sem-fim de versos alinhavados por uma ‘suposta hipótese de paz’…

Sabemos, contudo, que os poetas não têm paz. Eles fingem — como tão bem afirmou outro Poeta… Pessoa.

Em cada verso lido… me deparei com um homem a narrar a realidade e suas muitas tramas — verdadeiros ecos urbanos-noturnos. Inquieto, o Poeta tem olhar faminto, que o faz tragar dezenas de miragens urbanas. Arredio, não dorme… e dispara sua ansiedade em linhas.  Insano, não pestaneja: discursa uma ilusória sobriedade.

A poesia de Marcelo Moro se orienta a partir das pegadas que ele traga, conforme pisa o chão da cidade onde vive-mora… seu passo se encaixa facilmente em outros passos. No entanto, às vezes, a fôrma não lhe serve e a forma lhe escapa. O homem não parece habituado à inquietação, mas se rende a uma espécie de serenidade tumultuosa…

Para o leitor, não será nada fácil tragar a poesia de Marcelo Moro… será como embriagar-se numa noite de quarta, durante o futebol, com aguardente — rotulada com nome próprio num boteco entre esquinas. Será preciso despir-se de si e provar de seu rastro… em caminhadas cambaleantes. Alargar o olhar e consumir todas as suas medidas. E, como estamos acostumados a viver a bordo de nós mesmos, espiando os outros de longe, sem vestir-nos do que é alheio… o exercício que a poesia do Poeta de Americana nos propõe, através de suas enxurradas  — de sentimentos, tormentos, discrepâncias — em linhas nada retas… pode ser desconcertante.

 


 

AVESSO

Brasa encoberta
Esperando ser soprada
Na orelha de Eurídice
A lira mal tocada
Sou tocaia —

…vem e verás o que acontece,
…quando a porta se fecha!
Quando restar essa pequena luz
— azul exuberante…
Nas frestas da alma!

Marcelo Moro, em ‘alameda das sombras’
— Scenarium livros artesanais — 2016