CARTAS PARA ABRIL |aceita um café?

Por Mariana Gouveia


Meu caro Borges

Daqui do quarto de um hospital — o mesmo em que meu filho nasceu — enquanto espero que a enfermeira ajeite meu irmão na cama. Estranho como as coisas se alternam… ainda ontem, ele era o meu guardião, nas colinas aonde a visão do capim dourado da planície abaixo de nós — quadro de um pintor.

Ali, descobri que ele pintava palavras e desenhava poemas de amor nos caderninhos que sobravam. Ele abria mãos das folhas brancas para eu preenchê-las com minhas letras.

O quarto dá para a janela onde histórias acontecem dentro de mim… a Lua é esse quadrante pendente para o poente, em vírgula; e um Planeta qualquer intrometido em sua luz difusa em forma de estrela. Hoje perdi a noção do céu… não sei se é Marte ou outro planeta qualquer, em dimensão de astro.

Tive momentos de picos de intensidades. Decisões no trabalho. Meu pai em algum outro corredor/hospital. Sem ar e as nuvens a anunciar uma estação diferente nas folhas de sangra d’água, que teimam mesmo depois de trinta anos — a última vez que estive aqui — a dourar outono no que antes era quintal e hoje estacionamento.

O cheiro de hospital me atinge… lá fora vejo passos apressados atravessando ruas, acenando para alguém: táxi — sei lá — é difícil distinguir.

Cuidar sele nessa fase é quase uma troca — embora diferente — do quanto cuidou de mim em quase todas as etapas de minha vida. Nos dias que antecederam a esse procedimento… vi a força de um gigante no olho de menino. As sessões de hemodiálises parecem fortalecê-lo. Ele me recebe com riso fácil… quando a porta se abre e eu o acolho com olho de ansiedade. Cara! Precisa dar esse susto? Enquanto o olho dele reflete: que bom que está aqui!

Para estar ali… dependi da generosidade do homem de azul, que autorizou minha entrada depois de encerrado do horário da visita. O cheiro de café nos corredores me lembra que tenho de te escrever. A garrafa suja em uma mesinha de canto não me anima a sorver qualquer coisa rala que sai em um copinho de plástico tão fino que parece papel celofane e que me leva de novo para as noites da infância… quando antecediam as festas de santo e tínhamos de ajudar a mãe na preparação dos tabuleiros de frangos assados embrulhados em papel celofane colorido. Desisto de beber. Adio a sensação do sabor do ristreto a invadir a alma.

Ajeito o lençol e busco palavras por conforto… atravessei a barreira do horário de visita para vê-lo e nesse momento o sinto feliz. O curativo no braço é como se fosse o escudo para esse homem-menino que justifica minha preocupação como se fosse uma unha quebrada, logo eu!

Ele também escreve — já te contei? — e fala de amor na delicadeza das poesias e tem como sonho escrever um livro que fala dos sentimentos que ele nunca expõe…

Devo ir… o moço de azul foi generoso. Acalmou meu coração vê-lo assim… descansando com a promessa de na primeira hora da manhã me relatar a noite. Sigo escada abaixo com a Lua a me seguir nos corredores, para logo em seguida uma nuvem brincar de esconde-esconde comigo. Uma mudança brusca de temperatura com nome estranho pronunciado pela moça do tempo, em uma televisão quase muda/quase tela repartida entre um risco negro divisório como se fizesse separação entre o calor e o frio (?) e pode chover a qualquer hora no meu estado. Uma garoa fina atravessa o vidro do carro enquanto eu repasso aos irmãos a tranquilidade do olho seguro e da fé estampada no riso.

Lembro de uma frase tua que é quase uma oração: “Sonhar é essencial. Pode ser a única coisa real que exista”. Sonho com a cura dos que amo. A imaginação que você prega é a mesma que acredito. Sigo para além dos caminhos que me levam até minha casa. Tenho uma carta para escrever. À você…

Aceita um café?
Beijo meu,

 

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CARTAS PARA ABRIL | o outro, o mesmo!

Por Lunna Guedes


 Meu caro Borges,

 

…enquanto ouvia o sr. Mischa conduzir magistralmente seu violoncelo, dedilhando Bach, revisitei ‘o outro, o mesmo’. Seu livro preferido dentre tantos que rabiscou em vida.

Antes de saber disso já o tinha eleito ‘meu favorito’ pelo título… que cresceu aos meus olhos. Me encantei com sua Buenos Aires ‘dentre as ruas que afundam o poente / alguma (não sei qual) eu percorri / por uma última vez, indiferente / e, s adivinha-lo, obedeci’.

Sei que o livro foi escrito ao longo dos dias, sem pressa. Com o olhar, mesmo em grande dificuldade, a capturar o pouco que lhe chegava, em gotas embaçadas.

Não consigo imaginar como foi para esse outro, o poeta que lhe habitava, ver esmaecer gradativamente a poesia. Existir sem esse importante sentido deve ter lhe custado uma vida inteira. Como viver sem esse outro? Não consigo imaginar Pessoa sem cada uma de sua personas e não consigo lhe imaginar Borges sem o poeta que me me seduziu com grandes goles de tudo-e-nada.

Sempre que leio seus poemas… inevitalmente recordo suas reclamações e acabo com um sorriso pintado nos lábios — nunca entendi porque minhas segundas versões, como ecos apagados e involuntários costumam ser inferiores às primeiras’.

Tenho para mim que o título de seu livro-favorito foi um afago em seus queixumes. Quem escrevia primeiro, era o outro, o poeta. Quem reescrevia era o Homem… a bordo de todas as suas insatisfações-inquietações. O poeta era mais leve  ‘todas as coisas são palavras da / língua em que Alguém ou Algo, noite e dia, / escreve essa infinita algaravia / que é história do mundo’. Era quem sorvia tudo.

…ao Homem restava o fundo da xícara, o café frio-amargo.

 

Ó destino de Borges,
Talvez não mais estranho que o teu.

CARTAS PARA ABRIL | é tão claro pra mim essa escuridão…

Por Marcelo Moro


 Caro poeta,

Permita-me chama-lo assim, ainda que eu saiba que a fama que o precede vem dos contos fantásticos aos quais deu vida e dos quais roubou vidas.
Escrevo para contar que, de uma forma inusitada e extraordinária, estive na biblioteca de Babel e essa aventura é de grandeza tal insólita que só a ti poderia contar sem que me julgassem louco.
Bem dizes que um escritor não pode ser nunca julgado pelas suas ideias, mas sim pela emoção e prazer que proporciona, esse é você, um orgasmatron a soltar gotas de linhas em tons de sépia e perfume francês.
Lá, em Babel, depois de uma porta estreita que fica diante de um jardim suspenso se acumulam corredores de prateleiras e escadas em planos infinitos, o cheiro que invade as narinas é o excitante cheiro do papel banhado em jatos precisos de tintas coloridas, comparaste isso ao paraíso, eu digo que é de outro planeta onde vivem os sábios.
Talvez o paraíso seja isso mesmo, o que pode nos proporcionar emoção e prazer de forma infinita, não como prêmio ao bom comportamento dado aos caretas e os espécimes gerados desses, mas como uma evolução da morte física.
Ali notei outra verdade, as línguas não se distinguem, antes se completam, se entrelaçam e dizem o que precisam num uníssono texto ditado, todos e nenhum fazem parte da mesma trama, variações de um mesmo tema sem fim.
Aproveito para convida-lo a um café num fim de tarde desses, quem sabe nesses estilosos das ruas centrais de Buenos Aires ou aqui mesmo pela terra da Garoa e do Bauru sem bife.
Aperto-lhe as mãos e beijo antes de me despedir aqui, me deste sua terna amizade através do que firmastes no papel como seu contributo ao todo dessa enorme biblioteca de Babel.
Sim o sonho acima, desses que se sonha acordado, me inspira a seguir comendo dos frutos do conhecimento plantado no centro do jardim e uma vez inocentemente proibidos para nosso engano.
Estamos nus querido Jorge…diante do espelho de livros e sob a luz das ancestrais estrelas e assim de novo e de novo e de novo.

 

Com admiração sempre renovado
Do Poeta, discípulo e amigo

CARTAS PARA ABRIL |Sr Borges, receba esta xícara…

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sinta o aroma do café metafórico que lhe sirvo. Seus sentidos ampliados, o alcança? Percebe a minha mão trêmula que mal segura o pires? Essa perda do controle muscular não o receba como fraqueza, mas como homenagem. Não sou dado a essas revoluções físico-emocionais. Porém, o fato de não me ater pelos olhos dá-me a sensação que abarca toda a minha incongruência. Sei que não me julga. Chegou longe na profundidade humana enquanto perdia a visão. É quase como se fosse Deus, outro cego. Esse cauda bifurcada que projeta pelos ares, a cada palavra encontrada para exprimir a exata sentença a descrever nossa inexata vida, antes que surja ameaçadora, acompanha o bailar dos meus sentidos que, às vezes, o vê como um jovem e outras, um senhor de cabeça branca.

Por mais labiríntico que tenha sido o meu percurso para encontrá-lo — em uma lata de lixo — se deu bem depois que vivi na sua Argentina. Foi por pouco tempo, mas o suficiente para apreender o significado de viver tão ao sul, quase no fim do mundo. Ainda assim, é lá que fica o centro do Universo. Enquanto me banhava no Rio Paraná, entre reticências, vírgulas e carcaças de bois abatidos no matadouro acima, percebia a água mais leve que o do meu amado mar. Fui feliz, apesar do exílio forçado de criança de pai errante e mãe abandonada, que lá começou a fumar cigarros sem filtro que finalmente a mataram. Quando finalmente o li, me senti um personagem borgeano — um ser híbrido e aturdido, que ao voltar para o imenso país ao norte que saúda o individualismo, jogava o futebol solidário do “toco y me voy” e se expressava em portunhol.

Sua leitura foi tão influente, que comecei a respirar um mundo novo, diferente do que os outros percebiam. Fui, mais e mais, me apartando dos humanos, a ponto de chamá-los apenas por esse nome. As letras, as palavras, os livros, a vida literária me tornou um pária. Conversava com anjos, plantas, grilos e estrelas. Tarzan, Cloé, Princesa, Gita, companheiros de quatro patas — cães, gatos e a Porquinha Priscila — eram interlocutores constantes. Patas, galinhas e seus filhotes trançavam entre minhas pernas sem perceberem um inimigo. No entanto, eu era… — Confirmou, o último vagalume vivo. De tanto querer vê-los, se extinguiram.

Essa fase durou mil e uma noites. Coincidiu com a aquisição da primeira TV à cores. Tudo se tornou inospitamente colorido, a violentar minha visão cada vez mais míope. Uma válvula defeituosa da antiga TV tornava as imagens mais escuras e os amados pretos, brancos e cinzas se perderam na bruma do tempo. Talvez mais nenhuma outra história valeria a pena ser apreciada. Jogava bola sem óculos, quase por percepção extra-sensorial. Era bom. Eu me imaginei um Borges a escrever lances estranhos e a fazer gols parabólicos em redes rotas pelos campos da Periferia. Até saber que considerava o futebol uma estupidez. Discordamos em alguma coisa no mundo real, aceitamos compartilhar nossa cegueira…

 

CARTAS PARA ABRIL | JORGE LUIS BORGES

O ano é 1938. Véspera de Natal. A cidade é Buenos Aires. Jorge Luis Borges sobe apressado a calle Ayacucho. Pretende convidar uma amiga para jantar. Atraiçoado pela fraca visão que desde jovem o atormenta, ‘atropela’ com força uma janela aberta. Os vidros rasgam-lhe a testa, deixando cortes profundos. Conduzem-no ao hospital mais próximo. Mas esquecem-se de lhe limpar convenientemente a ferida. Borges vive entre a insônia e o delírio nas duas semanas seguintes. Quase morre. Salva-se por pouco. Graças a uma intervenção cirúrgica bem-sucedida. Teme, no entanto, que o acidente lhe tenha afetado as capacidades mentais. Receia não saber escrever. E este cenário é pior que a morte.

Achava-se poeta mas ganhou fama enquanto contista. Ficou cego mas não deixou de escrever. Criava complexos labirintos de texto. Referenciava livros que nunca existiram. Morreu há 30 anos. Como se tornou Jorge Luis Borges um dos mais importantes escritores de todos os tempos?

Antes do acidente… considerava-se um poeta. Admirador de Walt Whitman, William Shakespeare, Luís de Camões. A escrita representa para Borges um importante ponto de contato com o mundo. O homem Jorge era profundamente introvertido e solitário.

“Eu sei que não consigo viver sem escrever”, confessou um dia.

O acidente mudou tudo de lugar. Borges não suportou a ideia de já não ser capaz de escrever poesia e decidiu testar as capacidades com um formato que nunca tentou: o conto de ficção. E se revela um sucesso. “Se não fosse aquele golpe que levei na cabeça, talvez nunca tivesse escrito contos”.

A visão dissipou-se até se extinguir por completo. Mas Jorge Luis Borges continuou a escrever contos. Ditou-os primeiro à mãe e, depois, a uma assistente. Reuniu-os em coleções. Ficções. O Aleph. o Livro de Areia.

Borges mistura fatos e fantasias em cenários que exploram ideias tão complexas quanto inesquecíveis.

 

Alguns detalhes sobre o homem:

— Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, a 24 de agosto de 1899.
— Interessou-se pela leitura graças à biblioteca do pai, composta quase exclusivamente por livros em inglês.
— Herdou do pai um problema na visão que o cegou ainda relativamente jovem.
— Trabalhou como publicitário, escrevendo anúncios para iogurtes.
— Viveu a maior parte da vida com a mãe, que lhe costumava ler e escrever o que ditava.
— Casou duas vezes: a primeira aos 68 anos – durou três anos – e a segunda algumas semanas antes de morrer, com a assistente que contratou para substituir a mãe.
— Morreu em Genebra, na Suíça, a 14 de junho de 1986. Tinha 86 anos.

 


POEMA DOS DONS
Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.


 

POEMA DE LOS DONES
Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga

Que se parece al sueño y al olvido.

CARTAS PARA ABRIL | Suor com canela. Café?

Por Maria Vitoria


 

Suor lâmina meus poros, um vinho quente de quatro reais umedece meus lábios, salsicha frita enrolada em farinha branca me impede de sentir tanta fome.

Ana, já fazem duas semanas que bebo consecutivamente pelas manhãs e sagradamente trago em minha saliva o néctar podre da derrota das ruas.

Acostumei também a me sentar em frente a janela e ficar observando um famoso morador de rua aqui do bairro, passo horas a fio o ouvindo xingar os transeuntes, a desejar a morte da mãe de todos, a declarar que irá matar de forma cruel todos os filhos da puta.

Sabe, hoje foi um dia especial. Três anos e onze meses completei hoje com minha eterna, Carolina. Você tinha de nos ver sentadas em bancos de praça rodeadas de lixo, drogas e camisinhas usadas, juntamente com crianças negras e pobres a correrem soltas pulando amarelinha por cima de estacas de madeira com pregos enferrujados. Nosso banquete de comemoração foi especial: três espetos de carne, cada um custando dois reais. Quatro salgados há um e cinquenta cada. Uma mini lata de coca cola e um coquetel de vinho quente e barato. Discutimos sobre a solidão da mulher negra, sobre políticas sociais e sexo hetero.

De fato, me sinto feliz.

Pensa que agradável seria compartilhar alguns detalhes contigo degustando um café com canela? Uma ex namorada me disse que era como provar a oitava maravilha do mundo, desconfiei, mas eu o provaria pela primeira vez contigo.

Antes que eu me esqueça, passei quarenta minutos alternando entre os olhos, os óculos e a boca pintada de nude de uma garota. Recebi de empréstimo um livro de Lilia Guerra: Perifobia.

Volto neste instante para casa com fome, me lembro que tenho na mochila uma baguete de calabresa com queijo. Dou uma cheirada antes de abafar o rugir de meu estômago. Estragou!

Tomo um copo de água gelada. Me deito completamente nua apenas com uma touca de seda na cabeça. Te escrevo essa carta. Não durmo – insônia por dois dias consecutivos.

 

Com amor,
Menina faminta.

CARTAS PARA ABRIL |Ana, que tal um café?

Por Mariana Gouveia


Oi, Ana

 

Começo a te re-escrever na madrugada. Sinto que o vento traz o cheiro de café de algum vizinho madrugador. Coloco a água para aquecer em um ritual antigo — já que fiz a burrada de, em um momento de distração, jogar o suporte da cápsula da cafeteira fora — enquanto preparo o coador para então saborear o café a me acordar de vez.

Enquanto sigo até o ponto de ônibus, vou criando notas mentais do que gostaria de te dizer. Quase crio uma canção ao repetir as palavras para não esquecer.

Continuo na segunda parada… onde aguardo pelo outro ônibus e mais uma vez o cheiro do café chama a atenção. O vendedor de bolos de arroz me serve com a delicadeza de todo dia. O sabor do bolo típico daqui me leva à infância. Minha mãe usava a latinha de sardinha como fôrma para assar no fogo de barro. Enquanto o ônibus não chega, falamos do momento atual na política e ele logo discorre sobre o filho que tentou um concurso público.

Penso que hoje completo uma carta que comecei a escrever ainda adolescente, quando você chegou a minha mão, através de um exemplar sem capa… de Inéditos e Dispersos que continha correspondências e poemas. Eu saindo da infância e todas as melancolias do mundo dentro de mim. O livro parecia ter sido manuseado sem cuidados e apesar de fino, tinha folhas soltas. Comi as palavras e a palavra correspondência ganhou sentido em minha vida.

Minha mãe usou a palavra “poeta impetuosa” para te descrever. Parei entre a soleira da porta que dava para a cozinha e comecei a escrever essa carta, que ficou parada no tempo. Talvez eu clamasse pela liberdade que você esbravejava e eu invejava nas palavras. Ou talvez simplesmente vivesse essa mesma inquietação tua e que só exercesse minha versão transgressora longe de minha mãe.

O dia chega ao fim. Sinto que não consegui dizer tudo. Hoje, as lembranças pesaram junto à realidade. Embora um sol brilhante do lado poente desenhe nuvens no céu, no ponto leste de minha janela um arco-íris redesenha coragem em mim. Há situações de chuva no céu e os trovões bradam o interior e é dentro de mim que te abraço.

 

Beijo,

Palavra do Editor | Muiraquitã…

Por Lunna Guedes


 

Fecho-me dentro… janelas e portas. Lá fora todos os sons se orientam. As reformas-construções de cenários se multiplicam e eu identifico — mesmo sem querer — cada um dos ruídos de máquinas e homens. Tento me afastar da realidade comum — de minutos-horas-dias-semanas-calendário-sobre-a-mesa-relógio-sem-bateria-no-pulso —, a cada pesado gole de vinho tinto…

Descalça, trajando apenas uma peça de roupa… me esparramo sob o lençol e me atraco ao calhamaço de folhas onde os contos de Muiraquitã se orientam. Estou dentro de outro-eu…

Emerson é um autor dual, que resolveu transitar livremente pelo universo feminino — diariamente violentado, silenciado… — que sangra até a última gota de sangue com uma perspicácia típica de quem se alimenta da realidade em cada passo dado, consciente de que ficcionar a vida é para poucos — os loucos.

Depois de uma dezena de leitura… me pus a observar as folhas espalhadas por cima do lençol branco numa desordem natural. Havia muitos riscos-rabiscos e uma desordem natural de páginas. Começo. Meio. Fim… devidamente embaralhados. Mas conhecia muito bem cada personagem-pessoa e suas histórias.

Andei pelo quarto de um lado ao outro, ao redor do próprio eixo. Marcha inquieta. Engoli o que restava de vinho no fundo da taça. Precisava de ritmo… outra taça-garrafa-pele… outros ruídos. Recorri à Patti Smith e sua versão de “smell like teen Spirit” deixada no repeat… que me fez perceber que ler Muiraquitã é deixar a própria pele que habito e ir às ruas… andar calçadas, dobrar esquinas, ver gente, não ver ninguém, entrar e sair de ambientes esfumaçados, esbarrar em anatomias pulverizadas — personagens mambembes… com seus olhares severos-sérios-amedrontados-desconfiados-manchados-indiferentes-delineados-opacos-perversos-raivosos-exaustos — a caminho do trabalho-supermercado-escola-casa. Mulheres acompanhadas-solitárias-perdidas-abandonadas-sem-rumo-desiludidas-sonhadoras-apaixonadas-afoitas… damas da vida. Vida que nem sempre reserva o melhor lugar na platéia-palco-bastidores. Nem sempre reserva porque esse é um mundo de homens, feito por eles, para eles… E estão certos desde o nascimento que o que é deles está guardado, só se precisa pagar o preço.

O autor pincelou a realidade em busca de histórias conhecidas que ninguém quer ouvir-saber. A maioria fica guardada-esquecida no fundo de alguma gaveta. Vez ou outra ganha voz nas falas de certas damas que fazem questão de não deixar esquecer o passado, na esperança de que o futuro seja realmente possível para alguém que não elas.

As famílias — sabemos — são sempre constituídas por Santas… figuras sensatas-prendadas-cabisbaixas que sabem seu lugar no mundo-vida e que foram ensinadas desde o nascimento a honrar o que há de mais sagrado no mundo: pai-mãe-espirito-santo-marido-filho… menos a si, seus corpos-sentimentos-vontades-desejos e, por isso, as portas-pernas devem permanecer trancadas por dentro para que nada escape à meia noite. Amém.

Emerson Braga, no entanto, lhe entrega as chaves…


MUIRAQUITÃ
Emerson Braga

 


Tiragem 30 exemplares numerados
R$ 35,00


Cartas para abril | a teus pés…

Por Lunna Guedes


 

my dear,

 

Faz sol entre esquinas. O latte acabou e a leitura que era feita entre goles, agora vai a seco. Leio-te novamente e recordo coisas nossas-suas-minhas. A nostalgia-gavetas… coisas tão minhas-suas. Causa de espanto-soluço. Uma soma improvável.

Guardei algumas coisas do passado recente. O mais antigo… fiz questão de estragar — amassei-rasguei-queimei. No tempo em que a raiva fervia em meu íntimo. Brasa acesa. Fúria crescente. Uma tempestade a causar estragos por onde passa…

É estranho recordar essa outra pessoa que fui… faz tempo. É como abrir uma dessas gavetas e revirá-la. Foi ela quem lhe escreveu ao saber-te através de outra poeta, a que apresentou a poesia à menina que eu fui. Nossa! Eu já fui tantas! — estou velha, minha cara. Já dei algumas voltas ao redor do mundo, sem mapas-destinos-lugar. Guardei alguns pores do sol na memória, o resto descartei. Hoje estou com os pés bem fincados nesta cidade urbana que eu gosto de dizer de Mário, apenas não dizê-la minha. Não ria…

Encontrei uma das cartas que lhe escrevi… não sei como sobreviveu. Estava no meio de outras tantas que escrevi e não enviei. Eu escrevo para o papel, ainda que tatue um nome nele. Não indica norte-destino-coisa-alguma.

Gosto imenso do ato de escrever… me faz lembrar das viagens de Comboio de ontem. A plataforma de Nervi. Os humanos em estado de partida-chegada. O tempo de espera. O velho relógio no alto a contar segundos-minutos… ignorados por mim. O apito agudo do trem. O embarque. Eu era sempre a última a embarcar…

Dentro do envelope que leva o seu nome, encontrei o bilhete-verde de meu último embarque. Virou marcador das páginas do teu livro — lido incontáveis vezes, esquecido outras tantas no fundo da gaveta-prateleira-caixa-alma e, que hoje voltou a aquecer minhas mãos, com suas dúvidas-certezas-medos-silêncios.

Acho que deveria lhe enviar um postal… com a cara da cidade empalhada — para marcar o momento de hoje… este dois mil e qualquer coisa, outono, dia de sol e uma libélula a bater contra o vidro, como se quisesse entrar e participar dessas linhas.

 

au revoir,

Cartas para abril | só queria entender…

Por Marcelo Moro


 

Ana C.,

Eu queria entender… toda essa ira… essa ferida exposta e essa dor contida nas duras linhas que nos dedica. Belas linhas, sem afagos nem esperanças mas, lindas.
Sinceramente gostaria de ver por dentro como funciona esse íntimo… mas sei que é querer demais.
Aos poucos, e te digo porque quero que saibas, as coisas para mim vão perdendo o sabor e o sentido, a escrita, as imagens, as minhas admirações e logo serão as paixões que me desmentirão deixando me nu diante do infinito.
Sei que entendes querida Ana. Sei que no fundo dessa sua alma de alamedas sombrias entendes.
Sabes por fim o que sinto, o que me sufoca e faz disparar meu coração empurrando-me a atropelar teclas como quem soluça palavras.
Eu só queria entender… nada me seria mais caro que isso.
Sei que não se deve mudar nada em função dos outros e de outras coisas que não as nossas convicções, isso chama-se liberdade, mas mesmo livre, e o sou, mudaria para poder entender… agradar talvez, fazer contente e se um dia, se assim o universo permitisse, trazer um sorriso, um lapso de felicidade dessas em que se joga no sofá e respira profundamente.
Podes receber essa missiva com desdém, pode também guardar numa gaveta escura, numa dessas caixas que guardas laços de vida e de morte sem que leia, e podes simplesmente rasgar, deixando assim incomunicável nossas angustias. Escrevo sem saber que destino terão minhas linhas, por querer escrever, por desejar sobretudo entender.
Toda sua força disposta em finalizações prematuras de convívios e laços… retratas em suas linhas. E quando leio, vejo que não há culpa, maldade ou má fé, apenas rasgos pelos quais eu queria entrar e entender, apenas estar e entender o porque se enche de cadeados, não só em ti como em tuas portas e janelas.
Amo-te embora não entendas, ou não acredites que seja isso possível, mas amo-te e te quero, acima desse amor, bem, sem egoísmos vãos ou sentimentos sombrios.
Espero, doce e forte Ana, que leia essa minha tentativa de entender suas premissas e sinceramente desejo, pelas lágrimas geladas que desceram–me, que aceites tomar um café num ocaso desses para uma conversa sincera, o tempo nos deve esse fortuito encontro, e perdoe-me se em algum momento ofendi… eu só queria entender.

 

Com afeto,

 

Cartas para abril | ANA, UM CAFÉ?

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Senhora que carrega Cruz no nome e na alma, que sente o peso de sofrer sem saber porquê… Que ultrapassa em muito a básica experiência de viver para tentar sentir-sentir-se. Que não compreende tanto sol nessa Terra-Rio, porque apenas enxerga a escuridão de viver. Que celebra a beleza, quer toma-la para si, mas percebe que ela não devolve nada… apenas o vácuo. Que ama a maldição de escrever – jogar-se em álcool e tinta azul em folhas brancas, como cartas para posteridade, apesar de efêmeras. São como mensagens nas garrafas em pleno mar de gentes. Que, no entanto, não desejam abri-las. Eu mesmo, só a descobri mais recentemente, por intervenção de uma mão que recolheu seus versos e me mostrou. A mesma que me instou convidá-la para um café. Eu as recebi como se recém-escritas fossem. Tão frescas as texturas, gosto de novidade e intrigantes, que pensei encontrá-la em alguma esquina da antiga capital ou na velha Londres, falar consigo, saber de si, trocar impressões-expressões, soltar o verbo, tirar a roupa social, desvestir a máscara. Talvez eu não fosse um amigo tão profundo quanto o Armando e nem tão íntimo quanto o Caio, mas seria mais alguém a ouvi-la… Suspeito que, por mais que quisesse, você não encontrava o eco de sua voz em si mesma – “fala entupida”. Comigo, assim foi durante muito tempo. É penoso conseguir sair desse labirinto pessoal. Damos pistas falsas para nós mesmos. Nos iludimos com se quiséssemos “ancorar um navio no espaço…”. Preferiu flanar por Copacabana, boiar no ar pelo menos até o instante de perceber o chão duro em ondas. Não, não era o mar no qual poderia submergir e nele desaparecer. Preferiu a concretude, a solidez da certeza-chã. “Não sabia que virar pelo avesso, era uma experiência mortal”. Na Rua Tonelero de Lacerda, que levou Getúlio ao suicídio, decidiu pela “janela aberta, uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos”, seu “salto alto em equilíbrio, o copo d’água à espera do café…”, que não tomaremos… pelo menos, por enquanto.

 

CARTAS PARA ABRIL | ANA CRISTINA CESAR

Ana C. fez parte da ‘geração mimeógrafo’ — aquele velho instrumento com o qual muitos de nós tivemos contato nos tempos escolares… que precisava de papel stencil e sulfite, álcool e uma boa dose de paciência para utilizar o complicado objeto engenhoso de reprodução de ‘originais’.

Para a literatura, no entanto, consistia em um importante meio de produzir material literário de maneira independente. Essa novidade cultural aconteceu logo após o surgimento do movimento Tropicália no país, que, em função da censura da ditadura, fez dos artistas também produtores de conteúdos alternativos, com o uso do mimeógrafo.

Tudo foi muito rápido na vida da carioca Ana Cristina Cruz Cesar… conta-se que, aos seis anos — antes mesmo de ser alfabetizada —, ditava poemas para sua mãe escrever. Aos dezessete anos, foi para Londres num intercâmbio e, de lá, voltou apaixonada pela literatura de língua inglesa… Katherine Mansfield, Sylvia Plath e Emily Dickinson. Aos dezenove, começou a cursar Letras na PUC-RJ… a traduzir e a escrever.

Ana começou a ser publicada pelos jornais alternativos e revistas, para depois aparecer em edições independentes. Seus livros, sempre pequenos, tinham o poder de se multiplicar… e podiam ser facilmente encontrados — não somente no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, a autora fazia mestrado em Comunicação na UFRJ e em Tradução na Inglaterra. No ano de mil novecentos e oitenta, publicou o livro: Literatura não é documento e, finalmente, em mil novecentos e oitenta e dois, surgia: A teus pés… que reunia seus livros independentes: Luvas de pelica, Correspondência completa e Cenas de Abril.

A teus pés — publicado pela Brasiliense — é uma série de fragmentos que misturam poesia, cartas e diários… em linguagem confessional.

Percebo que o lance de notações tipo agendinha tem a ver com certa briga entre fora e dentro, registro e psicologia, cenografia e interioridade. Registrar com um muxoxo de quem não pudesse derramar. Mas para não ficar neo-realista só vale se a tensão passar. Tem mais aí? Ai, um batonzinho.

Ana C. não deixou bilhete de despedida, mas nos brindou com um quinhão de poesias. Sua vida foi como o voo do albatroz (como nos diz Baudelaire em sua escrita linear, fora do tempo e lugar, com a qual também tivemos contato após sua morte — a publicação de Flores do Mal se deu em 1945…).

Pouco se sabe dos motivos que a levaram ao suicídio… ela tinha voltado de Londres e estava deprimida. Havia tentado pôr fim à vida dias antes… afogando-se no mar. A falta de sucesso em suas ações não a fez desistir. Abriu a janela de seu apartamento e saltou para seu último voo.

 


 

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo
a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto’

 


E penso

a face fraca do poema
a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema
a luz prévia
Dividida
Mas calo a superfície negra
pânico iminente do nada.

 


 

Vacilo da vocação

 
Precisaria trabalhar – afundar –
– como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –
A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível –
– do real.

 


 

 

houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
“para que nada se perca
Ou se esqueça”,
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo