COLUNA PLURAL | COLETIVO…

Por Maria Vitória

 

Dois dias antes eu havia chorado. Embarcara num vinho barato e extremamente seco, acompanhado de um sanduíche com queijo de ricota, tomates cereja num pão australiano integral. Toda essa frescura gourmet sem necessidade.
Eu chorei pelo vinho ruim, pela vontade de estar comendo um cachorro quente de cinco reais sentada em bancos de plástico ao invés de estar sentada desconfortavelmente numa poltrona enveludada, com pedras coloridas penduradas como cristais sobre minha cabeça, em uma mesa redonda de madeira gigante, uma luz ambiente, e pessoas… Pessoas e seus vinhos ruins de caixinha, com suas sopas de feijão dentro de pães redondos sem miolo. Tudo muito gourmet, tudo muito elitizado e selecionado, e eu ali, chorando dois mares de dor e incapacidade.
— Depois de amanhã é o lançamento do seu livro meu amor, você está feliz? — pergunta, Carolina.
Lágrimas rolaram mais rápido que pedra no penhasco. Um engasgo me travou as palavras, eu nada dizia, as lagrimas corriam, uma mão ia a taça de vinho, a outra as mangas da camisa para tentar de maneira falha secar um pranto que ultrapassava duas vidas.
— O que aconteceu meu amor? Por que você está chorando desse jeito? O que aconteceu com você?
— Medo.
— Medo do que?
— De não conseguir. De falhar. De não ser nada.
— Amor, por que você esta dizendo isso? Você é uma ótima escritora, daqui a dois dias vai ser lançado seu segundo livro.
— Acho que eu não consigo fazer isso. É melhor eu não ir a estreia.
— Deixa de bobagem, eu estarei lá com você, usando aquele vestido cinza que você tanto gosta. Eu seguro a sua mão e só solto dela quando for pra te aplaudir.
— O que eu faria da minha vida sem você, minha fã número um desde a época do colégio?
— Eu tenho orgulho de você. Sempre acreditei nas suas capacidades. Eu sou sua fã desde o dia que eu li um texto seu pela primeira vez a dez anos atrás.
— Eu te amo, Carolina.
— Eu também te amo, Maria Vitoria.

Terça-feira, o grande dia. O estomago calçado de vodka. Era preciso amenizar, relaxar, deixar as bolhas do medo murchas para que automaticamente elas não explodissem fronte ao pecado de minhas próprias falhas.
“Não sei se eu passei todas as informações corretas, se a descrição da biografia ficou boa, e a dedicatória, será que foi a coisa certa: pensava eu.” Todas aquelas pessoas que eu não faço
ideia de quem sejam, aquele lugar que nunca pus os pés apesar de ter passado em frente durante anos de minhas adolescências nas madrugadas de álcool e sexo sem compromisso nos arredores da Rua Augusta. O que eu devo falar? Como devo agir? Todos aqueles ótimos escritores bem mais velhos do que eu, com mais experiência e lucidez, talvez eu não deva ir, acho que vou mandar uma mensagem para a Lunna e dizer que ocorreu um imprevisto e que eu não poderei estar presente. Droga. Droga. Droga. Por que me tornei tão covarde? Hoje é um belo dia, o sol despontou no céu, os pássaros cantaram pela manhã, a resposta do centro espírita dizia para eu ter mais confiança em mim mesma e trabalhar minha autoestima… talvez isso seja um sinal divino, talvez eu precise mesmo estar lá, adentrar aquele coletivo e só desembarcar no ponto final.
— Você esta linda meu amor, um mulherão. Tá nervosa?
— Me passa a vodka.
— Vai com calma, sua mãe vai brigar com você.
— Esquece minha mãe. Passa a vodka.
— Estamos muito longe ainda? — perguntou minha mãe.
— Não. É só descermos esta rua — disse eu.
— Agora que estamos tão próximas, como você se sente? — perguntou, Carolina.
— Sóbria. Muito sóbria.

Lá estávamos por fim: Café Fellini, 19h e 07minutos. Meu irmão aguardava-nos sentado à mesa. Olhamos-nos. Não trocamos uma palavra. Apenas um aperto de mãos. O lugar era agradável, os olhos meus percorriam cada centímetro daquele espaço. Avistei, Lunna. Segui ao seu encontro e a abracei. Finalmente, um abraço desconhecido para que um desconforto fosse quebrado. Cumprimentei, Marco. Observei minimamente as mesas com os exemplares postos. Maravilhei-me… Nunca havia visto livros produzidos daquela maneira; as cores, a gramatura do papel, o peso, as costuras, tudo muito artesanal. Relaxei por fim, pela primeira vez em dois dias.
— Vai querer um café? — pergunta minha mãe.
— Não. Cerveja.
— Um café não é mais adequado?
— Cerveja sempre é mais adequado.
— E agora que você está aqui e conheceu o pessoal, como você está se sentindo? — pergunta, Carolina.
— Não sinto mais vontade de chorar, isso é um bom sinal.

As pessoas vinham. As pessoas iam. Tudo parecia muito natural, fluido, fácil. Sorrisos, fotos, autógrafos, cumprimentos, abraços, amigos, conhecidos, estranhos, poetas, escritores, músicos, família, café, livros. Sim, era esta a noite certa, a nossa noite certa, o juízo final sem a parte do castigo, apenas as chibatas de um notório prazer coletivo. Era como eu havia imaginado, digo, melhor do que eu havia previsto. Todo aquele acolhimento em prol da minha escrita, aquele laço sendo puxado por mais noves escritores até formar um nó… A essência, a transparência, a solução para as dores trágicas e os medos da falha humana estavam bem ali, nos bancos sem numeração, nas placas sem nome, nas lombadas invisíveis, nas catracas sem restrição, no piso de cimento, nas paradas lotadas e principalmente, na despedida da razão. Como não ser um todo perante esse emaranhado de dez?

Final de estreia. A segunda parte da noite começa. De volta as calçadas da Rua Augusta. Bar. Cerveja. Caipirinha. Vinho. Porção. Cigarro. Troca de ideologias. Novas concepções. Convites. Novas amizades. Olhares trocados. Números discados. Mãos com dedos finos em coxas. Histórias de amor e submissão. Faculdade. Trabalho. Sexo. Livros. Cerveja. Garçonete atraente. Cerveja. Planos. Cerveja. Cerveja. Cerveja. Saudades.

— Vai descer?
— Que ônibus é esse, por favor?
— Coletivo dois mil e dezessete.
— Sim, é aqui que eu desço. Obrigada.
— De nada. Jovem.

 


 

Livro Coletivo
Scenarium Plural

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PLURAL Wild Nights

Loucas Noites – Loucas Noites – !
Estivesse eu contigo
Loucas Noites seriam
Nosso luxo, nosso abrigo!

Emily Dickinson
Tradução Isa Mara Lando

wc

A Revista Plural, em novembro, propõe experimentar as sensações que a noite provoca na pele, na alma. Alguns acusam inquietude. Outros assombro. Cada qual se permite uma sensação no breu… qual seria a sua?

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CORRESPONDÊNCIA | Carta ao Nelson…

Por Luciana Nepomuceno

 


 

“Sou um menino que vê o amor
pelo buraco da fechadura.
Nunca fui outra coisa.
Nasci menino, hei de morrer menino.
E o buraco da fechadura é, realmente,
a minha ótica de ficcionista.”


 

Diz-se que onde existe um leitor, existe, aí, um ato de escritor, pois o texto só alcança sua razão de ser ao ser, por ele, desvendado. Assim, agarrando-me a este tênue fio interpretativo, inverto o jogo e, como numa casa de espelhos, aproveito a brecha e faço dos leitores/escritores, um escritor/leitor. Assim, essa carta tem destinatário: Nelson.

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COLUNA PLURAL | Admirável (?) mundo novo…

Por Lunna Guedes

Estava a percorrer os corredores e prateleiras da Livraria Cultura no Conjunto Nacional e acabei por reparar, com alguma estranheza na quantidade de títulos disponíveis nas ‘ilhas’ organizadas de maneira a ‘gritar’ suas capas  cada vez mais coloridas. E diante daquele cenário estranho, uma frase francesa me veio imediatamente à cabeça: “ils ne lisent plus, ils écrivent“…

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ENTREVISTA |Claudinei Vieira

…se emaranha nas palavras, se enrosca nas palavras, se perde. E gosta de , de vez em quando, se perder. Faz sentido ao termo ‘poeta’ se deslumbrar com as perdas, com as ausências, com os ecos vazios. Mas, admite que pode ser um pouco frustrante, também, a busca, a ânsia. Dolorida, igualmente. Imagina que a beleza pode ser dolorida e que, ao final e ao cabo, feliz ou infelizmente, isso também faz parte do ser poeta. E Claudinei Vieira prossegue, entre as palavras, entre as perdas, entrechoques, aff, Poeta.

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COLUNA PLURAL | A palavra que me seduziu…

Por Obdúlio Nunes Ortega


 

Eu sempre gostei de desenhar… aos quatro ou cinco anos, reproduzia traços indecisos copiados de gibis e ilustrações de revistas… aos seis, na pré-escola, ao ser apresentado as primeiras letras, fiquei fascinado pelas possibilidades que se apresentaram em desenhar cenas através da condução das palavras. Aconteceu mais como se fosse a chegada de um vento suave a me envolver, a carregar ar novo no ambiente fechado do porão onde a minha família morava na Penha.

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Envio de originais…

 

Caro autor, de 21 de agosto à 10 de outubro de 2017… a Scenarium livros artesanais está aberta para receber novos originais, a serem publicados no ano de 2018.

Antes de enviar, entretanto, confira as ‘instruções para envio do seu original’ descritas abaixo. Originais que não seguirem essas instruções serão automaticamente descartados. 

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Claudinei Vieira

Autor de Yliê – Samê

Lançamento 26 | 08 |17

 


 

se emaranha nas palavras, se enrosca nas palavras, se perde. E gosta de , de vez em quando, se perder. Faz sentido ao termo ‘poeta’ se deslumbrar com as perdas, com as ausências, com os
ecos vazios. Mas, admite que pode ser um pouco frustrante, também, a busca, a ânsia. Dolorida, igualmente. Imagina que a beleza pode ser dolorida e que, ao final e ao cabo, feliz ou infelizmente, isso também faz parte do ser poeta. E Claudinei Vieira prossegue, entre as palavras, entre as perdas, entrechoques, aff, Poeta.

 

Cintia Araújo

Autora de Impressões
lançamento 26| 08 | 17

 


 

Nasci no outono. Manhã de sol enluarado. Ditadura imposta garganta abaixo. Por isso sou uma coisa escancarada. De derramamentos. Onde tudo brota! Mas paradoxalmente eu sou uma coisa hermética. De emburramentos. Onde tudo se guarda. Eu sou o outono. Com seus guardados. Suas exposições. Folhas penduradas nas árvores. Desfolhadas nas calçadas…

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