Junho | rotina (?)

Por Maria Florêncio


 

Mas, diante a dissipação da verdade…
A realidade se dilui em uma tempestade
turva, estampando as personas, cerrando…
as persianas dessas inúmeras vis caricaturas.
Por desacreditar nas tais máscaras,
Que algo além do corpo, morre…
Uma noite por vez. Uma vida por dia.

E na transparência de amores mais sutis,
Estes… vistos apenas sobre a face nua de pesadelos libertos,
não se permite mais sonhar de forma vertical… ou lúcida.

Entende a parábola do impossível.
Desenha um ‘Não’ de talhão a reverberar
por um extra mundo.

Esse a(r)mar polido, varrido pelo tempo
Digno de ermitão.

Um imenso acúmulo de nadas a preencher as vistas,
além das próprias trincheiras.

Estende a mão à palmatória… trava uma
batalha — maxibuco — mandibular.
Simplória.

E a cada golpe… lê um céu redundante.
Nuance de mar a desviar o peso de uma
Espécie de asa ausente viajante.

Nada sabe de seus próximos caminhos.
Pisa em falso, por acostumar-se a dor.
Verte sangue… deturpa as lágrimas
como forma errante de se conduzir.
.
.
.
( Mas nada disso importa!
Desde que haja… a ousadia do sol.
Em outro novo e… maldito amanhã).

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Nem sempre a lápis | três poemas de Ingrid Morandian

Outra face

amemo-nos como lâminas
na escura trincheira das horas
no acolhimento de versos sem distância

guardado no silêncio, tanto melhor
a lua surge na escadaria em modulações do corpo

não faço mesuras, ditei pensamentos em frente ao espelho
minha voragem são os minutos dentro das respirações
amemo-nos, dois foragidos na noite

 


 


Ferrovia leste

meu estado de neblina encobre os trilhos da longa ferrovia,
incontáveis esporas saem do meu corpo e machucam
como palavras afiadas,
a quem pertence estes caminhos?
o funcionário da estação não deixou
as correspondências de Deus. Falta-me a noite
e seu entorno, falta-me a realidade atrás das montanhas.
Por que os deuses repartiram o sol?
se não haveria mais tendas no frêmito das horas?
a estrada continua nebulosa, a luz do poste flutua na estação,
o funcionário esqueceu de deixar uma cópia da chave.
preciso abrir as ondas para limpar o oceano.
preciso partir.

o funcionário dizia: qualquer camada que se aporte no prurido
das vírgulas, causa um incômodo.
e, eu não entendia.
atravessei os quartos da casa como se fossem continentes
infinitos de histórias. O rumorejar de passos no assoalho
decompõe a química das sombras. O arredor borrado de escritas.
preciso partir

na véspera, uma senhora embarcou no último trem,
levando a existência de sonhos, a carregar a impermanência das palavras

 


 

Planar

Você, intumescido, agasalha o relevo
Da minha geografia
Após longa estiagem,
Pousamos leves na cama

Junho | A rotina clandestina da escritora que sou

Por Adriana Aneli


 

Ela acorda tarde. Vira de lado e se elabora. Gosta de ficar mais um pouco, quieta, preguiçosa. Anda meio calada, a palavra, que nunca se deu fácil a qualquer ouvido e prefere se ausentar a cumprir compromissos com o papel em branco.
É irritável e caprichosa, abomina seu uso excessivo, explicações repetidas, emoções alongadas. Aprecia o humor e exige liberdades: outros ritmos, novos significados.
Meu papel é alimentá-la bem e vesti-la com elegância. Em troca, vive aqui e me deixa espiar enquanto cresce…
Eu me divirto com sua graça. E me espanto com sua ousadia e toda a perversão das suas possibilidades.
Se me abandona, logo volta em bando, pássaro livre num comboio de ideias. Então despojo-me do que sou ou pretenderia ser um dia… Fico a seu serviço, escrevendo, sem me preocupar com perguntas, e paciente com tudo o que não está resolvido no meu coração.

Junho | NA MORADA DA PALAVRA EU SOU A CLANDESTINA

Por Nic Cardeal


 

Encontrei-a cabisbaixa e angustiada. Então ela foi se aproximando lentamente e desatou a falar-me em desesperada enxurrada:
– ‘Eu quis fazer de você a minha morada. Mas depois descobri que pessoas não podem ser casas, porque são asas. Como construir em ti uma janela onde eu possa sentir o vento da primavera, se choves quase o tempo todo de desesperançada ausência? Como abrir-te em portas, fazer-te comportas, guardar meus segredos em teus armários, se me recusas as chaves, as chances, os sonhos da madrugada insone? Como acender-te em lareiras, se preferes a neve a congelar-te em geleiras? Não. Não te posso habitar porque em ti paredes não há… Pessoas não podem ser habitadas. Porque não são habituadas a sem manterem em paredes inteiras. Preferem derrubar quaisquer obstáculos que as impeçam o nascer de horizontes. Porque são asas. Mesmo antes de nascerem pássaros. Humanos não são dos reinos dos habitáveis destinos. Muito mais propícios a desatinos… Em ti não encontrei meu quarto de adormecer. Mal pude dormir enquanto te amei, porque paixões são dadas a sangrias desatadas. Predestinadas a finais repentinos ou inusitados. Eu também quis fazer de mim a tua morada. Que nada… Teu voo passou ao largo. Deixaste cair uma pena. Da tua asa. Farei dela a caneta que escreve a minha linha. Pra costurar a minha alma rasgada. Descobri que não posso ser casa. Minhas paredes romperam na tempestade da tua saída. Pela porta da frente, sem trinco, sem chave, sem nada. Destelhaste minhas certezas tão passageiras… Eu – que sou letra, palavra, desenhos filamentosos dos teus desejos, anseios, saudades, receios – como vou morar em uma casa de silêncios, se sou palavras que gritam teus desesperos? Não… Não posso prender-me à tua rotina. Sou em ti a clandestina: livra-me da culpa da tua sina!’
Terminado o desatino, ela – a palavra – silenciou o arado da linha em brancas folhas em desalinho. Fiquei muda. Desnorteada – sem norte, sem voz, sem nada… Do que será feita minha rotina, sem a palavra à beira de ser dita?

Junho | Perigo

Por Mary Prieto


 

Aviso: essa narrativa é também um alerta. Quem quer que tenha esse texto em mãos pode prevenir-se da queda livre e espiralada em imensos abismos. Pode evitar insônia, ou o susto de ser acordado de madrugada sem razão aparente. Quem quer que flerte com as palavras, ainda tem tempo para repensar estratégias de conquista, transformando-as em plano de fuga.

Falo por experiência própria – não que a autoria interesse muito, porque autor só existe durante o exercício de preencher o papel – mas porque a propriedade experimentada de ideia não aceita (nunca!) meias palavras. Os verbos são medusas! Sob um enganoso e oferecido poder de ação, seduzem a manifestação ativa do sujeito pensante (iludido!) de que terá controle sobre as mil variáveis que serpenteiam na cabeça. Não terá.

E é por isso que quem escreve não tem rumo, não tem horário, não tem parada senão vazio… o vazio de esvair-se do fôlego que produz o verbo. A verdade é que não tem nada senão um fio, que chamam fio da meada, mas que em si não diz nada do que se deseja de fato saber.

Também não tem a pretensão de esclarecer, (como o pesquisador) mas de pesquisar a palavra, como um escavador. Os seus fundos são mundos de sede e de água, como as veredas do Grande Sertão, ou o Reino Perdido de Atlantis. A palavra perfeita exige sempre uma odisseia a um reino perdido, sem garantia de existirem ambos: lugar e artefato. Mas é quando apesar da procura, do cansaço e do percalço desértico, elas aparecem lúdicas e lúcidas, que o autor experimenta um nível alcalino de transparência do qual dificilmente vai se esquecer ou se livrar.

O corpo purificado, agora brilhante em conceito, contexto e emanação, não pode e nem pensa, nunca mais, em ignorar o fluxo. Ter servido de filtro ou ter sido filtrado pouco importa em ordem de fatores, o fato é que a clareza da percepção desperta, – e deseja sempre ser mantida – seja no silêncio, seja na expressão.

Converte-se dessa maneira o impulso em manutenção e, para o filtro ter vazão, todo o ciclo recomeça: desertos, medusas, areias movediças, poeiras nos olhos, cansaço, insolação, as veredas do sertão, a sede, e as miragens… até encarar de perto e por dentro o turbilhão-brainstorm que desce como chuva ou que sobe como furação, varrendo e diluindo a exaustão em puro alívio. Depois das enxurradas, o alívio em conta gotas vai pingando do ser escrevente – sal suor e lágrimas – vai germinando sons e imaginações despetrificadas, fotossintéticas, cheias de luz… e de mel.

Ah, e como seduz o doce das sílabas, fadas do vento encantadoras… para quem não as conhece. Eu, criatura transeunte entre paisagens extremas, sugiro, através da água e da terra que formam esse corpo escrito no barro e filtrado por pedras, que talvez seja melhor apelar ao fogo, e queimar esse relato. Quando se é escritor, tudo se consome em pó ou solvente. Quando não se é, também.

Junho | Tipos colecionáveis ou Personagens Clandestinos

Por Manoel Gonçalves (manogon)


As pedras cintilam pelas ruas. Feito exímio catalogador as examino e determino se vale a pena ou não guardá-las em meu acervo. Algumas podem servir para enfeite, outras para compor cenários, outras ainda, parecem ocultar feições e histórias. São verdadeiros personagens. E assim, vou coletando as espécies e as pegadas que as marcam.
Quando pequeno tinha a mania de colecionar coisas que me pareciam interessantes. Minúsculos tesouros de um desbravador em busca de pequenas aventuras. Nada de serventia ou de valor. Coisas que poderiam ser desde uma pedra diferente, seja pela cor, seja pelo formato, até mesmo uma ponta de lança de portão que por algum motivo curioso acabou parando bem no meu quintal. Tentava imaginar de onde vinha ou quais caminhos percorridos pra chegar até ali. E mais ainda, o que poderia fazer a partir das bugigangas. Às vezes não surgia nada e com o tempo o artefato era descartado para dar lugar a outro encontrado. Mas não raro brotavam do meio das quinquilharias um carrinho Frankenstein com peças variadas e um pedaço de madeira, lança de caçador, um monstro ou algo que pintado daria outra cara, cenário pra guerra de soldadinhos, entre outras invencionices. Tantas coisas quanto a curiosidade de menino poderiam bolar.
Como designer já armazenei inúmeras coisas que depois fui intimado a jogar fora, tanto pela falta de espaço quanto pelo apelo “convincente” da esposa. Mas quem é designer sabe bem dessas manias… Ou não, caetaneamente falando. Quem resiste a uma embalagem bem criada, com todo tipo de dobra ou engenharia de papel? Ou um cartaz bem elaborado, um livro, uma revista. Enfim, uma criação bem feita. Fica pra estudo, pra inspiração, pra motivação a fazer um trabalho tão inspirador quanto. Por esse prisma, o que pode ser lixo pra alguns é combustível pra ajudar no funcionamento da máquina.
Ao me descobrir domador de estrelas, manipulador de sonhos e constelações, artesão de meias palavras ou de falas inteiras, percebi que a velha mania de colecionador não havia me abandonado. Afinal, quem sai de casa e fica olhando os tipos de pessoas que cruzam seu caminho, as formas diferentes de falar ou andar, estaturas, cores, cheiros? Sair de ônibus e prestar mais atenção ao desenho das sombras ou às figuras que passam disformes pela janela, o asfalto que corre rápido ao olhar pra baixo ou o prédio que se arrasta lento ao longe, um gesto do cobrador, alguma cena de passageiros… são desenhos de uma cidade em constante efervescência, criando suas personagens reais, mas de grande riqueza fictícia.
Por essas andanças já topei com tipos ou situações dignas de crônicas, contos, poesias… Algumas se fizeram em letras e linhas. Outras estão naquele amontoado de quinquilharias, esperando se fundirem para dar vida a outras histórias e sentimentos.
Paro no ponto de ônibus, uma mulher se aproxima, pergunta sobre determinada linha. Começa a conversar, falar de sua vida, mesmo que eu nada tenha perguntado. Ela só queria alguém pra desabafar. Talvez se soubesse que sua história poderá ajudar a criar outra ficasse mais feliz. Ou nem tivesse contado nada. No trem o rapaz conta, todo orgulhoso, como fez para enganar a namorada e ficar com outra. Se ele soubesse que bem ali há escritores e escritoras… ou talvez saiba e queira isso mesmo: flashes, holofotes e uma alcunha de “pegador”. De outra vez, desço do ônibus, atravesso a avenida e, logo do outro lado de outro farol, presencio a cena de uma moradora de rua sentada na mureta da calçada, vasculhando os sacos plásticos que carrega. De lá retira uma camiseta, tão surrada quanto a que estava vestindo. Talvez mais leve, mais limpa ou menos usada. Sem a noção de pudor vigente na sociedade que a colocou à margem e sem se importar quem estaria por perto, acostumada quem sabe com a invisibilidade de mobília que foi condicionada a se acomodar, despe-se na parte de cima e fica ali arrumando a camiseta tirada nos sacos, sem pressa para se vestir novamente. Ônibus param e os passageiros mexem, falam asneiras. Um carro praticamente para e, atrás do volante, seu motorista expõe uma face risonha e embasbacada. A mulher vira para o ônibus e veste-se tranquilamente, pega seus sacos e sai pela calçada, levando consigo seus pensamentos e a sua verdadeira história. Eu, espectador clandestino de seu momento, fico apenas com o arquétipo ali representado. Na impotência ante ao fato, na importância do trato, na pressa cotidiana de trabalhador com receio de chegar atrasado e ver descontado parte de seu provento ou de uma possível bronca, saio apressado, impactado e incitado em imortalizar a cena em um poema. Deixar para o tempo futuro o registro de uma cena marcante, uma pincelada da vida real, mesmo que vista apenas por meus olhos, distante da rotina ou da história verdadeira daquela senhora anônima, a qual, muito provavelmente, já observou outras pessoas, outras histórias, outras cenas. Fico a imaginar se ela mesma, um dia, não poderia ter sido uma das escritoras clandestinas envoltas na neblina da cidade e seu ritmo alucinante.
Amantes das letras, esses magos alquimistas de inúmeros ingredientes, cientistas malucos a fazer experimentos com suas peças guardadas, colecionadas e catalogadas, transitam livremente na dualidade da arte que imita a vida ou a vida que imita a arte, mistério que, no mínimo, fomenta suas mentes e fornece materiais suficientes para suas criações.
Sigo coletando impressões, opiniões, sentimentos, texturas, sons, cores e cheiros por aí. E, evidentemente, sei que também pertenço a esses tipos, alimentando a observação de outros autores camuflados no público.

Junho | Caminhos ínvios do escritor que pretendo ser, fui ou serei

Por Caetano Lagrasta, escriba geral do país da galhofa.


Poizé.
O tema exige reflexões:

a primeira: pretendo ser o novo cacique da pajelança literária (não há negar, uma bela definição para uma carreira em todos os mundos dificílima, cheia de obstáculos, invejas, panelas e danças ao pé do fogo); mas pretendo ser um escritor sério, respeitador de pontuações e parágrafos, digno da imensa cultura-pátria; logo, existo; ou seja, em breve estarei de pires ou objeto mais prosaico a esmolar se dignem editores/revisores e alhures a dar uma vista d’olhos aos meus testículos, ops, breves textos que pretendo amontoar em estilo novela ou romance – diga lá quem sabe definir ambos – ou em caso extremado e nada ocorrente neste país da galhofa em “edição do autor”; essa, essa mesma, que a gente se esfalfa também em arrumar ilustrador e dinheiros para tudo; e, aqui, não vai crítica a ninguém que seja do ramo ou que a ele está a se aventurar: dinheiro não tem pra isso, salvo pros iluminados e paneleiros (não no sentido português, de Portugal, da palavra); o que não impede sejam as panelas também constituídas de paneleiros; capítulo dos mais interessantes e prosaicos nos deparamos também ao enviarmos o tal do bagulho à gentil crítica literária do país, constituída dos elementos mais agregadores e por isso mesmo defensores do espaço que a duras penas e muita calça abaixada conquistaram para protegerem amigos e aos outros dispensarem as leis draconianas do desrespeito e da superficialidade dos conhecimentos pelas beiradas; assim, estou a cogitar por onde começo a baixa-las e de que forma irei me integrar nesse mundinho imundo que se convencionou chamar de literatura, daí a pretensão ignóbil de pretender ser um escritor;

a segunda é aquela que foi me amparando nesses anos todos, sob a capa negra do sucesso (pra inglês ou a mamá verem) em que elogios sobraram e por consciência pura saber que não passaram de incentivos – puros na origem e que não pretenderiam que o neném se perdesse nos desvãos ínvios de proteção por parentesco – acabaram-se na venda de alguns exemplares, por favor dos que os compraram, e que jamais foram lidos, até mesmo folheados antes de com o maior dos respeitos lançados ao lixo juntamente com os dejetos mais tristes do próprio cão;

a terceira como sinfonia catatônica e religiosa, defino-a em três palavras: “a deus pertence” e me ponho a imaginar a que deus, que com desfaçatez se apresenta como proprietário de tudo: ideias, devaneios, surtos e outros desvãos da cabeça cheia, quase sempre de cachaças e, até, quando a maré ajuda, de vinhaças e uiscadas; se Macunaíma vivo estivesse com certeza saberia responder a este profundo questionamento também com uma bela e pequena frase: ‘FALTA QUEIJO’ e assim continuaria por muitos destes anos a tripudiar o governante do dia, sem esquecer os encantos das belas índias e seus peitinhos ou peitões de fora, desviando o olhar dos aparatos humanos masculinos, ao temor de aos paneleiros ser confundido;

assim nada mais possa augurar ao jovem ou velho ou temperado escritor do que um feliz natal!

Junho | sem clã…

Por Silvana Schilive


O sol rasga o horizonte, o café me acorda, a vida me leva escadaria acima! Desenho a giz o dia todo, substantivos, pronomes, adjetivos e verbos indicativos/futuro do presente/mentirosos…
O jaleco revela a clandestina que sou!
Grito incessantemente coisas-sem-muita-razão que devem ser ditas, registradas e avaliadas. Pelas frestas da janela o mundo lá fora tenta avançar o mundo pretérito aqui dentro… As ondas wi-fi navegam celulares que tremem também clandestinos em mochilas largadas pelo chão ou penduradas desconfortavelmente nas duras cadeiras do tempo.
A rotina segue o planejamento do curso elaborado a séculos…
Eu grito, ele/ela grita, nós gritamos, eles/elas gritam.
Ninguém ouve! Todos reclamam…
A rotina conjuga a batalha misteriosa da inercia dispostas nos tijolos encobertos pela argamassa das artimanhas do poder.
Uma clandestina sou eu! Rabiscando relâmpagos poéticos nas portas dos banheiros femininos esperançosa por leitoras atentas… Revelando segredos pelas frestas do tempo roubado, enquanto o relógio marcas as oito horas diárias vendidas por preços módicos.
Discretamente vestida, lanço palavras ousada para muitos que não querem ouvir, ansiosos por um sinal de dispensa.
O dia passa… Sem muito acontecer!
A mochila, quase um membro extra… Sorrateiramente esconde as asas da literatura que, por muitas vezes, a salva… Um simples toque silencioso, duas capas se abrem e o voo inicia-se… Transporta-se para lugares imaculados, revigorando sua clandestinidade necessária por tempos sombrios. Saca um poema vigoroso e adentra um novo dia. A luta diária a faz gritar, quem sabe um dia… o silêncio rompido torna-se real aos ouvidos ouvintes.
Quando despe-se ao anoitecer, revela-se em sonhos… Paraísos minúsculos, delicados. Esculpe na brancura do papel, as mais intensas verdades, os medos desenhados nas cicatrizes queimadas pelo sol, transformadas pela chuva. Deixam de existir. Despojada… Revela-se… Entorna-se! Aprisionando o tempo nas palavras lançadas, ora delicadas, ora impetuosas! Assim vinga-se da clandestinidade a qual é submetida rotineiramente…

 

Junho | Rotinas

Por Joakim Antonio


Estou aqui, em meu local preferido, de onde as palavras saem macias pela ponta dos dedos. Como um ritual, chego e faço um café, um dos elementos sagrados da minha comunhão com as letras. Logo após, abro as portas, cumprimento as pessoas e dou bom dia a vida, direto no brilho dos olhos, em cada um. Cada pessoa que chega é um livro. Cada momento, uma crônica a ser contada. E se me fizer sorrir leve, será poesia. Mas essa é apenas uma das minhas rotinas diferentes.

As pessoas acreditam que a rotina as salva do desconhecido. Ledo engano. Vejo-as bendizendo dias iguais. Tudo correu como planejado. O lixeiro passou cedo, a escola abriu suas portas, os pés fizeram o mesmo caminho e os antigos amigos aparecem sempre. Se observarmos bem, esperar tudo formatado e perfeitamente igual, é a mais pura perdição. Se existir um inferno, ele é feito de dias iguais. Nenhuma folha cai. Nunca se encontra um filhote precisando de ninho. E não se olha o céu, sabendo ser sempre azul e não sentindo o chamado das próprias asas.

Mas também vejo as pessoas sendo salvas. Mesmo que reclamando constantemente de algo, que no final lhe dará uma nova vida. Caminhos diferentes que os obrigam a se virar. Pode ser que você me ache louco, mas procuro sempre novas rotas. Aquele algo que falta dentro da rotina, mesmo que ainda não saiba o que ando procurando. Passo do bar da moda, ao boteco do seu Zé. Deixo a linha reta e prossigo formando um semicírculo, até o destino da noite, nunca final.

Muitos me fazem companhia, mesmo sem saber. Quando vejo e compro aquele doce que a pessoa disse gostar, naquela casa com uma plaquinha na porta. Tiro fotos de pequenezas que contam e complementam seus dias. Apareço com um presente-gesto, intuído ao passar pelo arboreto, em direção ao horto florestal. Passo o dia buscando aquele sorriso guardado, ao descobrir o que dá mais prazer a alguém. E não guardo segredo quando as quero. Nem mesmo é secreto o lugar para onde vamos.

Tenho meus segredos, claro. Rotinas malucas que existem apenas em minha mente. Lugares de campo aberto, com orgias de palavras. Locais fechados ao olhos, dos não convidados. Mas também há os físicos. Como os bares com vitrolas ou rodas de choro, em pleno centro da cidade. Num domingo chuvoso, com voz de um bêbado que revela a vida, entre um gole e outro. Chamando-me pelo nome do melhor amigo. Engraçado que por mais que eu diga que chame Joaquim, só me chamam de Francisco. Quando durmo demais e acordo cansado, lembro desse locais secretos e fico pensando. Se não ando por aí, livre clandestino. Com pseudônimo de santo. Atentando quem quiser conversar.

Junho | Criminoso…

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Houve um tempo que evitava declarar ser escritor. Não porque considerasse algo indigno ou vergonhoso, como se confessasse ser um ladrão. Apesar de sê-lo, também. Mas porque, sendo sonho de menino, não acreditava que o fosse, mesmo depois de certa idade e escrevendo muito. Intitular-me um artesão da palavra, se configurava um projeto para o futuro. Cometia o erro de acreditar que faltasse publicar um livro – objeto icônico – que carrega, por si só, o condão de incensar quem o assina, como “escritor”.

A publicação de meu primeiro projeto não me tornou escritor. Assumir a premência de ser um, sim. Consequência de uma necessidade basal – colocar para fora tudo o que me consumia, para não me envenenar com frases mal digeridas e morrer. Ainda que faça parte do contexto, morrer, matar, odiar, amar, construir, destruir, ser franco, saber mentir – viver-escrever.

Porém, para que produza meus textos, estabeleci uma rotina clandestina – roubo meu próprio tempo. Ajo como ladrão, muitas vezes, arrependido. Arrependimento que se dissolve assim que fico satisfeito com o resultado do furto. Já tentei me redimir. Mas quando percebo que minhas expressões vêm a calar fundo em quem as lê, meu receptador-receptor – um leitor, ao menos – produz-se um sentimento de compensação que me faz reincidir-honrar a persona que finalmente assumi.

Eu não apenas roubo tempo. Também rapto pessoas e seus afazeres, surrupio histórias que ouço ou presencio, acompanho passos de tantos, como se fosse um perseguidor. Esquartejo vivências de vários, para criar “Frankensteins” infames. Fuço vidas alheias para chegar a conclusões irreais. Assumo a identidade de outros, cometo falso testemunho. Por vontade confessa, sou um criminoso contumaz.

A tentar equilibrar os afazeres cotidianos, família e amigos, troco o relaxamento do descanso pelo artesanato da escrita. É um ofício vital, com mais erros do que acertos. Contudo, me garante acessar lugares recônditos de mim mesmo. Eu me surpreendo quase sempre em auto revelar quem sou-estou, ainda que tente esconder essa identidade por trás de artifícios verbais – conto do vigário. Entre ações delituosas que me fazem perder e tentativas arredias de me encontrar posso, finalmente, asseverar: sou escritor.

Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro…

I

Suores noturnos
E cantigas de ninar
Nenhum sonho possível
Para quem não dorme
O homem no espelho
Oferece uma moeda
Não existe o que contar
Nenhum sonho plausível
Digno de mentira
Lá fora, do lado de lá
Da madeira velha da janela
Cimento e saturno
Dá me um olho de vidro
Para enxergar luas e anéis
Quem sabe conto meu último pulsar
Dentro do soturno
Numa caixa forrada de veludo
Vinho piegas
Guardei meus escritos
Como sonhos sólidos
A flutuar num oceano de vidro.


 

II

Não vejo fantasmas a indagar
Apenas sua dança serena
Arrancando sorrisos e reações
No final do corredor
Um cigarro aceso e um gole morno no café
Para praguejar
E dançar contigo
Um rabisco de Deus no seu rascunho
Teatro de fantoches
A pensar sobre porquês
Antes que a bomba caia

 


 

III

Já moço
Encontro-me as duras penas
Com plenos futuros
E perdas
Flores raras que murcham
Cores caras que desbotam
Destoam dos gritos agudos
E choros sem mágoas
Fantasmas de adultos
Pormenorizando o menino
Jogastes com suas mãos
Para meu chute, bola de meia
Centelha fina do religare
Que fatia dividindo
Falta e saudade…

 

_____________________________

Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015 e ‘Alameda das Sombras  — ano 2016.

Junho | a minha rotina clandestina…

Por Mariana Gouveia


Sabe amor, …essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.

Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.

Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.

Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.

Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…

Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.

Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.

Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…

E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.

Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!