Envio de originais

Caro autor,

De 17 de setembro à 31 de outubro de 2018… a Scenarium livros artesanais receberá novos originais.

Antes de enviar o vosso original, peço que confira as ‘instruções para envio do seu original‘ descritas abaixo.

 



A Scenarium livros artesanais publica: contos, crônicas, poesias e romances na categoria adulto. Não publicamos títulos que se afastem desta linha editorial.


 

Prepare o seu original, seguindo as seguintes características:

Documento. Word
Fonte: Times New Roman
Tamanho: 12
Espaçamento: 1,5.

Na folha de rosto, coloco as seguintes informações:

Titulo da obra
Nome do Autor
E-mail de contato

Nomeie o seu arquivo com o seguinte padrão:
Nome do autor_Nome da obra_Gênero (poesia, ensaio, conto, crônica, novela ou romance)

Ex: Mar de dentro_Lya Lyft_Crônica

Faça uma breve descrição de vosso livro: 10 linhas, no máximo.
Em caso de romances: acrescente o primeiro capítulo da história.
Contos, poesias e ensaios: favor enviar 03 textos completos.

Na linha de ASSUNTO do e-mail… favor anotar: “Original Scenarium 2019 (Gênero do livro)”.

Ex: “Original Scenarium 2019 Contos.

 

E,  no corpo do e-mail, o autor deverá acrescentar uma breve biografia.

Envie para: scenariumplural@gmail.com.


 

A Scenarium livros artesanais informará através do e-mail informado pelo autor, até o dia 30 de novembro de 2018, se a proposta apresentada foi aceita para publicação em formato artesanal.

Os originais selecionados serão publicados a partir de março de 2019.

 


 

Em caso de dúvidas, entre em contato
scenariumplural@gmail.com.

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Entrevista | Obdulio Nuñes Ortega

Obdulio Nuñes Ortega — o homem — nasceu como todos nascem, do ventre de uma mulher, após nove meses. O escritor, no entanto, foi gerado pela Realidade… pelo mundo-vida… e alimentado diariamente com as muitas cenas de momento. Cresceu… entre corpos-esferas — transpassando-os. Naturalmente observador-contestador… se deixou enraizar no corpo do homem, de onde emerge para reconhece a si nos outros ou seria os outros em si?

Obdulio, Rua Dois

Scenarium — O título de seu livro é ‘Rua 2’. Como é a sua relação com a rua?
Obdulio — Quando cheguei à ‘Rua 2’, a região era quase deserta. Durante muito tempo, não havia asfalto. Nem água encanada. Puxávamos água de poço. O esgoto era de fossa séptica. O fornecimento de luz elétrica era intermitente. Tapumes de madeira nos serviam como portas e janelas. O chão era de “vermelhão”, as paredes, de cimento cru. Eu jogava bola na rua com os vizinhos, apenas tomando cuidado com a passagem das charretes e dos pouquíssimos carros. Nessa época, tinha uma relação mais íntima com a rua e era mais conectado às pessoas. Ao longo dos anos, com a melhoria das condições estruturais e padrão de vida, as relações sociais se tornaram menos íntimas. Hoje, a rua serve apenas como caminho para chegar e sair. Contato com os vizinhos, apenas esporádicos e rasos, com alguns poucos mais próximos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita dos contos de seu livro?
Obdulio — Foi errático. No início, até que fluiu com certa facilidade. A ideia central que o permeava era diferente da que acabou por prevalecer. Eu o havia intitulado “Viver E Morrer Em Movimento”. Após haver a percepção que a origem dos personagens era a mesma – a periferia – surgiu a forma que se estabeleceu: personagens que vivem na mesma rua, a 2. Algumas histórias se imbricam, para além da localização em que moram. Por quase um mês, fiquei sem escrever uma linha. Um conto que acabou por não fazer parte do arranjo final, destrancou a porta pela qual continuei a caminhar.

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Scenarium — Como é a sua relação com as personagens de seu livro?
Obdulio — Gosto francamente de alguns personagens. Principalmente daqueles que chegaram sem pedir licença, como a da Casa 4. O da Casa 1, é um moço que conheço particularmente. Pelo “Morador da Rua 2”, tenho muito carinho e o da Casa 18, talvez tenha características parecidas com as minhas – quando criança, desejei ser motorista de ônibus. Estranho, já que nem dirigir automóvel, dirijo…

Scenarium — Antes de Rua 2, você publicou um livro de crônicas ‘REALidade’. Como foi migrar da crônica para o conto?
Obdulio — Sempre pratiquei escrever contos. Mas não tão curtos como os da Rua 2. Aliás, peco pela prolixidade. Estou aprendendo a me conter. Gosto de detalhar, talvez até demais. Tive a orientação de Lunna Guedes e sofri a influência de Adriana Aneli, de Café Expresso.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Obdulio — Se gosto de respirar?…

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Obdulio — Amor e desamor. Quando mais novo, comecei a ficar muito envolvido com a literatura. Lia e escrevia compulsoriamente. Erroneamente, acreditei que a isso me afastava das pessoas. Costumo dizer que vivia mais literariamente do que literalmente. Eu me afastei radicalmente. Exageros de minha personalidade. Acho que agora mantenho uma relação mais equilibrada com ela.

ob e claudia

Scenarium — Quem são os seus pares?
Obdulio — No Romance, Machado de Assis. Na Poesia, Drummond de Andrade. Na Crônica, Lourenço Diaféria e Érico Veríssimo.

Scenarium — Nos conte como foi descoberto na literatura?
Obdulio — Mais uma vez, Lunna Guedes, por intermediação de Edward Hopper. Eu estava, junto a um grupo de amigos, em visita ao estúdio de Maria Cininha, que já ilustrou para a Scenarium Plural – Livros Artesanais. Lá, encontrei um livro com obras do pintor Edward Hopper. Eu me apaixonara por seu trabalho desde que o conhecera pela Internet. Depois de explorá-lo por duas ou três vezes, abri a porta para uma nova visitante, Lunna. Continuei a folhear o livro enquanto era observado por sua insuspeita proprietária, que havia emprestado a obra para Maria Cininha. Após Hopper nos apresentar, desenvolvemos a relação literária, através das redes sociais, onde publicava os meus textos. Lunna me apresentou o projeto artesanal da Scenarium, bastante encantador por sua proposta na busca da expressão literária independente de esquemas mirabolantes e improdutivos e da relação direta do escritor com o leitor. Um fator enriquecedor.

Obdulio e Marcelo Moro

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Obdulio — No meu caso, sim. Busquei, desde a época do Orkut e do início dos blogues, divulgar os meus textos. Depois, no Facebook. Porém, como alguém já disse, sendo “terra de ninguém”, talvez não seja a melhor plataforma de expressão. No entanto, apenas recentemente consegui desenvolver a minha página na WordPress, que tem sido a minha principal atividade, além das publicações da Scenarium.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Obdulio — Com a minha atenção voltada para a produção de Rua 2, fiquei afastado de leituras mais atentas, a não ser nos blogues. Publicado o meu livro de contos, inicialmente colocarei as publicações de meus colegas de selo em dia. São autores aos quais admiro e gosto de acompanhar.

Entrevista | Mariana Gouveia

 

Mariana-menina nasceu no interior de si e brotou para o mundo a partir das linhas tecidas desde a infância. Se fez mulher em linhas retas, remendos de tempo e tecitura de urgências. Se reinventou poeta ao espiar a realidade que ela modela em versos que a pena nem sempre escreve. Se deparou com a loucura em algum momento e decidiu que seria seguro-confortável falar desse temido tema em seu primeiro romance, escrito nesse seu último ciclo de vida porque todo fim é também começo quando o fundo de si é abrigo para o escritor que se conjuga em primeira-segunda-terceira pessoa.

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Scenarium — O título de seu livro é ‘corredores, codinome loucura’. Como é a sua relação com a loucura?
Mariana Gouveia  desde pequena a loucura é uma constante em minha vida. Havia uma tia casada com meu tio, que tinha os rompantes de loucura nas reuniões de família, além da menina da casa ao lado, que gritava o tempo todo — mas com quem eu brincava nas horas de descuido das mães — e que era considerada louca pela cidade inteira.
Aquela menina tinha alguma coisa que me fascinava. Os olhos não diziam o que todo mundo falava. Mas, loucura mais próxima era Lavorí, o homem do saco — escrevi sobre ele na Plural BLUE — Lavorí era a palavra loucura mais lúcida para mim. Vez por outra, aparecia em nossa fazenda e embora despertasse medo nas crianças, trazia o fascínio da loucura nos gestos.

Scenarium — Como se deu o processo de escrita de seu romance?
Mariana Gouveia — primeiro com um pequeno esboço, porque faltava peças para alinhar dentro da história. Fiz uma visita ao local e ali, foi onde concebi o formato entregue a editora.

mariana entrevista

Scenarium — Como foi a sua relação com a personagem de seu livro?
Mariana Gouveia — no primeiro momento foi mais de aconchego. Abri os braços e deixei ela se aninhar. Daí, foi mesmo reencontros e emoção.

Scenarium — Corredores foi o seu primeiro romance publicado. Antes você publicou um livro de poesias ‘o lado de dentro’. Como foi migrar da poesia para o romance?
Mariana Gouveia — não sei se a poesia não se deixou escapar. Afinal, para escrever um romance é preciso estar prenha de poesia. Na verdade, sempre quis contar histórias. Corredores foi ganhando vida através dos dias e agora vagueia por aí.

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Scenarium — Você gosta de escrever?
Mariana Gouveia — acho que já nasci escrevendo. Minha mãe contava que eu acabava com os cadernos primeiro do que os outros irmãos — ela costurava os papéis de embrulho na máquina de costura e os transformavam em cadernos — aprendi a ler muito cedo e desde então escrevo. Adoro ver a caneta/lápis a deslizar pelo papel.

Scenarium — Como é a sua relação com a literatura?
Mariana Gouveia minha relação com a literatura também começou cedo. Minha mãe era apaixonada por fotonovelas e livros. Como morávamos no Interior de Goiás, a maioria dos livros chegavam até nós pelos Correios e quem nos enviavam eram os nossos correspondentes que conseguíamos através do rádio — outra paixão — e como morávamos em fazenda, os livros eram enviados junto com as cartas. Claro que alguns livros eram confiscados pela minha mãe ou a professora da escola da fazenda. Me lembro que quando li meu pé de laranja lima foi encanto a primeira lida.
Com a mudança para a cidade e alguns fatos que aconteceram, o meu lugar preferido era a biblioteca da escola. Ali, eu ficava horas, de amor explícito com alguns autores. Desde então, tenho um casamento com a literatura. Quando me encontrei com a Scenarium, foi como tivesse encontrado a ponte para atravessar para o outro lado da literatura.

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Scenarium — Quem são os seus pares?
Mariana Gouveia — na biblioteca da escola quando me deparei com Manoel de Barros, fui conquistada. Parecia que ele estivera comigo a infância toda e escrevia sobre isso. Me encantei com Manuel Bandeira, Saramago e Mia Couto. Ao mesmo tempo descobria Clarice, Ana Hatley, Cora Coralina e outros.
Atualmente, namoro com o mundo Scenarium. Há muita gente boa e em especial, gosto muito de Aden Leonardo, Lunna Guedes, Adriana Aneli,Nic Cardeal e outros.

Scenarium — Nos conte como foi descoberta na literatura?
Mariana Gouveia — foi através de Lunna Guedes, editora da Scenarium. Eu a encontrei em um blog e me vi envolvida na escrita dela. Recebi um convite para participar de uma publicação do Caderno de Notas e fui acolhida pela família Scenarium. Em 2015 fui convidada a escrever um livro de poesias, da Série Exemplos e estou aqui.

mariana entrevista 3

Scenarium — Você considera que a internet seja um caminho para o escritor?
Mariana Gouveia — acredito que sim. As redes sociais tem um alcance maior hoje. Eu, por exemplo, uso apenas as redes sociais onde divulgo os livros, o blog e meus textos e com isso consigo atingir até mesmo leitores de outros países.

Scenarium — Qual sua leitura atual?
Mariana Gouveia — além dos livros da Scenarium, com seus vários autores maravilhosos estou lendo Asas da Loucura — a extraordinária vida de Santos Dumont; Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves e O colecionador de conchas.

23 – Nem sempre a lápis | três poemas de Ingrid Morandian

Outra face

amemo-nos como lâminas
na escura trincheira das horas
no acolhimento de versos sem distância

guardado no silêncio, tanto melhor
a lua surge na escadaria em modulações do corpo

não faço mesuras, ditei pensamentos em frente ao espelho
minha voragem são os minutos dentro das respirações
amemo-nos, dois foragidos na noite

 


 


Ferrovia leste

meu estado de neblina encobre os trilhos da longa ferrovia,
incontáveis esporas saem do meu corpo e machucam
como palavras afiadas,
a quem pertence estes caminhos?
o funcionário da estação não deixou
as correspondências de Deus. Falta-me a noite
e seu entorno, falta-me a realidade atrás das montanhas.
Por que os deuses repartiram o sol?
se não haveria mais tendas no frêmito das horas?
a estrada continua nebulosa, a luz do poste flutua na estação,
o funcionário esqueceu de deixar uma cópia da chave.
preciso abrir as ondas para limpar o oceano.
preciso partir.

o funcionário dizia: qualquer camada que se aporte no prurido
das vírgulas, causa um incômodo.
e, eu não entendia.
atravessei os quartos da casa como se fossem continentes
infinitos de histórias. O rumorejar de passos no assoalho
decompõe a química das sombras. O arredor borrado de escritas.
preciso partir

na véspera, uma senhora embarcou no último trem,
levando a existência de sonhos, a carregar a impermanência das palavras

 


 

Planar

Você, intumescido, agasalha o relevo
Da minha geografia
Após longa estiagem,
Pousamos leves na cama

22 – Nem sempre a lápis | três poemas de Marcelo Moro…

I

Suores noturnos
E cantigas de ninar
Nenhum sonho possível
Para quem não dorme
O homem no espelho
Oferece uma moeda
Não existe o que contar
Nenhum sonho plausível
Digno de mentira
Lá fora, do lado de lá
Da madeira velha da janela
Cimento e saturno
Dá me um olho de vidro
Para enxergar luas e anéis
Quem sabe conto meu último pulsar
Dentro do soturno
Numa caixa forrada de veludo
Vinho piegas
Guardei meus escritos
Como sonhos sólidos
A flutuar num oceano de vidro.


 

II

Não vejo fantasmas a indagar
Apenas sua dança serena
Arrancando sorrisos e reações
No final do corredor
Um cigarro aceso e um gole morno no café
Para praguejar
E dançar contigo
Um rabisco de Deus no seu rascunho
Teatro de fantoches
A pensar sobre porquês
Antes que a bomba caia

 


 

III

Já moço
Encontro-me as duras penas
Com plenos futuros
E perdas
Flores raras que murcham
Cores caras que desbotam
Destoam dos gritos agudos
E choros sem mágoas
Fantasmas de adultos
Pormenorizando o menino
Jogastes com suas mãos
Para meu chute, bola de meia
Centelha fina do religare
Que fatia dividindo
Falta e saudade…

 

_____________________________

Marcelo Moro autor de ‘Teatro das Ousadias’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015 e ‘Alameda das Sombras  — ano 2016.

21 – Nem sempre a lápis | Manoel Gonçalves

Broto da saudade

Ah, saudade…
Saudade é feito florzinha
Nasce miudinha
Assim picorruchinha
Guardada na alma
Encoberta no coração
Depois parece ficar murcha
Encolhida no seu botão
Mas aí ela vem danada
Desabrocha nuns olhos
Marejados de água
E encontra solo fértil
Nos momentos de solidão
Cresce tímida tal qual broto
Mas rapidamente ganha corpo
E espalha a vegetação
Seria como árvore frondosa
Se não fosse ao menos bondosa
Brincando com a imaginação
É, saudade é um bicho engraçado
Faz um furdunço disgramado
Um nó dentro do peito
Sem deixar respirar direito
Trazendo de volta o passado
A saudade é uma lembrança
Brincando como criança
Com tudo que está dormente
De tudo que a gente sente
Seja pra nos dar nostalgia
Seja pra ficarmos contentes


 

Prisma

Beleza
Está nos olhos
De quem a veja
Não em embalagens
Nas prateleiras do mercado
Não em desfiles chiques
No look de Fashion Week
Nem em catálogos de moda
Pele perfeita e físico foda
Ou na cultura do superpop
Na self ou retoque de Photoshop
Na exploração às suas custas
No desejo de bumbum na nuca
A beleza eu repito
Está nos olhos de quem vê
Porque se for ver a real
Ela pode ser uma coisa pra mim
E outra diferente pra você

 


 

 

Cicatrizes

Entalhado em madeira nobre
Pelo Mestre habilidoso
Lapidado, tratado e ungido
No veio de rio caudaloso
As marcas que hoje percebe
Sulcos da linha do tempo
Marcas próprias da história
De cada vivido momento
Pele embebida em poesia
Magia de aventuras e lamentos
Costuras de alegrias e dores
Uma colcha de sentimentos


 

Manoel Gonçalves (Manogon) é autor de ‘Caminhos Tortos’  — série exemplos de poesias da Scenarium — ano 2015.

18 – Nem sempre a lápis | trecho de vermelho por dentro

Após o último prato ser retirado da mesa, passaram à outra sala, com seus estofados brancos e dúzias de retratos dos antepassados da família Amaral, pendurados nas paredes — sempre tão azuis —, pintados por Tony Koegl, um alemão que tinha migrado para o Brasil, em 1927.
Deborah reconheceu o estilo do pintor, que abusava das fortes pinceladas. Preferiu se afastar das telas… espiar de longe as cores quentes misturadas… se oferecendo aos olhos do ‘panteão’ Amaral.
— O melhor dos retratos dessa casa não está aí. O guardo para mim, pendurado na parede de meu quarto. — cochichou Eva, ao se aproximar de Deborah.
A troca de olhares e de sorrisos não passou despercebida de Claudia, que se sentiu mais uma mendiga de afetos, com as mãos vazias, em suspenso no ar, e foi atrás de um cálice de licor, como forma de amortizar seus desconfortos. Bebeu o líquido escuro de um gole só e sentiu imediatamente o efeito do gesto febril no corpo todo. Respirou fundo e se equilibrou nos saltos que, por um instante, pareceram afundar-se no chão. Passados alguns segundos, sentiu-se pronta para outro gole. Encheu o copinho, sob o olhar de reprovação de Helza, e pôs tudo para dentro.
Sentia-se melhor… sentou-se ao lado do pai, no braço da poltrona, enquanto procurava por respostas às perguntas que fervilhavam dentro. E, como os diálogos estavam inaudíveis, resolveu quebrar o silêncio com sua voz em ondas.
— Você é casada, Deborah?
— Non!
— Então, não tem filhos?
— Ne pas!
— Foi por falta de oportunidades?
— Certainement! — ironizou, dividindo o sorri-so com Dario e Eva.
— Você não parece o tipo de mulher que um homem escolhe para se casar?
— E esse ‘tipo’, por acaso, existe?
— Uma mulher de família… se prepara a vida toda, desde o seu nascimento, para viver o seu grande momento: entrar na igreja, com o mais belo dos vestidos, e caminhar por entre os convidados, ao som da
marcha nupcial. Uma vez no altar, diante do padre e da igreja lotada, ela ouve o melhor dos sons: o ‘sim’ definitivo de seu noivo.
Deborah percorreu com o olhar toda a figura de Claudia… um mísero borrão de tinta no canto da mesa, insistente-teimoso — e que custa a sair, quando sai.
— Não existe uma única mulher que não sonhe com esse grande momento. Ter um marido, a sua casa e filhos é o que nos faz realizadas, o que dá sentido às nossas vidas.
— A única coisa que dá sentido à minha vida é a minha arte.
Claudia respirou fundo e deu de ombros para
aquele comentário, que considerou tolo e insignificante, típico de alguém que quer se mostrar superior. Estava certa, no entanto, de que era apenas fingimento… e foi adiante em seus questionamentos.
— Eu estou curiosa — disse Claudia, em movimento pela sala —, como foi que você e Eva se conheceram?
Mauro quase desfaleceu ao ouvir a pergunta… engoliu o resto de licor, provocando arrepios na pele fria. Se tivesse forças, teria se levantado e deixado o recinto, mas permaneceu imóvel, a respirar com alguma dificuldade.
Deborah sorriu suas verdades arremessadas ao vento… seu livro de Baudelaire e seu velho caderno de folhas gastas, onde rabiscava ensaios futuros, deixados no canto da cama, pouco antes da partida. As ondas da praia, numa manhã de outono, a molhar seus pés… e o olhar de seu menino guitarrista a lhe confessar suas sentimentalidades. A primeira vez que percorreu seus mapas urbanos e as palavras de Martin, que adorava pescar e sabia como preparar uma isca perfeita.
— Em Paris! Acho que foi no outono de Setenta e nove.
Claudia se incomodou novamente com a intimidade nos olhares cúmplices que partiam de Eva e chegavam a Deborah… enroscadas em um silêncio paralisante, como se partilhassem realidades cheias, onde
apenas as duas se encaixavam.
— No pior ano da minha vida, claro… Por que eu não estou surpresa, Eva?
Helza, que sabia onde o discurso de Claudia iria parar, pediu licença… usou como desculpa a necessidade de ir verificar o andamento das coisas na cozinha e saiu, trocando rápidos olhares com Eva. Em minutos, estaria de volta para livrá-la daquele interminável interrogatório.
— Vocês são amigas, conhecidas? Porque Eva Peixotto do Amaral é uma mulher com preferências e costuma ser muito exigente em suas relações. Comigo, por exemplo, é inexistente. Eu implorei para que ela voltasse de Paris quando precisei ser hospitalizada, mas ela ficou por lá, na sua companhia, pelo visto. Ela sempre prefere outras coisas a mim. Paris, os filhos dos empregados, das amigas… Qualquer coisa no mundo é mais importante que eu: a filha legítima de um casamento legítimo.
— Um típico dilema freudiano, facilmente resolvido na terapia, deveria tentar! — ironizou Deborah, depois de beber mais um pequeno gole de licor, provocando risos em Dario e Eva.
— Eu não preciso de terapia — retrucou Claudia, visivelmente irritada com os risos —, eu sou uma mulher moderna que ocupa a mente com trabalho.

 


 

Lunna Guedes… sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios e apreciadora de espaços urbanos. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. aprecia o outono em qualquer hemisfério.

| escreve por escrever somente |

seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabadas… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. prefere reticências e cadernos com folhas de amarelecidos tons

17 – Nem sempre a lápis | trecho de impressões

Aqui mora um beija-flor. Volta e meia beija o arame que me separa do mundo. Perco-me nos seus traçados.
A liberdade é da cor que a gente quer. Bate o bico bem de mansinho no etéreo. E me chama… Me chama… Um clamor pela vida que se joga lá fora.  Afinal de contas, eu sou da rua!

 


 

Estou dentro do ônibus indo para casa. À minha frente está sentada uma moça. Ela usa belos óculos de grau. Mas, chamam-me a atenção suas mãos. Na esquerda, há uma embaçada aliança. As unhas são cuidadas. Curtas. Porém, sem nenhum adorno. A pele está ressecada. Lembram as mãos de minha mãe. Ouço a voz de uma colega: “mãos de mulher de marido pobre são conhecidas”. É… A vida se inscreve também nas mãos.

 


 

Os habitantes de Belo Horizonte estão apavorados. Esta é a quinta vítima encontrada sem vida nos arredores da Avenida do Contorno. O delegado de polícia da região central da cidade sustenta tratar-se mesmo de um serial killer. Todas as vítimas foram assassinadas com cinco linhas por meio de um lápis de desenho Faber Castell número sete e dispostas em papel A4 — sem pauta.

 

 


Cintia Araújo... nasceu no outono. Manhã de sol enluarado. Ditadura imposta garganta abaixo. Por isso sou uma coisa escancarada. De derramamentos. Onde tudo brota! Mas paradoxalmente eu sou uma coisa hermética. De emburramentos. Onde tudo se guarda. Eu sou o outono. Com seus guardados. Suas exposições. Folhas penduradas nas árvores. Desfolhadas nas calçadas…

16 – Nem sempre a lápis | dois poemas de Claudinei Vieira

 

sua vida de rútilas feras a morder
seu estômago por dentro;
seus polos magnéticos a girar doidos,
a desbastar loucos
o excesso de eletricidade carnívora;
sua substância sutil a subir pelas pernas,
pelo sexo, pelo peito, pelo pescoço,
coçando a ponta do lado esquerdo do cérebro;
seus olhos como formigas assassinas escarlates,
sua boca sanguínea reformatando nossas línguas…
eu, um remoinho singelo de fundo de varanda
de apartamento 3×4 no centro da cidade
a tentar acompanhar, ansioso,
um tsunami de você.

Redemoinho


 

desembaraçar-nos
dos fios de cobre dourado mesclado de sangue,
empoeirados de carne, fugir dos subterfúgios
alucinados que atropelam e dividem nossas noites
em dois labirintos concretos separados que
permeiam nossa mente
e correm paralelos impávidos ao infinito
não se contendo de bizarras mentiras supérfluas
que usamos no dia a dia, no dia a dia….

desembaraçarmo-nos dos metálicos fios cortantes,
das frias finas linhas eletromagnéticas perdidas
na vastidão dos nossos esquecimentos,
não resolveria os labirintos, não nos daria a direção,
nem nos tornaria felizes, nem menos solitários.
mas, poderia ser um começo.

Emaranharmo-nos

 

 


 — Claudinei Vieira…se emaranha nas palavras, se enrosca nas palavras, se perde. E gosta de , de vez em quando, se perder. Faz sentido ao termo ‘poeta’ se deslumbrar com as perdas, com as ausências, com os
ecos vazios. Mas, admite que pode ser um pouco frustrante, também, a busca, a ânsia. Dolorida, igualmente. Imagina que a beleza pode ser dolorida e que, ao final e ao cabo, feliz ou infelizmente, isso também faz parte do ser poeta. E Claudinei Vieira prossegue, entre as palavras, entre as perdas, entrechoques, aff, Poeta.

Palava do Editor | Elemento plural

Por Lunna Guedes

 


 

A Revista Plural começou a surgir em meados de 2012… quando reuni meia dúzia de amigos das letras e preparei 04 exemplares. Era para ser uma publicação impressa… com formato de zine — uma MOSTRA do conteúdo produzido para os nossos blogues — que era moda e estava no auge — o elemento PLURAL.

Escrevíamos em ritmo alucinado para a essa ‘poderosa ferramenta’… vários posts ao dia. E nos encontrávamos duas vezes por ano — nos famosos encontros de blogueiros… uma festa. Estava na moda pensar-escrever-comentar-trocar-opiniões… e aproveitamos o momento, certo de que era passageiro — e foi…

Reuni uma turma interessada em participar da publicação… em formato A4, com folhas grampeadas — míseras 35 páginas… onde se podia ler sobre os mais variados temas: música, cinema, teatro e literatura. Um belo conjunto de ‘ensaios’ pulsantes e descompromissados.

Eu me lembro que estava encantada com o formato alternativo dos ZINES… que conheci através de uma artista plástico na Casa das Rosas. Ele era todo alternativo. Seu desenho colorido e seu estilo humano todo preto e branco. Conversamos sobre a realidade artística numa espécie de previsão do futuro… engessado da realidade. Ele dizia — como apaixonado pelo ‘submundo’ — que nem a mais poderosa das tecnologias iria impedir os saudosistas de manter o formato alternativo. A contra-cultura sempre existiu e sempre vai existir — dizia ele, com o peito estufado-cheio, apaixonado.

Ele me apresentou a um sem-fim de ZINEIROS… formatos lindíssimos passaram pelas minhas mãos em encontros movidos a cerveja e rock. Uma loucura criativa e literária… me apaixonei e fui atrás de encontrar nessa seara — um caminho particular para minha amalgama.

A Revista Plural acabou por ser o embrião da Scenarium — que completa quatro anos de existência nesse mês de agosto… e a Revista passou a ser o nosso principal cartão de visitas. Ando com alguns exemplares em mãos e digo, com satisfação ímpar: essa é uma Mostra Plural do nosso trabalho…

Lançamento | Amarcord

Por Adriana Aneli…

 

 

 

Inverno. Terça-feira, início da noite na cidade. Um carro branco avança devagar na avenida estreita. De casacos pretos a multidão apressa o passo, afundada nas próprias golas. Por alguns segundos a densa fumaça encobre o congestionamento. Buzinas, risadas de mulheres, a batida de copos nos bares. Pés saltam apressados do táxi. Param à entrada do cine café. A luz morna no corredor de paredes escuras se acende, iluminando cartazes de filmes e mesas para dois. Federico, com flores vermelhas em uma das mãos, acena para sua orquestra: a música começa.

Continuar lendo “Lançamento | Amarcord”

Lançamento Coletivo | Amarcord

Por Adriana Aneli…

 

 

 

 

Inverno. Terça-feira, início da noite na cidade. Um carro branco avança devagar na avenida estreita. De casacos pretos a multidão apressa o passo, afundada nas próprias golas. Por alguns segundos a densa fumaça encobre o congestionamento. Buzinas, risadas de mulheres, a batida de copos nos bares. Pés saltam apressados do táxi. Param à entrada do cine café. A luz morna no corredor de paredes escuras se acende, iluminando cartazes de filmes e mesas para dois. Federico, com flores vermelhas em uma das mãos, acena para sua orquestra: a música começa.

Pode não ter sido exatamente assim, mas bem que poderia ter sido este o começo da noite no Cine Café Fellini, quando autores da Scenarium – em sua timidez atávica – Invadiram o Baixo Augusta.

Cientes todos de que funcionamos melhor por trás do teclado do que em eventos sociais, desta vez nos deixamos levar pela intimidade, pela risada fácil e a surpresa de ser Coletivo, com vozes tão desiguais. E fomos tantas Marias, Lunnas, Virgínias, Obdúlios, Roselis, Caetanos, Marcos, Adrianas… E fomos quem estava e quem não estava e quem ainda virá.

(É verdade que nossa desenvoltura ainda falha, mas agora somos também Felipe e Thais – vozes de  le manine… A primavera sobre o pátio inventado).

Recebemos nossos convidados neste encanto de árvores e bicicletas, mesinhas de café rodeadas de gente e de histórias… A memória emotiva da nossa poesia.

Volto para casa sotto la Lunna piena. Abraços sem despedida. O orgulho imenso de unir diferenças num diálogo plural.

 

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