Romance | Anselmo Vasconcellos

Estou em casa após vinte e cinco dias de prisão na solitária de um quartel militar. Abraço silencioso no Nelson… que entende que o relato dos dias passados na prisão — do interrogatório até a liberdade — fica para depois… outra hora.
Um banho quente demorado. Troco de roupa e tomo o café generoso que o amigo que mora comigo me oferece.
Ele repara imediatamente nos hematomas em minha mão, enquanto filo um cigarro.

— O último dos moicanos. — diz o Nelson, quebrando o silêncio e me entregando um sem filtro. A fumaça invade o espaço e nossos olhos trocam emoções silenciosas.
— Vou sair para comprar cigarros. Aproveitamos e tomamos uns chopes, vamos?

Nelson não topa. Ele precisa continuar a tradução de Clockwork Orange — Laranja Mecânica — distópico romance de Antony Burgess. O amigo me conduz até a porta, falando da violência de uma sociedade no futuro, tema do livro. Na rua… uma noite dowbeat.
Desço a ladeira Candido Mendes… com a sambada Rural Willians — nome que dei ao meu “Willys”, um costume meu,  dar nome aos amigos de quatro rodas — com quem rodei grandes distâncias.
No rádio sintonizo Tomorrow Never Knows. Olhar em volta. Rodar. Rodar. Revólver. Revólver… psicodélico disco dos Beatles.

“Turn off your mind, relax and float down stream, It is not dying, it is not dying Lay down all thoughts, surrender to the void, It is shining, it is shining […]”

Tudo fechado. Prossigo até a Glória. Circulo a Praça Paris com seu luminoso chafariz, como numa abertura de um filme da Atlântida Cinematográfica. Decido ir até a Taberna da Glória, longe daqui, aqui mesmo. No salão à luz de velas… apenas uma mesa ocupada por um casal de gringos.
Me chama a atenção uma senhora loira, tendo diante de si um homem com os cabelos em pompadours e com uma mochila verde no corpo. Aguço os sentidos olhando para a cena com algum cuidado… enquanto peço cigarros e chope ao Mineiro.

— Vai de filé Oswaldo Aranha?
— Gracias, Mineiro. Já jantei…

O homem da mochila verde se levanta… passa por mim e vai embora. Não consigo olhar seu rosto, de tão atraído que estou pelo choro que a mulher sequer disfarça.
No balcão lateral, trocam o barril de chope e a pressão acionada faz um zumbido forte. Parece um grito reprimido de um prisioneiro.
Me assusto… olho para a rua.
Avalio e penso em ir embora.

Tento afastar a memória do cárcere…

 


 

Trecho de ‘mia, a holandesa de pés descalços’ |  Anselmo Vasconcellos

 


 

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Crônica | Tatiana Kielberman

as melhores paisagens surgem
de soslaio quando não há espera

Lou Vilela

 


 

Faz pouco tempo desde que aprendi a degustar de fato a cidade que habito — e que, inevitavelmente, também mora em mim. A princípio,
apenas me via residindo em um prédio qualquer de suas ruas, pois foi aqui que nasci… e, do meu ponto de vista, não havia outra opção plausível para onde eu pudesse me mudar.
É bem provável que São Paulo seja mesmo esse anfitrião distante, ao tomarmos um primeiro contato com as paredes imaginárias que lhe envolvem. Mas, nem por isso é isento de se mostrar
acolhedor conforme os anos passam — e, assim… nos apaixonamos por sua paisagem, cada vez mais.
Eu gosto da diversidade que o cenário da “terra da garoa” me concede. Aprecio cada uma de suas marcas registradas, os cartões de visita e as imprevisibilidades envolvidas em seu ritmo. Penso que comecei a me tornar mais amiga de São Paulo ao deixar de ter medo do que a cidade poderia me oferecer. Não foi um processo fácil. Praticamente um reconhecimento de terreno — absurdamente necessário…
Hoje, defendo seu nome com unhas e dentes. Morar aqui já não se configura mais como uma falta de opção, mas sim pura escolha. Entre pressas, agitos, multidões e vida sem fim, eu sigo preenchendo os espaços paulistas — e sei que há muito mais ainda a ser desvendado.
Talvez este seja apenas o breve início de uma deliciosa e inesperada história de amor…

 



‘a cidade que acena para mim lá de fora’
, do livro ‘detalhes intimistas


Crônicas | Feliz Ano Velho

 



F e l i z   A n o  V e l h o 

adriana aneli | adriana bozetto | ingrid morandian
maria florêncio | lunna gouveia | maria vitoria |
mariana gouveia |  marcelo moro | nic cardeal
obdulio nuñes ortega |tatiana kielberman | virginia finzetto

R$ 25,00


 

solicite o seu exemplar (numerado) através do e-mail
scenariumplural@gmail.com

Conto | Adriana Aneli…

o pescador de ilusões

Morava naquela calçada… até as pessoas de bem se sentirem incomodadas. Então se mudava para outra calçada. A vida cabia na mala e ele a arrastava. Pedia dinheiro para o café. Não davam. Vai pra crack e cachaça. Não ia não. Ele não queria crack e nem cachaça. É verdade. Queria café. Comida arrumava. Queria café. Café, moço. Perdeu o juízo, mas não a vontade. Só queria um copo de café quente, muito quente, tão quente que descesse pela garganta queimando, queimando, quente… até aquecer a ponta dos dedos nesta manhã gelada.

Crônica | Emerson Braga

SE NÃO ESCREVER, SAIO PARA AS RUAS E MATO ALGUÉM?

Paro diante da folha em branco. Nos encaramos. Nas rugas de meu rosto revela-se, despudoradamente, minha história ― aquela que eu não pretendia contar. A folha finge-se virgem, alheia a tudo, desinteressada. Mas é mentira. Por debaixo de sua alvura se esconde um universo de possibilidades literárias: personagens, cenários, enredos, motes. Atravessar a película leitosa que me separa do texto é tarefa árdua, desgastante, que me custa muito tempo e dedicação. Ah, mas como amo as noites em claro!

Há dias que, simplesmente, desisto. Às vezes, luto contra a lauda imaculada como um pugilista sanguinário. Em outros momentos, apelo para a filosofia zen (levito, de tão vazia a mente). E nada adianta. O texto simplesmente não se revela, mantém-se refém da semente que desejo cultivar no cemitério onde jaz a inspiração. Em meus campos criativos, gostaria que pastassem apenas vacas gordas. Mas a visita de uma ou outra vaca magra é um inconveniente inevitável.

Nesses dias em que não escrevo, saio para as ruas e mato todo mundo. Parentes, amigos, vizinhos, desconhecidos, o cara do açaí, a menina do posto de gasolina. Não há muito critério em minha sanha homicida. Com os cadáveres devidamente deitados sob meu olhar, disseco suas histórias, suas possibilidades. Aqui e ali, encontro um traço, um gesto, uma fórmula que me servirá de inspiração. Na praça, no ônibus, na fila do banco, dentro do supermercado, na festa chata, no passeio de domingo, todo e qualquer ambiente transforma-se em meu porão sombrio, meu quarto vermelho da dor, com canetas metálicas em riste e lápis emborrachados dependurados.

Sou um sociopata descuidado, mato pessoas reais em todos os lugares a fim de roubar-lhes não um órgão, mas uma nota apenas. E é justamente essa nota que contém o encantamento capaz de fazer com que a folha em branco se renda à minha pena. Daí, escrevo como o gangster que distribui tiros na televisão.

É por isso que, por mais que meus personagens pareçam inverossímeis, carregam em si um fragmento daquele ou daquela que, de tanto observar, matei. Às vezes, para que uma ideia venha ao mundo, alguém lá fora precisa morrer. Algumas pessoas, mais de uma vez.

Poesia | Obdulio Nuñes Ortega


M O R T A L


 

O garoto nasceu sujeito Homem…
E ao menino foi dada lições
de como todo Homem deve
Comportar-se…
As Formas,
As Cores
e as Preferências
que deveria adotar para ser… o Melhor!
Consciência do Certo,
Errado…
e do Duvidoso!
Porém, algo lhe falta…
Não se encaixa!

O mundo que ele vê
não é o mesmo que querem… lhe dar!
Começa a se sentir desconfortável
com a roupa que veste,
E com o corpo que… veste!
Com as falas que dão ao Personagem,
E o Papel que deve exercer…
E assim, se torna o melhor
Ator…
É convincente,
…atuante,
Destemido,
…desbragado,
Triste…

Resoluto,
decide se matar
…e com uma faca afiada
Em mãos: se torna um Assassino cruel
Mata o desejo, que lhe atormenta,
Em nome de uma Cultura
que é contra o que a pele sente!

Entre Fogo e Sangue,
mata e morre entre os Seus…

 


M E M O R I A L


 

O meu pai me deixou –
Lembranças…
Memórias de suas andanças…
– congelado no tempo, sou aquele menino
que ainda espera a sua volta,
como minha mãe esperou
Até morrer!

Passados cinquenta anos,
Ainda aguardo que me abençoe,
Me perdoe
…por não ser o filho que desejou
E que me elogie por ser o que sou!
Que me incentive a seguir o caminho torto,
que inventei para fugir de seus rastros…

Quantas vezes me senti sem peso,
Marca… Nome — plumagem,
como um pardal debandado…

Quem disse que era bom voar sem destino
e ter asas a bater sem chegar a um ninho?

Saio de casa para ir ao banco. Arrasto
o meu corpo com passadas céleres de quem
acredita no que faz. No entanto, apenas sei
que tenho tarefas a cumprir,
contas a pagar, depósitos a fazer,
aceitar o recebimento pelo trabalho
que faço…

Decido não admitir que valho
o cheque que carrego,
mas quase não ligo para os
números expressos em Reais…
Credito a realidade fria,
ainda que o Outono seja essa
estação indecisa…

Chego ao prédio…
caixas eletrônicos lotados,
fila para depósitos,
restrição por problemas técnicos.
Exclamações e reclamações,
Todos se reconhecem na condição
de refém do Sistema e oramos
a um mesmo Senhor… chefe sem rosto.
Por algum tempo,
nos solidarizamos na dor –
Paciência para enfrentar a espera
…a humilhação ao passar pela porta giratória,
em que devemos nos desvestir de
dignidade… para entrar.

 


S O L I D Á R I A


Somos tristes — coletivamente,
Mas na fila, histórias pessoais se desenrolam
com toques de solidariedade…
Em uma delas, um idoso está a admoestar o neto
por ter se apartado de si…
O garoto não era tão novo que devesse
ser controlado.
Depois do discurso duro,
o rapaz se afasta…
Se coloca do lado de fora… a segurar
o gradil do jardim, como se fosse
algo que não o deixasse cair.
O olhar para o nada — parece ter sentido
a facada da rejeição…

Por um breve instante… sou aquela figura
literária, tão triste que dói em mim
Tristeza solidária…

Chegada a minha vez,
me desligo da realidade-vida
e afirmo em tecs-tecs e mensagens mudas
da máquina à minha frente… quem sou!

Realizo operações
e adiciono nulidades à minha conta…
O meu débito aumenta a cada dia…

 



Tristeza…
parte integrante do livro artesanal | Coletivo 2017


 

 

Poesia | Caetano Lagrasta


Corpos


 

foto esmaecida
luz vermelha
segurança
em ácido submersa
revela
mas não era bem isso
¿ou era?
mancha
grão solta
pontos
milhares que se unem
mesmo que a gente não queira

 


Lábios e dedos


 

e lá estão as bocas
e línguas
mãos perdidas no encontro
a voar sem palavras
guardadas
escondidas ao compromisso
frio nas costas
ao suor sem gotas
marejar de soluços
preso agora ao espaço
entre corpos
sufocam
exaustos
à espera da luz

 


Campânulas


 

roxas
sem piedade
sobrevivem
escondido tropeça
nega razões
enfuna peito
feliz
e sem ar
à tona não volta
¿que dizer ao destino
ao dia que parecera glorioso?


Instrumentos


 

(violino)

¿essa agitação
lembra
toque?

(piano)

dedilhado
lambe teclas
de pele

(viola)

d’amore
entre coxas
geme


Maestro


 

tatua gestos
sobrepostos
em espelho

 


Partituras


 

indeléveis
claves
grafadas

primeiro movimento
lento
amor desliza
na memória


Finale


 

é isso que nos resta
antes da cegueira
o arremesso
na paixão sem volta

 



Pele…
parte integrante do livro artesanal: Coletivo  | 2017


Poesia | Marcelo Moro


  CORRIQUEIRO


 

 

Apitava o trem
A fábrica… uma aqui, outra ali, acolá
Soltavam seus vapores as caldeiras
E o dia amanhecia
Trazendo o Sol a fórceps
Para banhar de luz amarela a velha feira
Onde as comadres pechinchavam o almoço médio
Onze horas em ponto
Ao som da rádio clube
As alamedas se enchiam de passos
Movimento contrário
Que logo se reestabelecia
Depois do cochilo
Naquelas longas tardes de primavera
Calor, canto da cigarra
E, quem sabe, alguma chuva que nos divertia
nas enxurradas da Professor Ignácio
Até as cinco, onde os apitos decretavam
Que a Princesa Tecelã enfim descansaria

Ainda tinha o bate-papo nos portões
Cadeiras nas calçadas depois da janta
E o banho de Lua, sempre bela

 


 

Poesia | Claudinei Vieira


 

houve aquele tempo
e o tempo se acumula em camadas,
como colchas em colchões velhos,
como camisas pardas em cabides quebrados,
como sapatos abandonados, perdidos
mas nunca jogados fora

houve aquele tempo
e o tempo nunca evapora,
só penetra na pele
e se esconde em memórias fortuitas quebradas
como colchas de retalho coloridas
de colchões embrutecidos
onde antes já se deitara
um amor
onde antes já existira
este amor

 


retalhos


 

Poesia | Andri Carvão


 

Armarinho de Miudezas

TrecosTroçosCoisas

BugigangasBricabraques
BibelôsBagulhosBadulaques

TranqueirasQuinquilharias
MiniaturasSouvenirsPorcarias

PedraEConchaDePraia
TampinhaERolhaDeGarrafa
PapelDeCartaPapelDeBalaPapelDeBombom

CartãoPostal
LembrançasDeCunhoIlustrativoEmocional
DeValorMeramenteSentimental
DeOrdemExistencial

 


Autor de ‘Puizya Pop & outros bagaços no abismo’…


 

Poesia | Chris Herrmann


 

Autorretrato das marés

sou mar e maremoto
um revolto de lua cheia
crescente de água salgada
a curar os bichos feridos
meio minguantes e soltos

nas águas doces, sou todos
remando minha arca de noé
na ressaca das tempestades
para o meu porto in_seguro
que você não sabe onde fica
que nem eu sei onde é

 


 

* autorretrato, grafia sugerida pela autora-poeta, de acordo com as regras do ‘novo acordo ortográfico’…