Coluna Plural | Livros que não foram terminados

Por Chris Herrmann


Acordei pensando naqueles livros que teriam sido se eu tivesse escrito, começado ou terminado. A mesa cheia de papéis denuncia minha preguiça, falta de criatividade ou ansiedade? A dinâmica da literatura parece me sucumbir. O que você, leitor interessado nas minhas linhas, me diria num momento desses? Tenho medo. Tenho medo de pensar sobre isso, e mais medo ainda de não pensar.

Retorno à mesa de trabalho. Ligo o computador e fico olhando para a tela, como se dela, viesse a resposta. Meus dedos tremem. Largo o teclado e remexo meus papéis. Ah, tantas ideias malucas sobrevoando minha cabeça fumegante… talvez seja este o problema, pensei. Você me perguntaria: Mas onde está o problema, nas ideias malucas ou na cabeça fumegante? Eu diria: Nos dois! Mas o problema não acaba aí. A forma de escrever tem que te tocar, querido leitor. Tem que te fazer estremecer e te emocionar. Tem que te levar ao inferno e ao paraíso…

Comecei a escrever um livro há anos e engavetei o coitado. Depois outro e outro. E sempre penso em mais algum só para demonstrar a mim mesma que incompetência não tem limites e ainda pode tomar o poder sobre mim. Então comecei a folhear os que já publiquei. Perderam aquele cheirinho de novo, sabe? Mas ainda tem o aroma e a beleza da poesia que circundava a minha cabeça em algum momento da minha vida, até a independência que lhe foi prometida chegar. E chegou.

Hoje estou mais calma. Volto a escrever mergulhando num dos pequenos mundos que se alimentam da minha voz. Sei que há livros inacabados na gaveta. Sei também que há papéis desordenados sobre a mesa imitando os meus neurônios. Mas por que me desesperar? Eu e você, caro leitor, somos livros com honrosas páginas em branco. Somos todos, histórias inacabadas. A vida e o mundo (este casal tão pouco explorado) estão sempre em movimento de transformação e nem sabemos ainda no que vai dar. E é esta beleza que fascina tanto a mim quanto a você, e a quem mais interessar possa… o romance eterno, inacabado por natureza.

Coluna Plural | Palavra-borboleta

Por Tatiana Kielberman


A primeira vez em que a palavra veio me visitar, pousou-me feito borboleta que escolhe a dedo o seu jardim. Encantou por suas imensas possibilidades e, sobretudo, pela imaginação despertada na criança que eu era…

Tinha apenas cinco anos de idade, mas lembro como se fosse hoje: num piscar de olhos, escrevi um bilhete em poucas linhas, finalizado pelo que poderia ser chamado de meu nome — ou “uma tentativa de” — e o entreguei a uma amiga de minha mãe, que sempre me foi muito estimada.

Continue lendo “Coluna Plural | Palavra-borboleta”

Coluna Plural | Como seria se a vida fosse comandada pela literatura?

Por Caetano Lagrasta


Seria uma prisão, encadernada ou em brochura. Daquela sairiam ideias limpinhas, educadas, vendidas a preço ao alcance da burguesia — que, por sua vez, se colocara em compêndios enciclopédicos, sob a proteção de ricas lombadas de couro de porco, grafadas em ouro.

Para as brochuras estaria reservada a vida dos desvalidos, nada obstante agraciados com os mesmos autores e ideias dispensadas às edições luxuosas cuja compreensão lhes seria árdua.

Continue lendo “Coluna Plural | Como seria se a vida fosse comandada pela literatura?”

Coluna Plural | A palavra que me seduziu

Por Obdulio Nuñes Ortega

 


Eu sempre gostei de desenhar… aos quatro ou cinco anos, reproduzia traços indecisos copiados de gibis e ilustrações de revistas… aos seis, na pré-escola, ao ser apresentado ao manuseio das primeiras letras, acompanhadas de seus corpos sonoros, fiquei fascinado pelas possibilidades que se apresentaram encantadoramente em desenhar cenas através da condução das palavras. Não foi algo tão radical como talvez possa deixar transparecer. Aconteceu mais como se fosse a chegada de um vento suave a me envolver, a carregar ar novo no ambiente fechado do porão onde a minha família morava na Penha, à época…

Continue lendo “Coluna Plural | A palavra que me seduziu”

Coluna Plural | Meu livro de cabeceira

Por Adriana Aneli

 


Livros são muitos… e exatamente por isso eles têm que se diferenciar, conter algo que os saque do orfanato — da livraria e de suas prateleiras medonhas. Livro tem que ter algo de minoria, de quase esquecimento e espera para ser descoberto… Um quê de poeira e relíquia torna um livro especial. Basta olhar para ele, que lhe devolve seu olhar de gato de botas: a beleza irresistível da exclusividade.

Continue lendo “Coluna Plural | Meu livro de cabeceira”

Coluna Plural | A leveza é essencial…

Por Tatiana Kielberman

Existem dias em que o aconchego e o conforto de ser quem sou surgem como uma composição de Bach: com suavidade, num crescente inconfundível, fazendo com que as notas se harmonizem em naturalidade plena…

Há outros momentos, porém, em que quase não me reconheço nas notas da canção. A melodia ganha impasses que repelem a delicadeza da alma, afastando amenidades, e eu tento oferecer uma pitada de poesia aos meus dias, até mesmo quando eles se mostram um pouco nublados…

Continue lendo “Coluna Plural | A leveza é essencial…”

Coluna Plural | Onde está Wally?

Por Adriana Aneli

 

Não sei você, mas eu estou exausta.
Todo o excesso me abarrota: informações-gestos-certezas-intenções-imposições me jogam nesta ressaca.
Entre anúncios de carros que não cabem na garagem, eletrodomésticos que não cabem na rotina, imóveis que não cabem na cidade, estilos que não cabem na existência e dívidas que não cabem no orçamento, sobrevivo assombrada.
Tento uma fuga clichê e entro na livraria do shopping. Ali, a derradeira avalanche: capas e títulos, cores e letras, best sellers e poket books. Prateleiras – com seus últimos requentamentos e saldões – me intimidam. Assisto a capacidade de criação e de autoria de pensamento ser devoradas pelo consumo.
[A vendedora dá as costas para mim; ela sabe que seus livros não cabem na minha alma].

 

Continue lendo “Coluna Plural | Onde está Wally?”

Blog no WordPress.com.

Acima ↑