Feliz Ano Novo…

Por Ingrid Morandian


 

A bolsa permanece no mesmo lugar. As flores de plástico na mesa da sala. As contas do mês, o copo de água pela metade e a cartela do remédio para a pressão. No 673, todos os dias florescem iguais para a dona Adalgisa, a minha vizinha da frente. Ela é a única pessoa da rua que ainda tem uma vitrola de madeira, daquelas antigas dos anos 70. Eu a vejo da sala ouvindo Frank Sinatra apaixonadamente no último volume. E, eu conheço a sua coleção de discos de vinil.

Nesse dezembro, as estações não se definiram, as ruas mais quentes com chuvas e frente fria. Dona Adalgisa sempre gostou do calor. Quando seu Adalberto era vivo passeavam na praça de mãos dadas contando histórias, relembrando “causos”.

Nesse dezembro, não terá a ceia com o seu Adalberto e as tardes com os amigos na calçada. Ele fumando seu cachimbo e jogando dominó. O seu Adalberto não bebia, mas gostava de fumar. Ficava no canto da sala com o olhar meditativo e se perdia na fumaça insinuante que insistia em desenhar o ambiente.

Nesse dezembro, dona Adalgisa não passará a camisa branca do seu Adalberto, não ajustará as pregas da calça cinza que ele tanto gostava. As roupas dele eram impecáveis e milimetricamente dobradas e guardadas. Ele sempre prezou pela organização.

Nesse dezembro, dona Adalgisa verá as árvores da rua balançarem ao sabor da nova estação. Verá a vida galgar as horas e minutos no seu corpo. As noticias nos jornais ainda serão as mesmas. As flores e pássaros surgirão como cena de filme na janela da sala. E seu Adalberto não cantará Dolores Duran com o seu vozeirão.

Nesse dezembro, eu percebo que dona Adalgisa verá o principiar do amanhecer com o coração ainda cheio de amor. Regará as plantas do quintal, deixará a luz do dia entrar no quarto e banhar de cores a casa do 673.

Nesse dezembro, dona Adalgisa irá preparar uma ceia pra um com gosto de casal. Não esquecendo a sobremesa do seu Adalberto. Mousse de coco e pudim de leite.

Nesse dezembro, dona Adalgisa assistirá aos fogos da passagem do ano pela TV, acompanhada pela Telinha, a gata. Beberá o suco de maracujá bem doce pra assistir a passagem do ano. Mas, com o sabor dos mesmos ‘dezembros’ dos últimos 40 anos.

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Feliz Ano Velho…

Por Virginia Finzetto


Minhas idas ao centro são frequentes. Pego o Praça Ramos fora do horário de pico e vou sentada até o ponto da Xavier de Toledo. Quando eu desço do ônibus, outra viagem se apresenta. Dificilmente fico no presente assim que olho para o Teatro Municipal. Envolvida em reminiscências, pergunto-me como tamanha beleza ainda se conserva como baluarte da história paulistana a despeito de tantos estragos já promovidos ao seu redor, seja pela falta de consciência de programas políticos, que não levam em conta a preservação do nosso patrimônio, seja pela ausência de cidadania dos ignorantes, que deliberadamente depredam e emporcalham nossas ruas.

Sigo em caraminholas, enquanto atravesso o viaduto do Chá em direção à Praça do Patriarca. No vaivém da multidão, de repente, alguém segura meu braço com firmeza. Levo um tremendo susto, pensando em assalto…

Qual deveria ser minha reação diante do avanço da miséria e da violência que aumentou barbaridade? Mas olho melhor para ele: um idoso de expressão bondosa, olhos de íris opacas amareladas, sorrindo com dentes marcados pelo abuso do fumo, face envolta em longa barba alva, prestando muita atenção em mim.

— Bom dia, menina, você continua bela!

— Ãhn…?

Rapidamente, minha memória vasculha nos arquivos recônditos imagens da infância e da juventude tentando encontrar alguma que case com a da insólita figura. Para minha surpresa, certa que estou de se tratar de um desconhecido, e já me esquivando com ar de ofensa, ele me chama pelo meu nome completo na língua do pê!

Depois, gargalhando ao ver minha expressão de “cruz credo”, ele prossegue:

— Ei, Virginia Finzetto, sou eu… o Papai Noel! Não se lembra de mim?

Não faço a mínima ideia de como esse sujeito maluco descobriu meu nome. Isso só pode ter sido, para não fugir do espírito natalino, uma presepada de algum amigo que estaria por ali escondido e rindo da minha cara. Em seguida, o bom velhinho me solta e desaparece rapidinho na contramão.

Oh, céus! Só posso ter enlouquecido em meus delírios, penso.

Então, venho tornar público o caso, para que, quem sabe, possa chegar até ele, agora, todos os pedidos que armazenei desde a época em que passei a ser uma garota incrédula sobre sua real existência.

Diz a lenda que Papai Noel lê, além de cartinhas, o coração de todos os puros. Mesmo assim, resumo minha lista em apenas este desejo:

Xô, 2017!

Dissolva e leve, com a mesma velocidade vertiginosa com a qual você aconteceu, todos os equívocos cometidos covardemente em nome de qualquer divindade.

Assinado:

Eu,

a que prefere apostar em sonhos realizáveis.”

Feliz ano, velho! 

Adeus ano velho!

Por Adriana Aneli


Preciso conversar com você. Deixa eu te falar. Por favor, não se aborreça com o que vou dizer. É que… preciso deste desabafo. Tivemos nossos momentos, eu sei. Mas você dificultou tanto as coisas!

Viver com você foi realmente difícil. Sei da minha parcela de culpa, ninguém estraga tudo sozinho. Quis que fosse do meu jeito, esta minha teimosia… Eu sei. Mas você foi tão inflexível, não foi? Não me deixou escolha.  Para que remoer tanto os fatos? Por que esta volta  ao passado, este me deixar sem saída? Esta indecisão foi crueldade. Por que exigir de mim toda e qualquer atenção, a falta crônica de tempo. Quase sufoquei! Chegou a hora de te falar: estou indo embora. Daqui pra frente entro em um ano novo. Brindo novas taças, pulo novas ondas, sem nenhum remorso. Seja feliz, 2017!

As histórias que não escrevi em 2017

Por Emerson Braga


O ano terminou. Sim. Terminou. Inclusive, Já é possível conferir no olhar das pessoas aquele mesmo brilho de esperança meio pueril, meio místico, de que as coisas mudarão para melhor no ano vindouro. Não chego a ser tão ingênuo. Mantenho por hábito o desejo de que elas, as coisas, sejam ao menos diferentes. Talvez por isso, ao invés de esperar pelas grandes mudanças, eu prefira operar as pequenas, a maioria delas extremamente sutis, para que eu sinta que a vida permanece em constante transformação. A paralisia das coisas, apesar da falsa sensação de calmaria que nos proporciona, é uma armadilha perigosa. Quando permitimos que nosso mundo pare de mudar, deixamos de ser um pintor dinâmico e nos tornamos uma obra de arte estática, emoldurada em uma parede fria e escura.

Passei todo o ano de 2017 pensando em parar de escrever. Apenas alguns amigos próximos, meus irmãos e meus pais souberam de minha desgostosa decisão. Uns disseram que eu desenvolvia um quadro depressivo, outros apostaram em frustração, alguns sugeriram que eu estava brincando. Mas eu falava sério.

Tenho um profundo respeito e veneração pela arte da literatura. Se o ateísmo me permitisse pensar o ato de escrever como uma experiência metafísica, certamente eu traria em meu cerne a Literatura como uma deusa:

Ó, grande desencadeadora de existências nunca antes vividas! Ó, peregrina etérea que nos conduz a nações jamais exploradas!

Talvez se deva a essa devoção de aprendiz e acólito todos os rituais que orbitam meu ato de escrever. Um desses ritos tem muito a ver com a questão do tempo: Sei quando começarei a escrever, mas não me imponho um determinado horário para encerrar a atividade. Quando a mocidade permitia que eu praticasse o que chamam por aí de ócio, eu passava dias inteiros trancado em meu quarto, escrevendo como se temesse que a inspiração me abandonasse a qualquer momento. E talvez o fizesse, caso eu a negligenciasse para cuidar dessas outras coisas, aquelas que chamam de “mais importantes”.

2017 se tornou o ano em que fui cobrado por muitos setores de minha vida para que eu me dedicasse a essas coisas importantes. O tempo para a prática da escrita cedeu lugar aos estudos, ao trabalho, à família, aos hospitais, às instituições financeiras. À noite, exausto e com a mente ocupada por milhares dessas coisas tão mais importantes do que aquela que mantém meu espírito jovem e inquieto, eu só pensava em descansar.

Sugeriram que eu escrevesse apenas nas horas vagas, nos intervalos, nos fins de semana. Não sei escrever assim. Minha pena não é domesticada, não bate ponto, não cumpre horários. E essa falta de tempo para escrever me fez pensar se seria certo continuar produzindo contos, crônicas e romances, mesmo sabendo que a qualidade de meus trabalhos poderia ser afetada devido à sensação de claustrofobia imposta pelo reloginho sádico que me encara do canto inferior direito do notebook de meu namorado.

As histórias não se importam com o quanto ando sobrecarregado. Me perseguem durante minhas viagens de ônibus, me interpelam na fila do supermercado, me sinalizam quando estou atendendo um cliente ou tirando a pressão arterial de minha mãe. São histórias impacientes, pois, como toda criatura na iminência de existir, elas também têm pressa em nascer.

Concluí, depois de muita reflexão, que parar de escrever não seria uma opção viável, principalmente porque a literatura é uma engrenagem importante para o bom funcionamento do ser humano que sou. Assim, resolvi encarar 2017 não como um ano de gravidezes interrompidas, mas adiadas. Quem sabe as histórias possam nascer em 2018, ou um pouco mais adiante. Não sei. Talvez escrever de maneira fracionada deixe de ser uma possibilidade tão desconfortável. Afinal, sou uma criatura em constante mutação, revolução e movimento. Posso criar novas rotinas de escrita. Não posso?

As histórias que não escrevi em 2017 se transformaram em fluido que se mistura à ressaca de minhas ondas cerebrais. Narrativas inteiras se insinuam nas pontas de meus dedos ávidos pelo teclado. É possível que o que me falte, na verdade, não seja tempo, mas sabedoria para administrá-lo. E o mais louco é que, para que eu conquiste essa coisa gasosa chamada sabedoria, precisarei me valer justamente do tempo que agora me faz falta.

Dar tempo ao tempo. Tive de quase desistir de ser escritor para entender o real significado dessa máxima. E, se encontrei tempo para escrever este texto, é porque talvez as mudanças já estejam se operando.

Eu te desejo um ano… não-clichê!

Por Tatiana Kielberman


É difícil fugir do senso comum ao escrever um texto-mensagem sobre o ano velho… bem como sobre aquele que irá se iniciar em poucos dias. Eu mesma já comecei essas linhas de maneira um tanto óbvia.

Mas, antes de reprisar o blá-blá-blá, afirmando que 2017 foi positivo — apesar das agruras e sua velocidade surreal — devo dizer que, por vezes, percebo que nossas falas-hábitos-pensamentos-sentimentos-atitudes se tornaram viciosos… repetitivos… comuns, porque assim nos tornamos.

Clichês.

Olho para o lado e as vozes parecem ecoar de modo tão igual. Os enfeites, as músicas, as propagandas: tudo é uma enfastiante repetição de outrora.

Nem os vendedores se preocupam em ser criativos em suas métricas… vendem mais do mesmo, para os mesmos.

Nada mais é novidade nesta terra em que aguardamos pelo amanhã… quando virá o feliz ano novo e estaremos repaginados, prontos à mudança.

Mais uma mudança-clichê?

Tenho para mim que as coisas nunca serão diferentes se as mudanças não acontecerem em nosso íntimo… e isso nada tem a ver com a realidade cotidiana enfadonha, que nos massacra com suas obviedades. Tem a ver com os nossos sonhos, desejos e aspirações… com o que se quer realmente viver e fazer.

Mas, se as suas crenças permanecem limitantes, deixe o “ano novo” para outro dia… outra vida, porque ele não terá novidade para você, que insiste em olhar para o passado, enquanto o presente grita por uma fresta à sua janela…

 

Feliz Ano Velho!

Por Mariana Gouveia


Vi os dias que passaram através de janelas. Ora, pequenas; ora com cortinas azuis. Às vezes, com flores no parapeito e magnólias em vasinhos brancos. Em algumas casas, esvoaçavam as flores de laranjeiras e os pés de maracujás servindo de pousos para as borboletas.

Na rua de cima havia um herói… ninguém falou dele nos jornais, nenhuma entrevista  foi concedida nas rádios — o que eu achava uma pena. Poucas pessoas sabiam que ele era desses homens que salvara uma borboleta da boca do gato da vizinha. Um pássaro do estilingue dos meninos da rua de baixo e tratara de um ninho, que no último vendaval quase ia enxurrada abaixo com os ovinhos ainda dentro. Isso foi em Maio — acho — porque em Junho, a leveza veio nos corredores através de um nascimento. Colhi ternura no olho do pai. Um sábio viera no improviso das palavras declamar a cura com um sopro de alma.

A imensidão de uma nudez — de alma — me deixou fascinada pela natureza. Era a sabedoria de mão estendida tentando ler a sorte. Desvendar o decanato e revelar no mapa astral que a força da Super Lua pode determinar em sua — minha — vida o que você desejar. O moço do realejo disse o que ia no bilhete sem nem ler o que estava escrito. Inventou a frase de uma canção.

Agosto trouxe a estação multiplicada no vento. A fumaça era quase parte da paisagem e o gesto da árvore maior me deu asa para voarmos como pássaros e descobrir que a partida é o mesmo que ir e ficar e que as manhãs serenas ganharam sabor especial na voz dela.

A fome de flor veio na primavera. Os olhos de espiar cabiam na janela azul. Os corredores perderam a cor e a moça de branco chorou dias seguidos. O diagnóstico era o contrário da palavra dela. E a fé, escritas nos livros antigos incontestáveis no amor. A ciência descobriu algo diferente que foi divulgado no jornal da noite e agora já nem consigo me lembrar o que é.

Uma menina trazia a felicidade no nome e a liberdade foi desenhada nos muros em um movimento que chamei de voo. Foi lindo a certeza de que os dias podiam ser feitos de matéria simples, como uma xícara de café e a compaixão compartilhada no pão, nas esquinas.

O moço da reciclagem deixou mais limpas as ruas e na rua de cima, as crianças brincavam como antigamente. E lá, novembro voou feito asa de pássaro. E os dias parecem um livro que vai chegando ao final. As coisas vão se encaixando feito peça de quebra cabeça.  E as personagens ganham em meus olhos vida rua afora.

No pulso, as marcas de horas que o sangue filtrou e de fato, a doação ganhou sensibilidade na alma. É amanhã. Uma cortina nova que se abre… É amanhã um outro ano que anuncia que todos os desafios foram cumpridos e toda sorte do mundo desejada.

A rua de cima é essa árvore que espalha essência entre um hoje e o amanhã. E o que é antigo reascende a ternura de que aprendi a domar o instinto e seguir em frente, sem medo de virar a esquina e dar de cara com um Feliz Ano Velho!

 

Feliz Ano Velho!

Por Silvana Schilive


 

É, a vida é mesmo uma viagem, cheia de dias e horas para contar!

Ela embarcou no ônibus escolar apinhado de crianças barulhentas. Se espremeu entre gentes e mochilas. Encontrou seu lugar preferido ainda vazio, sentou e encostou a cabeça na janela, onde o sol da tarde viajava regalado, por isso o lugar estava vazio! A cabeça latejava… Um macaco gigante tocava bumbo dentro dela!

O ônibus arrancou, fechou os olhos e encostou a cabeça na vidraça. O cheiro de criançada suada anunciava o fim do dia… Desejava o fim do ano…

— A senhora tem pinheirinho de natal? Ouviu uma voz de criança! Continuou brigando com o macaco baterista que insistente batucava uma dor grave. Só quero que o dia termine!

— A senhora tem pinheirinho de natal? Ouviu novamente, abriu os olhos e deparou com aqueles olhos meigos conhecidos. – O que?

— Eu perguntei se a senhora tem pinheirinho de natal!

— Não Letícia, não tenho!

— Eu queria ter um… A menina pronunciou a pequena frase quase que num sussurro, entrou-lhe pelos ouvidos como um trovão imenso… Dentro daquele barulhento veículo entre aquelas duas criaturas nascia um silêncio monstruoso… O brilhante olhar meigo aguardava uma resposta para a afirmativa pronunciada.

Entre paradas e arrancadas o silêncio lhe cutucava malvado. Eu queria tem um… Eu queria ter um… Eu queria ter um…

Logo adiante, junto com mais três irmãos a menina desembarcaria, desceria um longo carreador até o humilde casebre. Conhecia a história deprimente daquela família…

E ela só queria que o ano acabasse… Como se não bastasse o pinheirinho de natal, quando o ônibus parou a surpresa foi maior…

— Meu irmão disse que a senhora sabe mandar cartas, pode mandar essa para o papai Noel. Minha mãe disse que esse ano ele não vem… Agarrou a mochila com as duas mãozinhas e saiu apressada para alcançar a porta. Com o papel dobrado entre as os dedos, o olhar da professora ficou grudado no olhar da garotinha enquanto podiam se enxergar…

E ela só queria que o ano acabasse… Desembarcou do ônibus meio atordoada, ainda segurando a cartinha procurou a chave da casa. Aquela seria uma longa noite! Pinheirinho de natal e cartinhas para papai Noel era tudo o que ela não esperava.

Todos os anos começam e terminam da mesma forma. Entre o começo e fim, a esperança se espalha pelos dias, semanas e meses… E nessa viagem insólita, o cotidiano se revela entre dias bons e dias ruins. O ruim devora o bom, enquanto o bom consome o ruim vagarosamente… Conjecturas!

O ano consumido entre mentiras anunciadas, verdades desmentidas, preconceitos revelados e guerras individuais, se desmorona diante de um pequenino sonho de natal. “Eu queria um…”

A professora só queria que o ano terminasse… E ele renasceu dentro duma cartinha amarrotada pendurada num sonho infantil natalino!

Aquela noite, entre caixas empoeiradas e guardados mofados, um pinheirinho de felizes anos velhos, resplandeceria em outras vidas!

Ah! Anos velhos… Quantas gavetas reviradas, caixas reabertas, alegrias desembrulhadas.

E nessa viagem, dentro da vida, sempre haverá felizes anos velhos costurados com dias bons e ruins…

E você, quantos felizes anos velhos guarda?

Feliz Ano Velho!

Por Maria Florêncio


 

Vamos celebrar a calmaria insana… como alguém a propagar a agonia no vácuo. Alimentar em nós… a besta humana que ri à revelia dos dias sulcados na face.

Nos convém maltratar os próprios calcanhares nesses descaminhos — atravessados na garganta. Já nascemos expelidos das entranhas, oras! Quaisquer vestes aqui fora, encruecem-nos de cinza — cólera.

Orquestremos nossas horas enforcadas na ampulheta, como a morte… a dissimular nossas migalhas insólitas. Vimos ontem… a mesma cama de amanhã… ao nos embriagar em doses massivas de realidade…

Há espelhos desconexos pelos cantos das alas e eles nos sorriem asperezas… vestem reflexos pálidos de algodão… alinhavam as pupilas crescentes e turvas e, nos entorpecem a alma por fora, sob as máscaras.

Eles têm punhos em riste… e vão celebrar o desdém mais uma vez…
Eles…

Um brinde!

Vida normal

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Dia de folga de um dezembro corrido. Passaram muito rápido todos os meses de 2017. Vou ao Correio, passo no supermercado, me desloco para uma visita técnica, levo um aparelho para o conserto.

Escritor em busca de temas que sou… por onde passo encontro personagens. O clima de final de ano de pinheiros e decorações típicas de tempo frio, se faz presente a cada quadra que caminho. É o assunto principal das pessoas nos ônibus e trens de Metrô.

No Correio, tenho que devolver um produto que veio com defeito. Pelos corredores e gôndolas do supermercado, cenas cotidianas igualmente explicam nossa triste realidade. Uma menina sentada no carrinho de compras, recebe de seu irmão um saco de salgadinhos. O menino, com idade suficiente para saber que fazia algo indevido abre com o cuidado necessário para não ser percebido. Um ato de amor… escuso. A mãe, ao lado, finge que não vê.

A caminho da reunião, uma mulher conversa ao celular. Explica ao interlocutor que não poderá encontrá-lo naquele dia porque “o seu amigo está desconfiadíssimo!”. Quem caça, às vezes, veste roupas claras, quase diáfanas.

Depois da visita técnica, me desloco à região da Santa Efigênia. Visito algumas lojas, enquanto espero o reparo do aparelho. Em uma delas, acredito reconhecer o senhor por detrás do balcão… um cantor de uma banda de sucesso anos antes — o próprio… levantou a cabeça, a olhar para um ponto indefinível, talvez o passado e exibiu um sorriso enigmático. Soube que ganhou muito dinheiro, bateu muita cabeça, perdeu prestígio, deixou de ter visibilidade e voltou a trabalhar na loja do Seu Gaspar — onde teve o primeiro emprego. Ele ainda canta nos finais de semana, em um barzinho — voz e violão, público cativo, que sabe as letras de suas antigas canções. Percebo, no entanto, que não tem mais a ilusão do sucesso. O cumprimento e saio cantarolando uma de suas músicas.

A pé, vou encontrar minhas filhas e mulher, no bairro de Santa Cecília. Caminho pelas ruas do Centrão, pelo qual tenho paixão de viajante. A arquitetura variada, em épocas e formas, é como se fosse um palimpsesto em alto relevo. Presencio o entrechoque de identidades diversas. A mudança de paisagem humana é drástica, de um lugar para outro. Parece que há sempre um novo ângulo a ser explorado, personagens a serem encontradas, histórias a serem contadas.

Ao chegar ao apartamento de minha filha, levo para passear o cachorro de sua amiga que vez ou outra fica hospedado por lá. Toddy é carinhoso e alegre.  Por algum motivo, lembro de Desinquieto, nome dado por um morador de rua do Centrão ao companheiro de jornada. Ele o carregava no carrinho e a pessoa de quatro patas agia como se fosse um marajá em sua liteira. A diferença entre os dois era total…  tanto em conformação física quanto condição social. Porém, o olhar dos dois era a de seres que se sabiam amados, sendo amáveis. Toddy faz amizade por onde passa. Exceto por uma enciumada cadelinha de andar arrogante que quis lhe atacar.

Compro bolo de cenoura, tomo o chá da tarde com a família e percebo que tenho cumprido o mandamento pessoal de viver um dia de cada vez. Vivo o primeiro terço de um dezembro de um feliz ano velho, que foi intenso, pleno de acontecimentos, grandes e pequenos, que trouxeram a mim a certeza que a vida segue seus dramas, seus prazeres e dores, desafetos e amores independentemente das efemérides que promulguemos.

Em meu passeio com o Toddy, ouvi o trecho da conversa entre duas mulheres. Uma delas diz que odiava àquela época do ano e que não via a hora de janeiro chegar. Eu agradeço se puder viver apenas o próximo dia.

O último capítulo…

Por Lunna Guedes


 

Espiar as horas, os dias, as semanas encadeadas umas nas outras e ver o calendário todo marcado. Chegou dezembro… e uma pergunta se agiganta dentro, enquanto amasso a folha de novembro com a mão esquerda: para onde foram todos os meses de 2017?

Amanheci estações… outonos-invernos-primaveras — luas… novas-crescentes-cheias-minguantes e negras. Vi semanas começarem-e-terminarem num estalar de dedos… feriados esvaziarem a Paulicéia. Festas coloridas-pálidas-religiosas. Eclipses do sol, da lua… da minha pele, de certos olhares. Mas, algo escapou pelos meus vãos. Eu sei e você também sabe que é impossível se lembrar de tudo o que foi feito durante trezentos e tantos dias. O não-feito, no entanto, acena e te avisa com uma gargalhada sonora-irritante: ‘você não deu conta de tudo’…

Acompanhei as cores impostas aos meses e as comemorações de amigos, nascidos aqui e acolá. Me despedi de uns… custei a acreditar na partida de outros. Solucei saudades. Sorri reencontros e celebrei conquistas e derrotas. As somas se repetem, independentemente do ano que o calendário anuncia com sua sequência numérica equivocada.  Dois mil e dezessete, certo?

Mas, esse ano foi de uma pressa impressionante… e as pessoas, em sua maioria, seguiram o mesmo ritmo. Os assuntos foram se sobrepondo uns aos outros, numa estranha desordem difícil — quase impossível — de acompanhar. Os temas se emaranharam nessa teia chamada realidade. Nada se esgotou de fato… tudo foi se enroscando, numa espécie de bola de neve a descer pelo vale.

Faltou silêncio-quietude. Sobrou barulho. Até os trovões se calaram diante de tantos ruídos tolos… humanos! Quanto cansaço… a empurrar o despertar para depois. E, no meio de tanto desaforo, já há pessoas implorando por 2018, para pode chamar de velho esse 2017 tempestuoso.

Mas, eu espio com alguma desconfiança esse falso-novo. Não sou de depositar esperanças em potes de barro-cru, portanto, sigo aqui tentando me acertar com as linhas emaranhadas desse novelo, para tentar fazer um par de luvas.

Feliz ano velho…

Por Marcelo Moro


 

Parece que foi ontem trezentos e sessenta e cinco dias atrás —, quando o Miguel curioso achou uma caixa que guardava nosso antigo presépio, tradição esquecida já há tantos anos aqui em casa. Entre mil e duzentas perguntas, todas respondidas, fomos desembrulhando as peças, peça por peça trazia uma lembrança saudosa e deliciosa… estavam todos ali, conservados de forma exemplar, os Magos, José e Maria, o Menino Jesus, a Estrela e todos os animais, Burrinho, Vaca, Boi, Camelos.

Cada qual com sua história foi me levando ao passado e me encontrando na velha Papelaria Apollo. Até o cheiro de armário escolar pude sentir, onde cada peça foi comprada juntamente com as belas bolas da antiga árvore de natal prateada da minha mãe. O Natal aqui era de encher os olhos de qualquer criança.

Corremos, eu e Miguel, na casa do marceneiro, o bom amigo Armandinho, buscar pó de serra, depois comprar no mercadinho as tintas Guarani para tingir o pó de serra que virariam grama e flores coloridas, o chão do nosso presépio.

Ano passado na retomada da tradição, resolvi inovar e construí com palitos de sorvete a casinha que abrigaria a santa manjedoura, e o pai do Miguel deu uma ideia muito boa: ‘Porque não passa um verniz na casinha?’ — foi feito.

O Presépio entrou na minha vida por conta de uma família de italianos… meus vizinhos durante os primeiros doze anos da minha vida, e meu eterno amigo Neno que em um certo ano me chamou para ajudar na montagem, tinha sessenta e cinco peças e um moinho que com a ajuda de uma bombinha dessas de aquário rodava a água o tempo todo. Nunca consegui construir o tal moinho, mas peguei gosto por presépios.

Todo dia 6 de janeiro Dia dos Santos Reis se comia a Romã colhida no pé do nosso quintal e se desmontava o presépio, enrolando peça a peça com jornal e guardando sem aperto na caixa para não lascar ou quebrar, o pó de serra era guardado separado já por cor nos vidros de maionese e a espera já começava por um novo dezembro.

O Miguel, tão acostumado com os tais jogos eletrônicos, bichinhos virtuais e televisão, vibrou na montagem manual de algo que passou a compreender fazendo perguntas e comentando as respostas, às vezes, bem complexas porque aprendi que com os meus sobrinhos não adianta dar evasivas é pedir para ser sublimado.

Depois do período de exposição de tão saudoso e sacro objeto profano porque São Francisco ao montar o primeiro presépio da história teve a intenção grata e lúcida de humanizar o Messias que nascia , veio o dia de comer romãs… compradas no mercado e com gosto de isopor, e guardar nossa pequena sinfonia ao Salvador.

Miguel não comeu a romã, deixando esse fardo para o irmão mais novo Joaquim , que nunca compreendera porque só comer nove carocinhos e não a romã toda. Nesse dia começou o então Feliz Ano Velho que se encerra já precoce e tão tardiamente, um ano que passou “Voado” como dizia meu Pai. Um ano em que me redescobri capaz de ser resiliente. Não que me agrade nenhum um pouco, mas me faz sentir alguém que consegue nadar contra a maré de gente que apenas segue a correnteza. Me entregar nunca foi meu forte, não conheço rendição, mas assim como chega o dia de guardar o presépio, me guardo… num recuo de maré constante para avançar depois com força, para me remontar mais belo e maior a cada ciclo.

Esse ano, belo nos números, aconteceu, mesmo que guardado na caixa… nele fiz novos atos, novos versos, velhas rimas, reencontrei amigos, perderam-se pessoas, se solidificaram sentimentos e nasceram novos laços suplantando os antigos de forma mais apertada. Foi uma reconstrução.

Dois mil e dezessete, esse espaço de vida entre o brinde espumante da sua hora zero até a última respiração do seu trinta e um de dezembro será revelação… um solo de sax soprano sobre um oceano de notas, rudes, tristes e ao mesmo tempo maravilhosas.

Nesse espaço de universo que, soberbos, denominamos ano… me compreendi capaz de trabalhar solenemente minhas limitações e a lidar com o que todos lidam, hora ou outra, de forma mais razoável, distancia, saudade, anseios, ansiedade e dor, tudo me bateu mais real e sólido.

Trezentos e quarenta e tantos dias até aqui de sutilezas que fizeram diferença no meu pulsar como integrante desse inexorável infinito de pulsações, tão perto e tão distantes. Os conselhos noturnos da Caríssima T., o afeto marginal do menino Joaquim, a inteligência esvoaçante do garoto Miguel, um Tom Sawyer pós-moderno, o nascimento dos gatinhos dentro de casa, uma escolha inusitada da Mãe Marla assim a chamamos aqui. Dia após dia vão mostrando que há vida além das nossas vastas obsessões.

E entre um Jean Michel e outro aqui vou recordando as fronteiras das estações, já quase verão, do meu mergulho profundo ao mundo da fotografia amadora, que seja bem-dito que deu paz, se é que esse isolamento acústico é possível num mundo extremamente barulhento e desnecessariamente sujo.

Das gentilezas todas é bom louvar as de pessoas anônimas que conseguiram num ambiente caótico cuidar e trazer conforto e alívio corporal a minha querida T., numa tarefa odisseica de fazer o bem sem saber a quem, inesquecível isso… inesquecível dois mil e dezessete.

Inesquecível o prazer que me concedeu Maria ao me presentear, gentil e sutilmente com as experiências literárias mais belas e criativas concebidas nessa Terra Brasilis, digo que cada caixa que eu abri foi como desenrolar cada peça do velho presépio e meus olhos brilharam como os do Miguel ao tocar cada experiência viva trazida ali. Muito obrigado dois mil e dezessete.

Fiz quarenta e sete nesse ano e ainda nenhuma tatuagem, me arrependo disso, do que fiz nunca me arrependerei. Vou deixando esse ano fluir seus últimos passos porque também compreendi que a vida é um rio e quem represa pode acabar inundado de passado revolvendo as mesmas águas…

Um feliz Ano Velho a todos!!!

Feliz ano velho

Por Nic Cardeal…


 

Entra ano, sai ano, e assim vai girando esse nosso mundo ao redor do Sol, ao redor de si mesmo, numa louca corrida redonda e sem fim… Enquanto isso o tempo nos leva o sorriso, a graça, as brincadeiras de criança, muitas risadas bobas e outras tão gostosas e loucas, tantas lágrimas a perder de vista, sonhos feitos, desfeitos, refeitos, por fazer, muitas folhas em branco e outras tantas repletas de rabiscos e motivos… Também nos leva a calma, a falta dela, a ansiedade e a plenitude, a infância, a juventude e a velhice, a paz e o que sobra das guerras, as mesmices, as surpresas, o caos e o renascer das cinzas, nos rouba a vida e nos deixa como única saída somente morrer daqui…

Sim, esse mesmo tempo que um dia nos deu de viver no primeiro respiro, nos deu tempo ao tempo para o aprender do mundo, nos embalou no colo quente da mãe quase sem tempo para o amamentar do filho, nos presenteou com tantas tardes tranquilas sem relógios ao sabor do vento, nos serviu café quentinho e bolinho de chuva em tardes ensolaradas, nos concedeu a graça de chuvas bem feitas para o banho na terra seca e o germinar das sementes, nos alimentou da seiva, da folha e do fruto das matas abençoadas, nos fez sentar na calçada pra tantas conversas fiadas tão bem destrinchadas e desfiadas…

Esse mesmo tempo que nos sufoca e desatina, nos concede tantas graças e desgraças, nos revira ao avesso e depois, sem mais nem menos, nos devolve a esperança e a gente espera e um dia, quem sabe, alcança… Não tem jeito mesmo. Está feito. Entra ano, sai ano, não há como fazer parar essa roda assim gigante… Então vamos seguindo o giro, a roda, o círculo, a prosa, a valsa, o caminho sem volta. Vamos vivendo. Porque não há outro modo de passar por tudo isso sem seguir em frente — malabaristas de nós mesmos nessa linha esticada feito um breve horizonte – sem sabermos de fato (e isso é fato) se depois dele — desse tão breve horizonte — continuaremos no ato de existir, ainda que em algum infinito a contento.

Não sei mesmo dizer a que fim se destina esse viver.
Só uma coisa é certa: nada é certo!

Então, teimosa, ainda pergunto: de que serão feitas as certezas nos sonhos de outros mundos? Bem sei que outrora esse gosto que me chega à boca era bem outro: um gosto doce de viver a vida tão esticada e comprida, a se perder de tão longínqua no interminável fio de tecer fantasias na alma tão vasta de meu corpo miúdo…

Eram tempos de outrora, marcados a ferro e brasa em roupas tão engomadas…
Hoje sou outra. Tantas outras. Talvez nenhuma. Lembro de um varal estendido no quintal por trás de casa. Muitas coisas penduradas. Uma toalha de mesa florida, desejos amortecidos, roupas velhas servindo de pouso para sabiás tão atrevidos, alguns sonhos em suspenso tomando um sol e uns ventos, várias vidas sendo vertidas no tear das nossas horas vagas… tudo a seu tempo, com início, meio, fim, em todos os (des)temperos!

Entra ano, sai ano, vou preparando as sementes de romã, já nasceu o cacho das uvas, a roupa branca espera sua hora pendurada no cabide, minha alma já esqueceu porque tenho de fazer pedidos para o ano que ainda nem veio e nem sabe o meu nome…

Mas eu insisto. Vou querer o meu pedido anotado na agenda do futuro, sublinhado em caneta marca-texto, com endereço e remetente, para que não haja nenhum erro de postagem — e quando chegar a hora da entrega do meu ano novo, estarei com a minha porta escancarada, aguardando sentada à beira da calçada, porque sou dessas de Saturno, que sabe o tempo certo de dizer o mesmo verso outra vez: feliz ano velho.

O futuro já acabou.