Palavra do Editor | Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas…

Por Lunna Guedes


 

explodiu-se-me
em cores. 

todo o resto
calou-se em rabisco,
tentativa de cinza.

 


 

 


 

Quando recebi o conjunto poético de Ylie-Samê — estiletes para cortar brumas, para publicação… respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para caminhar a cidade de São Paulo — não a que conheço, que chega pela janela do carro, que eu chamo pelo aplicativo. Tampouco a do ônibus elétrico, que me conduz por mil hemisférios… outra.

A poesia, para mim, é qualquer coisa líquida, e escorre… é como ter sede e beber um copo de água num gole só. É preciso saciar a carência momentânea e sentir aquela falsa calma a bordo das veias, músculos e nervos.

Claudinei Vieira e seu Yurei, Caberê fizeram isso comigo, assim que pousei o olhar em seu livro… a galope. Virei página por página para saber o lugar do poeta — sua cidade. Ele me atravessou o corpo, a alma. Rasgou minhas memórias. E me apresentou outra São Paulo… me tirou daquele lugarzinho comum no qual nos colocamos, ao deslizar sempre pelos mesmos lugares.

Claudinei é um poeta urbano… metade humano, metade cidadão. Ele atravessa a cidade com seus passos, percebe as ruas cheias de restos humanos… e nos mostra o melhor e o pior de uma Metrópole contraditória.

Eu o li uma… duas… três vezes — novamente a galope — e comecei ali mesmo a pensar as páginas do livro. Queria o movimento urbano… páginas como calçadas… capa como uma das muitas vitrines que São Paulo deita em nossos olhos. Imensidão na pele e, nos olhos, um labirinto.

 


YLIÊ-SAMÊ
Claudinei Vieira


 

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Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | vi e ou/vi…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 

A Poesia pode ser — de acordo com os rótulos tradicionais — uma espécie de etiqueta, que nos avisa da qualidade da roupa que cobre o corpo: moderna, maldita, parnasiana, marginal, contemporânea… mas, nenhum rótulo é capaz de afirmar o sentimento que transborda no leitor ao ler um verso bem feito.

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Palavra do Editor | Diário das coisas que não aconteceram

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

 


Quando o arquivo do novo livro de Aden Leonardo chegou às minhas mãos… eu aguardei alguns minutos pela impressão das cinquenta e poucas páginas em Word para ler no papel… porque sou antiga — e nem sempre a tela me oferece o conforto que preciso para apreciar as palavras de meus autores. É como beber vinho em um copo de plástico: parte do sabor se esvai.

Eu preciso da transparência do vidro, da cor do líquido, do aroma da uva, de todas as combinações que certas reservas trazem… e do toque.

O mesmo acontece com as palavras, que serão livros depois de passarem por mim… Degustei as muitas linhas de Aden Leonardo, que são confissões diárias, de vida e não-vida… reais ou — talvez — surreais… bem len.ta.men.te.

Fui lendo, rabiscando o papel, invertendo frases… tornando meu o que antes era apenas dela. Um segredo guardado dentro, no fundo de si.

Eu me vesti de suas emoções-confusões-dúvidas-amor-desamor… um sem-fim de coisas, de maneira a organizar-e-desorganizar seus versos. Percorri suas calçadas… atravessei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e sai de vários lugares-cenários. Acompanhei crianças em movimentos, estranhos. Fui seus olhos, pernas, pés… me vesti de sua pele e dialogamos numa frequência inaudível.

Ao final da leitura… as palavras ganham textura… e o livro se torna realidade o bastante  para que a gente sinta a segunde pele coabitando o próprio corpo sem a resposta… para a pergunta nunca feita e uma certeza: as coisas nem sempre acontecem… 



‘diário das coisas que não aconteceram’

Aden Leonardo


Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium


 


O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Palavra de Editor | M I A

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

Passava das seis de um dia de semana qualquer. Eu não somo dias, sou feita de momentos e regida por Kairos. Me sentei no meu lugar de sempre… no café entre esquinas, com um latte extra hot ao lado, lapiseira Pentel 0,5 em mãos. Nos ouvidos ‘hold back the river’ de James Bay e um calhamaço de folhas A4 para os olhos… começava a tomar contato com ‘MIA’… leitura de tato — como gosto e prefiro. Sem pressa, apenas um pesado gole…

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Palavra do Editor | Alameda das Sombras…

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa
— sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes
um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”
on the road

 


 

Quando Marcelo começou a me enviar o material para o seu novo livro, estava a ler pela milionésima vez ‘on the road’… e não podia imaginar o quão significativo seria esse ‘pequeno detalhe’ — uma ‘espécie de trilha sonora’ na arquitetura de ‘alameda das sombras’… que veio para minhas mãos com outro rótulo — descartado após meia hora de conversa com o Poeta.

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Palavra de Editor | Detalhes Intimistas

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

É preciso dizer que o universo dos livros — longe das estantes — é fascinante. Antes de existir em seu formato ‘tradicional’, de capas e páginas… o livro em si é apenas um emaranhado de folhas, com milhares de palavras. Antes de alcançar a estante, o livro passa pelo processo de criação — onde pode não ter tempo de ser mais que um mero rascunho…

Escreve-se muito, o tempo todo: enquanto se pisa calçadas, atravessa ruas… toma-se um café no meio da tarde, come-se uma generosa fatia de bolo. O pensamento não para… mas, nem sempre se tem tempo para espantar as sombras com o martelar das teclas do computador.

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