Notas do Autor | Leio pessoas…

Por Joakim Antonio

 

Antes de me deitar, releio as palavras em voz alta e coloco-as no criado. Nunca mudo. As mesmas folhas, já gastas pelo manuseio e preenchidas por garranchos quase infantis, guardam palavras que fazem eco em mim. Excertos de poetas, pequenas singularidades do aquém, onde, em minha mente, faz morada a poesia. Leio suas assinaturas em versos, tão mágicos e ao mesmo tempo angustiantes, por conseguir ver, em todas, apenas um pequeno brilho do que há em cada um. Todos, sem exceção, caldeirão de um caos primitivo que move a todos nós, estrelas matutinas, que por benção, ou maldição, de algum jogador de dados que ri dum céu azul inalcançável, se descobriram do avesso. Sem encaixe na fôrma do mundo. Argilas líquidas nas próprias mãos, em forma de pena dura, traçando linhas de um destino que eles mesmos precisam escrever.

Leio a todos e penso, gostaria muito de ter um escritor guia, cujo livro guardasse na cabeceira da vida, preenchendo os momentos que antecedem minha caminhada pelo sonhar. Mas sempre ouvi vários guias, presentes nas palavras da minha mãe, através das histórias dos meus ancestrais. Nunca aprendi ser como um. Sempre me foi dito que uma pessoa pode e deve saber, sobre tudo que há. Não é à toa que amava heróis e personagens que se multiplicavam, literalmente, ou que se disfarçavam, usando para cada identidade uma habilidade distinta, mas sempre buscando o seu verdadeiro ser.

Cresci, busquei respostas, encontrei mais perguntas e num daqueles momentos que a vida abre seus olhos, descobri os poetas. Como ficar impune a multiplicidade contida em cada um, estrelas em fusão, caos primitivo presos na carne finita, mas dotados de uma mente sem limitações da palavra, sempre grata pelo amor recebido deles. Então, entre tantos bons, como poderia escolher apenas um como absoluto. Mas poderia sim, ter, para cada um, o momento certo.

Portanto, minha cabeceira comporta momentos. Quando lembro o passado, entro no Navio Negreiro, se questiono o bicho homem, procuro a Estrela da Vida Inteira, para conversar com minha segunda mãe, pago ao barqueiro um Vintém de Cobre, se me concentro demais, viajo onde Distraídos Venceremos e para o caminho das pedras, sempre, Alguma Poesia. Mas quando o caminho do nada preenche a tudo, irrompendo o peito, como estrela em combustão, eu busco todos os poetas em uma só persona, ou melhor, em Pessoa.

Fernando Pessoa me cativou com seus versos, mesmo antes de saber sobre seus heterônimos. Ele era a personificação das forças da natureza, física e metafísica, tomando conto do poeta. Buscou adentrar mundos fechados do ser, para corresponder-se com Deus e o mundo, literalmente. Recebia cartas de seus contemporâneos e conversava com seus verdadeiros eus, sem poupar elogios ao que via de belo. Entrou em contato com a Besta, ou Crowley, como preferirem, sem medo de perder-se, pois conhecia bem o mundo onde a fera interior habita, mundo este, onde os poetas entram e saem ao seu bel prazer.

É claro que os outros poetas também, são múltiplos, mas pessoa foi além, trazendo cada criação, como todos seus porquês, para o mundo físico, com data de nascimento e detalhes minuciosos, como o bom astrólogo que era, podia conceber. Alguns atribuem muito a uma mediunidade questionada, pois afinal, não pode um homem expor seu todo, sem deixar de ser ele mesmo? Assim como atribuem que Shakespeare, na verdade, era mais de um escritor, mas por quê? Não pode, por exemplo, um ateu ser em sua escrita, seu próprio Deus? E sendo um Deus, não pode recriar o todo como bem conceber? Imagine então, o que um poeta como Fernando Pessoa, munido de conhecimentos mil e com fome de escrita, de encarar o desconhecido e de deixar o caos que havia dentro dele, explodir em criação faria? Ou melhor, não imagine, busque-o.

Fernando Pessoa foi poeta, astrólogo, crítico literário, inventor, empresário, tradutor, filósofo e comentarista político português. Em um dos últimos levantamentos feitos sobre seus pseudônimos, heterônimos, semi-heterônimos, personagens fictícias e poetas mediúnicos, foram encontrados mais de 100 nomes. Poderia falar sobre os mais conhecidos, ou da escrita em si, mas além de já haver farta obra sobre, esses fatos já são suficientes para nos impulsionar a conhecê-lo mais. Sem esquecermos os fatos cotidianos, da sua época, todos com influência direta sobre sua escrita. Sempre que possível devemos ler o poeta por inteiro, para podermos capturar o todo de sua multiplicidade. Como minha mãe sempre dizia, preste atenção no outro, com carinho e por completo. Conheça verdadeiramente as pessoas.

Então hoje, meu poema de cabeceira é de Fernando Pessoa, mais precisamente Álvaro de Campos, o poeta das estrelas, queimando por dentro:

 

…derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo E o resto que venha se vier / ou tiver que vir, ou não venha / escravos cardíacos das estrelas / conquistamos todo o mundo antes / de nos levantar da cama Mas acordamos e ele é opaco / levantamo-nos e ele é alheio /saímos de casa e ele é a terra inteira / mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido”…

Tabacaria, de Álvaro de Campos

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Notas do Autor | Em quem momento um livro pode ser considerado pronto?

Por Obdulio Nuñes Ortega

 

Tenho certa compulsão em transformar todos os meus pontos finais em reticências… como se tivesse tanto mais a dizer e a voz ficasse embargada na garganta. Sinto impulso em prosseguir, mas chego a duvidar se a continuação do texto enriqueceria o tema ou apenas o dispersaria.

Ao invés de vomitar aquilo que quero expressar, costumo me perder nas explicações das pontas soltas deixadas no corpo do texto. Essa ação, às vezes, corrompe o argumento inicial com uma saraivada de locações, advérbios e complementos nominais que normalmente não chegam a lugar algum.

Ainda há as palavras… como se fossem adeptas de uma seita que propõe o amor livre e desbragado… começam a se associar livremente. Sem o devido controle de minha parte, mal consigo colocar um ponto final nessa orgia lexical.

Creio que o meu sofrimento estilístico tenha tido origem no longo tempo que fiquei sem escrever… foram vinte anos em que mantive a minha personalidade de escritor presa a amarras invisíveis

Deixar de escrever foi uma decisão que tomei no meio do caminho da vida, da minha história. Me afastei da escrita como quem se afasta de um vício. Supus que compor histórias fosse um desvio ao qual deveria renunciar.

Imaginei que seria recompensado pela realidade… vivendo-a literalmente. Criei muitas regras para evitar cair novamente em tentação. O que não impediu que certos versos brotassem de minhas mãos em momentos de distração… reproduzindo em papel as passagens do sonho da noite anterior.

Após um momento decisivo senti que deveria deixar aflorar novamente o homem que escreve… e foi como voltar a respirar novamente… percebi, no entanto, que havia desaprendido a manejar as palavras.

De volta à escrita, vi crescer o medo de que a viagem pudesse se tornar um ritual tão egoísta, que acabaria transformando as pessoas ao meu redor em meros acessórios de um Criador-compulsivo e, com isso, afastei-me das conclusões, mergulhando em falsas justificativas e alongando-me em alongando em linhas e mais linhas.

Conclui, contudo, após alguns exercícios-ensaios, que terminar um livro-história-texto esbarra diretamente na pessoa que sou… deixar de escrever não foi fácil, mas foi bem menos difícil do que eu imaginava. A escrita sempre esteve em meu sangue, como doença que se recolhe no organismo-vivo.

Em um mundo em que finais se repetem ad aeternum, como homem e escritor eu sinto que nada é realmente definitivo… a vida sempre encontra um meio, talvez por isso seja desafiador enfrentar a palavra “fim”… mas sigo nessa busca — em cada composição —, … tentando acrescentar o ponto final para dizer em voz alta “está pronto”. O sucesso, contudo, ainda não me abraçou.

Notas do Autor | Literatura em tempo de crise

Por Marcelo Moro

 

O cenário literário brasileiro vive tempos de apreensão, graças à crise que se instalou no país e que é sentida nos bolsos de todos os brasileiros. E, a cultura, por não ser considerada um item de primeira necessidade, é sempre a primeira a perder espaço.

Acredita-se, no entanto, que em tempos de crise… o livro se transforme no melhor amigo do homem. Mesmo assim, o cenário atual não é dos melhores. Duas grandes editoras já fecharam suas portas e outras ameaçam deixar o mercado literário. O Prêmio Portugal Telecom perdeu seu principal patrocinador e acabou salvo no último minuto pelo Itaú Cultural… a Jornada Literária de Passo Fundo foi cancelada e a FLIP encontra dificuldades desde a última edição para conseguir verba. No Rio de Janeiro, a tradicional livraria Leonardo da Vinci fechou as portas. E, em São Paulo, já não é mais possível frequentar os principais sebos da cidade. A parceria entre a Companhia das Letras (que, recentemente, adquiriu parte da Cosac Naif) e a Livraria Cultura chegou ao final, fechando mais um espaço de livros na principal cidade do país.

Mesmo assim, nunca se vendeu tantos livros como atualmente… descontando os “clássicos” títulos de autoajuda, que sempre crescem como alternativa em meio às crises, e os novíssimos — e já fora da moda —livros de pintura ante estresse, esses démodé… os Clássicos voltaram às prateleiras e também às mãos dos leitores.

Os Clássicos da Literatura são formadores de leitores, escritores e do imaginário coletivo. Como falar de amor, sem citar Romeu e Julieta? Sua história é uma clássica aula sobre o amor que atravessa gerações.

Um dos meus livros favoritos é o Clássico: “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco… que narra a história de outros tantos livros… uma biblioteca inteira — descrita pelo autor como a maior do ocidente, livros artesanais, cópias feitas à mão e luz de velas para preservar o conhecimento. É arrepiante saber, na trama, o que faz o gesto, às vezes involuntário dos ávidos leitores, quando molham o dedo na língua para trocar de página…

É válido também ressaltar que a crise atual fez surgir um espaço significativo para pequenas Editoras, que oferecem ao leitor muito mais que um livro. Fazendo uso da criatividade, o “novo mercado editorial” acena com capas atraentes, uma moderna diagramação e impressões cada vez melhores.

Como autor, eu me aventurei pela publicação artesanal. Trinta exemplares numerados, costurados um a um com fitas. É um objeto novo, que agrada e choca ao mesmo tempo. O meu leitor é tratado de maneira diferente… seu exemplar é único e exclusivo.

A Literatura que atravessa crises é esta: criativa, inovadora e empreendedora, no modo de aproximar o leitor desse mundo mágico e encantador.