Resenha | Indizível

Por Adriana Aneli


indizivel

Antidotum tarantulae ♫

 

… miudezas tão imensas
miudezas que percorrem a intimidade
e permanecem
miudezas perenes
serenas melodias de sol
.

 

Para algumas pessoas, a poesia acontece na pele… para outras, fala ao coração. Para mim, a poesia acontece na boca do estômago, “cachoeira em ebulição/corredeira dentro do ventre”. A palavra é experimentação e, cada livro, uma nova jornada.

Atravesso o portal Indizível, de Bianca Velloso e Vê Almeida. É ali — onde as ervas têm flores e a palavra é maresia — que o amor acontece.

.
luz de acender o verbo
imagem que se faz verso
que se faz carne

De mãos dadas, poema e fotografia executam seu compasso binário, parceria inevitável em círculo convulsivo: imagem que sussurra versos, instantâneo capturado na alma. O poder feminino do poema: possuir e prender.

Elas nos levam, lycosa tarantulae, por sua febre. Em paisagens de paixão e melancolia, dançam: veneno inoculado, vida em suspenso.

Indizível é silêncio… Calado num talvez, num quase, espiado por trás da janela, barra de vestido, mãos e bocas em delicadeza. A estrada sem volta é sonho e sonhar, fabricar coincidências.

Indizível também é grito e espasmo. Certezas desfeitas pelo benefício da dúvida: as histórias acontecem por trás do voal e por isso tomam a forma de gigantes: “fale de sua aldeia…”; Bianca e Verônica falam para o mundo:


tudo aquilo
que já não cabe
na cidade
cabe dentro da praça
:
A praça ainda cabe na cidade

Indizível transformado em gestos; caminhos percorridos com pés descalços. Aqui a poesia acontece: no estômago, na pele, no coração.


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Resenha | Dentro de um Bukowski

Por Marcelo Moro


aden leonardo

Foi apreciando uma poesia que falava de uma pedra que conheci Aden Leonardo — numa dessas madrugadas insones tão comuns para mim —, e depois descobri , tão comuns para ela também.

A pedra poderia ser na Lua ou em Marte, como gostam meus exageros, mas era uma pedra em Itaúna e, de tão curta descrição, me levou a imaginar um Everest dentro de uma caixa de fósforos… e me deu vontade de ouvir Wagner.

Sendo assim, segui seus ensaios e crônicas, sempre atualizando o cotidiano, o pãozinho do padeiro, a moça no ponto de ônibus e o beijo dos meninos terráqueos.

Troquei com ela algumas impressões, versos, cenas… e tive o prazer de conhece-la pessoalmente no lançamento dos Sete Pecados femininos, no coração da besta, na Pauliceia Desvairada… e logo ela, tão cheia de desvarios.

Dentro de um Bukowski”, é seu livro de estreia (e que estreia)… deslizar pela pele de cordeiro do velho Lobo é um ato desmedido de coragem, é um desvario ousado, e a moça Aden com seu tom quase juvenil — não só o fez, como deixou cair as máscaras do velho Buk.

Confesso que matei o livro naquela tarde/noite do lançamento enquanto voltava de São Paulo para Americana, e necessitei beber um pouco para iluminar de uma só vez os becos escuros iluminados aos poucos por Aden Leonardo na sua viagem… e é fantástico o número de caminhos propostos ao leitor.

Sempre que lia algo de Charles Bukowski eu ignorava as resenhas e evitava as críticas literárias, afinal, o velho Buk escrevia para mim… e, Aden, em seu excelente trabalho, escreveu suas linhas brilhantemente amarradas, de dentro do lobo… e já sem o disfarce.
Li mais algumas vezes ele todo… num gole só. E desce sem engasgar, queima na medida certa.

“Dentro de um Bukowski” traz Los Angeles para dentro de Itaúna, como o Everest para caixa de fósforos e… só me basta aplaudir e tomar mais alguns drinks em homenagem à tentativa totalmente bem sucedida e desassossegada que Aden Leonardo fez, ignorando o aviso da lápide do Velho Buk que diz “Don’t Try”.

Aden Leonardo é para mim a melhor ensaísta da nossa geração, e “Dentro de um Bokowski”… um dos melhores livros lançados em 2015.

Em tempo, quero destacar o efeito da arte do Livro concebido pela artista Lunna Guedes, aquela obra é como a mágica saindo e voltando para a caixa do mágico, sem mais…

Um salve para Charles Bukowski!
Um salve para Aden Leonardo!

 

 


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Resenha | Café Aneli

Por Emerson Braga


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Você já bebeu café Aneli? Não? Bem, vamos à receita: Pegue uma jovem linda, formada em Direito pela USP; adicione uma pós-graduação em Direito da Família e Mediação de Conflitos Familiares; acrescente à mistura um punhado de dramaturgia, uma boa dose de literatura e derrame sobre tudo muita graça, inteligência e irreverência. Depois, leia até encorpar. Pronto! Está servido o café Aneli, uma delícia em forma de microcontos, capaz de satisfazer até os mais exigentes apetites literários.

É verdade. Adriana Aneli e seu livro, Amor Expresso, parecem uma receita maluca que combina coisas bem diferentes, mas que deu muito certo.

Amor Expresso nos fala de uma humanidade transformadora, da alquimia que converte alimento em gestos de luz. E, nem por isso, deixa de trazer o sabor amargo dos arrependimentos, o gosto acre daquilo que poderia ter sido e não foi. É impossível não se deixar levar pela maneira suave com a qual Adriana nos cativa com histórias curtas, enquanto suas palavras nos aquecem por dentro. Em seu livro, nos deparamos com construções lindamente apuradas, como nesse trecho do texto Homo fugit velut umbra: “Quando a luz natural invadiu o quarto, não encontrou a si mesma no espelho”.

Antes do café, desabrocha — com sutileza — o que se passa durante o tempo de espera. Aquele momento em que tudo parece um hiato, quando ninguém está olhando: é aí que as coisas acontecem. No texto Amizades Particulares percebemos a narradora ousada, que desconstrói nossa primeira impressão e revela outra imagem por debaixo do verniz que se impregna sobre a superfície das coisas.

O café se encontra em todos os textos não apenas como coadjuvante das histórias — batizadas com nomes de filmes, pinturas, músicas, contos, romances, novelas e poemas que a escritora saboreou no decorrer de sua vida —, mas como criatura oracular que observa o desenlace de muitos destinos. Amor Expresso é um convite à simplicidade. Nos leva a descobrir substitutos singelos quando a vida que vivemos nos é roubada, como lemos em O pescador de ilusões.

O livro apresenta pequenos gestos de rebeldia, daqueles que dão liberdade em drágeas (Gato preto, gato branco). Também fomenta o leitor de quentura e sabor capazes de salvar uma existência, mesmo quando tudo parece insípido (Um dia perfeito para o peixe-banana).

Lá, nos chocamos com aquelas esperanças que se perdem quando o objeto de nossa paixão rejeita toda a graça e sabor que temos a oferecer. Podemos revisitar a quebra do encanto que experimentamos ao descobrir que as pessoas mudam, que deixam de atender nossas infantis expectativas. É um livro capaz de nos apresentar a mais sórdida das vinganças através de posturas que, a um olhar desatento, pareceriam inócuas, como percebemos em O ovo da serpente.

Recomendo atenção na leitura de A vida em preto e branco, que é um belo retrato poético dos encontros que realmente valem a pena.

Adriana Aneli nos brinda com refinado humor ao transformar situações cotidianas em eventos dotados de deliciosa pirotecnia, como revelado nos contos Mesmo se nada der certo, O diabo veste Prada e O jogo de emoções.

Amor Expresso é um livro que nos amorna por dentro. Verdadeira experiência astronômica que delicia com o néctar extraído do grão da palavra. Enfim, trata-se de uma linda declaração de amor.

E você? O que está esperando para provar dessa leitura quentinha, saborosa e que não esfria, até a última pagina?

 


 

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Resenha | Lua de Papel

Por Adriana Aneli

… e foram virando peixes virando conchas
virando seixos virando areia
prateada areia
com lua cheia
e à beira-mar     

Chico Buarque


 

Posso imaginá-la, ainda criança, a desmontar seus brinquedos de corda. Um dia cresce a escritora: passa a desfrutar em seu caderno, recostada à cabeceira da cama, do mesmo prazer ao estudar detalhes, peça por peça… a entender funcionamentos, encaixes, os comandos de seus personagens.

Das experimentações de Lunna Guedes, nasce Lua de Papel: um romance em três partes — três personagens principais — três artistas… que, entre passado, presente e futuro se deixam aproximar, seduzir… enluarar.

A primeira que chega é Alexandra: prisioneira em fuga, barroca. Para a menina de Teodoro, a vida é julgamento, miragem — sempre quase.  A segunda traz a pele em brasa… urgências em atropelo: Raissa — escritora a tatuar liberdades no corpo e intensidades na alma.

Ousadia, flerte, contraponto: é Raissa quem dilacera Alexandra em suas próprias crenças e a transforma na Alex, dos livros um e dois. Até descobrir que a ela — também escritora — não bastaria ser uma de suas personagens. Maré morta… a ressaca.

Para Alex e Raissa, converge Anne — a fotógrafa sobrevivente —, que é densidade e serenidade, história contada… a suavidade única.

Entre desejos e rivalidades, a literatura de Lunna Guedes se multiplica em poesia. Alquimista… desprende aromas e sabores do papel impresso. Palavras dissecadas, — desenredadas em triângulos —, nuas em seu físico. Fluídas. Espirituais. Frases de céu, terra e inferno… que se misturam nos rituais de preparação de chá-banho-beijo… e de sono profundo — a verdadeira entrega.

A colecionadora nos toma pelas mãos e, com ela, percorremos um cenário povoado por personagens múltiplos. Caleidoscópicos. Urbanos. Baixa Augusta, Auditório do Ibirapuera, Campus universitário, vernissages…. Lunna nos alimenta de sua colheita, a cidade em sua melhor safra: a vida em ebulição!

Espectros de quem somos… Alex, Raissa e Anne nos alertam para nossos próprios entusiasmos. Sonhamos o voo, enquanto derretemos asas antes mesmo de nos deixar tocar o sol. Teodoro e seu coreto, seus habitantes e seu rio… A cidade cárcere é para onde voltamos, carregada aqui dentro e sem fuga possível: o livro três.

Li os três volumes de Lua de Papel, em estado de encantamento… e podia fechar os olhos certa de que a morte não me deixaria amanhecer dentro de um dia seguinte.

Resenha | amor expresso

Por Marcelo Moro

 

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Desde muito cedo, aprendi que o café é uma arte… meus pais, amantes desse tesouro, me deram como herança tal apreço. Antes, meu bisavô — na cidade de Santa Cruz das Palmeiras, interior de São Paulo — cultivava, colhia, secava e ensacava o que viria como maravilha depois para nossas xícaras.

Sim, eu sou um viciado em café e, nesse vício, tenho certeza de que não estou sozinho no meio da multidão. Quando menos se espera, alguém levanta os dedos com o gesto típico de quem segura uma xícara, e pede: “um cafezinho, por favor!”…

No final do ano de 2015, a escritora e poeta Adriana Aneli reuniu 40 minicontos sobre o café, e publicou um delicioso e saboroso livro: Amor Expresso. Foi Amor à primeira vista.

O design do livro, em vermelho-paixão e preto café, despertam — nos amantes da literatura — bem mais que um desejo. Acende uma chama de curiosidade tamanha, que se compra primeiro pelo objeto… antes mesmo de se descobrir o conteúdo. As edições artesanais têm esse poder mas, no caso do Amor Expresso, é algo surpreendente.

As linhas de Adriana Aneli preenchem e transbordam nossas xícaras… têm ritmo. Um conto enlaça no outro, e vamos vivendo o café pelas ruas e lugares de São Paulo… com personagens inusitados e construídos, levando-nos a imaginar a vida de cada um deles além do cafezinho apresentado.

É preciso destacar também, com muito louvor, as ilustrações concebidas pela artista Cristina Arruda — que dão vida, gosto e cheiro a cada vaporzinho de café que sobra das páginas.

Não é à toa que um dos desdobramentos dessa obra de arte chamada Amor Expresso são as esculturas de Flávia Taiano, que foram inspiradas em cada miniconto, e compostas como xícaras que têm vida própria dentro da história de cada personagem. Suas características e feições, uma coleção ímpar e de muito bom gosto.

Li algumas vezes o livro todo e me encanto ainda com cada leitura. Sempre me sugerem café em boas quantidades e da melhor qualidade, deixando minha boca com aquele gosto de “quero mais”.

Um brinde com um bom café — Amor Expresso — a todos nós.

Resenha | o lado de dentro de Mariana Gouveia

Por Adriana Aneli

O lado de dentro (Scenarium, 2015) instiga à penetração, este mergulho no escuro… nada por acaso, a capa do livro se rasga, por e.x.e.m.p.l.o.s, sugerindo ao leitor que se descosture e aprenda a espiar.

É d’O lado de dentro que o olhar atravessa. Sim, Mariana está nua. Poemas se despem ao longo das 72 páginas do livro pelas mãos da jardineira que, por hábito, colhe pessoas no jardim. Nua, não há desculpa perante si mesma. Sem indulgência, Mariana escreve-se em poesia: a chave.

É d’O lado de dentro que a poeta nos atira a chave — da procura de Drummond — e nos convida para instantes de chuva, de sede, de terra, de nuvem, de flor ou de saliva; a densidade do silêncio onde nenhum abismo nos cabe. Ainda assim nos atiramos porque Mariana é “do tipo que te leva a confiar. Quase instinto”.

Sem pistas para seguir na senda, fio-me no tom confessional desta obra de “doçura inquietante e malícia suave” que admirei também nas Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs, e que ao final da viagem me leva de volta para casa.

 

[…] Voltei ao seu quintal,
Onde sua presença é tão forte
— que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas
E as árvores em sintonia
— cantam a canção do vento
Que você dançava.

 

A poesia que me habita ganha a voz de Mariana. A presença marcante da natureza, a fatalidade do tempo, nosso destino de salvar borboletas. Ao final ouço minha voz em eco e força. D’O lado de dentro, dos jardines del útero, do mito estilhaçado do espelho brotam desenhos rupestres, desejos.

 


 

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Resenha | O palco das ousadias de Marcelo Moro

Por Mariana Gouveia

 

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A primeira vez que me deparei com Teatro das Ousadias foi paixão ao primeiro poema e depois ao segundo, ao terceiro e daí por diante… ele veio até mim, destrinchado por uma amiga — ainda cru e mesmo assim deliciosamente ousado.

Com o livro pronto e mãos… eu ganhei o mar e suas ondas arrastando poesias na areia. A lua — amiga inseparável do poeta — desenhou em meu céu… tudo que eu lia.

Viajar pelo livro é saborear uma iguaria única servida aos poucos e deixando na boca o sabor de quero mais. É enveredar pelo mundo dos deuses, das deusas, de um deuso — o próprio poeta — e sentir que você pertence a ele.

Teatro das Ousadias é esse passeio pelo olhar que o poeta tem da poesia… ao folhear cada página, uma cortina se abre entre o encanto e a divindade… entre a magia e a realidade suprema dos poetas.

A ousadia explícita nas palavras, o despir-se diante do leitor… nos faz ousados também e, capazes de imaginar as sensações do homem-poeta, mesmo sendo um perigo constante desvendar a alma de quem escreve.

Não dá para limitar em uma frase a ousadia de Moro… por isso, apenas te convido a percorrer as linhas de seus versos e se sentir o protagonista desse palco que ele lhe oferece. Ouse.

 


 

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