RESENHA | YLIE-SAMÊ

Por Adriana Aneli


Tirou o anel mágico da Invisibilidade.
E, mesmo assim, ninguém o viu.
E, mesmo assim, ninguém se importou.


 

Duas horas da manhã. Versos se repetem na minha cabeça: não é exatamente um retumbe/ é o som que atravessa a parede. O burburinho, a vida insone, o assombro.
Eu já sabia do seu jeito: poeta do desconcerto, voyeur do desencanto, stalker da indignação. Em pessoa, doce e gentil. Agora, é o poeta quem revela sua melhor face: guia experimentado por escombros da guerra urbana. São Paulo é uma perversão em contos de fada, matéria-prima para a poesia de Claudinei Vieira.
Por um percurso de esquinas e cafés, calçadas e bares, a poesia é ansiedade e angústia do conformismo: uma certa desesperança, a sentença irrecorrível de que se não há morte, não é poesia:

depois de desistir do suicídio
(tanto calor, tanto calor)
a poesia insiste.
a cidade segue.

Misto de sonho e realidade Ylie-Samê é um passeio no parque, com o silêncio cortado por rajadas de buzina e sirene, o céu coberto por viadutos. Tatuagens desbotadas, sexos trocados, carícia em cicatriz fermentam este caldo. A língua-estilete saboreia a carne e dela sangram personagens que tentam dissipar a névoa. O que há depois dela?
Não nos despimos, não raspamos os cabelos, não tiramos os sapatos para entrar neste templo: a lírica é sujeira impregnada na pele. Cada página é um arrastado de pés, o desconforto da noite na sarjeta (velha conhecida)… A alma que dói em colchões embrutecidos.
(E esse amor ardendo nos olhos? O ato de amar ainda é revolucionário).

É hora de dormir.

rezemos para que não sejamos nós os demônios,
ou pior, os anjos,
ou pior, a chuva.

O silêncio é riscado por uma ou outra risada ao longe: não é exatamente um retumbe/ é o som que atravessa a parede.

A onipresente rua; a algazarra ao ouvido; a cidade aqui dentro ainda depois que fechamos a porta no fundo da minha varanda no apartamento 3×4 do centro da cidade.
Fecho os olhos. Na boca remoinham palavras inventadas, estas que não poderiam ser outras: que ferem a bruma… as lâminas… Yliê-Samê.

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RESENHAS | Crônicas da vida pensada em silêncio…

Por Adriana Aneli

 

O encontro é em seu território. O anfitrião chega à página 07 e dedica o livro para mim, que o lê, e a Edward Hooper… a solidão cosmopolita humana. O convite é para seu ato de criação, às forças interiores que mobiliza para expor sua coragem em todas as minhas contradições e pecados — dos quais, aliás, muito me orgulho”.

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Resenha | Detalhes Intimistas

Por Adriana Aneli


“Sou o Albatroz que te espera
no fim do mundo”

Li Detalhes intimistas durante uma viagem de navio: …“espero que goste da leitura”, dizia a dedicatória. Malas prontas, aceitei o convite. Ainda no porto, o aviso: “tem página em branco para ser escrita”.

Embarquei: “Não sei bem para onde, mas a vida me guia e conhece exatamente o local de destino”. Fui conduzida por este cenário. Silenciosamente. Até acostumar os olhos, o exercício de enxergar além.

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Resenha | DENTRO DE UM BUKOWSKI

Por Marecelo Moro


Foi apreciando uma poesia que falava de uma pedra que conheci Aden Leonardo — numa dessas madrugadas insones tão comuns para mim —, e depois descobri , tão comuns para ela também.

A pedra poderia ser na Lua ou em Marte, como gostam meus exageros, mas era uma pedra em Itaúna e, de tão curta descrição, me levou a imaginar um Everest dentro de uma caixa de fósforos… e me deu vontade de ouvir Wagner.

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