Resenha | Lua de Papel

Por Adriana Aneli

… e foram virando peixes virando conchas
virando seixos virando areia
prateada areia
com lua cheia
e à beira-mar     

Chico Buarque


 

Posso imaginá-la, ainda criança, a desmontar seus brinquedos de corda. Um dia cresce a escritora: passa a desfrutar em seu caderno, recostada à cabeceira da cama, do mesmo prazer ao estudar detalhes, peça por peça… a entender funcionamentos, encaixes, os comandos de seus personagens.

Das experimentações de Lunna Guedes, nasce Lua de Papel: um romance em três partes — três personagens principais — três artistas… que, entre passado, presente e futuro se deixam aproximar, seduzir… enluarar.

A primeira que chega é Alexandra: prisioneira em fuga, barroca. Para a menina de Teodoro, a vida é julgamento, miragem — sempre quase.  A segunda traz a pele em brasa… urgências em atropelo: Raissa — escritora a tatuar liberdades no corpo e intensidades na alma.

Ousadia, flerte, contraponto: é Raissa quem dilacera Alexandra em suas próprias crenças e a transforma na Alex, dos livros um e dois. Até descobrir que a ela — também escritora — não bastaria ser uma de suas personagens. Maré morta… a ressaca.

Para Alex e Raissa, converge Anne — a fotógrafa sobrevivente —, que é densidade e serenidade, história contada… a suavidade única.

Entre desejos e rivalidades, a literatura de Lunna Guedes se multiplica em poesia. Alquimista… desprende aromas e sabores do papel impresso. Palavras dissecadas, — desenredadas em triângulos —, nuas em seu físico. Fluídas. Espirituais. Frases de céu, terra e inferno… que se misturam nos rituais de preparação de chá-banho-beijo… e de sono profundo — a verdadeira entrega.

A colecionadora nos toma pelas mãos e, com ela, percorremos um cenário povoado por personagens múltiplos. Caleidoscópicos. Urbanos. Baixa Augusta, Auditório do Ibirapuera, Campus universitário, vernissages…. Lunna nos alimenta de sua colheita, a cidade em sua melhor safra: a vida em ebulição!

Espectros de quem somos… Alex, Raissa e Anne nos alertam para nossos próprios entusiasmos. Sonhamos o voo, enquanto derretemos asas antes mesmo de nos deixar tocar o sol. Teodoro e seu coreto, seus habitantes e seu rio… A cidade cárcere é para onde voltamos, carregada aqui dentro e sem fuga possível: o livro três.

Li os três volumes de Lua de Papel, em estado de encantamento… e podia fechar os olhos certa de que a morte não me deixaria amanhecer dentro de um dia seguinte.

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Resenha | Indizível

Por Adriana Aneli

Antidotum tarantulae


 

… miudezas tão imensas
miudezas que percorrem a intimidade
e permanecem
miudezas perenes
serenas melodias de sol
.

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Para algumas pessoas, a poesia acontece na pele… para outras, fala ao coração. Para mim, a poesia acontece na boca do estômago, “cachoeira em ebulição/corredeira dentro do ventre”. A palavra é experimentação e, cada livro, uma nova jornada.
Atravesso o portal Indizível, de Bianca Velloso e Vê Almeida. É ali — onde as ervas têm flores e a palavra é maresia — que o amor acontece.

.
luz de acender o verbo
imagem que se faz verso
que se faz carne

De mãos dadas, poema e fotografia executam seu compasso binário, parceria inevitável em círculo convulsivo: imagem que sussurra versos, instantâneo capturado na alma. O poder feminino do poema: possuir e prender.
Elas nos levam, lycosa tarantulae, por sua febre. Em paisagens de paixão e melancolia, dançam: veneno inoculado, vida em suspenso.
Indizível é silêncio… Calado num talvez, num quase, espiado por trás da janela, barra de vestido, mãos e bocas em delicadeza. A estrada sem volta é sonho e sonhar, fabricar coincidências.
Indizível também é grito e espasmo. Certezas desfeitas pelo benefício da dúvida: as histórias acontecem por trás do voal e por isso tomam a forma de gigantes: “fale de sua aldeia…”; Bianca e Verônica falam para o mundo:


tudo aquilo
que já não cabe
na cidade
cabe dentro da praça
:
A praça ainda cabe na cidade

Indizível transformado em gestos; caminhos percorridos com pés descalços. Aqui a poesia acontece: no estômago, na pele, no coração.

 

Resenha | amor expresso

Por Marcelo Moro

 

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Desde muito cedo, aprendi que o café é uma arte… meus pais, amantes desse tesouro, me deram como herança tal apreço. Antes, meu bisavô — na cidade de Santa Cruz das Palmeiras, interior de São Paulo — cultivava, colhia, secava e ensacava o que viria como maravilha depois para nossas xícaras.

Sim, eu sou um viciado em café e, nesse vício, tenho certeza de que não estou sozinho no meio da multidão. Quando menos se espera, alguém levanta os dedos com o gesto típico de quem segura uma xícara, e pede: “um cafezinho, por favor!”…

No final do ano de 2015, a escritora e poeta Adriana Aneli reuniu 40 minicontos sobre o café, e publicou um delicioso e saboroso livro: Amor Expresso. Foi Amor à primeira vista.

O design do livro, em vermelho-paixão e preto café, despertam — nos amantes da literatura — bem mais que um desejo. Acende uma chama de curiosidade tamanha, que se compra primeiro pelo objeto… antes mesmo de se descobrir o conteúdo. As edições artesanais têm esse poder mas, no caso do Amor Expresso, é algo surpreendente.

As linhas de Adriana Aneli preenchem e transbordam nossas xícaras… têm ritmo. Um conto enlaça no outro, e vamos vivendo o café pelas ruas e lugares de São Paulo… com personagens inusitados e construídos, levando-nos a imaginar a vida de cada um deles além do cafezinho apresentado.

É preciso destacar também, com muito louvor, as ilustrações concebidas pela artista Cristina Arruda — que dão vida, gosto e cheiro a cada vaporzinho de café que sobra das páginas.

Não é à toa que um dos desdobramentos dessa obra de arte chamada Amor Expresso são as esculturas de Flávia Taiano, que foram inspiradas em cada miniconto, e compostas como xícaras que têm vida própria dentro da história de cada personagem. Suas características e feições, uma coleção ímpar e de muito bom gosto.

Li algumas vezes o livro todo e me encanto ainda com cada leitura. Sempre me sugerem café em boas quantidades e da melhor qualidade, deixando minha boca com aquele gosto de “quero mais”.

Um brinde com um bom café — Amor Expresso — a todos nós.

Resenha | o lado de dentro de Mariana Gouveia

Por Adriana Aneli

O lado de dentro (Scenarium, 2015) instiga à penetração, este mergulho no escuro… nada por acaso, a capa do livro se rasga, por e.x.e.m.p.l.o.s, sugerindo ao leitor que se descosture e aprenda a espiar.

É d’O lado de dentro que o olhar atravessa. Sim, Mariana está nua. Poemas se despem ao longo das 72 páginas do livro pelas mãos da jardineira que, por hábito, colhe pessoas no jardim. Nua, não há desculpa perante si mesma. Sem indulgência, Mariana escreve-se em poesia: a chave.

É d’O lado de dentro que a poeta nos atira a chave — da procura de Drummond — e nos convida para instantes de chuva, de sede, de terra, de nuvem, de flor ou de saliva; a densidade do silêncio onde nenhum abismo nos cabe. Ainda assim nos atiramos porque Mariana é “do tipo que te leva a confiar. Quase instinto”.

Sem pistas para seguir na senda, fio-me no tom confessional desta obra de “doçura inquietante e malícia suave” que admirei também nas Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs, e que ao final da viagem me leva de volta para casa.

 

[…] Voltei ao seu quintal,
Onde sua presença é tão forte
— que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas
E as árvores em sintonia
— cantam a canção do vento
Que você dançava.

 

A poesia que me habita ganha a voz de Mariana. A presença marcante da natureza, a fatalidade do tempo, nosso destino de salvar borboletas. Ao final ouço minha voz em eco e força. D’O lado de dentro, dos jardines del útero, do mito estilhaçado do espelho brotam desenhos rupestres, desejos.

 


 

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Resenha | O palco das ousadias de Marcelo Moro

Por Mariana Gouveia

 

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A primeira vez que me deparei com Teatro das Ousadias foi paixão ao primeiro poema e depois ao segundo, ao terceiro e daí por diante… ele veio até mim, destrinchado por uma amiga — ainda cru e mesmo assim deliciosamente ousado.

Com o livro pronto e mãos… eu ganhei o mar e suas ondas arrastando poesias na areia. A lua — amiga inseparável do poeta — desenhou em meu céu… tudo que eu lia.

Viajar pelo livro é saborear uma iguaria única servida aos poucos e deixando na boca o sabor de quero mais. É enveredar pelo mundo dos deuses, das deusas, de um deuso — o próprio poeta — e sentir que você pertence a ele.

Teatro das Ousadias é esse passeio pelo olhar que o poeta tem da poesia… ao folhear cada página, uma cortina se abre entre o encanto e a divindade… entre a magia e a realidade suprema dos poetas.

A ousadia explícita nas palavras, o despir-se diante do leitor… nos faz ousados também e, capazes de imaginar as sensações do homem-poeta, mesmo sendo um perigo constante desvendar a alma de quem escreve.

Não dá para limitar em uma frase a ousadia de Moro… por isso, apenas te convido a percorrer as linhas de seus versos e se sentir o protagonista desse palco que ele lhe oferece. Ouse.

 


 

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