Plural | Blues

Por Marcelo Moro

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Moramos em um planeta Azul,
…eterno encontro de céu e mar.
Bem estar e agonia!

Digamos que seja uma prisão…
Voluntária — uma vez que ninguém é obrigado a nada. Prazer e dor que se combinam — em geral: desproporcionalmente.

Há quem veja beleza nesse azul todo… eu, às vezes, enxergo uma cansativa monotonia quebrada por outros tons mais agudos, que não deixam de ser Blues — nossa primária cor —, mas são também nuances necessárias à nossa poesia.

Almas inconclusas, somos prisioneiros, tristes e sombrios que, em certos instantes, brilhamos… seja por amor ou por algum mínimo calor diverso que transgrida nossa ignorância apática.

A batida singela da enxada do algodoeiro harmonizada pelas sétimas de três acordes simples, quando recebe a voz grave e potente do sofrimento, banzo… fica bela — um lancinante blues. É como se harmonizam os cheiros aos sentimentos, as cores ao pensamento: somos cataliza-dores da criação — o tempo todo um viés diferente da realidade sólida, pesada e em preto-e-branco desse mundo bem meio amargo.

Esse Blues aqui é um blended… a mistura das sensações de todos nós,  nossas declarações de amor, de dor, medos e fingimentos. É sempre um grito ecoando de dentro Azul pode ser a cor mais forte ou a mais quente, afinal, é tudo azul… é o som sempre novo, sem começo ou fim — sempre em construção.

Sejam todos bem-vindos,
…a essa dança.

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Plural Entrevista | Carlos La Terza

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UMA MÁQUINA DE ESCREVER,
FILTRO DE PAPEL USADO… E POESIA

O som da máquina de escrever irrompe a madrugada, marcando o papel com palavras… enquanto o poeta leva a boca um pesado gole de café, misturado a um intenso trago de ar.  Vai a noite pelos caminhos do breu… vai o homem pelos caminhos do coração…
Marca a pele… o papel… faz acontecer a Poesia.
Carlos Alberto La Terza Jr., alia a criatividade à imaginação e ‘tira leite de pedra’…
Marca também o mundo… transformar a realidade comum. Reinventa-se…
Com filtro de papel usado entrega ao leitor uma deliciosa combinação: poesia com aroma de café.

— Como se deu a busca pelo formato do Leite de Pedra?
O livro Leite de Pedra como temos hoje já existia, em conteúdo. É uma compilação de poemas pequenos e alguns devaneios de 2011 a 2015, e o publiquei pela primeira vez em um desses sites colaborativos, editoras online que imprimem livros sob demanda e os revendem em suas plataformas, gerando um custo mínimo para o escritor. Depois de estudar o mercado e a cultura, tendências do universo literário contemporâneo, entre outras coisas, percebi haver um vácuo considerável entre o muito que se produz e o pouco que se vê por aí… daí veio a ideia de fazer meus livros, apoiada por muitos amigos e colegas de profissão. Busquei o formato e o material por algum tempo, passando por papel de pão, guardanapos, entre outros. Como sou viciado em café, os filtros aqui em casa se acumulavam de 3 em 3, o que um dia me deu a ideia de usá-los como papel. A máquina de escrever estava à mão, presente de um querido tio, que a usava em seu escritório nos anos 90 e não mais tinha utilidade para ele. Do filtro sujo ao livro foi um pulo. A tinta de café foi a solução para a capa, também provinda do vício e dos fundos de xícara com aquele restinho, sabe?

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— Uma praça, uma máquina de escrever, bate-papo com café… Como é sua relação com o público?
Sinto muita felicidade de poder conhecer pessoas, estar próximo de alguma forma do outro que me lê naquilo que escrevo. Ser o outro naquilo que leu. Fazer amizades baseadas num bate papo e um bom cafezinho, uma tarde e risadas. Eu não posso não amar o que faço.

— Tendências, estilos, tribos ou “famílias poéticas”, como se projetam os caminhos da poesia contemporânea?
Hoje a indústria do entretenimento e a ideia de cultura fundiram-se de tal forma, que os chamados “filões” de mercado na literatura contemporânea costumam ser excludentes, do meu ponto de vista. Baseados apenas nos explosivos episódicos da internet, ou em tendências pouco abrangentes de um modo geral, é possível que a arte de escrever poesia esteja caminhando sem volta para o crescimento do nosso universo “underground” — a poesia sem atravessadores — ou seja, cada vez menos dependente da estrutura de mercado usual, mais próxima e ‘aproximadora’, mais poética como um todo.

— Quando e como nasceu seu interesse pela literatura? O que o move a escrever?
Escrevo desde os 13 anos, em poesia. Desde que comecei a escrever, sinto um gozo profundo pelo ato em si, e pela resposta do ouvinte ou leitor. Se já soube o porquê, me esqueci, mas sinto que nunca vou conseguir parar de escrever — é uma terapia, uma forma de exorcismo interno que me acalma, como um antidepressivo ou uma dose de adrenalina mesmo. Escrever me emociona, muito.

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— Fale sobre a Editora Filtro dos sonhos…
A Editora Filtro dos Sonhos é o motor do projeto Leitura Sustentável, é de onde sai o produto final que é o livro Leite de Pedra, primeiro lançamento da Editora, que já tem mais dois livros para 2017 — no mesmo formato. Na verdade tudo surgiu junto, e de uma vez só, e tem sido um abraço gigante de muitas pessoas, instituições e eventos, o que tem feito o forno ficar mais aquecido a cada dia.

— O aroma do café nos remete a infância, numa espécie de túnel do tempo, embalando o corpo e também a alma em sensações de conforto e prazer. Você constrói seus livros a partir se dessas sensações? Ou o voo solitário de sua arte tem outros caminhos?
O livro é feito sempre ou quase sempre embalado por um café, é uma dança de sentidos, uma fome de quês, não sei dizer ao certo. O tempero do dia varia de acordo com a o gosto ou a companhia.

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— O que você pode dizer sobre literatura e sustentabilidade?
A sustentabilidade é uma exigência do nosso tempo. Leis são criadas, empresas precisam se adequar, pessoas precisam repensar todos os dias no que fazem enquanto estão no automático e redefinir os padrões quanto ao que consomem e o que entregam ao mundo após o consumo. O foco das oficinas que apresento é a discussão sobre essa relação do artista com as necessidades impostas pelo nosso tempo no tocante à sua arte, e a sustentabilidade está no cerne destas questões, que abrangem os mercados, tendências, a literatura artesanal, entre outras coisas.

— São Lourenço é uma cidade histórica, crescida ao redor da magia dos parques de água. Você sente influência da sua cidade na sua poesia?
Sim. Cresci dentro do Parque das Águas, bebendo água em fontes espalhadas pelos bairros da cidade( algumas já secaram), andando por aquelas ruas e praças. Não por acaso o cenário da escrita de alguns poemas foi em pontos da cidade que são marcantes hoje para mim.

— Uma verdade absoluta é que o café é um ativador de memórias. Quando dentro da noite, a compor seus mosaicos em folhas de café, quais memórias se precipitam???
As mais variadas! É complicado dizer assim, mas a minha cabeça navega em tantos tempos que nem sempre consegue acompanhar a si mesma. Quase sempre gosto de revisitar meus olhos de antes, minha infância ou adolescência, embora como Leminski eu ainda tardo a deixá-la por princípios. Reviver em mente é algo revigorante, mas viver em corpo é a poesia verdadeira.

Para saber mais sobre o a autor, acesse…

Plural | La Barca

“Navigare necesse; vivere non est necesse”

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…essa é a famosa frase dita por Pompeu, general romano, 106-48 aC., aos marinheiros amedrontados, que recusavam o mar e seus mistérios de vida e morte…  durante a guerra. Mas, inegavelmente, ficou muito mais conhecida graças aos versos do poema de Fernando Pessoa, que disse em seu poema: “Navegar é preciso; viver não é preciso… quero para mim o espírito desta frase, transformada |  A forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar“.

E foi com esse poema em mente que organizei a publicação La Barca da Plural… navegar é preciso, porque preciso viver a vida como se tivéssemos em mãos um pedaço de papel em branco e um lápis… para desenhar um mapa particular de vivências.

Há quem prefira o mar, como Cecília Meireles… a terra, como Mário de Andradeo céu, como T.S.Eliot… o importante é navegar, e foi justamente essa a proposta da Plural nessa edição…

Há dentro de mim
um rascunho despontuado,
Sem traço mágico—
com margem de erros…
Páginas arrancadas—
Um contrabando de zelos
— poéticos alheios.
Linhas tortas e devaneios
Há bolhas de lágrimas
em folhas vencidas
e sangue virando capítulos
Receita de poções
Penadas borrando endereços…
Um Livro áspero de capa dura,
desconexo em prosa ilegível.
Cujas vistas correm
fugas de fora
para o inciso primeiro
sem final previsível.

Maria Florêncio

Para ler a versão on line
303da Plural La Barca, clique aqui!

 

 

PLURAL | 1900 (flores do mal)

Por Júlia Bernardes

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O ano 1900 consagrou a liberdade de expressão do racionalismo… uniu pensamentos e absorveu para si a importante missão de instigar a realidade. O conceito urbano estava em progressão aritmética. A vida deixava a escuridão da fé cega e abraçava a luz do conhecimento (LUZ — ILUMINISMO).

Durante séculos a humanidade se permitiu viver enclausurada em cavernas de ignorância, visto que a conveniência do viver sem objeções lhe parecia o melhor dos mundos: imposições, costumes descabidos, regras advindas de escritos vorazmente proclamados por representantes da Verdade Absoluta e julgamentos tendenciosos, com propósito único de manutenção da ordem e da moral, não incomodavam os que adestrados já estavam a viver sobre imposição da inércia.

Deixar para trás o obscurantismo e a boçalidade do consentir sem contestar… movidos pela razão, ciência, artes e o respeito ao Ser, senhor de suas ações, ignorando o ato e/ou necessidade de se “ligar a” uma forca superior, marcou o Século XVIII — que ficou conhecido como o século das luzes… denominado como Iluminismo… que impôs a doutrina da exploração do conhecimento através da atitude do pensar/do questionar, trazendo consigo ainda, ideias que mais tarde se tornariam base para a sustentação do liberalismo político, bem como o econômico e o artístico para os povos ocidentais.

… “a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem” … (Immanuel Kant)

O ano 1900 entrou para a história ao celebrar as conquistas dos “iluminatis”… a comemoração aconteceu como forma de exposição em Paris, cidade luz que se transformou em Capital e Vitrine do mundo. A Exposição Universal que apresentou ao mundo durante oito meses os avanços da civilização foi considerada como um verdadeiro divisor de águas da história da humanidade.

O Antes e Depois não se trata de divindades, aparições e personagem central que, para muitos não passa de mito… trata-se de celebrar as conquistas do Homem pensador, realizador, questionador. Reverência à saída da escuridão ao encontro da luz.

Questionar é não se permitir acreditar em tudo que lhe é dito… é buscar no conhecimento de outras culturas, costumes e tradições o preenchimento de lacunas que ocupem a alma. É deixar a zona de conforto e se refugiar no risco. É superar o medo… saltar para sentir a força gravitacional. É a escrita pulsante que racionaliza a insanidade de um voraz escritor.

Pense… logo — Exista!

 

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Plural Novembro | Crepúsculo

logo da plural novembro

Por definição… o crepúsculo é uma faísca temporal… uma espécie de precipitação entre o dia e a noite… apenas um segundo; um piscar de olhos e você o perde… exatamente como aquela idéia que surge quando você está no meio do caminho e totalmente desprovido de meios para detê-la em si… uma vez perdida, era com toda certeza o seu melhor…

Pensando nessa temática, propomos aos autores escrever sobre essa metáfora contundente… o crepúsculo na escrita!

Interessados em participar, favor enviar os textos para apreciação e possível publicação…
até o dia vinte de outubro de 2015.

Envia para o nosso e-mail (scenariumplural@globo.com)
— artigos literários, poesias, contos, crônicas, ensaios, resenhas e charges —


Todos os trabalhos serão avaliados e os autores notificados
por e-mail quanto a publicação do material, em caso de aprovação.