Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

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Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

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Plural | Avesso

Por Lunna Guedes

Estava a ouvir Caetano e sua tropicália — movimento baseado no modernismo brasileiro — quando comecei a pensar a plural de março… e, sem ter com quem dialogar — dada a ocupação dos editores da revista nos dias primeiros desse ano ímpar — me ocupei de um diálogo imaginário com o compositor de ‘sampa’…

Alguma coisa — sempre — acontece no meu coração… que me põe a pensar a realidade e suas transmutações mecânicas… o contemporâneo e sua perplexidade…

E terminei por escolher o Avesso como norte-tema… e, a partir dessa premissa, me pus a lidar com o desenho proposto por Caetano em sua canção… a imaginar as curvas da cidade — literária e real — o que me obrigou a tentar compreender esse movimento de estar dentro, porém em exílio, em diáfora.

Tateei minhas experiências — novas e antigas… e rapidamente ‘aprendi a chamar-te de realidade’, porque a idéia de um exterior que se conjuga no interior é, sem dúvida alguma, a base da arte-vida-matéria-memória — tudo que somos… uma espécie de avesso, a olhar para fora, sempre em busca de si mesmo — sem, contudo, conseguir encontrar os cardeais…

E, orientada por esse mapa particular de sensações… acabei dentro das linhas do livro de Lygia Clark: ‘o dentro é o fora’… onde a artista afirma, sem meneios… que a arte é sempre ‘fora’ dela mesma, do mundo. E é também a capacidade de se deixar moldar-adequar… através de si, do outro e de todas as esferas, o que faz dos artistas: nômades — sujeitos em busca de um molde, sem jamais se deixarem moldar… porque, como afirma Lyotard: ‘todos os ensaios e as frases são feitos dentro do ser e não diante de seus olhos’.

Dito isso, basta ser barco e navegar por esse Avesso que somos… aceite o convite que deixamos em cada um das páginas seguintes… e venha aplaudir a conclusão de Caetano, que nos faz perceber que a cidade, o lugar, o sujeito e a arte são ‘o avesso do avesso do avesso’… e trate essas páginas como sendo um objeto longínquo, exterior a ti, que te obriga a sair de ti e vir de encontro a elas… para um instante de contemplação. Traga uma xícara de café, uma taça de vinho ou um maço de cigarros.

O avesso… depende (sempre) de um trago bem dado!

 

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Plural | La Bottega di Lunna

Por Adriana Aneli

“As águas dos mapas são mais silenciosas que a terra,
deixam a ela a conformação de suas ondas”

Elizabeth Bishop


Aprendi, tomando um gelato no Le Bottegheplural de bottega —, do italiano: “oficina artesanal e artística, onde o mestre trabalha ao lado de seus discípulos”. E aprendi, discípula, ao lado de mestres… que a vida deve ser levada assim: de modo artesanal.

Mas, para se fazer algo artesanal, é preciso dispor do bem mais raro do milênio: tempo.

Na dedicação integral deste bem precioso, Lunna e Marco Guedes criaram a proposta Plural de uma revista de literatura: feita sob o olhar diferenciado… na busca do projeto, do título, na escolha dos autores. O exercício incessante da criatividade dialoga com cada página, costura linhas, apura miolo e impressão: aí começa o dobra-recorta-cola-costura-amarra — e a revista está pronta para ganhar o mundo.

Em 2016, homenageamos o iluminismo com a Plural 1900 — releituras de Baudelaire e Henri Matisse. Depois, navegamos com La Barca em nosso mar indomável de sensações: a solidão abissal de Edward Hopper. Em seguida, ouvimos lamentos antigos, a voz de W. H. Auden, um convite para dançar (sonhos de Kurosawa?) em nosso funeral Blues.

Para fechar o ano, a vez é da Plural North and South… e, nela, o diário de Elizabeth Bishop ganha novas páginas.

Nesta edição, colhemos impressões de nossas viagens… as cidades que nos habitam. São os olhares de Lunna, Emerson, Caetano, Marcelo, Tatiana, Cecília, Sara, Manoel, Joakim, Obdulio, Adriana(s), Claudinei, Edmilson, Ingrid, André, Virgínia, Alexandre, Rebecca, Gabriel, Flávia, Mariana(s) que traçam este norte-sul — mapa particular de vivências em prosa e verso… a ousadia de lançar âncora em mares plurais.

Plural é o milagre da multiplicação do tempo. A arte de fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, para que a vida fique 100%… artesanal.