Poesia | Aden Leonardo


Autografei suas costas

Com a ponta da língua

com afago das mãos

refiz caminhos

Segurei teu rosto

no mesmo beijo

do último primeiro

dormiu três afagos

dois desejos

completamente saciados

Por algumas horas

pagas por mim, letra a letra

na fonte de erros de Eros.

 


 

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Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

 


 

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.

 



Participaram desse ‘coletivo’ os autores:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Diário das coisas que não aconteceram

Por Lunna Guedes
Editora Scenarium

 


 

 


Quando o arquivo do novo livro de Aden Leonardo chegou às minhas mãos… eu aguardei alguns minutos pela impressão das cinquenta e poucas páginas em Word para ler no papel… porque sou antiga — e nem sempre a tela me oferece o conforto que preciso para apreciar as palavras de meus autores. É como beber vinho em um copo de plástico: parte do sabor se esvai.

Eu preciso da transparência do vidro, da cor do líquido, do aroma da uva, de todas as combinações que certas reservas trazem… e do toque.

O mesmo acontece com as palavras, que serão livros depois de passarem por mim… Degustei as muitas linhas de Aden Leonardo, que são confissões diárias, de vida e não-vida… reais ou — talvez — surreais… bem len.ta.men.te.

Fui lendo, rabiscando o papel, invertendo frases… tornando meu o que antes era apenas dela. Um segredo guardado dentro, no fundo de si.

Eu me vesti de suas emoções-confusões-dúvidas-amor-desamor… um sem-fim de coisas, de maneira a organizar-e-desorganizar seus versos. Percorri suas calçadas… atravessei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e sai de vários lugares-cenários. Acompanhei crianças em movimentos, estranhos. Fui seus olhos, pernas, pés… me vesti de sua pele e dialogamos numa frequência inaudível.

Ao final da leitura… as palavras ganham textura… e o livro se torna realidade o bastante  para que a gente sinta a segunde pele coabitando o próprio corpo sem a resposta… para a pergunta nunca feita e uma certeza: as coisas nem sempre acontecem… 



‘diário das coisas que não aconteceram’

Aden Leonardo