Coluna Plural | A VIDA É BELA

Por Adriana Aneli

 


 

Não mente sempre a arte? E não é quando mente
mais que ela se revela mais criativa?

Konstantinos Kaváfis,
Reflexões sobre poesia e ética.


 

 

Não sei dizer dos animais, senão do homem que os copia. A mentira é a linguagem do mimetismo, a evolução possível: o processo pelo qual nos adaptamos a cada nova situação, conforto na guerra.

Ludibriar, manipular. Há vários propósitos em mentir: enganar, iludir… Os mais óbvios; o mais nobre? Reelaborar certezas e, assim, criar realidades falsas e, por isso, menos dolorosas. Este o papel da arte.

Mentirosos são mestres da ficção e, neste passo, subvertem a consciência do provável, pela mágica delicada do imprevisível. Nada difícil, portanto, entender por que poetas são fingidores: escrever é mentir e mentir — poupar leitores da passagem do tempo.

Quem fala a verdade, vai repeti-la no dia seguinte ou daqui a um ano; mentir é criar truques de ilusionismo, trazer o passado para agora, no instante mesmo em que começa o futuro.

Acreditar naquilo que se queria por verdade, é o primeiro passo para transformar ideias. Preparar na fantasia seu exército de camaleões, prontos a desarticular o modelo esgotado de realidade e gerar novas sínteses emocionais que produzam oxigênio —  num mundo em que há tempos não consegue respirar.

Talvez, só talvez, a mentira seja a lanterna dos afogados, onde nos agarramos temporariamente. Seguros entre poemas e contos, personagens imaginários; sonhamos asas – enquanto sabemos que pernas curtas estão prestes a congelar na verdade escura.

 

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TOP FIVE | amor expresso

ATLETA. Dos 12 aos 17 anos colecionou vitórias. Com a maioridade, passou a administrar perdas: o cachorro da família, o câncer do pai, o acidente do irmão, o coração da mãe, a boa forma física, e com ela, a namorada.
Sem emprego, sem dinheiro, sem vontade, desistir pareceu uma escolha natural. Bom jogador, criou as próprias regras: sem dor — descartou a gilete, a queda, a corda; sem margem para erro —, descartou revólver, veneno e remédios. Optou pelo gás de
cozinha. Decidido, foi.
Mas, ao lado do fogão estava a lata de café solúvel. Amornou o leite. Sentou no sofá. Assistiu à noite que se despedia e ao dia que começava. Espreguiçou pernas e braços… sorriu: há sempre um pouco de paz em cada xícara de café com leite.

 

Conto ‘um dia perfeito para o peixe-banana‘ — escolha de Aden Leonardo

 

 

TOP FIVE | amor expresso

 

 

ANSIEDADE INCOMUM, enxaquecas e insônia, pesadelos ao piscar de olhos, nem fome sentia: estava consumido pelo vício. Quando o médico o proibiu, já tomava mais de dez durante o dia. Para fugir à vigilância, saiu de casa. Arrumou emprego noturno e rondava de bar em bar pedindo um pouco de alívio. Escapou por um milagre e um dia venceu a dependência… Mas contam que, secretamente, ainda coleciona recortes sobre os benefícios do café para o coração humano.

 

Conto ‘bicho de sete cabeças’ — escolha de Tatiana Kielberman

Coletivo |Apresentação…

Por Lunna Guedes…

 


 

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

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Plural | Inéditos & Dispersos

Por Adriana Aneli

 


 

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue nas gengivas

Ana C.

 


 

 

Estamos em silêncio. Chegou o momento de calar. De se alienar. De romper. É hora de se deixar reinventar pelo olhar do outro. Encontrar, na matéria mágica que nos torna escritores, o antídoto ao dia que não nasce. Ao voo escuro. Ao revidar da noite…

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Resenha | Detalhes Intimistas

Por Adriana Aneli


“Sou o Albatroz que te espera
no fim do mundo”

Li Detalhes intimistas durante uma viagem de navio: …“espero que goste da leitura”, dizia a dedicatória. Malas prontas, aceitei o convite. Ainda no porto, o aviso: “tem página em branco para ser escrita”.

Embarquei: “Não sei bem para onde, mas a vida me guia e conhece exatamente o local de destino”. Fui conduzida por este cenário. Silenciosamente. Até acostumar os olhos, o exercício de enxergar além.

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