Junho | A rotina clandestina da escritora que sou

Por Adriana Aneli

 

Ela acorda tarde. Vira de lado e se elabora. Gosta de ficar mais um pouco, quieta, preguiçosa. Anda meio calada, a palavra, que nunca se deu fácil a qualquer ouvido e prefere se ausentar a cumprir compromissos com o papel em branco.
É irritável e caprichosa, abomina seu uso excessivo, explicações repetidas, emoções alongadas. Aprecia o humor e exige liberdades: outros ritmos, novos significados.
Meu papel é alimentá-la bem e vesti-la com elegância. Em troca, vive aqui e me deixa espiar enquanto cresce…
Eu me divirto com sua graça. E me espanto com sua ousadia e toda a perversão das suas possibilidades.
Se me abandona, logo volta em bando, pássaro livre num comboio de ideias. Então despojo-me do que sou ou pretenderia ser um dia… Fico a seu serviço, escrevendo, sem me preocupar com perguntas, e paciente com tudo o que não está resolvido no meu coração.

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Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

Para ler a versão digital clique aqui

Todos os dia quando acordo

Por Adriana Aneli


Ainda não me lembro de ter feito nada de que eu me arrependa este ano. A meta é por a vida em ordem e colocar a cabeça tranquilamente no travesseiro.

Talvez seja só a música que me martelava os ouvidos na infância: “um bom menino não faz xixi na cama”… Ou talvez tenha a ver com o acidente que a vitimou nestes dias, uma conhecida. A certeza da vulnerabilidade não me empurra para o tudo ou nada. Ao contrário a efemeridade me leva para o deixar em ordem, metodicamente, falando.

E aí entram: arrumar gaveta, fazer dieta, retomar rotina de exercícios, zerar fila de processos no trabalho, deixar a papelada em ordem, separar o lixo reciclável, colocar a leitura em dia – não assumir compromissos literários até ter a disponibilidade de realmente cumpri-los.

E assim vi minha “planner” – porque, vamos combinar que planner não é agenda, tá? – minuciosamente preenchida de informações e possibilidades dia após dia deste janeiro que passou em paz (para mim, não para o mundo).

2018 é o ano do “agora vai”, a depender da boa dose de esperança a cavar no peito, este poço em que seca a água.

2018 é o ano em que as pessoas que me conhecem vão demonstrar afeto tolerando minha distância e silêncio… Porque, afinal, o dia tem 24 horas e eu tenho 41 anos para por em ordem!

Adeus ano velho!

Por Adriana Aneli


Preciso conversar com você. Deixa eu te falar. Por favor, não se aborreça com o que vou dizer. É que… preciso deste desabafo. Tivemos nossos momentos, eu sei. Mas você dificultou tanto as coisas!

Viver com você foi realmente difícil. Sei da minha parcela de culpa, ninguém estraga tudo sozinho. Quis que fosse do meu jeito, esta minha teimosia… Eu sei. Mas você foi tão inflexível, não foi? Não me deixou escolha.  Para que remoer tanto os fatos? Por que esta volta  ao passado, este me deixar sem saída? Esta indecisão foi crueldade. Por que exigir de mim toda e qualquer atenção, a falta crônica de tempo. Quase sufoquei! Chegou a hora de te falar: estou indo embora. Daqui pra frente entro em um ano novo. Brindo novas taças, pulo novas ondas, sem nenhum remorso. Seja feliz, 2017!

Lançamento Coletivo | Amarcord

Por Adriana Aneli…

 

 

 

 

Inverno. Terça-feira, início da noite na cidade. Um carro branco avança devagar na avenida estreita. De casacos pretos a multidão apressa o passo, afundada nas próprias golas. Por alguns segundos a densa fumaça encobre o congestionamento. Buzinas, risadas de mulheres, a batida de copos nos bares. Pés saltam apressados do táxi. Param à entrada do cine café. A luz morna no corredor de paredes escuras se acende, iluminando cartazes de filmes e mesas para dois. Federico, com flores vermelhas em uma das mãos, acena para sua orquestra: a música começa.

Pode não ter sido exatamente assim, mas bem que poderia ter sido este o começo da noite no Cine Café Fellini, quando autores da Scenarium – em sua timidez atávica – Invadiram o Baixo Augusta.

Cientes todos de que funcionamos melhor por trás do teclado do que em eventos sociais, desta vez nos deixamos levar pela intimidade, pela risada fácil e a surpresa de ser Coletivo, com vozes tão desiguais. E fomos tantas Marias, Lunnas, Virgínias, Obdúlios, Roselis, Caetanos, Marcos, Adrianas… E fomos quem estava e quem não estava e quem ainda virá.

(É verdade que nossa desenvoltura ainda falha, mas agora somos também Felipe e Thais – vozes de  le manine… A primavera sobre o pátio inventado).

Recebemos nossos convidados neste encanto de árvores e bicicletas, mesinhas de café rodeadas de gente e de histórias… A memória emotiva da nossa poesia.

Volto para casa sotto la Lunna piena. Abraços sem despedida. O orgulho imenso de unir diferenças num diálogo plural.

 

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Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Plural | La Bottega di Lunna

Por Adriana Aneli

“As águas dos mapas são mais silenciosas que a terra,
deixam a ela a conformação de suas ondas”

Elizabeth Bishop


Aprendi, tomando um gelato no Le Bottegheplural de bottega —, do italiano: “oficina artesanal e artística, onde o mestre trabalha ao lado de seus discípulos”. E aprendi, discípula, ao lado de mestres… que a vida deve ser levada assim: de modo artesanal.

Mas, para se fazer algo artesanal, é preciso dispor do bem mais raro do milênio: tempo.

Na dedicação integral deste bem precioso, Lunna e Marco Guedes criaram a proposta Plural de uma revista de literatura: feita sob o olhar diferenciado… na busca do projeto, do título, na escolha dos autores. O exercício incessante da criatividade dialoga com cada página, costura linhas, apura miolo e impressão: aí começa o dobra-recorta-cola-costura-amarra — e a revista está pronta para ganhar o mundo.

Em 2016, homenageamos o iluminismo com a Plural 1900 — releituras de Baudelaire e Henri Matisse. Depois, navegamos com La Barca em nosso mar indomável de sensações: a solidão abissal de Edward Hopper. Em seguida, ouvimos lamentos antigos, a voz de W. H. Auden, um convite para dançar (sonhos de Kurosawa?) em nosso funeral Blues.

Para fechar o ano, a vez é da Plural North and South… e, nela, o diário de Elizabeth Bishop ganha novas páginas.

Nesta edição, colhemos impressões de nossas viagens… as cidades que nos habitam. São os olhares de Lunna, Emerson, Caetano, Marcelo, Tatiana, Cecília, Sara, Manoel, Joakim, Obdulio, Adriana(s), Claudinei, Edmilson, Ingrid, André, Virgínia, Alexandre, Rebecca, Gabriel, Flávia, Mariana(s) que traçam este norte-sul — mapa particular de vivências em prosa e verso… a ousadia de lançar âncora em mares plurais.

Plural é o milagre da multiplicação do tempo. A arte de fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, para que a vida fique 100%… artesanal.

A construção da primavera | Adriana Aneli

 

 R$ 35

 


…é um resgate da lírica helenística — a poesia de Safo e as canções de Bilitis — em que os elementos da natureza, do clima e da passagem do tempo marcam a psiquê da personagem. Alegria, melancolia, exaltação, recolhimento são as quatro estações e seu recomeço.

 

Resenha | Lua de Papel

Por Adriana Aneli

… e foram virando peixes virando conchas
virando seixos virando areia
prateada areia
com lua cheia
e à beira-mar     

Chico Buarque


 

Posso imaginá-la, ainda criança, a desmontar seus brinquedos de corda. Um dia cresce a escritora: passa a desfrutar em seu caderno, recostada à cabeceira da cama, do mesmo prazer ao estudar detalhes, peça por peça… a entender funcionamentos, encaixes, os comandos de seus personagens.

Das experimentações de Lunna Guedes, nasce Lua de Papel: um romance em três partes — três personagens principais — três artistas… que, entre passado, presente e futuro se deixam aproximar, seduzir… enluarar.

A primeira que chega é Alexandra: prisioneira em fuga, barroca. Para a menina de Teodoro, a vida é julgamento, miragem — sempre quase.  A segunda traz a pele em brasa… urgências em atropelo: Raissa — escritora a tatuar liberdades no corpo e intensidades na alma.

Ousadia, flerte, contraponto: é Raissa quem dilacera Alexandra em suas próprias crenças e a transforma na Alex, dos livros um e dois. Até descobrir que a ela — também escritora — não bastaria ser uma de suas personagens. Maré morta… a ressaca.

Para Alex e Raissa, converge Anne — a fotógrafa sobrevivente —, que é densidade e serenidade, história contada… a suavidade única.

Entre desejos e rivalidades, a literatura de Lunna Guedes se multiplica em poesia. Alquimista… desprende aromas e sabores do papel impresso. Palavras dissecadas, — desenredadas em triângulos —, nuas em seu físico. Fluídas. Espirituais. Frases de céu, terra e inferno… que se misturam nos rituais de preparação de chá-banho-beijo… e de sono profundo — a verdadeira entrega.

A colecionadora nos toma pelas mãos e, com ela, percorremos um cenário povoado por personagens múltiplos. Caleidoscópicos. Urbanos. Baixa Augusta, Auditório do Ibirapuera, Campus universitário, vernissages…. Lunna nos alimenta de sua colheita, a cidade em sua melhor safra: a vida em ebulição!

Espectros de quem somos… Alex, Raissa e Anne nos alertam para nossos próprios entusiasmos. Sonhamos o voo, enquanto derretemos asas antes mesmo de nos deixar tocar o sol. Teodoro e seu coreto, seus habitantes e seu rio… A cidade cárcere é para onde voltamos, carregada aqui dentro e sem fuga possível: o livro três.

Li os três volumes de Lua de Papel, em estado de encantamento… e podia fechar os olhos certa de que a morte não me deixaria amanhecer dentro de um dia seguinte.

Resenha | Indizível

Por Adriana Aneli

Antidotum tarantulae


 

… miudezas tão imensas
miudezas que percorrem a intimidade
e permanecem
miudezas perenes
serenas melodias de sol
.

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Para algumas pessoas, a poesia acontece na pele… para outras, fala ao coração. Para mim, a poesia acontece na boca do estômago, “cachoeira em ebulição/corredeira dentro do ventre”. A palavra é experimentação e, cada livro, uma nova jornada.
Atravesso o portal Indizível, de Bianca Velloso e Vê Almeida. É ali — onde as ervas têm flores e a palavra é maresia — que o amor acontece.

.
luz de acender o verbo
imagem que se faz verso
que se faz carne

De mãos dadas, poema e fotografia executam seu compasso binário, parceria inevitável em círculo convulsivo: imagem que sussurra versos, instantâneo capturado na alma. O poder feminino do poema: possuir e prender.
Elas nos levam, lycosa tarantulae, por sua febre. Em paisagens de paixão e melancolia, dançam: veneno inoculado, vida em suspenso.
Indizível é silêncio… Calado num talvez, num quase, espiado por trás da janela, barra de vestido, mãos e bocas em delicadeza. A estrada sem volta é sonho e sonhar, fabricar coincidências.
Indizível também é grito e espasmo. Certezas desfeitas pelo benefício da dúvida: as histórias acontecem por trás do voal e por isso tomam a forma de gigantes: “fale de sua aldeia…”; Bianca e Verônica falam para o mundo:


tudo aquilo
que já não cabe
na cidade
cabe dentro da praça
:
A praça ainda cabe na cidade

Indizível transformado em gestos; caminhos percorridos com pés descalços. Aqui a poesia acontece: no estômago, na pele, no coração.