Resenha | amor expresso

Por Marcelo Moro

 

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Desde muito cedo, aprendi que o café é uma arte… meus pais, amantes desse tesouro, me deram como herança tal apreço. Antes, meu bisavô — na cidade de Santa Cruz das Palmeiras, interior de São Paulo — cultivava, colhia, secava e ensacava o que viria como maravilha depois para nossas xícaras.

Sim, eu sou um viciado em café e, nesse vício, tenho certeza de que não estou sozinho no meio da multidão. Quando menos se espera, alguém levanta os dedos com o gesto típico de quem segura uma xícara, e pede: “um cafezinho, por favor!”…

No final do ano de 2015, a escritora e poeta Adriana Aneli reuniu 40 minicontos sobre o café, e publicou um delicioso e saboroso livro: Amor Expresso. Foi Amor à primeira vista.

O design do livro, em vermelho-paixão e preto café, despertam — nos amantes da literatura — bem mais que um desejo. Acende uma chama de curiosidade tamanha, que se compra primeiro pelo objeto… antes mesmo de se descobrir o conteúdo. As edições artesanais têm esse poder mas, no caso do Amor Expresso, é algo surpreendente.

As linhas de Adriana Aneli preenchem e transbordam nossas xícaras… têm ritmo. Um conto enlaça no outro, e vamos vivendo o café pelas ruas e lugares de São Paulo… com personagens inusitados e construídos, levando-nos a imaginar a vida de cada um deles além do cafezinho apresentado.

É preciso destacar também, com muito louvor, as ilustrações concebidas pela artista Cristina Arruda — que dão vida, gosto e cheiro a cada vaporzinho de café que sobra das páginas.

Não é à toa que um dos desdobramentos dessa obra de arte chamada Amor Expresso são as esculturas de Flávia Taiano, que foram inspiradas em cada miniconto, e compostas como xícaras que têm vida própria dentro da história de cada personagem. Suas características e feições, uma coleção ímpar e de muito bom gosto.

Li algumas vezes o livro todo e me encanto ainda com cada leitura. Sempre me sugerem café em boas quantidades e da melhor qualidade, deixando minha boca com aquele gosto de “quero mais”.

Um brinde com um bom café — Amor Expresso — a todos nós.

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08 – Nem sempre a lápis | três contos de Adriana Aneli

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RECEBEU O PRIMEIRO AVISO no fim da tarde. Dirigia com pressa. Entre ansiedade e frustração, o sol amornava o carro e o pensamento pesava em suas pálpebras.
Acordou com buzina e farol alto. Na contramão, por um triz do fim da estrada. Coração aos pulos, reengatou a marcha.
Indiferente ao casal à sua frente, escolheu o balcão da lanchonete: “Seu filho nasceu. Venha com calma” apitou a mensagem em seu celular.

Brindou por duas vidas com seu pingado.

 


 

deus da carnificina

 

QUASE COMPLETAVA UM ANO que, ao final do expediente, ele recolhia o lixo do oitavo cartório. Quando ele se aproximava de sua mesa, ela gentilmente se abaixava. Entregava a ele a lixeira, um sorriso no rosto e um delicado até amanhã.
Ela não sabia seu nome, mas ele conhecia a marca do lenço umedecido com o qual ela limpava as mãos, a barrinha de cereais de sua preferência e a marca do adoçante que usava em seu café.
Devotava-se a estudar seu lixo, na esperança de quem sabe um dia…
Quando entrou, ela estava cercada pelos colegas, recebendo alegres cumprimentos. Com a timidez ardendo em seu rosto, resolveu que já era hora.
Tomou coragem, pediu licença e penetrou a roda. Foi em sua direção.
Ela, sempre gentil, mais uma vez se abaixou e depositou em suas mãos a lixeira transbordante da festa de aniversário.

 


 

o sal da terra

 

ARCO-ÍRIS EM PLENA SEGUNDA-FEIRA. Mal podia esperar. Namoravam há um ano, tudo combinado, a primeira comemoração, eles se encontrariam ao final do dia, no mesmo cinema em que se conheceram. Divertida, linda, perfumada desceu a escadaria do prédio… Não, mensagem nova: espero você no café em frente ao seu trabalho.
Correu até ele. Chegou por trás, já beijando de leve sua nuca, o pescoço. Abraço apertadinho, feliz, feliz… te amo tanto!, deslizou o presente à sua frente. Ele nem a olhou, desculpe, recusou o pacote. Ela ainda ensaiava um sorriso, quando o golpe veio fatal… então ele levantou e saiu da sua vida.
Ela tomou um café. Salgado e frio.

 


Adriana Aneli é autora do livro de contos ‘Amor expresso’  — série exemplos de contos da Scenarium — ano 2015.

amor expresso | adriana aneli

R$ 35

 


“Se o tema é café, o gosto é amargo… Ou adoçado artificialmente? É quente e forte: cativante? Cafezinhos para unir, distrair e consolar… Ou acordar, revigorar – sempre correndo o risco de perder de vez o sono? Amor expresso convida para uma leitura rápida, cada dia um miniconto (ou muitos de uma vez, para os viciados): uma xícara, um conto ou a prazerosa e demorada pausa para o “café com arte” que Cristina Arruda preparou em ilustrações: traços que carregam um mundo dentro de si.
Cada narrativa é um instantâneo de amor ou de ódio, de humor ou melancolia, elaborada com grãos de música, poesia e cinema, como revela a “cafégrafia” ao final do livro.
Histórias que estão ali desde sempre, mas que nem sempre são notadas. Flagrantes de quem somos, poderíamos ou ainda queremos ser neste mundo de obrigações pré-fabricadas, em que mal temos tempo para um café”.