CARTAS PARA ABRIL | Suor com canela. Café?

Por Maria Vitoria


 

Suor lâmina meus poros, um vinho quente de quatro reais umedece meus lábios, salsicha frita enrolada em farinha branca me impede de sentir tanta fome.

Ana, já fazem duas semanas que bebo consecutivamente pelas manhãs e sagradamente trago em minha saliva o néctar podre da derrota das ruas.

Acostumei também a me sentar em frente a janela e ficar observando um famoso morador de rua aqui do bairro, passo horas a fio o ouvindo xingar os transeuntes, a desejar a morte da mãe de todos, a declarar que irá matar de forma cruel todos os filhos da puta.

Sabe, hoje foi um dia especial. Três anos e onze meses completei hoje com minha eterna, Carolina. Você tinha de nos ver sentadas em bancos de praça rodeadas de lixo, drogas e camisinhas usadas, juntamente com crianças negras e pobres a correrem soltas pulando amarelinha por cima de estacas de madeira com pregos enferrujados. Nosso banquete de comemoração foi especial: três espetos de carne, cada um custando dois reais. Quatro salgados há um e cinquenta cada. Uma mini lata de coca cola e um coquetel de vinho quente e barato. Discutimos sobre a solidão da mulher negra, sobre políticas sociais e sexo hetero.

De fato, me sinto feliz.

Pensa que agradável seria compartilhar alguns detalhes contigo degustando um café com canela? Uma ex namorada me disse que era como provar a oitava maravilha do mundo, desconfiei, mas eu o provaria pela primeira vez contigo.

Antes que eu me esqueça, passei quarenta minutos alternando entre os olhos, os óculos e a boca pintada de nude de uma garota. Recebi de empréstimo um livro de Lilia Guerra: Perifobia.

Volto neste instante para casa com fome, me lembro que tenho na mochila uma baguete de calabresa com queijo. Dou uma cheirada antes de abafar o rugir de meu estômago. Estragou!

Tomo um copo de água gelada. Me deito completamente nua apenas com uma touca de seda na cabeça. Te escrevo essa carta. Não durmo – insônia por dois dias consecutivos.

 

Com amor,
Menina faminta.

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CARTAS PARA ABRIL |Ana, que tal um café?

Por Mariana Gouveia


Oi, Ana

 

Começo a te re-escrever na madrugada. Sinto que o vento traz o cheiro de café de algum vizinho madrugador. Coloco a água para aquecer em um ritual antigo — já que fiz a burrada de, em um momento de distração, jogar o suporte da cápsula da cafeteira fora — enquanto preparo o coador para então saborear o café a me acordar de vez.

Enquanto sigo até o ponto de ônibus, vou criando notas mentais do que gostaria de te dizer. Quase crio uma canção ao repetir as palavras para não esquecer.

Continuo na segunda parada… onde aguardo pelo outro ônibus e mais uma vez o cheiro do café chama a atenção. O vendedor de bolos de arroz me serve com a delicadeza de todo dia. O sabor do bolo típico daqui me leva à infância. Minha mãe usava a latinha de sardinha como fôrma para assar no fogo de barro. Enquanto o ônibus não chega, falamos do momento atual na política e ele logo discorre sobre o filho que tentou um concurso público.

Penso que hoje completo uma carta que comecei a escrever ainda adolescente, quando você chegou a minha mão, através de um exemplar sem capa… de Inéditos e Dispersos que continha correspondências e poemas. Eu saindo da infância e todas as melancolias do mundo dentro de mim. O livro parecia ter sido manuseado sem cuidados e apesar de fino, tinha folhas soltas. Comi as palavras e a palavra correspondência ganhou sentido em minha vida.

Minha mãe usou a palavra “poeta impetuosa” para te descrever. Parei entre a soleira da porta que dava para a cozinha e comecei a escrever essa carta, que ficou parada no tempo. Talvez eu clamasse pela liberdade que você esbravejava e eu invejava nas palavras. Ou talvez simplesmente vivesse essa mesma inquietação tua e que só exercesse minha versão transgressora longe de minha mãe.

O dia chega ao fim. Sinto que não consegui dizer tudo. Hoje, as lembranças pesaram junto à realidade. Embora um sol brilhante do lado poente desenhe nuvens no céu, no ponto leste de minha janela um arco-íris redesenha coragem em mim. Há situações de chuva no céu e os trovões bradam o interior e é dentro de mim que te abraço.

 

Beijo,

Cartas para abril | a teus pés…

Por Lunna Guedes


 

my dear,

 

Faz sol entre esquinas. O latte acabou e a leitura que era feita entre goles, agora vai a seco. Leio-te novamente e recordo coisas nossas-suas-minhas. A nostalgia-gavetas… coisas tão minhas-suas. Causa de espanto-soluço. Uma soma improvável.

Guardei algumas coisas do passado recente. O mais antigo… fiz questão de estragar — amassei-rasguei-queimei. No tempo em que a raiva fervia em meu íntimo. Brasa acesa. Fúria crescente. Uma tempestade a causar estragos por onde passa…

É estranho recordar essa outra pessoa que fui… faz tempo. É como abrir uma dessas gavetas e revirá-la. Foi ela quem lhe escreveu ao saber-te através de outra poeta, a que apresentou a poesia à menina que eu fui. Nossa! Eu já fui tantas! — estou velha, minha cara. Já dei algumas voltas ao redor do mundo, sem mapas-destinos-lugar. Guardei alguns pores do sol na memória, o resto descartei. Hoje estou com os pés bem fincados nesta cidade urbana que eu gosto de dizer de Mário, apenas não dizê-la minha. Não ria…

Encontrei uma das cartas que lhe escrevi… não sei como sobreviveu. Estava no meio de outras tantas que escrevi e não enviei. Eu escrevo para o papel, ainda que tatue um nome nele. Não indica norte-destino-coisa-alguma.

Gosto imenso do ato de escrever… me faz lembrar das viagens de Comboio de ontem. A plataforma de Nervi. Os humanos em estado de partida-chegada. O tempo de espera. O velho relógio no alto a contar segundos-minutos… ignorados por mim. O apito agudo do trem. O embarque. Eu era sempre a última a embarcar…

Dentro do envelope que leva o seu nome, encontrei o bilhete-verde de meu último embarque. Virou marcador das páginas do teu livro — lido incontáveis vezes, esquecido outras tantas no fundo da gaveta-prateleira-caixa-alma e, que hoje voltou a aquecer minhas mãos, com suas dúvidas-certezas-medos-silêncios.

Acho que deveria lhe enviar um postal… com a cara da cidade empalhada — para marcar o momento de hoje… este dois mil e qualquer coisa, outono, dia de sol e uma libélula a bater contra o vidro, como se quisesse entrar e participar dessas linhas.

 

au revoir,

Cartas para abril | só queria entender…

Por Marcelo Moro


 

Ana C.,

Eu queria entender… toda essa ira… essa ferida exposta e essa dor contida nas duras linhas que nos dedica. Belas linhas, sem afagos nem esperanças mas, lindas.
Sinceramente gostaria de ver por dentro como funciona esse íntimo… mas sei que é querer demais.
Aos poucos, e te digo porque quero que saibas, as coisas para mim vão perdendo o sabor e o sentido, a escrita, as imagens, as minhas admirações e logo serão as paixões que me desmentirão deixando me nu diante do infinito.
Sei que entendes querida Ana. Sei que no fundo dessa sua alma de alamedas sombrias entendes.
Sabes por fim o que sinto, o que me sufoca e faz disparar meu coração empurrando-me a atropelar teclas como quem soluça palavras.
Eu só queria entender… nada me seria mais caro que isso.
Sei que não se deve mudar nada em função dos outros e de outras coisas que não as nossas convicções, isso chama-se liberdade, mas mesmo livre, e o sou, mudaria para poder entender… agradar talvez, fazer contente e se um dia, se assim o universo permitisse, trazer um sorriso, um lapso de felicidade dessas em que se joga no sofá e respira profundamente.
Podes receber essa missiva com desdém, pode também guardar numa gaveta escura, numa dessas caixas que guardas laços de vida e de morte sem que leia, e podes simplesmente rasgar, deixando assim incomunicável nossas angustias. Escrevo sem saber que destino terão minhas linhas, por querer escrever, por desejar sobretudo entender.
Toda sua força disposta em finalizações prematuras de convívios e laços… retratas em suas linhas. E quando leio, vejo que não há culpa, maldade ou má fé, apenas rasgos pelos quais eu queria entrar e entender, apenas estar e entender o porque se enche de cadeados, não só em ti como em tuas portas e janelas.
Amo-te embora não entendas, ou não acredites que seja isso possível, mas amo-te e te quero, acima desse amor, bem, sem egoísmos vãos ou sentimentos sombrios.
Espero, doce e forte Ana, que leia essa minha tentativa de entender suas premissas e sinceramente desejo, pelas lágrimas geladas que desceram–me, que aceites tomar um café num ocaso desses para uma conversa sincera, o tempo nos deve esse fortuito encontro, e perdoe-me se em algum momento ofendi… eu só queria entender.

 

Com afeto,