Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Caetano Lagrasta

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“J. D. Salinger escreveu uma obra prima, O apanhador no campo de centeio, recomendando que os leitores que tivesse gostado do livro ligassem para o autor; depois passou os vinte anos seguintes sem atender o telefone”
John Updike

CAETANO LAGRASTA NETO de italianos, paulistano do Brás; ocupa a Cadeira Graciliano Ramos – Acadêmico da Faculdade de Direito da USP; Menção Honrosa do Prêmio Governador do Estado, 1967, com o livro de contos Abecedário (Ed. Scenarium, em 2016).

Corroteirista, ator e autor de comentário musical, em longas e curtas metragens; fotógrafo; O Fazedor, 2001; Livro de Horas, 2004 e Ópera Bufa, 2007, poemas, em edição do autor; 1968 e outras estórias, Le Calmon em 2013, contos.

Arriscou-se, sempre, a ideias jurídicas, também sobre a Família (a dele e a dos outros).
Durante estes anos, atendeu telefone.


Caetano Lagrasta é autor de ‘abecedário’
Para maiores informações, clique aqui

Junho | Caminhos ínvios do escritor que pretendo ser, fui ou serei

Por Caetano Lagrasta, escriba geral do país da galhofa.

Poizé.
O tema exige reflexões:

a primeira: pretendo ser o novo cacique da pajelança literária (não há negar, uma bela definição para uma carreira em todos os mundos dificílima, cheia de obstáculos, invejas, panelas e danças ao pé do fogo); mas pretendo ser um escritor sério, respeitador de pontuações e parágrafos, digno da imensa cultura-pátria; logo, existo; ou seja, em breve estarei de pires ou objeto mais prosaico a esmolar se dignem editores/revisores e alhures a dar uma vista d’olhos aos meus testículos, ops, breves textos que pretendo amontoar em estilo novela ou romance – diga lá quem sabe definir ambos – ou em caso extremado e nada ocorrente neste país da galhofa em “edição do autor”; essa, essa mesma, que a gente se esfalfa também em arrumar ilustrador e dinheiros para tudo; e, aqui, não vai crítica a ninguém que seja do ramo ou que a ele está a se aventurar: dinheiro não tem pra isso, salvo pros iluminados e paneleiros (não no sentido português, de Portugal, da palavra); o que não impede sejam as panelas também constituídas de paneleiros; capítulo dos mais interessantes e prosaicos nos deparamos também ao enviarmos o tal do bagulho à gentil crítica literária do país, constituída dos elementos mais agregadores e por isso mesmo defensores do espaço que a duras penas e muita calça abaixada conquistaram para protegerem amigos e aos outros dispensarem as leis draconianas do desrespeito e da superficialidade dos conhecimentos pelas beiradas; assim, estou a cogitar por onde começo a baixa-las e de que forma irei me integrar nesse mundinho imundo que se convencionou chamar de literatura, daí a pretensão ignóbil de pretender ser um escritor;

a segunda é aquela que foi me amparando nesses anos todos, sob a capa negra do sucesso (pra inglês ou a mamá verem) em que elogios sobraram e por consciência pura saber que não passaram de incentivos – puros na origem e que não pretenderiam que o neném se perdesse nos desvãos ínvios de proteção por parentesco – acabaram-se na venda de alguns exemplares, por favor dos que os compraram, e que jamais foram lidos, até mesmo folheados antes de com o maior dos respeitos lançados ao lixo juntamente com os dejetos mais tristes do próprio cão;

a terceira como sinfonia catatônica e religiosa, defino-a em três palavras: “a deus pertence” e me ponho a imaginar a que deus, que com desfaçatez se apresenta como proprietário de tudo: ideias, devaneios, surtos e outros desvãos da cabeça cheia, quase sempre de cachaças e, até, quando a maré ajuda, de vinhaças e uiscadas; se Macunaíma vivo estivesse com certeza saberia responder a este profundo questionamento também com uma bela e pequena frase: ‘FALTA QUEIJO’ e assim continuaria por muitos destes anos a tripudiar o governante do dia, sem esquecer os encantos das belas índias e seus peitinhos ou peitões de fora, desviando o olhar dos aparatos humanos masculinos, ao temor de aos paneleiros ser confundido;

assim nada mais possa augurar ao jovem ou velho ou temperado escritor do que um feliz natal!

Plural | Que tal um Café?

Por Adriana Aneli

Seis horas. A cidade se agita do lado de fora. Elevador sobe e desce. Os nervos se estiram: pneu, buzina, brecada. A britadeira desorganiza o voo das maritacas: algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão…

“Onde fica o paraíso?”

Do rádio ouço: no Oceano Pacífico descobriram uma nova ilha de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É “uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França”.

Penso na França. Penso no oceano. Penso na Ilha do Pacífico… que na verdade é uma mancha de lixo: uma ilha formada pelo acúmulo de 80 mil toneladas de detritos plásticos.

São seis da manhã e as pessoas se agitam do lado de fora. Nos seus carros, nos seus calcanhares, na longa fila de atividades que percorrem as artérias do tempo: a escola, o trabalho, o curso, o médico, o mecânico… Algazarra de porta, assobio, grito, latido, celular, whatsapp, televisão… e cafés em copos de plástico.

Vou para a cozinha. Aqueço meu tanto de água no bule… Circulo a manivela para moer os grãos enquanto a água vagarosamente se aquece… O cheiro do café moído na hora… O momento de moer, o momento de escaldar, o cheiro do pó.

Recolho ainda mais a chama para que a água, a seu tempo se aqueça. O vapor preguiçoso demora para coar o café. Este, que tomo vagarosamente na xícara de porcelana enquanto a vida do lado de fora alimenta notícias de ilhas de plástico, o efeito bizarro da pressa humana nas criaturas marinhas.

 

 

Na edição ‘que tal um café?” você lê… crônicas de Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Vitoria | Mary Prieto e Obdulio Nuñes Ortega.  Contos de Caetano Lagrasta | Edhson J. Brandão e Marcelo Moro  Poesias de Ingrid Morandian, Maria C. Florêncio e Virginia Finzetto  Um dueto de Fal Vitiello de Azevedo e Pedro Tolosa Vitiello Correspondência de Mariana Gouveia…

Notas do autor
Nic Cardeal | Adriana Elisa Bozzetto | Marcelo Moro
Obdulio Nunes Ortega | Maria Vitoria…

Apresentação de Adriana Aneli

 

|  versão digital clique aqui | 

Coletivo 2017

 

R$ 50

 

 


Um projeto idealizado por Lunna Guedes…  ilustrado por Adriana Aneli e riscado por autores convidados a caminhar a cidade através das palavras e propor ao leitor uma viagem através da poesia… o livro é todo movimento, das cores-aromas-e-sensações. Ouse experimentar…

 

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

 

Palavra do Editor | Coletivo…

Por Lunna Guedes…

Há pouco mais de uma semana, voltei às minhas caminhadas diárias… hábito que havia abandonado desde que o cão nos deixou. Ele era o meu parceiro de calçadas-esquinas-ruas-pracetas… com seus passos lentos e constantes pausas: em postes, árvores e portões. Era um curioso nato, que gostava imenso de se aventurar em certos cenários… e eu me deixava conduzir por seu faro aguçado. Nunca estava errado em suas escolhas. Eu era um barco, e ele a bússola a apontar para essa espécie de Norte.

Com ele — ao meu lado — no guia, durante os dias — porque os humanos estavam à solta —, visitava os caminhos e tropeçava nas anatomias dos lugares… escrevi inúmeros textos por aí. Conheci personagens e me libertei dos embaraços mentais, que vez ou outra se precipitavam em meu hemisfério neural.

Nossa caminhada nunca durava menos de uma hora… e hoje, ao voltar as ruas, senti falta de ritmo, da companhia, dos olhares caninos a interagir — ele sabia que as minhas insanidades se organizavam a cada passo… e rosnava quando alguém interferia ou insistia em ser companhia indesejada. Era um menino muito cuidadoso.

Meu passo hoje foi mais lento, sem as tais pausas… apenas a lembrança delas. Os joelhos reclamaram tanto quanto os pés, e o cuore se mostrou levemente descompassado… mas, aos poucos, foi acertando o passo, o ritmo, e o ar chegou aos pulmões com mais facilidade.

Alcancei, sem dar pelo caminho percorrido, o parque da Aclimação… onde finalmente fiz uma pausa para sentir os músculos e nervos, alongar e hidratar o corpo e a mente. Ouvia Carly Simon, enquanto pensava no projeto Coletivo… criado para homenagear esse ‘menino de quatro patas’. Há quem escreva livros-memórias sobre seus cães, mas eu escolhi-preferi convidar autores ‘a repetir’ suas travessias… percorrer calçadas, dobrar esquinas, atravessar ruas e viajar pelos cenários que nunca são os mesmos, por mais que se pareçam em forma e fôrmas.

Convite aceito… os ‘meus autores’ viveram — na companhia de palavras-temas, que foram a bússola de suas experiências andarilhas — suas próprias emoções… experimentaram Ser navegantes nesse mar, que nos acostumamos a chamar de realidade.

E, no final, ao desembarcar, aprendemos — todos nós — que o dia seguinte é um eterno reviver. O tempo é sempre presente, ainda que o passado acene com memórias, e o futuro com possibilidades. É aqui e agora que tudo começa e o embarque se anuncia… é só isso.

A você que embarca-desembarca, desejo uma boa viagem, porque somos navegadores dessa vida que começa e termina num mesmo ponto.



Participaram:

Aden Leonardo | Adriana Aneli | Caetano Lagrasta | Chris Herrmann
Ingrid Morandian | Marcelo Moro | Maria Vitoria |
Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega | Virginia Finzetto

 

Palavra de Editor | Abecedário

Por Lunna Guedes

 

O alfabeto tem poderosas vinte e poucas letras, que  — somadas  — nos conduzem a um sem-fim de possibilidades… o próprio universo depende dessa soma que aprendemos em idade escolar, seja pelas mãos hábeis de um professor, ou de um estranho — que rouba para si o prazer de ver descortinar os véus que cobrem os olhos no momento em que, ainda somos ignorantes quanto aos símbolos, que o homem inventou para se comunicar…

O poeta Adonis diz, em seu poema: ‘ele pensa: as palavras — que com ele disseram o nome das árvores, das estrelas, dos amigos‘… porque, através das somas feitas em nossa memória de símbolos atribuídos, o nosso mundo é esse emaranhado de vogais e consoantes.

E o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta segue por esse caminho… somadas as consoantes e vogais, temos uma realidade particular: somas insólitas… feitas como se o autor tivesse seu momento criança para fazer traquinagens — articulando caretas e agitando as mãos em movimentos ondulares, típicos dos articulares  que, em seu canto de mundo, dão corda aos personagens… convertidos em ponteiros de um velho carrilhão, cabendo a nós, leitores… o degustar do som — que nos remete a segredos embalados dentro dos dias em transgressão e suas estranhas evoluções naturais.

E lá se vai qualquer hipótese de paz, porque o ‘abecedário’ de Caetano Lagrasta nos impõe inquietação e desassossego. E, pouco importa se a sua leitura avança na sequência por ele apontada… iniciada em A…  ou se inventamos uma leitura própria-inversa-desorientada.

Os meus contos começam por Borges… ali na insolente letra L e sua ligação direta com A… de Aleph… e C de cidade, que se inventa e reinventa… porque o poeta argentino também sabe que nós erramos o traço e acertamos na emoção, tal qual Caetano que — ao que tudo indica —, bebeu dessa mesma fonte.


 

Caetano Lagrasta, em ‘abecedário
— Scenarium livros artesanais — 2016


 

Abecedário | Caetano Lagrasta

R$ 35

 

 


Abecedário, livro de contos em que o autor, Caetano Lagrasta, descreve a mesquinha realidade diária de homens e mulheres esmagados pela falta de perspectiva. Escrito nos anos 60, cinquenta anos depois a mesma cidade, as mesmas máquinas e as mesmas repartições públicas ainda pesam sobre os personagens, com o incômodo da alma que se agiganta dentro de roupas e sapatos herdados dos irmãos mais velhos.

No Abecedário, amanhã é sempre segunda-feira.