CARTAS PARA ABRIL | Sofia, meu útero pinga. Em mim, beija-flor não brota para tomar água da fonte

Por Maria Vitória


Hoje eu supliquei por um berço esplêndido para que meu corpo pudesse se esticar em posição horizontal para sempre. Pude ver os meus olhos um pouco mais de perto e perceber o quanto eles são negros e fundos. Senti minha pele se auto-ressecar e envelher a si mesma em dez anos. Afinal, como isso é capaz?

O sol veio a esquentar no fim da tarde, apenas segundos antes do brotar da lua. Numa quinta-feira, me expus bem pouco a certas temperaturas elevadas…

Bebi. Escondi latas geladas nas costas. Dei vinte e cinco centavos a um homem debruçado, todo pedinte, que implorava por um trocado em cima de sua calçada. Avistei grades opressoras de liberdade. Pude contar formigas humanas marcharem sem planta, comida ou galhos, por retas imaginárias. Porra, chorei!

Meu útero desprevaga aos poucos de mim de uma forma surreal e ficcionaria Sofia. Sim, eu era a fomosa via láctea.

Que dia. Um vinte e seis de abril e tanto.
Eu curaria essa minha falta de respirar durante as pausas facilmente com um café com leite, e se universo permiti-se, também um pão com manteiga. Igual aqueles cafés da tarde que eu costumava tomar a quinze anos atrás, no bairro do Jardim de Abril, na casa de minha madrinha e mãe: Cecília.

Qual tal duas doses de café com três punhados de leite? Claro: quatro colheres pequeninas de açúcar.

Agora já tarda um bocado de horas, daqui a exatas: 1 hora e 42 minutos será visto pelos olhos nus, o brotar da sexta-feira. Uns a tomam como santa, outros são devotos da “maldade”. Me diz, quem é que tu acha que vence essa guerra?

 

Com dor,
Fancha!

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CARTAS PARA ABRIL | Aceitas um café?

Por Mariana Gouveia


 

Sophia,

 

Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.
Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.
E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri — ou ganhei — nunca sei ao certo.
Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola. Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce.
Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica. A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras — parecia que havia cometido um pecado — era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.
Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.
Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.
Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, em apresentações para a família em dia de festa ou a sós, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…
Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais soube dela.
É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta-se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus. Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”
…eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

 

Beijos

 

CARTAS PARA ABRIL |coisas esquecidas…

Por Lunna Guedes


 

Minha cara, Sophia

 

…é a primeira vez que lhe escrevo, conscientemente. Lembro-me de me inaugurar em linhas, que lhe tinham como destino, em outro momento-vida. Tinha acabado de lhe conhecer na voz de uma atriz que me calou… e deixou o corpo em suspenso. Senti um solavanco, igual ao dos Comboios ao engatar-desengatar vagões.

Saí as ruas… com destino a uma livraria. Precisava tê-la comigo… e de posse do único livro teu que consegui… corri até um dos cafés de Lisboa. Chovia forte. Ocupei uma mesa qualquer e me distrai por alguns segundos com movimentos de vida-realidade… a tua figura-poesias.

Porque os outros se mascaram mas tu não | Porque os outros usam a virtude | Para comprar o que não tem perdão. | Porque os outros têm medo mas tu não.  | Porque os outros são os túmulos caiados | Onde germina calada a podridão. | Porque os outros se calam mas tu não. | Porque os outros se compram e se vendem | E os seus gestos dão sempre dividendo. | Porque os outros são hábeis mas tu não. 

Sempre acreditei ser possível nos reconhecermos no outro e foi o que nos aconteceu. A leitura é exatamente isso. Um olhar no espelho para espiar os nossos contornos-recortes-formas-e-fôrmas. Colorimos os olhos-lábios. Disfarçamos as rugas. Fingimos os anos, mas o íntimo — essa caixa onde tudo se guarda-esquece — se mantém intacto.

E me reconheci em ti… e gostaria imenso de me lembrar do que risquei no papel naquela tarde-noite de chuva. Mas tudo que vejo e sinto são os movimentos do grafite pelo papel. Não alcanço palavras… apenas o silêncio do momento, o som da chuva e pequenos movimentos dentro e fora.

Talvez porque sua poesia me faça olhar para dentro e redescobrir coisas esquecidas… “porque os outros vão à sombra dos abrigos | e tu vais de mãos dadas com os perigos.  Porque os outros calculam mas tu não”. 

Ao menos eu me lembro de ti e espero nunca esquecer-te.

 

Au revoir

CARTAS PARA ABRIL | Um café do Porto, um vinho sorvido à míngua.

Por Marcelo Moro


 

Cara Sophia,

 

É tão antagônico escrever-te desde de aqui da colônia, ainda mais sendo eu, um sujeito tão anticlerical, o que também é antagônico pois, no fundo, tenho admiração e verdadeira amizade por alguns seres de batina.
Namorei por algum tempo uma moça do vale D’ouro… navegante do meu coração, feito os barcos coloridos que partem e chegam em Aveiro carregado de histórias, sonhos e vinhos.
Foi essa moça, de muita fé e nenhum recato que primeiro me mostrou sua poesia e seu teatro quase sacro. Tirei de dores ali despidas… belos azulejos.
Ler as paredes desenhadas como atos seguidos dão vida aos torreões de cimento e cal virgem. Abrem portas à minha alma para que sejam navegados mares doces e dourados, uma visão próxima do céu para quem crê em tal artefato.
Visto sua nobreza, educação e extrema beleza creio ser uma ousadia minha convidá-la para um café ou um vinho curto desses bons licorosos que por aí se dão. Porém minha cara, uma ousadia a mais ou a menos para mim é de nenhuma importância. Gosto quando ara o papel branco com afiada pena visando sangrar dessas curvas de nível da sua caligrafia o sangue – vinho vivo bebido para harmonizar com o cordeiro imolado. Me levas a crer em alguma coisa além dos órgãos pulsando por finito lapso de tempo.
Confesso que talvez seja isso que nos move… crentes ou não, a viver trafegando entre olhares sempre escusos. Faço muito gosto em que aceites tanto o café quanto o vinho e quiçá um bom pão doce para que eu possa ouvir em seu original português alguma esperança de vida celeste. Não que eu faça gosto em ir para o céu que confesso achar uma cafonice, mas por poder imaginar que as pessoas que o ansiaram terão em plenitude. Aguardo uma resposta

 

Com ousada admiração,

 

CARTAS PARA ABRIL | SRª. SOPHIA, ACEITA UM CAFÉ E POESIA?

Por Obdulio Nuñes Ortega


 
Permita-me apresentar quem sou: ninguém.
Sei que se interessará por mim,
por ser justamente assim —
tão pequeno, que não mereça ser anunciado,
tão apartado, que valha ser resgatado.
Não tenho nenhuma canção nova a lhe ensinar.
Porém, você tem muitas a me mostrar.
Agora que a conheço, não percebo o mofo do tempo
e a aprecio com prazer.
Algumas de suas poesias, ainda que sejam antigas, são inéditas-frescas
para este ignaro que lhe convida para um café ao final de uma tarde destas,
além-mar.
Sou filho da terra que um dia seu Portugal adentrou —
campos, altiplanos, rios e almas — o Atlântico como ponte líquida.
O vento bailador das primaveras levou-trouxe barcos carregados de distâncias, ausências
e esperas marinheiras.
Chegaram como deuses, donos de céus e mar.
Trouxeram a Língua que nos uniu
e nos afastou.
Não a nós, escritores que buscamos compreender
o que somos e como somos
através de seu uso.
Mas nós, os povos que nos tornamos.
Mesmo a sua sensibilidade talvez não alcance
o abismo em que nos metemos — tão inverossímil quanto real.
Matamos uns aos outros mais facilmente do que galinhas.
Renunciamos a nós.
Comemos calmamente o pequeno almoço,
enquanto limpamos o sangue de inocentes da roupa com a qual iremos trabalhar,
sem digno salário.
Somos todos vencidos, sem paz.
A Poesia, dada como morta, ainda perambula por aí.
Soube que morre apenas para ressuscitar.
Algo que comungamos é o estranhamento que sentimos
ao não nos reconhecermos,
esse desgostar pelo lugar onde nascemos.
Somos desinteligentes, igualmente.
Ou melhor, quase não somos nada.
Conquanto a natureza siga seu curso, a originar mais vida.
Em nossos espaços, nos percebemos entretantos,
entre amoras e amores.
Chegaremos ao fim, juntos, com a nossa Língua,
ferida de morte todos os dias, naufragada em consumação de grunhidos?
Ou Pessoa talvez nos salve, deus de muitos nomes?
Nesta tarde que me tornei, como sou cada tarde —
tardio-transparente —
recebo seus versos como mensagens de futuro,
de corpo presente.
Confundo, como previu, meu ser com o poema no tempo.
E me uno a tantos que a leu, lê e lerá,
a descobri-la em palavras reveladas,
a vir como ondas floridas: quebrando na praia de um dia puro.
De agora em diante, a possuirei
como Poeta que em mim germinou a sua fala.
Redivivo como um novo animal,
a caminhar junto ao mar, nosso amor comum,
esperando que atenda ao meu convite, Srª. Sophia,
suspenso na surpresa dos instantes: aceita um café e poesia?

Cartas para abril |sophia de mello breyner andresen

O encontro com a poesia aconteceu muito cedo, quando aprendia versos de cor, ouvindo-os na voz de outras pessoas. Ainda não sabia ler. Seu avô recitava Camões e Antero de Quental. As empregadas da casa, lhe ensinaram a “Nau Catrineta” — uma oração que era rezada em voz alta, em noites de temporal.

Os primeiros poemas foram escritos por volta dos 12 anos. Seu primeiro livro ‘poesia’ foi publicado em edição paga pelo pai. Uma revelação no panorama literário português, pois anunciavam-se já algumas das características da sua arte poética, elaborada a partir de uma linguagem simples e transparente.

Ao longo da sua vida, Sophia olhou o Mundo com atenção muito apurada. Tinha senso de justiça agudo. Uma permanente preocupação com a situação que se vivia, em Portugal. Foi opositora do regime salazarista. Denunciou a injustiça, a repressão, a censura, o autoritarismo, as profundas desigualdades sociais e, a condição de pobreza da população.

Sua voz jamais se calou. Sempre atuou em defesa dos cidadãos. Lutou pela educação e cultura do povo. Direito a um ensino de qualidade para todos. Implementação de medidas para os deficientes físicos e mentais,…

Autora de catorze livros de poesia… escreveu artigos, ensaios e peças de teatro. Traduziu  diversos autores. Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.

A sua poesia está intimamente relacionada com os elementos fundamentais da natureza: a terra, o mar, o sol, o vento, a bruma. Mas, também salienta a fantasia dos jardins misteriosos, dos labirintos indecifráveis, dos duendes e das fadas, do verde das florestas, da espuma do mar, das ilhas encantadas, do amor.

“A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema não fala de uma vida ideal mas de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.”

A casa de infância de Sophia foi a Quinta do Campo Alegre, que é hoje o Jardim Botânico do Porto. Também a praia da Granja foi um dos locais frequentados por Sophia… era onde passava o verão. São os dois lugares que mais retratou em sua escrita. Expressam a memória da infância e as suas vivências mais genuínas. A casa da Granja surge no poema “Casa branca em frente ao mar” e no conto “A Casa”.

Sophia faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004, com 84 anos.

 


 

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

 


 

Margens inertes
abrem os seus braços
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascidas à luz, perfeita a morte.
Um grande
barco parte abandonando
As colunas de um cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade.
Um grande
barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte.
Perfeito azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto.

 


 

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.

 


 

Rosto nu
na luz direta.
Rosto suspenso,
despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
Rosto derivando
lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem
Longos
raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.
Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.

 


 

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 


 

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

CARTAS PARA ABRIL | Adoçaram o café. Amargaram demais o chá…

Por Maria Vitoria


 

Borges, uma onda fria se aproxima dos corpos sem vestimenta adequada. Já posso ouvir as conchas marchando rumo às sopas. Prevejo uma grande porção de neve imaginaria.

Me abrigo num peitoril frágil com um leve cheiro de rosas brancas, dou uma leve apalpada num dois seios, mordo suavemente um bico.

A semana começa com meus pulmões enegrecidos, meus olhos baixados em tom febril, minhas mãos ressecadas tocando as nádegas e os pés gelados de uma mulher em minha cama. Sinto todas as sensações e me transporto para sua Biografia que reli na noite passada, repouso em uns belos poemas seus, ardilosos e secos como metade de mim às vezes.

Estive eu a pensar nas esquinas da vida e em como tudo é feito de forma circular… Uma hora uma vida cruza a minha, noutra, eu saio não-para-sempre de uma vida qualquer. E nessas penugens de pensamentos relembro da cor retinta da pele de uma jovem negra que me abordou no meio da rua, do nada e disse: Você é linda. Depois ela partiu assim sem mais, sem se apresentar, sem deixar com que eu pudesse ao menos me recordar de seu nome.

Hoje é uma terça-feira fria e não possuo blusa alguma no lombo para me proteger da geada que se aproxima. Sabe, gostaria imensamente de degustar um café, um café de tom bem amargo assim como as mazelas da vida. Seria interessante possuir você sentado a minha frente com os olhos intercalados nas facetas da humanidade, me ouvindo dizer coisas sobre a fração do tempo e espaço, tentando calcular quanto tempo ainda resta para o fim do mundo.

Minha mente vagueia junto com a plena serenidade de meus traços…
As pessoas me olham curiosas…
Sorrio um meio sorriso leve…

 

Com eterna compaixão,
Pipa avoada.

CARTAS PARA ABRIL |aceita um café?

Por Mariana Gouveia


Meu caro Borges

Daqui do quarto de um hospital — o mesmo em que meu filho nasceu — enquanto espero que a enfermeira ajeite meu irmão na cama. Estranho como as coisas se alternam… ainda ontem, ele era o meu guardião, nas colinas aonde a visão do capim dourado da planície abaixo de nós — quadro de um pintor.

Ali, descobri que ele pintava palavras e desenhava poemas de amor nos caderninhos que sobravam. Ele abria mãos das folhas brancas para eu preenchê-las com minhas letras.

O quarto dá para a janela onde histórias acontecem dentro de mim… a Lua é esse quadrante pendente para o poente, em vírgula; e um Planeta qualquer intrometido em sua luz difusa em forma de estrela. Hoje perdi a noção do céu… não sei se é Marte ou outro planeta qualquer, em dimensão de astro.

Tive momentos de picos de intensidades. Decisões no trabalho. Meu pai em algum outro corredor/hospital. Sem ar e as nuvens a anunciar uma estação diferente nas folhas de sangra d’água, que teimam mesmo depois de trinta anos — a última vez que estive aqui — a dourar outono no que antes era quintal e hoje estacionamento.

O cheiro de hospital me atinge… lá fora vejo passos apressados atravessando ruas, acenando para alguém: táxi — sei lá — é difícil distinguir.

Cuidar dele nessa fase é quase uma troca — embora diferente — do quanto cuidou de mim em quase todas as etapas de minha vida. Nos dias que antecederam a esse procedimento… vi a força de um gigante no olho de menino. As sessões de hemodiálises parecem fortalecê-lo. Ele me recebe com riso fácil… quando a porta se abre e eu o acolho com olho de ansiedade. Cara! Precisa dar esse susto? Enquanto o olho dele reflete: que bom que está aqui!

Para estar ali… dependi da generosidade do homem de azul, que autorizou minha entrada depois de encerrado do horário da visita. O cheiro de café nos corredores me lembra que tenho de te escrever. A garrafa suja em uma mesinha de canto não me anima a sorver qualquer coisa rala que sai em um copinho de plástico tão fino que parece papel celofane e que me leva de novo para as noites da infância… quando antecediam as festas de santo e tínhamos de ajudar a mãe na preparação dos tabuleiros de frangos assados embrulhados em papel celofane colorido. Desisto de beber. Adio a sensação do sabor do ristreto a invadir a alma.

Ajeito o lençol e busco palavras por conforto… atravessei a barreira do horário de visita para vê-lo e nesse momento o sinto feliz. O curativo no braço é como se fosse o escudo para esse homem-menino que justifica minha preocupação como se fosse uma unha quebrada, logo eu!

Ele também escreve — já te contei? — e fala de amor na delicadeza das poesias e tem como sonho escrever um livro que fala dos sentimentos que ele nunca expõe…

Devo ir… o moço de azul foi generoso. Acalmou meu coração vê-lo assim… descansando com a promessa de na primeira hora da manhã me relatar a noite. Sigo escada abaixo com a Lua a me seguir nos corredores, para logo em seguida uma nuvem brincar de esconde-esconde comigo. Uma mudança brusca de temperatura com nome estranho pronunciado pela moça do tempo, em uma televisão quase muda/quase tela repartida entre um risco negro divisório como se fizesse separação entre o calor e o frio (?) e pode chover a qualquer hora no meu estado. Uma garoa fina atravessa o vidro do carro enquanto eu repasso aos irmãos a tranquilidade do olho seguro e da fé estampada no riso.

Lembro de uma frase tua que é quase uma oração: “Sonhar é essencial. Pode ser a única coisa real que exista”. Sonho com a cura dos que amo. A imaginação que você prega é a mesma que acredito. Sigo para além dos caminhos que me levam até minha casa. Tenho uma carta para escrever. À você…

Aceita um café?
Beijo meu,

 

CARTAS PARA ABRIL | o outro, o mesmo!

Por Lunna Guedes


 Meu caro Borges,

 

…enquanto ouvia o sr. Mischa conduzir magistralmente seu violoncelo, dedilhando Bach, revisitei ‘o outro, o mesmo’. Seu livro preferido dentre tantos que rabiscou em vida.

Antes de saber disso já o tinha eleito ‘meu favorito’ pelo título… que cresceu aos meus olhos. Me encantei com sua Buenos Aires ‘dentre as ruas que afundam o poente / alguma (não sei qual) eu percorri / por uma última vez, indiferente / e, s adivinha-lo, obedeci’.

Sei que o livro foi escrito ao longo dos dias, sem pressa. Com o olhar, mesmo em grande dificuldade, a capturar o pouco que lhe chegava, em gotas embaçadas.

Não consigo imaginar como foi para esse outro, o poeta que lhe habitava, ver esmaecer gradativamente a poesia. Existir sem esse importante sentido deve ter lhe custado uma vida inteira. Como viver sem esse outro? Não consigo imaginar Pessoa sem cada uma de sua personas e não consigo lhe imaginar Borges sem o poeta que me me seduziu com grandes goles de tudo-e-nada.

Sempre que leio seus poemas… inevitalmente recordo suas reclamações e acabo com um sorriso pintado nos lábios — nunca entendi porque minhas segundas versões, como ecos apagados e involuntários costumam ser inferiores às primeiras’.

Tenho para mim que o título de seu livro-favorito foi um afago em seus queixumes. Quem escrevia primeiro, era o outro, o poeta. Quem reescrevia era o Homem… a bordo de todas as suas insatisfações-inquietações. O poeta era mais leve  ‘todas as coisas são palavras da / língua em que Alguém ou Algo, noite e dia, / escreve essa infinita algaravia / que é história do mundo’. Era quem sorvia tudo.

…ao Homem restava o fundo da xícara, o café frio-amargo.

 

Ó destino de Borges,
Talvez não mais estranho que o teu.

CARTAS PARA ABRIL | é tão claro pra mim essa escuridão…

Por Marcelo Moro


 Caro poeta,

Permita-me chama-lo assim, ainda que eu saiba que a fama que o precede vem dos contos fantásticos aos quais deu vida e dos quais roubou vidas.
Escrevo para contar que, de uma forma inusitada e extraordinária, estive na biblioteca de Babel e essa aventura é de grandeza tal insólita que só a ti poderia contar sem que me julgassem louco.
Bem dizes que um escritor não pode ser nunca julgado pelas suas ideias, mas sim pela emoção e prazer que proporciona, esse é você, um orgasmatron a soltar gotas de linhas em tons de sépia e perfume francês.
Lá, em Babel, depois de uma porta estreita que fica diante de um jardim suspenso se acumulam corredores de prateleiras e escadas em planos infinitos, o cheiro que invade as narinas é o excitante cheiro do papel banhado em jatos precisos de tintas coloridas, comparaste isso ao paraíso, eu digo que é de outro planeta onde vivem os sábios.
Talvez o paraíso seja isso mesmo, o que pode nos proporcionar emoção e prazer de forma infinita, não como prêmio ao bom comportamento dado aos caretas e os espécimes gerados desses, mas como uma evolução da morte física.
Ali notei outra verdade, as línguas não se distinguem, antes se completam, se entrelaçam e dizem o que precisam num uníssono texto ditado, todos e nenhum fazem parte da mesma trama, variações de um mesmo tema sem fim.
Aproveito para convida-lo a um café num fim de tarde desses, quem sabe nesses estilosos das ruas centrais de Buenos Aires ou aqui mesmo pela terra da Garoa e do Bauru sem bife.
Aperto-lhe as mãos e beijo antes de me despedir aqui, me deste sua terna amizade através do que firmastes no papel como seu contributo ao todo dessa enorme biblioteca de Babel.
Sim o sonho acima, desses que se sonha acordado, me inspira a seguir comendo dos frutos do conhecimento plantado no centro do jardim e uma vez inocentemente proibidos para nosso engano.
Estamos nus querido Jorge…diante do espelho de livros e sob a luz das ancestrais estrelas e assim de novo e de novo e de novo.

 

Com admiração sempre renovado
Do Poeta, discípulo e amigo

CARTAS PARA ABRIL |Sr Borges, receba esta xícara…

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sinta o aroma do café metafórico que lhe sirvo. Seus sentidos ampliados, o alcança? Percebe a minha mão trêmula que mal segura o pires? Essa perda do controle muscular não o receba como fraqueza, mas como homenagem. Não sou dado a essas revoluções físico-emocionais. Porém, o fato de não me ater pelos olhos dá-me a sensação que abarca toda a minha incongruência. Sei que não me julga. Chegou longe na profundidade humana enquanto perdia a visão. É quase como se fosse Deus, outro cego. Esse cauda bifurcada que projeta pelos ares, a cada palavra encontrada para exprimir a exata sentença a descrever nossa inexata vida, antes que surja ameaçadora, acompanha o bailar dos meus sentidos que, às vezes, o vê como um jovem e outras, um senhor de cabeça branca.

Por mais labiríntico que tenha sido o meu percurso para encontrá-lo — em uma lata de lixo — se deu bem depois que vivi na sua Argentina. Foi por pouco tempo, mas o suficiente para apreender o significado de viver tão ao sul, quase no fim do mundo. Ainda assim, é lá que fica o centro do Universo. Enquanto me banhava no Rio Paraná, entre reticências, vírgulas e carcaças de bois abatidos no matadouro acima, percebia a água mais leve que o do meu amado mar. Fui feliz, apesar do exílio forçado de criança de pai errante e mãe abandonada, que lá começou a fumar cigarros sem filtro que finalmente a mataram. Quando finalmente o li, me senti um personagem borgeano — um ser híbrido e aturdido, que ao voltar para o imenso país ao norte que saúda o individualismo, jogava o futebol solidário do “toco y me voy” e se expressava em portunhol.

Sua leitura foi tão influente, que comecei a respirar um mundo novo, diferente do que os outros percebiam. Fui, mais e mais, me apartando dos humanos, a ponto de chamá-los apenas por esse nome. As letras, as palavras, os livros, a vida literária me tornou um pária. Conversava com anjos, plantas, grilos e estrelas. Tarzan, Cloé, Princesa, Gita, companheiros de quatro patas — cães, gatos e a Porquinha Priscila — eram interlocutores constantes. Patas, galinhas e seus filhotes trançavam entre minhas pernas sem perceberem um inimigo. No entanto, eu era… — Confirmou, o último vagalume vivo. De tanto querer vê-los, se extinguiram.

Essa fase durou mil e uma noites. Coincidiu com a aquisição da primeira TV à cores. Tudo se tornou inospitamente colorido, a violentar minha visão cada vez mais míope. Uma válvula defeituosa da antiga TV tornava as imagens mais escuras e os amados pretos, brancos e cinzas se perderam na bruma do tempo. Talvez mais nenhuma outra história valeria a pena ser apreciada. Jogava bola sem óculos, quase por percepção extra-sensorial. Era bom. Eu me imaginei um Borges a escrever lances estranhos e a fazer gols parabólicos em redes rotas pelos campos da Periferia. Até saber que considerava o futebol uma estupidez. Discordamos em alguma coisa no mundo real, aceitamos compartilhar nossa cegueira…

 

CARTAS PARA ABRIL | JORGE LUIS BORGES

O ano é 1938. Véspera de Natal. A cidade é Buenos Aires. Jorge Luis Borges sobe apressado a calle Ayacucho. Pretende convidar uma amiga para jantar. Atraiçoado pela fraca visão que desde jovem o atormenta, ‘atropela’ com força uma janela aberta. Os vidros rasgam-lhe a testa, deixando cortes profundos. Conduzem-no ao hospital mais próximo. Mas esquecem-se de lhe limpar convenientemente a ferida. Borges vive entre a insônia e o delírio nas duas semanas seguintes. Quase morre. Salva-se por pouco. Graças a uma intervenção cirúrgica bem-sucedida. Teme, no entanto, que o acidente lhe tenha afetado as capacidades mentais. Receia não saber escrever. E este cenário é pior que a morte.

Achava-se poeta mas ganhou fama enquanto contista. Ficou cego mas não deixou de escrever. Criava complexos labirintos de texto. Referenciava livros que nunca existiram. Morreu há 30 anos. Como se tornou Jorge Luis Borges um dos mais importantes escritores de todos os tempos?

Antes do acidente… considerava-se um poeta. Admirador de Walt Whitman, William Shakespeare, Luís de Camões. A escrita representa para Borges um importante ponto de contato com o mundo. O homem Jorge era profundamente introvertido e solitário.

“Eu sei que não consigo viver sem escrever”, confessou um dia.

O acidente mudou tudo de lugar. Borges não suportou a ideia de já não ser capaz de escrever poesia e decidiu testar as capacidades com um formato que nunca tentou: o conto de ficção. E se revela um sucesso. “Se não fosse aquele golpe que levei na cabeça, talvez nunca tivesse escrito contos”.

A visão dissipou-se até se extinguir por completo. Mas Jorge Luis Borges continuou a escrever contos. Ditou-os primeiro à mãe e, depois, a uma assistente. Reuniu-os em coleções. Ficções. O Aleph. o Livro de Areia.

Borges mistura fatos e fantasias em cenários que exploram ideias tão complexas quanto inesquecíveis.

 

Alguns detalhes sobre o homem:

— Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, a 24 de agosto de 1899.
— Interessou-se pela leitura graças à biblioteca do pai, composta quase exclusivamente por livros em inglês.
— Herdou do pai um problema na visão que o cegou ainda relativamente jovem.
— Trabalhou como publicitário, escrevendo anúncios para iogurtes.
— Viveu a maior parte da vida com a mãe, que lhe costumava ler e escrever o que ditava.
— Casou duas vezes: a primeira aos 68 anos – durou três anos – e a segunda algumas semanas antes de morrer, com a assistente que contratou para substituir a mãe.
— Morreu em Genebra, na Suíça, a 14 de junho de 1986. Tinha 86 anos.

 


POEMA DOS DONS
Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.


 

POEMA DE LOS DONES
Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga

Que se parece al sueño y al olvido.