O que 2018 poderá levar de mim

Por Emerson Braga


Há exatos 31 dias, o ano de 2018 iniciou-se e, até então, eu não tive (ou não construí) a oportunidade de estar com ele. Talvez eu ande distraído ou ocupado demais, quem sabe ele também não esteja interessado em conhecer-me. Não sei. Tudo o que posso dizer é que ainda não fomos apresentados, apesar de sua chegada anunciada pelas esperanças moucas e pelos fogos de artifício ensurdecedores. Acreditei que ele entraria pela porta de minha casa quando o silêncio viesse. Mas apenas o silêncio veio. Apenas o silêncio permaneceu após a euforia da festa.

Se 2018 realmente deseja encontrar-se comigo, não deverá me procurar em 2017. Eu também não estou lá. Visitei-o rapidamente, mas não gostei do cenário, nem dos personagens e muito menos do enredo. Fui embora sem pedir o ingresso de volta, pois não sou de guardar souvenires daquilo que me desagrada. Eu tinha pressa em deixar 2017 antes que ele me contaminasse com seu espetáculo de palavras ocas, de declarações obscenas e de atitudes tóxicas. O ano passado vacilou em um barco à deriva, deu-me náuseas, tornando inevitável que eu me atirasse ao mar do tempo.

Aonde fui aportar após o meu mergulho? Ora, no único lugar em que todos os românticos encontram conforto, no passado.

Fui a junho de 1986, então me vi aos 10 anos de idade, chorando sobre um caminhão abarrotado de mobília, enquanto meus amigos e a vizinhança que eu tanto amava ficavam para trás. Porém, ao chegarmos à casa nova, não demorei a fazer amizade com as mangueiras e os cachorros da rua, e, só depois, com o restante da molecada. Em 1986 eu entendi que saudade é um bicho passageiro, que nos bica e logo vai embora. Mas, hoje, apesar de homem feito, às vezes eu choro por sentir falta das coisas mais tolas. O cheiro dos meus gizes de cera. Minha letra feia no caderno de pauta dupla. Desaprendi a desapegar-me. Eu só soube dizer adeus enquanto fui menino.

 Satisfeito com a visita ao ano de 1986, decidi dar uma espiadela em 1992 e então me vi na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza. O rosto pintado, a garganta inundada por um grito coletivo e o olhar voltado para o futuro. O futuro. Em minha juventude eu não imaginava que um dia eu me voltaria muito mais para trás e para o lado de dentro do que para frente ou para o lado de fora. Lembro-me de que, naquela tarde de agosto, dei um selinho em outro aluno do colégio Rui Barbosa. Enquanto ele fazia-me com os lábios uma carícia de correligionário, eu beijava pela primeira e última vez um de meus amores de recreio.

Deixando 1992 para trás, avancei até 2001. Era setembro. Lembro-me de ter chorado pelas vidas perdidas, não só por aqueles que pereceram durante o ajuste de contas belicoso, mas por todas as vítimas de todas as guerras já travadas, principalmente por aquelas por quem a televisão jamais chora. Em 2001 também vi o Gustavo Kuerten ficar por 43 semanas como líder do ranking no Torneio de Roland Garros. Eu nunca havia torcido por nenhum desportista, ainda mais em um esporte de dândis como é o tênis, mas vibrei com seus urros a cada backhand. Quando todos se mostraram decepcionados por ele ter perdido o topo do pódio para um tenista australiano, Guga tornou-se ainda mais importante para mim, pois se revelou humano. Com sua derrota, descobri que eu precisaria ter cuidado com as pessoas que só me valorizassem enquanto eu estivesse vencendo.

Eu deveria ter aproveitado as quatro últimas semanas para receber o ano de 2018 em minha vida, mas acabei me deparando com o dia 7 de fevereiro de 2012. Era começo de tarde e, logo depois de deixar o trabalho, fui roubado em uma saidinha bancária. Apesar de psicologicamente abalado e trancado à chave em meu quarto, recebi a visita de um amigo que passou o resto do dia tentando me animar. É com esse amigo ― que se tornou tantas outras coisas para mim ― com quem permaneço, desde então, trancado por horas em meu quarto. Nosso relacionamento é uma mistura de água de coco e cachaça: revigora e embriaga, feito sede que sacia a si mesma.

Sei que não poderei fugir de 2018 para sempre. Muito em breve, eu terei de confrontá-lo e dizer-lhe o que espero dele. Também precisarei e refletir sobre as muitas coisas que ele deve querer de mim. Mas, até lá, vou ficar com 2012. Abrirei várias vezes a porta de meu quarto para, novamente, ouvir aquela piada de mau gosto, justo no dia em que me roubaram o dinheiro com o qual eu pagaria minha conta de energia elétrica, o dia que se tornaria o primeiro de uma vida mais cheia de luz:

― É um assalto!

Sim. Em 2012 eu fui assaltado duas vezes, mas de maneiras diversas. Espero apenas que 2018 aja comigo feito o segundo ladrão que me visitou naquela terça-feira de chuva.

Que 2018 só leve de mim aquilo que eu esteja disposto a oferecer.

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Todos os dia quando acordo

Por Adriana Aneli


Ainda não me lembro de ter feito nada de que eu me arrependa este ano. A meta é por a vida em ordem e colocar a cabeça tranquilamente no travesseiro.

Talvez seja só a música que me martelava os ouvidos na infância: “um bom menino não faz xixi na cama”… Ou talvez tenha a ver com o acidente que a vitimou nestes dias, uma conhecida. A certeza da vulnerabilidade não me empurra para o tudo ou nada. Ao contrário a efemeridade me leva para o deixar em ordem, metodicamente, falando.

E aí entram: arrumar gaveta, fazer dieta, retomar rotina de exercícios, zerar fila de processos no trabalho, deixar a papelada em ordem, separar o lixo reciclável, colocar a leitura em dia – não assumir compromissos literários até ter a disponibilidade de realmente cumpri-los.

E assim vi minha “planner” – porque, vamos combinar que planner não é agenda, tá? – minuciosamente preenchida de informações e possibilidades dia após dia deste janeiro que passou em paz (para mim, não para o mundo).

2018 é o ano do “agora vai”, a depender da boa dose de esperança a cavar no peito, este poço em que seca a água.

2018 é o ano em que as pessoas que me conhecem vão demonstrar afeto tolerando minha distância e silêncio… Porque, afinal, o dia tem 24 horas e eu tenho 41 anos para por em ordem!

Não é promessa… é regra!  

Por Lunna Guedes


 

…ainda há um pouco de dezembro em minhas laterais — mas há também um pouco de novembro-outubro-setembro… e de todos os outros meses que ainda não foram devidamente degustados, porque eu sou feita de pequenos goles e preciso de todos os meus cinco sentidos: o tato, o paladar, a visão, o olfato e a audição, quando tenho diante de mim uma taça-xícara-copo-branco-de-papelão-transparente-de-vidro… e eu gosto, sobretudo, daquele último gole que fica no fundo — sempre me demoro nesse pequeno ato-gesto… de levá-lo à boca. Gosto de saber que alguma coisa fica para o momento-dia seguinte, porque aprecio deveras olhar para trás e mergulhar nessa superfície que tanto me agrada, afinal, sou uma colecionadora de “pretéritos”.

Eu não faço parte da turbamulta que grita, lança oferendas ao mar, come lentilhas e faz promessas — no último minuto — que não serão cumpridas. Não solto fogos… tampouco me lembro de dizer ao outro que passa por mim, a caminho de lugar nenhum: “feliz ano novo”.

Mas, troco o calendário-da-mesa…  a folhinha-de-trás-da-porta… compro agenda nova e tento me acostumar à nova sequência de números. Nos primeiros dias, sempre me atrapalho-erro-engasgo… e fico com o velho a soluçar em meus vãos.

Prefiro o ano escrito por extenso… “dois mil e dezoito” — o ano do cachorro —, de acordo com o horóscopo chinês, que neste ano só chegará depois do carnaval… e eu desejo apenas que seja realmente novo! E, quanto às promessas?

Concluí… que fiz pouco em 2017 — eu acordei dúzias de vezes e dormi outras centenas. Tive milhares de conversas que ainda não foram digeridas por completo. Me apaixonei. Me decepcionei. Chorei. Sorri. Esperneei. Descobri que nunca vou gostar de cerveja e vou sempre adorar uma taça de vinho. Escrevi milhares de palavras. Apaguei algumas… rasguei algumas folhas e amassei outras tantas. Escondi rascunhos no fundo do baú-gaveta… no meio dos livros. Me emocionei com o vento, as folhas, o chão de terra… e as flores. Com a chuva molhando a paisagem, os trovões iluminando as trevas e o sol se pondo a Oeste.

Deixei meu cansaço falar mais alto… ocupei bancos da praça e brinquei com os cães que atravessaram meu caminho. Afundei o olhar no fundo do espelho em busca de rugas… e me aborreci por não achar as benditas, mas há marcas-manchas novas, porque o ano precisa deixar marcas e eu as quero em mim — sempre quis.

Me zanguei. Gritei alto com o papel. Cortei a pele. Rasguei a alma. Cometi erros bobos-primários. Acertei a quina da cama. Bati com a cabeça no vidro. Recordei a vida anterior a essa. Ouvi as velhas badaladas da infância. Respirei fundo para não gritar com os humanos empacados à minha frente. Desviei da realidade.

Fiz bolo, pão, tortas… bebi muita água-chá-café-vinho… caminhei por ruas vazias e calçadas solitárias. Espiei janelas, portas entreabertas. Inventei moda. Pintei o sete. Rosnei para uns e sorri para outros…

Fui eu mesma…  outra. Fui o que quis… o que deu para ser… ninguém! Errei o caminho, tropecei, caí… me levantei. Tomei banho de chuva… de sol. Rolei na grama. Abracei árvores e fechei os olhos para adormecer junto às ilusões que coleciono dentro. Senti saudade-falta…. a presença na ausência das horas seguintes.

E, para esse ano — novo (?) —, eu quero tudo de novo… o mesmo, em dobro. Insisto… vou conjugar os mesmos verbos e re-formar antigas frases. Não é promessa… é regra.  

Previsões para vinte dezoito

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Este ano será curto e intenso. Começará depois do Carnaval (de direito), passará pela Copa do Mundo e findará com eleições para cargos executivos estaduais e Presidência da República. Não vou fugir da raia ou sair pela tangente. Tentar construir imagens densas, em busca de novos significados para defini-lo e aludir como indecifrável o movimento das águas do tempo o Ano de Cristo de 2018. Ousarei fazer previsões. Será interessante acompanhar durante o seu transcorrer quais serão aquelas que acertarei. De quase tudo que acontecerá, alguma coisa não tenho balizamento, guardada a sete chaves pelos Magos do Absurdo – turma do Trump e Kim Jong-un – antípodas equivalentes.

De fato, o ano começou com discussões acaloradas sobre as relações de poder entre homens e mulheres, eivadas por comportamentos predatórios por parte dos primeiros. Nada de novo no front, a não ser a coragem de dar um basta a um estado de coisas que supúnhamos restrito a países como o Brasil, mas que se mostrou característica humana em todas as latitudes. A minha previsão é de que esse assunto, inesgotável em suas implicações, formas e considerações, envolverá figuras até aqui tidas como impolutas. Muitas acusações serão baseadas apenas confronto da palavra contra a palavra, o que suscitará em possível enfraquecimento da causa, se não houver cuidado em verificar a veracidade.

A reforma da Previdência será aprovada. Não será tão ampla que resolva o problema da insolvência do sistema previdenciário e nem tão profunda que retire todos os direitos adquiridos. O certo é que o gasto com as contrapartidas cedidas aos nossos digníssimos representantes para aprová-la alargará o rombo do déficit fiscal.

Temer não será impedido, ao contrário de Trump. Creio que até o final do ano, o presidente do Grande Irmão do Norte será pego no contrapé por suas estripulias. A diferença é que lá as instituições funcionam. Em comum, as duas economias estarão em alta, nem um pouco suficiente para voltarmos, por aqui, aos bons patamares de antes, mas o bastante para iludir o povão. O que poderá, inclusive, influenciar as eleições de Outubro. Esqueçam Lula, Bolsonaro, Marina Silva, Collor, Huck ou Ciro. Vai dar Xuxu. De qualquer forma, nenhum deles mudaria muita coisa. O nosso sistema administrativo favorece o uso da corrupção como método de governança, auxiliado pelo caráter médio do brasileiro. O chefe obedecerá a correnteza.

A Argentina será campeã mundial de Futebol. Não mataram a cobra nas Eliminatórias, agora, aguentem… O Brasil será Vice, no máximo. França e Alemanha completarão os finalistas.

O Rio continuará lindo, mas cada vez mais estraçalhado por balas certeiras e perdidas. A Globo continuará a comandar o cenário profissional das “Artes” televisivas. Questão de apuro técnico aplicado a platitudes. Anitta será alçada à status de ícone internacional – medida exata do atual estágio de nossa cultura popular.

Em contraponto, o número de pessoas que procuram estilos de vida alternativos será cada vez mais importante. O número de vegetarianos e/ou veganos crescerá. O cuidado com o bem-estar de outros seres ganhará cada vez mais espaço. Como resposta à arte apelativa, aumentará a quantidade de veículos, meios e maneiras diferentes para a expressão artística de qualidade mais apurada, continuação de uma revolução silenciosa e perene para mudança de hábitos, corações e mentes. Porém, jovens perdidos do sonho de viver continuarão a explodir, a atropelar, a atirar, a se matar em nome de causas que sobrevivem apenas para servir ao poder de líderes de manadas sem rumo. Aumentará a cisão planetária entre grupos.

O trânsito continuará a fazer mais vítimas do que a Guerra da Síria. Aliás, continuaremos a matar e morrer como se estivéssemos em uma Guerra Civil. O Feminicídio – estertor do declínio total do domínio do macho Neandertal brasileiro – ainda demorará a ser contido. O Crime Organizado, cada vez mais organizado diante da inépcia e/ou auxílio de agentes governamentais, carregará atestado de qualidade internacional. Produto tipo exportação para a América Latina e, talvez, para o resto do Mundo. Orgulho nacional.

A China, devido à estreita visão política de Trump, avançará mais velozmente à condição de maior Economia do Mundo, assim como a de líder político internacional. Por sua influência, nunca haverá uma nova Guerra da Coréia. As bravatas vindas do Norte chegaram ao limite do aceitável dentro do jogo de guerra simulada no ano passado.

Tirante a ousadia de algumas assertivas, não fiz exatamente previsões, mas exposição de fatos que já estão em curso desde há muito tempo. Porque, afinal, é praticamente impossível mover-se para fora da linha que nos amarra aos Presentes sucessivos, também chamada de Passado. O que muda a percepção pessoal do todo são intervenções da Esperança, da Ideologia, do Desejo e gosto pelo auto-engano, confundido com sonho.

And the Oscar goes to… “Blade Runner 2049”!

Tanta coisa é só promessa…

Por Marcelo Moro


 

Passei um café novo e aguardei a hora morta, os passos mentais em círculos e o coração aos solavancos, não era mais noite de ano novo mas de um solstício em mim.

Em geral as promessas para um novo ano são temas requentados idealizados e não realizados em anos anteriores, nada de novo… só promessas.

Muita coisa mudou para esse giro em torno do sol, teoricamente mais leve, inocentemente mais fácil ou apenas mais um ledo engano, e já foram tantos, giros e enganos.

Nesse me propus, viajante que sou, fluir apenas, deixar que a pena deslize alma no papel apático e frio, em branco.

Decidi por menos teoria e mais prática, ação ao invés de pensamento, realizações simples antes de complexas reflexões … enfim ser apenas mais cru, menos puro e nada ingênuo.

Frases curtas para grandes profundidades.

Não tenho confiança que se renova e muito pouca fé no futuro, levem em conta que o segundo seguinte se quer existe e o segundo de trás já ficou mergulhado no tempo, questões de física.

Até tinha feito minha listinha das tais promessas e esperas para esse ano novo, lá no chuvoso e vazio primeiro de janeiro, e talvez daria uma crônica mais emocionante… mas passados dois terços do mês de São Sebastião e São Paulo rasguei…ontem mesmo a noite…

Agora assumiu a antiga tese de quando inquilino da Kit na Avenida São João…

Ontem foi Ontem… Hoje é Hoje e Amanhã eu me preocupo Amanhã…

Novas promessas

Por Silvana Schilive


 

Pisando no calcanhar tirou os sapatos que foram abandonados perto da porta, a águas escorria pelo corpo deixando pegadas no piso gelado. Já passava das 20 horas, o dia começava morrer, o horário de verão, não era para ela.

Abriu a geladeira vazia, a lista pregada na porta já completava aniversário, sempre deixava para depois. Torceu para que tivesse pó de café. Abriu o pote, dava para uma caneca.

Olhou para o calendário no balcão, o ano passou! Nada aconteceu, as mesmas contas, as mesmas listas, os mesmos caminhos. Não havia planos para mudanças… Amassou o calendário vagarosamente, fez uma bolinha bem apertadinha, deixou sobre a mesa.

Enquanto a agua esquentava, tirou a roupa ali mesmo, encharcada de água, dobrou cuidadosamente, colocou sob a pia. Observava a água formando as bolhas de fervura, uma a uma… Colocou o pó no velho coador de pano, deveria comprar um novo. Ia escrever na lista que estava na porta da geladeira.

Nua, com a caneca de café numa mão e a bolinha do calendário na outra, observava da janela do oitavo andar, as nuvens grossas de chuva, é… A chuva não ia mesmo passar. Tinha uma festa para ir, mas a tempestade tinha colaborado com seu desânimo, a desculpa seria perfeita.

Passava da quatro… O sono não vinha e na insistência de dormir o lençol já tinha desistido do colchão e aliado ao tapete repousava no chão. Sentou na cama, esticou o corpo, levantou-se. E agora sem café! O jeito era ir às compras pela manhã. Revirou os armários, encontrou uma caixinha de chá preto. Validade vencida…  Aqueceu a água, serviu a caneca, mergulhou o saquinho, sentou à mesa observando a água mudar de cor.

Alcançou a bolinha de papel deixada ali. Desembrulhou cuidadosamente, todos aqueles dias foram vividos. Numa penumbra, insosso. Desde que abandonara as festas natalinas, as comemorações familiares, e tinha se isolado da vida social, numa clausura intima, aguardava pelo momento em que algo fosse vingar dentro dela. Há muito tempo usava desculpas de concentração e foco nos objetivos. No entanto os objetivos já haviam sido conquistados. E agora? As listas de promessas deveriam retornar para a agenda? As decepções a fizeram não almejar com promessas… Prometo não prometer!

A caneca de chá vazia, o calendário amassado, o dia a raiar… Levantou-se, alcançou a lista de compras, acrescentou alguns itens. Virou a folha.

Branca… Limpa. Lisa! Pranto para cumprir sua missão… Por alguns instantes olhou para o calendário vencido, depois para a folha em branco! O passado e o presente. Deitou a caneta sob a mesa, os primeiro raios do sol lutavam com as nuvens roxas, quem venceria?

No calendário novo o primeiro mês já se esvaia… E tudo como antes! Os mesmos caminhos, as mesmas listas, as mesmas contas! Ou…

Quebrando a promessa de anos que nada prometeria iniciou a primeira linha na folha branca…

Promessas para o ano novo…

 

Feliz Ano novo!

por Virginia Finzetto


Eu te desejo o novo.
Todo começo pode ser dúbio, quando o início e o término se fundem. Então, que seja esse um ponto de encontro.
Eu te desejo a ruptura na continuidade.
Deixa fora a falsa era de calendários mendigando para que seus dias arrastados sejam marcados com um “x”. Frustra o viço das agendas fresquinhas em folha, certas de que serão rabiscadas com os mesmos compromissos a se realizarem mecanicamente.
Eu te desejo o inédito.
Como em um pano virgem esticado no bastidor aguardando o bordado, fixa em ti o fio escolhido no vão entre a urdidura e a trama e, a partir daí, inicia um ponto. Seja mesmo um ponto atrás, mas que nesse ponto surja o exclusivo. Sem esquemas, deixa que os matizes combinados dos fios desfilem livres e adquiram força para impor o riscado, talvez um desenho, um colorido que ainda não tenhas imaginado a princípio.
Eu te desejo o mergulho.
Antes! Viva a proposta de bons títulos, para que tu faças ali um berço, um ninho. O deleite do livro escolhido, para que nele te entregues na paz infinita do entretenimento ao ler cada palavra a caçoar de todas as certezas. Aproveita o convite para abraçar qualquer direção que faça a ti um sentido.
Eu desejo tuas garras cravadas em qualquer tempo lembrando a mesma maciez que tem ao se afundar os dedos em pelos de cão e de gato.

O mesmo que para mim, eu desejo por inteiro e para o todo.
Eu te desejo o novo em ponto!
}Eu te desejo um ano streaming

 

Promessas para o ano novo que já está indo

Por Nic Cardeal


 

Nunca fui de fazer promessas – mesmo porque não sei ao certo se a gente pode confiar 100% na gente mesmo – por isso nada prometo para o ano que já veio, que já está indo. Quem me garante que eu própria não seja uma vaga promessa de um ano novo já tão antigo? Por que então dar-me ao trabalho de prometer a mim mesma tantas inutilidades inalcançáveis? Melhor guardar esse tempo de promessas para os inevitáveis ‘agoras’ que se enfileiram ansiosos à espera do existir. Afinal, promessa é dúvida!

Então é assim. Sinto muito dizer. Mas tenho de admitir. Mal dou conta de tentar, a duras penas, asas e voos, cumprir a promessa que sou – e que nem sequer prometi! Quem dirá fazer novas promessas para o ano que já chegou, já se instalou e está indo embora por entre os dedos de um janeiro já ao meio?

Das promessas desisti. Ando preferindo colecionar instantes descompromissados. Sem disfarces ou arremates. Como uma teia de muitos fios, uma bainha desfiada, alinhavos fáceis de desfazer. Não há nada a fazer. Nem prometer. Só viver bem aqui. Nas miudezas desses encantos recém-nascidos, desejos amortecidos, sutilezas tão preciosas, suspiros agradecidos, como uma vida sendo tecida no tear das horas vagas ou ocupadas.

Pensando bem. De mim, feito assim – um sonhador de infinitos – talvez uma única promessa (sem compromisso!) no salto quântico dos sentidos: prometo não prometer!

O cheiro do novo

Por Manoel Gonçalves (Manogon)


As lágrimas que despencam do céu escorrem pelas janelas do apartamento, emprestando um efeito surrealista à paisagem externa. Como uma grande aquarela, árvores se contorcem ao balançar do vento, com galhos e folhagens se desfazendo na imagem turva. Dançam num balé fantasmagórico, porém belo. Luzes piscam ao longe, um abre-e-fecha de semáforos, valsa de luzes brancas e vermelhas dos faróis dos carros. Distante mais ou menos quinhentos metros, o hospital municipal lembra que a rotina não cessa, as luzes não se apagam e os giroflex das ambulâncias sempre estão em movimento, muito bem acompanhados pelo coro das sirenes estridentes. Tudo parece normal. Tudo tem desenho semelhante às silhuetas de outros dias, outros meses, outros anos. Tudo segue seu rumo.
Mas há um quê de singularidade no ar. Não o resquício dos brilhos dos fogos da passagem do ano, não o clima mercadológico dos papéis de presente nas lixeiras, amontoados com os restos de embalagens dos novos produtos eletroeletrônicos e domésticos. Um cheiro de esperança em algo que não se pode explicar. Como se as pessoas fossem tropeçar na sorte na próxima esquina. Talvez algo necessário para enfrentar os outros todos os dias do ano.
Esse clima remonta aos tempos de outrora, da euforia juvenil. Não e questão de saudosismo, mas a analogia dos fatos. Ficávamos sempre na expectativa do início de janeiro, menos pelos desejos de grandes conquistas no novo ano do que pela curiosidade da volta às aulas, do reencontro com velhos amigos e pelas caras novas que encontraríamos pela frente. Mas, antecedendo a tudo isso, vivíamos as surpresas do novo material. Era como ficar acordado para saber se existia mesmo o tal Noel. Mas nesse caso, sabíamos que no final do dia anunciado, meus irmãos mais velhos chegariam com o pacote cheio de novidades. Cadernos e livros com aquele peculiar cheiro de folha nova. Quem é fissurado em livro novo sabe do que falo. As canetas, lápis etc. Mesmo que fosse quase tudo igual ao que recebíamos no ano anterior.
O diferente era a expectativa, o cheiro de coisa nova no ar. O inesperado. Saber que abriríamos um caderno e ele estaria em branco, e que ali marcaríamos as descobertas de todo um ano. Que a cada caderno era um estágio diferente; cada lápis gasto, uma escrita a mais nas tantas linhas do aprendizado… da vida…
Olhando a chuva na janela, o movimento dos carros ou os contornos das ruas abandonadas de pessoas, posso ver que os dias de janeiro talvez não carreguem grandes mudanças em relação aos dias de dezembro do ano que ficou, mas o cheiro da esperança, o cheiro do novo no ar está presente. As linhas em branco estão esperando para serem preenchidas e, certamente, rabiscadas, rasuradas, marcadas da maneira particular de cada autor. No fim do ano, os materiais estarão bem gastos e mais um ciclo percorrido. Assim caminhamos, de escrita em escrita, compondo nossas melhores obras.
E aí, dispostos às descobertas deste novo ciclo? Estão sentindo o cheiro do novo no ar? A ver um brilho diferente na pluralidade dos materiais disponíveis à sua frente?
Que a chuva preserve a todos das enxurradas, mas que leve a fuligem embora, deixe a imagem mais nítida para enxergar melhor a vida ao redor.