Crônica | ‘a mulher que me inspira’…

Por Mariana Gouveia


 

Trazia a cor nas mãos – todas elas. Fazia do nosso mundo um universo inteirinho colorido, e contava as histórias de cada uma. Com o vermelho irradiava as flores que bordava e parecia ter saído do pé da roseira do jardim.

Logo pela manhã, na mesa singela do café da manhã… o bolo de mandioca – ocre dourado – e o branco do leite com os sabores das folhas do eucalipto, colhido logo ali, depois da cerca – toda marrom – e os verdes em seus diversos tons.

Para mim, ela tinha o dom de fazer o vento bulir com as folhas… quando secas, fazia mágica nas cores. O fio de algodão cru ganhava tons com seu caldeirão fervente. Era alquimista com os frutos ainda verdes.

Bordava os enxovais das irmãs mais velhas e desenhava monogramas em ponto cruz. As toalhas pareciam jardins de flores. A realidade ao lado daquela mulher que por acaso era minha mãe tinha a docilidade de conto de fadas.

Abria para mim a porta da arte, do coração e da alma. Levou-me por caminhos de capim dourado e um poente a colorir o céu.

A primeira palavra que aprendi tinha a voz dela a ditar e repetir o gesto. O primeiro poema escrito. As letras rabiscadas em um caderno velho. A última palavra foi de que a esperança devia brotar todo dia no peito e que eu devia regar o jardim para poder colher a flor.

Foi tudo tão rápido e seu tempo de ser… acabou. Ela se foi em um dia cinzento de setembro de 1982. Mas ainda hoje… me inspira em ver a natureza além do que os olhos comuns veem. É como se em todas as cores que o universo me oferece tivesse o dedo dela…  a desenhar as linhas com que bordo minha vida.

Anúncios

Crônica | A(s) mulher(es) que me inspira(m)…

Por Adriana Elisa Bozzetto


Março é um mês carregado de significados. É marcado pela quaresma cristã e eventualmente pela páscoa. Também é quando começa um novo ano astrológico, tem o equinócio de outono e as águas do mês fecham o verão. Mas acima de tudo, é um mês de luta, marcado por seu dia 08, dia internacional das mulheres, data assim nomeada em referência a um contexto de lutas femininas por melhores condições de trabalho e de vida. Lutas que seguem, ainda que em novos rumos, com novas características e enfrentando problemas que perduram de outros tempos, além dos que surgem na atualidade. E próximo ao fechamento do mês, estou aqui pensando no que escrever diante do tema “a mulher que me inspira”.

Existe, é claro, uma visão romantizada da inspiração feminina. Poderia criar, por exemplo, uma musa inspiradora próxima à perfeição em meio a deliciosos defeitos e descrevê-la aqui. Ela poderia ser uma mistura de inocência e doçura com garras e veneno, ser como uma droga viciante que traz felicidade e destruição, ter dons artísticos notáveis, preferencialmente musicais, e possuir aparência frágil e jeito delicado, porém ser altamente explosiva, irreverente e até mesmo mesquinha em contraposição a sua natural generosidade manifestada diante de todos. De personalidade interessante e manipulável de acordo com o gênero literário, poderia ser a base para alguns poemas e rápidas histórias regadas a vinho e algo mais. Poderia descrevê-la poeticamente e declamar palavras e mais palavras em sua homenagem. Ser trovadora diante dessa musa distante, exaltar suas qualidades quando fosse necessário, esbravejar contra seus defeitos a depender do tom do texto que ela precisaria me inspirar no momento, e cair em estereótipos sobre a musa inspiradora tão idealizada, mas tão idealizada, que o leitor não sabe se existe, existiu ou poderia existir em algum momento, mesmo que na maior parte das vezes tenha alguma base real na criação dela.

Mas prefiro uma outra abordagem, menos romântica e mais plural. Até porque, a mulher que me inspira não é uma, são várias. Como escrever um texto sobre uma mulher que me inspira ignorando minha avó, por exemplo, mulher guerreira, independente, de energia irradiante e força incontestável? Ou minha mãe, tímida, quieta, pequena, encolhida e igualmente forte e equilibrista diante das várias surpresas da vida? As mulheres que me inspiram, longe de um ideal criado para fins literários, são as mulheres do meu cotidiano. É minha irmã, brava, contestadora, rígida, líder e um pouco carente. É minha professora que, mesmo com suas próprias batalhas diárias, consegue acolher outras mulheres com suas várias dores e ser um ponto de apoio e conforto essencial a elas. É minha colega de faculdade que abraça uma semi-conhecida, mostrando que nenhuma mulher está sozinha. É minha amiga que concilia a vida religiosa com a profissional e se destaca em ambas. É minha outra amiga que por um tempo trabalhou sendo a única mulher presente em uma profissão tipicamente masculina. É mais uma amiga que, apenas por ser quem é, acaba lutando diariamente contra qualquer característica assimilada como feminina sobre ela, pois sabe, mesmo que inconscientemente, que só ela mesma pode definir que símbolos a representam ou não.

As mulheres que me inspiram são essas, do dia-a-dia, engajadas ou não. São as que me ensinaram e ensinam a sororidade, as que carregam pequenas grandes lutas diárias: as mulheres reais, longe de serem qualquer criação poética ou exemplos de perfeição. Não que eu seja contrária às inspirações românticas, longe disso. E que hipocrisia a minha se eu fosse… Afinal, quem nunca idealizou um muso ou musa inspiradora, que atire a primeira pedra! Mas quando se tratando de mulheres e inspiração, prefiro que essa relação tenha como laço principal as várias mulheres presentes na minha vida e que me ensinam, diariamente, o que é ser mulher e o que é lutar. Seja em março ou qualquer outro mês, sejam lutas individuais ou coletivas. Todas as mulheres, cis e trans, importante ressaltar. Cada uma guerreira à sua própria forma, ensinando uma para a outra a arte de viver, ser mulher e fonte de inspiração.

Crônica | a mulher que me inspira

Por Marcelo Moro


 

A mulher que me inspira tem ritmo e melodia – café passando lento e saborosamente, no quase fim de tarde, acompanhado pelas cavalgadas harmônicas de Wagner.

Ártemis singra os céus entre o azul escuro final e os laços laranjas indo para o rosa fogo da sua dança mágica, tudo ao mesmo tempo agora – é assim essa mulher

Cafeína nos seus mais amplos efeitos – termais, elétricos e estimulantes.

Essa dama tem nome de santa com sobrenome de flor, duas pintas – Marte e Saturno na ida e na volta, orbitando um Jardim de porcelanas – centro do universo, sorriso aberto e fluente.

Me inspira porque que me transpira os poros quando mexe o encaixe dos quadris nas escadas, ramblas, pela sala ou ali …

Encanta-me como passa pela vida, sem tempo quente, sem mornar a água, flui e desliza como acrobata de si mesma – Áries pela terra do Sol.

Aguça-me curiosidade, pensamentos, lidas…sei dela o que ela quer que eu saiba, no momento exato da vital importância desse saber, o resto é desnecessário.

Inspira pela resiliência e pelos ciclos, pela lealdade nas suas crenças, tão somente por ser o que é, ser o máximo mesmo quando está no volume mínimo.

Aflições, pesadelos, dúvidas todo mundo tem, e quando o mundo desaba oferece arrimo não importa o peso da porra toda – Inspira –me e suspira-me entre notas graves soletrando meu nome.

Traça sua luta com extrema inteligência e sutil bom gosto…pequena gigante, força máxima e plena – Me inspira.

 

Crônica | A mulher que me inspira…

Por Emerson Braga


 

A mulher que me inspira ― apesar de já ter morrido tantas vezes através dos séculos, condenada pelo crime de recusar-se a existir sob a sombra de um grande homem ― permanece viva. Suas cinzas ascenderam de fogueiras eclesiásticas e atravessaram o tempo, uma porção delas transformada na grafite de meu lápis. Parte de minha escrita não me pertence, é manifesto mediúnico assombrado pelos gritos silenciados, pelas vulvas mutiladas, pelos seios vertendo leite coalho. A mulher que me inspira é uma sobrevivente jamais nascida, fez-se mulher por meio da luta e da resistência, tornou-se mulher em defesa da própria mulher.
A esposa assombrada pelo marido semidivino e monstruoso, a menina exposta feito mercadoria na esquina, a vendedora de limões, a vereadora executada, a catadora de lixo, a analfabeta, a desempregada, a mãe de santo, a filha de pai ausente, a escravizada, a banida. São todas facetas desta mulher. Alheia aos arquétipos que nos contaminam o imaginário com princesas encasteladas, musas de beleza etérea e mártires parideiras, a mulher que me habita não é citada em fábulas. Quando não relegada a uma invisibilidade esterilizante, protagoniza obituários, estatísticas e páginas policiais.
A mulher que me inspira deita sobre a folha silente e escreve suas histórias com saliva, sangue e orgasmos. Em seu corpo não lhe falta tinta. É toda ela cinzel e pincel: Pela brecha aberta com urgência e dor, derramam-se as paisagens que me são estrangeiras, pertencem a ela, a esta pitonisa que me guia a mão esquerda, extraindo de minha frágil macheza todo o vigor de uma feminilidade da qual fui biologicamente separado e, mesmo assim, dela sou dotado por força do lirismo que incendeia minha natureza pacata e mole.
Ela não tem nome. Não, não tem. A mulher que me inspira, não. Um nome limitaria sua essência incontida, seu entusiasmo que não se dobra à geometria das dimensões pré-fabricadas. A mulher que me inspira está fora e dentro de mim, ao meu redor e amalgamada ao tutano de meus ossos. Graças a ela, sou um homem transitório, de muitas existências cambiantes. De tanto senti-la fluir através de meus nervos e textos, às vezes deixo de ser um canal e me transformo na mensagem. De tanto senti-la fluir através de meus textos e nervos, agradecido, eu também me torno um pouco mulher.

Crônica | a mulher que me inspira…

Por Mary Prieto


 

Signo de fundação do mistério e semântica volátil a revelações, a mulher é um imaginário coletivo que se multiplica em brilhantes traduções. Nem todas podem ser compreendidas, mas todas podem ser sintonizadas. Todas musas, destituídas de pedestal, para trazer o sagrado ao material.

Simbólica e concreta, de lua e de sol. A mulher que inspira são todas as que permeiam o mundo exatamente como ele é, em sua condição de impermanência, e trazem in-fluxo um aspecto cíclico entre a gênese e os acabamentos.

A mulher que me inspira é intensa por dentro e extensa, pra fora. E as forças que inspiram são todas que, de alguma forma, pra entender, a gente demora. O fator de apreciação se consolida na escolha de uma demora por vez, vivendo, na mulher que somos e que vemos, uma estação inteira por mês.

A mulher que inspira é a enigmática que, num piscar, torna-se pragmática. Depois, em se soltar, está de nova romântica. Pra apreender esse leque, precisa-se de uma escola iniciática, uma invocação oracular, um decifrar de senhas: mulher, onde te escondes, perguntam todos?

Não se esconde, nunca escondeu! Mostra-se, esteve sempre exposta e nas linhas de frente, lutando pelo futuro e guardando a sabedoria ancestral pelo bem de tudo que é gente.

Mulher, que segura as pontas e que põe nos eixos. Transversal ao tempo e adaptável aos espaços, se faz habitat até quando em si mesma não encontra habitação. Reestrutura a resignação em valentia, o vácuo em eco, o antes no durante e o depois no instante.

Mulheres – que sabem se posicionar e que compensam a força bruta sem fugir da luta, pela astúcia de saber provocar. Que fazem sair da inércia e que podem deixar sem ar qualquer intenção aparente, pela força transparente do espírito. Em variedade e singularidade, mulheres, para deixar boquiaberta e desperta toda a humanidade.

Mulher que inspira – Substantivo Feminino: redundância de significação.

 

Crônica | “a mulher que me inspira”

Por Silvana Schilive


 

Sorri… Ela entendeu que poderia contar toda sua história!
Entrou afobada e sentou ao meu lado, embora a condução estivesse vazia.
O dia estava muito quente… como nunca dantes. O clima está destemperado como ela me disse. Estamos no Sul com calorão do Nordeste… quem entende?
Esse foi o início de nossa conversa.
Apenas ouvi calada com algumas interjeições de consentimento.
São quarenta minutos de silêncio até a escola desenhada a beira do caminho. Esse intervalo é para digerir um marmitex pequeno… ingerido em pé. Fazer mentalmente lista de compra, checar as contas que foram pagas e cochilar…
Mas, naquela tarde ensolarada de março… a Rosa brotou ao meu lado.
Meu silêncio foi especialmente iluminado por uma inspiração divina. Ela vestia saia plissada com bolsos salientes e uma blusa de malha florida. Na cabeça um lenço amarelo ouro. No ombro direito uma sacola produzida em barbante. Quando olhei, apressou em contar – “eu que fiz” – ajeitando as sacolinhas de supermercado abaixo de suas pernas. Se acomodando na desconfortável poltrona do amarelinho, abriu sobre mim as portas e as janelas de seus 80 anos vividos…
Mãe solteira, casada, viúva, funcionária pública e viajadeira… voltava da casa de uma das filhas! Todas essas mulheres misturadas dentro dessa miúda senhorinha de rosto rendado e olhos brilhantes. Sua voz ganhava variados tons ao distribuir sua vida em pequenas crônicas…
— A senhora é professora, né? Eu sei por que já deu aula para minha neta. Eu sempre digo, tem que estudar para não depender de marido. Fui mãe solteira aos quatorze. Me apaixonei e o italiano safado me abandonou, dizendo que a cria não era dele. Meu pai era um homem severo e me mandou embora. Morei de favor na casa de muita gente. Até encontrar meu falecido que bebia, mas era bom homem. Com ele tive quatro filhas. Dei nome de flores. Minha avó dizia, a vida é dura e precisa de enfeite. Foi o que eu fiz. Enfeitei minhas filhas com o nome, e dei para elas o que a vida não me deu: a juventude! Tem que viver essa fase da vida, conhecer as coisas. Onde tá escrito que tem que casar com o primeiro que aparecer. Mulher tem estudar e ter independência.E assim foi… Gardênia é professora. Margarida é confeiteira. Hortência é enfermeira. Violeta é policial, Camélia é costureira e tem uma lojinha. Todas elas são bem resolvidas. Duas separadas e três casadas. Como eu disse, dei para elas o que a vida quase me tirou. O poder da decisão. Eu aprendi a ler depois de velha. Agarrei todas oportunidades que apareceram. Trabalhei dia e noite. Viemos do Norte correndo da fome. Eu sei o que é dormir sem ter colocado nada na boca o dia inteiro. Trabalhei em casa de família, na roça. Quando apareceu o tal concurso da prefeitura eu fui lá ver se eu podia participar. E num é que eu podia? Minha leitura era pouca. Mas, naquela época os primeiros concursos podiam. Eu fiz e passei! Fui trabalhar de merendeira na primeira escolinha que tinha aqui e que foi desmanchada para construir essa nova. O falecido foi cedo e eu fiquei com as meninas. O pouco que ele deixou eu não desperdicei. Agora estou aposentada e vivendo tudo o que posso! Apesar de estar velha… ainda aproveito muito! Vou aos bailes da terceira idade. Arrumei um namorado… mas desisti porque ele queria casar. Pensei bem e decidi fazer coisas que ainda não tinha feito. Não sou contra idosos que se casam novamente, cada um com suas escolhas. Mas eu queria sair por aí. Fui conhecer Foz do Iguaçu. Andar de avião! Visitar os parentes que deixei lá no Norte. Só não faço mais coisas porque a idade não deixa. A gente cansa fácil…
O ônibus estaciona… Ela sorri dizendo “Chegamos e eu nem vi o tempo passar”. Levanta com alguma dificuldade. Ajeita a bolsa no ombro, distribui as sacolinhas nos braços, olha para mim e diz: “Se tivesse um filho daria o nome de Lírio. Temos que dar um jeito de enfeitar a vida, concorda?!”… e se despediu apertando minha mão e agradecendo pela prosa…
Aquela seria apenas mais uma viagem até a escola… entretanto, a inspiração se sentou ao meu lado, tinha nome de flor e uma história de lutas para contar…

Crônica | A Mulher que me inspira

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Eu conheço desde que nasceu. A peguei no colo e como requeria cuidados especiais, deixei o meu trabalho por um ano e meio para cuidá-la mais de perto. Troquei suas fraldas, milhares de vezes, em uma época que fraldas descartáveis eram caríssimas. Na casa em que vivíamos, cheguei a contar duzentos panos dependurados em varais improvisados.

Nas consultas médicas, ficávamos horas à espera para sermos atendidos. Ela, a dormir no meu colo. Eu, a pescar tubarões agarrado ao seu corpinho. Rotina periódica por vários anos, incluindo as diversas internações por crises hemolíticas. Nessas ocasiões, eu e minhas companhias de antessala da ala de Pediatria, trocávamos histórias e apoio mútuo. Aprendi a relativizar o nosso sofrimento ao conhecer outras guerreiras e guerreiros. Alguns feneceram, outros venceram etapas e vivem mais intensamente do que quaisquer um de nós, os “normais”. Suas existências ganham contornos épicos. Tudo é muito intenso e rápido – por um fio.

A tudo… aguentava com um sorriso no rosto, assim que se recuperava de mais um episódio de enfermidade. Devido à baixa resistência, desenvolveu dezenas de pneumonias. Extraiu baço, vesícula, hérnias. Ultrapassou inflamação junto à carótida, infiltração de soro no pulmão e comas. Alérgica a várias medicações, os antibióticos que lhe serviam causavam enjoos portentosos. Perdia peso. Quando vinham as crises de dor mais intensas, meu desejo era abraçar todo seu sofrimento para mim. A minha impotência em minimizá-lo gerava o desejo de que tudo cessasse… para sempre…

Mas, ao voltar a vê-la bem, espalhando amor por onde passasse, percebia que a vida poderia vencer mais uma vez. E prosseguíamos, alentados pelo sorriso inspirador que distribuía graciosamente por aí. Sua resiliência, sua vontade de viver, arrebatava quem com a Leonina estivesse.

Ao chegar aos 14 anos, acrescentou-se as tribulações de adolescer. Momentos de dúvidas, de desejos não atendidos, impedimentos para fazer o que todo adolescente gosta de fazer. Psicologia, psiquiatria, grupos de ajuda. Às vezes, viver já é tão doloroso, mas nada chega aos pés de sentir dor apenas por respirar. Analgesia, hidratação constante, veias esclerosadas.

Em quase 29 anos de vida, sofreu, talvez, mais de quinhentas transfusões sanguíneas. E ela, a mulher que me inspira, continua a expressar novos sonhos – viver e trabalhar fora do País, buscar a independência, alcançar outros horizontes, amar novos amores. Minha vampira, tem fome de viver.

Não me canso de aprender com ela. Ainda assim, não consigo mensurar quanta dor pode suportar. Na semana passada, passou por mais uma cirurgia. A recuperação não tem sido fácil. Chora calada. Porém, sempre que tem oportunidade, exibe o mesmo sorriso ao qual nunca me acostumarei a ver, desde que acompanhei a dar os primeiros passos e a soprar a primeira velinha, para horas depois, ser internada.

Luz que nunca se apagará… me orgulho de ser seu pai – Romy.


 

IMG-20180314-WA0006

Crônica | Tatiana Kielberman

as melhores paisagens surgem
de soslaio quando não há espera

Lou Vilela

 


 

Faz pouco tempo desde que aprendi a degustar de fato a cidade que habito — e que, inevitavelmente, também mora em mim. A princípio,
apenas me via residindo em um prédio qualquer de suas ruas, pois foi aqui que nasci… e, do meu ponto de vista, não havia outra opção plausível para onde eu pudesse me mudar.
É bem provável que São Paulo seja mesmo esse anfitrião distante, ao tomarmos um primeiro contato com as paredes imaginárias que lhe envolvem. Mas, nem por isso é isento de se mostrar
acolhedor conforme os anos passam — e, assim… nos apaixonamos por sua paisagem, cada vez mais.
Eu gosto da diversidade que o cenário da “terra da garoa” me concede. Aprecio cada uma de suas marcas registradas, os cartões de visita e as imprevisibilidades envolvidas em seu ritmo. Penso que comecei a me tornar mais amiga de São Paulo ao deixar de ter medo do que a cidade poderia me oferecer. Não foi um processo fácil. Praticamente um reconhecimento de terreno — absurdamente necessário…
Hoje, defendo seu nome com unhas e dentes. Morar aqui já não se configura mais como uma falta de opção, mas sim pura escolha. Entre pressas, agitos, multidões e vida sem fim, eu sigo preenchendo os espaços paulistas — e sei que há muito mais ainda a ser desvendado.
Talvez este seja apenas o breve início de uma deliciosa e inesperada história de amor…

 



‘a cidade que acena para mim lá de fora’
, do livro ‘detalhes intimistas


FELIZ ANO VELHO…

 

Por Virginia Finzetto


Minhas idas ao centro são frequentes. Pego o Praça Ramos fora do horário de pico e vou sentada até o ponto da Xavier de Toledo. Quando eu desço do ônibus, outra viagem se apresenta. Dificilmente fico no presente assim que olho para o Teatro Municipal. Envolvida em reminiscências, pergunto-me como tamanha beleza ainda se conserva como baluarte da história paulistana a despeito de tantos estragos já promovidos ao seu redor, seja pela falta de consciência de programas políticos, que não levam em conta a preservação do nosso patrimônio, seja pela ausência de cidadania dos ignorantes, que deliberadamente depredam e emporcalham nossas ruas.

Sigo em caraminholas, enquanto atravesso o viaduto do Chá em direção à Praça do Patriarca. No vaivém da multidão, de repente, alguém segura meu braço com firmeza. Levo um tremendo susto, pensando em assalto…

Qual deveria ser minha reação diante do avanço da miséria e da violência que aumentou barbaridade? Mas olho melhor para ele: um idoso de expressão bondosa, olhos de íris opacas amareladas, sorrindo com dentes marcados pelo abuso do fumo, face envolta em longa barba alva, prestando muita atenção em mim.

— Bom dia, menina, você continua bela!

— Ãhn…?

Rapidamente, minha memória vasculha nos arquivos recônditos imagens da infância e da juventude tentando encontrar alguma que case com a da insólita figura. Para minha surpresa, certa que estou de se tratar de um desconhecido, e já me esquivando com ar de ofensa, ele me chama pelo meu nome completo na língua do pê!

Depois, gargalhando ao ver minha expressão de “cruz credo”, ele prossegue:

— Ei, Virginia Finzetto, sou eu… o Papai Noel! Não se lembra de mim?

Não faço a mínima ideia de como esse sujeito maluco descobriu meu nome. Isso só pode ter sido, para não fugir do espírito natalino, uma presepada de algum amigo que estaria por ali escondido e rindo da minha cara. Em seguida, o bom velhinho me solta e desaparece rapidinho na contramão.

Oh, céus! Só posso ter enlouquecido em meus delírios, penso.

Então, venho tornar público o caso, para que, quem sabe, possa chegar até ele, agora, todos os pedidos que armazenei desde a época em que passei a ser uma garota incrédula sobre sua real existência.

Diz a lenda que Papai Noel lê, além de cartinhas, o coração de todos os puros. Mesmo assim, resumo minha lista em apenas este desejo:

Xô, 2017!

Dissolva e leve, com a mesma velocidade vertiginosa com a qual você aconteceu, todos os equívocos cometidos covardemente em nome de qualquer divindade.

Assinado:

Eu,

a que prefere apostar em sonhos realizáveis.”

Feliz ano, velho!