Junho | sem clã…

Por Silvana Schilive


O sol rasga o horizonte, o café me acorda, a vida me leva escadaria acima! Desenho a giz o dia todo, substantivos, pronomes, adjetivos e verbos indicativos/futuro do presente/mentirosos…
O jaleco revela a clandestina que sou!
Grito incessantemente coisas-sem-muita-razão que devem ser ditas, registradas e avaliadas. Pelas frestas da janela o mundo lá fora tenta avançar o mundo pretérito aqui dentro… As ondas wi-fi navegam celulares que tremem também clandestinos em mochilas largadas pelo chão ou penduradas desconfortavelmente nas duras cadeiras do tempo.
A rotina segue o planejamento do curso elaborado a séculos…
Eu grito, ele/ela grita, nós gritamos, eles/elas gritam.
Ninguém ouve! Todos reclamam…
A rotina conjuga a batalha misteriosa da inercia dispostas nos tijolos encobertos pela argamassa das artimanhas do poder.
Uma clandestina sou eu! Rabiscando relâmpagos poéticos nas portas dos banheiros femininos esperançosa por leitoras atentas… Revelando segredos pelas frestas do tempo roubado, enquanto o relógio marcas as oito horas diárias vendidas por preços módicos.
Discretamente vestida, lanço palavras ousada para muitos que não querem ouvir, ansiosos por um sinal de dispensa.
O dia passa… Sem muito acontecer!
A mochila, quase um membro extra… Sorrateiramente esconde as asas da literatura que, por muitas vezes, a salva… Um simples toque silencioso, duas capas se abrem e o voo inicia-se… Transporta-se para lugares imaculados, revigorando sua clandestinidade necessária por tempos sombrios. Saca um poema vigoroso e adentra um novo dia. A luta diária a faz gritar, quem sabe um dia… o silêncio rompido torna-se real aos ouvidos ouvintes.
Quando despe-se ao anoitecer, revela-se em sonhos… Paraísos minúsculos, delicados. Esculpe na brancura do papel, as mais intensas verdades, os medos desenhados nas cicatrizes queimadas pelo sol, transformadas pela chuva. Deixam de existir. Despojada… Revela-se… Entorna-se! Aprisionando o tempo nas palavras lançadas, ora delicadas, ora impetuosas! Assim vinga-se da clandestinidade a qual é submetida rotineiramente…

 

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Cronica | Há mulheres que me inspiram

Por Manoel (Manogon) Gonçalves


 

É noite. A madrugada lança seus ares gélidos pelas frestas da janela e entra livremente pela sacada aberta, saudando-me displicentemente no sofá e emprestando à sala seus últimos ares de março. Coisas de velha amiga, que nem faz mais cerimônia. A época faz com que Jobim venha sempre à mente. As águas de março já fecharam a conta do verão, mas continuam emitindo e cobrando as faturas em caos pra toda a cidade.

Sentado, contemplando a tênue luminosidade externa, fico à espreita, talvez esperando que o feminino da noite, figurado na inspiradora lua, venha embasar o texto sobre a(s) mulher(es) que me inspira(m). Feito atacante na área, nos acréscimos do tempo, corro pra área pra marcar meu gol de classificação. Em pleno mês significativo para as mulheres, de tantas perdas, lutas e conquistas, não posso dizer sobre uma apenas e sim, sobre a composição das tintas que colorem meus dias.

Entro pela sexta-feira santa, a da Paixão, lembrando da importância da data para o cristianismo, assim como da força das Marias que acompanharam o Cristo em sua trajetória. A mesma garra que as mulheres tiveram de ter para aguentar a clausura e submissão impostas pelas doutrinas religiosas ou das perseguições e extermínio que sofreram e ainda sofrem, seja por força do “pecado original”, seja pela simples condição de ser mulher, condição esta que “a obriga” a cuidar do lar, do marido, da família, menos de seu próprio corpo. Distorções do próprio conceito de amor ao próximo e igualdade.

Março vai fechando a cortina, deixando no fundo do palco as mulheres assassinadas por exigirem melhores condições, fato minimizado em um dia do ano, mote para piadinhas machistas, mas que permanece no proscênio, para ovação de todos, a força para grandes protestos de luta por direitos e vozes iguais e contra maltratos, feminicídios e outros infortúnios. Mês de comoção por vozes caladas à bala e de “quantas mais precisam morrer” para que sejam ouvidas, para que não tenham sido eliminadas em vão, na vala comum das estatísticas ou fatalidades. Essas vozes, ao contrário de muitas balas, pedras e discursos de ódio, não estão (e não serão) perdidas.

As mulheres que me inspiram são guerreiras. Não como as amazonas, estereotipadas em she-has, dianas (Mulher Maravilha) e wakandianas, mas as guerreiras de verdade, do dia a dia, do cotidiano das conduções, das filas de mercado ou do self-service, das inúmeras trabalhadoras que buscam constantemente uma melhor posição para si e melhores condições para as suas famílias. Mulheres como a velha Luiza, a saudosa mãe, viúva aos 39 e que criou onze filhos sem ao menos saber ler direito; ou como as suas seis filhas, que aprenderam desde cedo que a mulher não é, nem pode ser, só do lar. Herança passada adiante a cada geração.

Nesses anos todos de aprendizado da vida, tenho tido o privilégio de compartilhar da inspiração de tantas batalhadoras, que seria impossível citar, seja nas graduações, nas empresas ou como amigas. Mas as que me instigam diariamente são assim, montam seus animais alados, sonhos rebeldes e quase selvagens, domam os instintos primitivos e extraem a seiva da árvore da jovialidade, viajam com trajes reluzentes de determinação e caráter, empunham risos e graciosidade com certo ar de inofensivas, mas que podem ser letais quando fustigadas em suas convicções, justiça e objetivos. São criaturas dotadas da docilidade de cada amanhecer presente no brilho dos olhos, no mexer dos ombros e nas sinuosas curvas, no esvoaçar dos cabelos, na espontaneidade sorridente. De princesas ou deusas, figuras estáticas de pedestais, não guardam nem a plaquinha de menção honrosa. Querem mesmo é singrar mares e explorar terrenos inabitados ou sequer vislumbrados.

Letras entram em turbilhão e nos loopings de ida e volta criam as palavras que se encaixam na perfeição de frases ou versos, cânticos entoados por um simples observador, trovador de suas epopeias. Vou à sacada e recebo a lufada de ar de um breve amanhecer, um tímido beijo no frescor da madrugada, um último carinho da companheira noite. A lua se esconde entre nuvens. Não quer ofuscar o brilho dos olhos e a fluidez dos pensamentos. Sabe que o texto finda e que minhas inspiradoras agora dormem. O menestrel pode descansar. A composição está escrita, mas longe de ser finalizada, pois a história é feita dia após dia e a melodia ecoa além do horizonte, ressoa em novos amanheceres.

 

Crônicas | Feliz Ano Velho

 



F e l i z   A n o  V e l h o 

adriana aneli | adriana bozetto | ingrid morandian
maria florêncio | lunna gouveia | maria vitoria |
mariana gouveia |  marcelo moro | nic cardeal
obdulio nuñes ortega |tatiana kielberman | virginia finzetto

R$ 25,00


 

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