Plural | Clandestina

Por Maria Vitória



 

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Me sento ao norte que a bússola aponta e mastigo o pretérito do tempo que ainda me resta. O silêncio me devolve as incertezas do medo e fragilmente a vida que tanto tentei burlar, escorre como água barrenta num pós chuva por debaixo de minhas pernas agora trêmulas e flácidas.

O bumbo bate e me recordo de todas as sombras que tive de caminhar em pleno sol do meio dia. Às vezes de forma moribunda, outras em tom de invisibilidade. Clandestina embaixo do solado dos dias frios roubando a moralidade que um dia um belo útero me consentiu. Sabe, posso sentir o peso das asas de uma determinada liberdade sobre minhas costas e isso não é nada libertador, pelo contrário, isso sobrecarrega o ilusório vestígio que ainda me imponho. Trago as duas mãos ao peito enquanto me olho nua em frente ao espelho e repito incessante a mim mesma todas as mentiras veladas até essa fase de minha vida, todas as obscuridades, todos os roubos infantis e um tanto joviais, todas as noites perdidas tentando encontrar o pedaço de carne que revestia meu próprio corpo, toda moral que eu achei que precisasse de um consolo… Sempre falhei e ainda falho ao tentar resgatar o tanto de mim que um dia eu achei ter de sobra. Me introjeto nas sombras, abraço a discórdia da culpa, roubo a imbecialidade do meu eu: oculto, clandestino e um tanto selvagem.

 


 

Participam dessa edição os autores

Adriana Aneli | Alice Barros | Caetano Lagrasta | Emerson Braga | Ingrid Morandian | Joaquim Antonio | Lunna Guedes | Maria Florêncio | Manoel Gonçalves | Marcelo Moro | Mary Prieto | Nic Cardeal | Obdulio Nuñes Ortega | e, Silvana Schilive…

Apresentação de Maria Vitoria

 


 

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Emerson Braga

SONY DSC…nasceu em 12 de agosto de 1976, é brasileiro e natural de Fortaleza, no estado do Ceará. Nos primeiros anos de sua vida, teve problemas de aprendizado. Não conseguia ler ou escrever coisa alguma, o que se tornou motivo de muita infelicidade. Empenhou-se tanto na conquista de sua alfabetização que a palavra acabou por ganhar importante significação em sua vida. Adquirido o conhecimento, ainda aos sete anos de idade, escreveu seu primeiro conto: A Praia Ruim.
Cursou Letras na UECE (Universidade Estadual do Ceará) e hoje trabalha no Sindicato dos Corretores de Seguros no Estado do Ceará, SINCOR/CE. Tem vários trabalhos literários publicados, inclusive sua primeira antologia de contos.

 


Emerson Braga é autor de ‘muiraquitã’
Para mais informações, clique aqui…

 

Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

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Palavra do Editor | Muiraquitã…

Por Lunna Guedes


 

Fecho-me dentro… janelas e portas. Lá fora todos os sons se orientam. As reformas-construções de cenários se multiplicam e eu identifico — mesmo sem querer — cada um dos ruídos de máquinas e homens. Tento me afastar da realidade comum — de minutos-horas-dias-semanas-calendário-sobre-a-mesa-relógio-sem-bateria-no-pulso —, a cada pesado gole de vinho tinto…

Descalça, trajando apenas uma peça de roupa… me esparramo sob o lençol e me atraco ao calhamaço de folhas onde os contos de Muiraquitã se orientam. Estou dentro de outro-eu…

Emerson é um autor dual, que resolveu transitar livremente pelo universo feminino — diariamente violentado, silenciado… — que sangra até a última gota de sangue com uma perspicácia típica de quem se alimenta da realidade em cada passo dado, consciente de que ficcionar a vida é para poucos — os loucos.

Depois de uma dezena de leitura… me pus a observar as folhas espalhadas por cima do lençol branco numa desordem natural. Havia muitos riscos-rabiscos e uma desordem natural de páginas. Começo. Meio. Fim… devidamente embaralhados. Mas conhecia muito bem cada personagem-pessoa e suas histórias.

Andei pelo quarto de um lado ao outro, ao redor do próprio eixo. Marcha inquieta. Engoli o que restava de vinho no fundo da taça. Precisava de ritmo… outra taça-garrafa-pele… outros ruídos. Recorri à Patti Smith e sua versão de “smell like teen Spirit” deixada no repeat… que me fez perceber que ler Muiraquitã é deixar a própria pele que habito e ir às ruas… andar calçadas, dobrar esquinas, ver gente, não ver ninguém, entrar e sair de ambientes esfumaçados, esbarrar em anatomias pulverizadas — personagens mambembes… com seus olhares severos-sérios-amedrontados-desconfiados-manchados-indiferentes-delineados-opacos-perversos-raivosos-exaustos — a caminho do trabalho-supermercado-escola-casa. Mulheres acompanhadas-solitárias-perdidas-abandonadas-sem-rumo-desiludidas-sonhadoras-apaixonadas-afoitas… damas da vida. Vida que nem sempre reserva o melhor lugar na platéia-palco-bastidores. Nem sempre reserva porque esse é um mundo de homens, feito por eles, para eles… E estão certos desde o nascimento que o que é deles está guardado, só se precisa pagar o preço.

O autor pincelou a realidade em busca de histórias conhecidas que ninguém quer ouvir-saber. A maioria fica guardada-esquecida no fundo de alguma gaveta. Vez ou outra ganha voz nas falas de certas damas que fazem questão de não deixar esquecer o passado, na esperança de que o futuro seja realmente possível para alguém que não elas.

As famílias — sabemos — são sempre constituídas por Santas… figuras sensatas-prendadas-cabisbaixas que sabem seu lugar no mundo-vida e que foram ensinadas desde o nascimento a honrar o que há de mais sagrado no mundo: pai-mãe-espirito-santo-marido-filho… menos a si, seus corpos-sentimentos-vontades-desejos e, por isso, as portas-pernas devem permanecer trancadas por dentro para que nada escape à meia noite. Amém.

Emerson Braga, no entanto, lhe entrega as chaves…


MUIRAQUITÃ
Emerson Braga

 

R$ 35,

O que 2018 poderá levar de mim

Por Emerson Braga


Há exatos 31 dias, o ano de 2018 iniciou-se e, até então, eu não tive (ou não construí) a oportunidade de estar com ele. Talvez eu ande distraído ou ocupado demais, quem sabe ele também não esteja interessado em conhecer-me. Não sei. Tudo o que posso dizer é que ainda não fomos apresentados, apesar de sua chegada anunciada pelas esperanças moucas e pelos fogos de artifício ensurdecedores. Acreditei que ele entraria pela porta de minha casa quando o silêncio viesse. Mas apenas o silêncio veio. Apenas o silêncio permaneceu após a euforia da festa.

Se 2018 realmente deseja encontrar-se comigo, não deverá me procurar em 2017. Eu também não estou lá. Visitei-o rapidamente, mas não gostei do cenário, nem dos personagens e muito menos do enredo. Fui embora sem pedir o ingresso de volta, pois não sou de guardar souvenires daquilo que me desagrada. Eu tinha pressa em deixar 2017 antes que ele me contaminasse com seu espetáculo de palavras ocas, de declarações obscenas e de atitudes tóxicas. O ano passado vacilou em um barco à deriva, deu-me náuseas, tornando inevitável que eu me atirasse ao mar do tempo.

Aonde fui aportar após o meu mergulho? Ora, no único lugar em que todos os românticos encontram conforto, no passado.

Fui a junho de 1986, então me vi aos 10 anos de idade, chorando sobre um caminhão abarrotado de mobília, enquanto meus amigos e a vizinhança que eu tanto amava ficavam para trás. Porém, ao chegarmos à casa nova, não demorei a fazer amizade com as mangueiras e os cachorros da rua, e, só depois, com o restante da molecada. Em 1986 eu entendi que saudade é um bicho passageiro, que nos bica e logo vai embora. Mas, hoje, apesar de homem feito, às vezes eu choro por sentir falta das coisas mais tolas. O cheiro dos meus gizes de cera. Minha letra feia no caderno de pauta dupla. Desaprendi a desapegar-me. Eu só soube dizer adeus enquanto fui menino.

 Satisfeito com a visita ao ano de 1986, decidi dar uma espiadela em 1992 e então me vi na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza. O rosto pintado, a garganta inundada por um grito coletivo e o olhar voltado para o futuro. O futuro. Em minha juventude eu não imaginava que um dia eu me voltaria muito mais para trás e para o lado de dentro do que para frente ou para o lado de fora. Lembro-me de que, naquela tarde de agosto, dei um selinho em outro aluno do colégio Rui Barbosa. Enquanto ele fazia-me com os lábios uma carícia de correligionário, eu beijava pela primeira e última vez um de meus amores de recreio.

Deixando 1992 para trás, avancei até 2001. Era setembro. Lembro-me de ter chorado pelas vidas perdidas, não só por aqueles que pereceram durante o ajuste de contas belicoso, mas por todas as vítimas de todas as guerras já travadas, principalmente por aquelas por quem a televisão jamais chora. Em 2001 também vi o Gustavo Kuerten ficar por 43 semanas como líder do ranking no Torneio de Roland Garros. Eu nunca havia torcido por nenhum desportista, ainda mais em um esporte de dândis como é o tênis, mas vibrei com seus urros a cada backhand. Quando todos se mostraram decepcionados por ele ter perdido o topo do pódio para um tenista australiano, Guga tornou-se ainda mais importante para mim, pois se revelou humano. Com sua derrota, descobri que eu precisaria ter cuidado com as pessoas que só me valorizassem enquanto eu estivesse vencendo.

Eu deveria ter aproveitado as quatro últimas semanas para receber o ano de 2018 em minha vida, mas acabei me deparando com o dia 7 de fevereiro de 2012. Era começo de tarde e, logo depois de deixar o trabalho, fui roubado em uma saidinha bancária. Apesar de psicologicamente abalado e trancado à chave em meu quarto, recebi a visita de um amigo que passou o resto do dia tentando me animar. É com esse amigo ― que se tornou tantas outras coisas para mim ― com quem permaneço, desde então, trancado por horas em meu quarto. Nosso relacionamento é uma mistura de água de coco e cachaça: revigora e embriaga, feito sede que sacia a si mesma.

Sei que não poderei fugir de 2018 para sempre. Muito em breve, eu terei de confrontá-lo e dizer-lhe o que espero dele. Também precisarei e refletir sobre as muitas coisas que ele deve querer de mim. Mas, até lá, vou ficar com 2012. Abrirei várias vezes a porta de meu quarto para, novamente, ouvir aquela piada de mau gosto, justo no dia em que me roubaram o dinheiro com o qual eu pagaria minha conta de energia elétrica, o dia que se tornaria o primeiro de uma vida mais cheia de luz:

― É um assalto!

Sim. Em 2012 eu fui assaltado duas vezes, mas de maneiras diversas. Espero apenas que 2018 aja comigo feito o segundo ladrão que me visitou naquela terça-feira de chuva.

Que 2018 só leve de mim aquilo que eu esteja disposto a oferecer.

As histórias que não escrevi em 2017

Por Emerson Braga


O ano terminou. Sim. Terminou. Inclusive, Já é possível conferir no olhar das pessoas aquele mesmo brilho de esperança meio pueril, meio místico, de que as coisas mudarão para melhor no ano vindouro. Não chego a ser tão ingênuo. Mantenho por hábito o desejo de que elas, as coisas, sejam ao menos diferentes. Talvez por isso, ao invés de esperar pelas grandes mudanças, eu prefira operar as pequenas, a maioria delas extremamente sutis, para que eu sinta que a vida permanece em constante transformação. A paralisia das coisas, apesar da falsa sensação de calmaria que nos proporciona, é uma armadilha perigosa. Quando permitimos que nosso mundo pare de mudar, deixamos de ser um pintor dinâmico e nos tornamos uma obra de arte estática, emoldurada em uma parede fria e escura.

Passei todo o ano de 2017 pensando em parar de escrever. Apenas alguns amigos próximos, meus irmãos e meus pais souberam de minha desgostosa decisão. Uns disseram que eu desenvolvia um quadro depressivo, outros apostaram em frustração, alguns sugeriram que eu estava brincando. Mas eu falava sério.

Tenho um profundo respeito e veneração pela arte da literatura. Se o ateísmo me permitisse pensar o ato de escrever como uma experiência metafísica, certamente eu traria em meu cerne a Literatura como uma deusa:

Ó, grande desencadeadora de existências nunca antes vividas! Ó, peregrina etérea que nos conduz a nações jamais exploradas!

Talvez se deva a essa devoção de aprendiz e acólito todos os rituais que orbitam meu ato de escrever. Um desses ritos tem muito a ver com a questão do tempo: Sei quando começarei a escrever, mas não me imponho um determinado horário para encerrar a atividade. Quando a mocidade permitia que eu praticasse o que chamam por aí de ócio, eu passava dias inteiros trancado em meu quarto, escrevendo como se temesse que a inspiração me abandonasse a qualquer momento. E talvez o fizesse, caso eu a negligenciasse para cuidar dessas outras coisas, aquelas que chamam de “mais importantes”.

2017 se tornou o ano em que fui cobrado por muitos setores de minha vida para que eu me dedicasse a essas coisas importantes. O tempo para a prática da escrita cedeu lugar aos estudos, ao trabalho, à família, aos hospitais, às instituições financeiras. À noite, exausto e com a mente ocupada por milhares dessas coisas tão mais importantes do que aquela que mantém meu espírito jovem e inquieto, eu só pensava em descansar.

Sugeriram que eu escrevesse apenas nas horas vagas, nos intervalos, nos fins de semana. Não sei escrever assim. Minha pena não é domesticada, não bate ponto, não cumpre horários. E essa falta de tempo para escrever me fez pensar se seria certo continuar produzindo contos, crônicas e romances, mesmo sabendo que a qualidade de meus trabalhos poderia ser afetada devido à sensação de claustrofobia imposta pelo reloginho sádico que me encara do canto inferior direito do notebook de meu namorado.

As histórias não se importam com o quanto ando sobrecarregado. Me perseguem durante minhas viagens de ônibus, me interpelam na fila do supermercado, me sinalizam quando estou atendendo um cliente ou tirando a pressão arterial de minha mãe. São histórias impacientes, pois, como toda criatura na iminência de existir, elas também têm pressa em nascer.

Concluí, depois de muita reflexão, que parar de escrever não seria uma opção viável, principalmente porque a literatura é uma engrenagem importante para o bom funcionamento do ser humano que sou. Assim, resolvi encarar 2017 não como um ano de gravidezes interrompidas, mas adiadas. Quem sabe as histórias possam nascer em 2018, ou um pouco mais adiante. Não sei. Talvez escrever de maneira fracionada deixe de ser uma possibilidade tão desconfortável. Afinal, sou uma criatura em constante mutação, revolução e movimento. Posso criar novas rotinas de escrita. Não posso?

As histórias que não escrevi em 2017 se transformaram em fluido que se mistura à ressaca de minhas ondas cerebrais. Narrativas inteiras se insinuam nas pontas de meus dedos ávidos pelo teclado. É possível que o que me falte, na verdade, não seja tempo, mas sabedoria para administrá-lo. E o mais louco é que, para que eu conquiste essa coisa gasosa chamada sabedoria, precisarei me valer justamente do tempo que agora me faz falta.

Dar tempo ao tempo. Tive de quase desistir de ser escritor para entender o real significado dessa máxima. E, se encontrei tempo para escrever este texto, é porque talvez as mudanças já estejam se operando.