Plural | Ciranda

Por Obdulio Nuñes Ortega


 

Sempre soube, desde pequeno, que mulheres escrevem… fui seguidor de Agatha Christie e fiquei fascinado pelo “Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, a começar pelo título.

Amava Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Gostei de “Éramos Seis”, de Maria José Dupré. Florbela Espanca e Cecília Meirelles me trouxeram poemas… que repito até hoje. Virgínia Wolf me seduziu com “As Ondas”…

Por tudo isso, afirmo que foi um Navegar pela infância… ler as crônicas, contos, poemas desta CIRANDA… na condição de leitor, fui jogado para todos os lados, como se estivesse a bordo de uma nau desgovernada.

Enquanto passageiro inseguro sobre os próprios pés, me deixei levar pelas palavras-fura-cões que assolam as páginas-vidas, virando-as a contento.

E uma vez nesse vórtice, me permiti descompreender “o que é” ser mulher.

Não é um segredo, embora muitos — poetas-homens-e-mulheres-igualmente — assim o pensem, por considerar impossível se desdobrar em tantas pessoas-seres, sem perder jamais uma generosa porção de si.

O convite está feito, sentem-se em um canto qualquer e permita-Se…

 

 


Na Edição Ciranda (primeira edição do ano) você vai ler as crônicas de Emerson Braga, Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello | a poesia de Maria C. Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro | colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria, e Thais Barbeiro | contos de Marcelo Moro, Emerson Braga
e Adriana Aneli | e correspondência de Mariana Gouveia

Apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


 

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Crônica | A mulher que me inspira…

Por Emerson Braga


 

A mulher que me inspira ― apesar de já ter morrido tantas vezes através dos séculos, condenada pelo crime de recusar-se a existir sob a sombra de um grande homem ― permanece viva. Suas cinzas ascenderam de fogueiras eclesiásticas e atravessaram o tempo, uma porção delas transformada na grafite de meu lápis. Parte de minha escrita não me pertence, é manifesto mediúnico assombrado pelos gritos silenciados, pelas vulvas mutiladas, pelos seios vertendo leite coalho. A mulher que me inspira é uma sobrevivente jamais nascida, fez-se mulher por meio da luta e da resistência, tornou-se mulher em defesa da própria mulher.
A esposa assombrada pelo marido semidivino e monstruoso, a menina exposta feito mercadoria na esquina, a vendedora de limões, a vereadora executada, a catadora de lixo, a analfabeta, a desempregada, a mãe de santo, a filha de pai ausente, a escravizada, a banida. São todas facetas desta mulher. Alheia aos arquétipos que nos contaminam o imaginário com princesas encasteladas, musas de beleza etérea e mártires parideiras, a mulher que me habita não é citada em fábulas. Quando não relegada a uma invisibilidade esterilizante, protagoniza obituários, estatísticas e páginas policiais.
A mulher que me inspira deita sobre a folha silente e escreve suas histórias com saliva, sangue e orgasmos. Em seu corpo não lhe falta tinta. É toda ela cinzel e pincel: Pela brecha aberta com urgência e dor, derramam-se as paisagens que me são estrangeiras, pertencem a ela, a esta pitonisa que me guia a mão esquerda, extraindo de minha frágil macheza todo o vigor de uma feminilidade da qual fui biologicamente separado e, mesmo assim, dela sou dotado por força do lirismo que incendeia minha natureza pacata e mole.
Ela não tem nome. Não, não tem. A mulher que me inspira, não. Um nome limitaria sua essência incontida, seu entusiasmo que não se dobra à geometria das dimensões pré-fabricadas. A mulher que me inspira está fora e dentro de mim, ao meu redor e amalgamada ao tutano de meus ossos. Graças a ela, sou um homem transitório, de muitas existências cambiantes. De tanto senti-la fluir através de meus nervos e textos, às vezes deixo de ser um canal e me transformo na mensagem. De tanto senti-la fluir através de meus textos e nervos, agradecido, eu também me torno um pouco mulher.

O que 2018 poderá levar de mim

Por Emerson Braga


Há exatos 31 dias, o ano de 2018 iniciou-se e, até então, eu não tive (ou não construí) a oportunidade de estar com ele. Talvez eu ande distraído ou ocupado demais, quem sabe ele também não esteja interessado em conhecer-me. Não sei. Tudo o que posso dizer é que ainda não fomos apresentados, apesar de sua chegada anunciada pelas esperanças moucas e pelos fogos de artifício ensurdecedores. Acreditei que ele entraria pela porta de minha casa quando o silêncio viesse. Mas apenas o silêncio veio. Apenas o silêncio permaneceu após a euforia da festa.

Se 2018 realmente deseja encontrar-se comigo, não deverá me procurar em 2017. Eu também não estou lá. Visitei-o rapidamente, mas não gostei do cenário, nem dos personagens e muito menos do enredo. Fui embora sem pedir o ingresso de volta, pois não sou de guardar souvenires daquilo que me desagrada. Eu tinha pressa em deixar 2017 antes que ele me contaminasse com seu espetáculo de palavras ocas, de declarações obscenas e de atitudes tóxicas. O ano passado vacilou em um barco à deriva, deu-me náuseas, tornando inevitável que eu me atirasse ao mar do tempo.

Aonde fui aportar após o meu mergulho? Ora, no único lugar em que todos os românticos encontram conforto, no passado.

Fui a junho de 1986, então me vi aos 10 anos de idade, chorando sobre um caminhão abarrotado de mobília, enquanto meus amigos e a vizinhança que eu tanto amava ficavam para trás. Porém, ao chegarmos à casa nova, não demorei a fazer amizade com as mangueiras e os cachorros da rua, e, só depois, com o restante da molecada. Em 1986 eu entendi que saudade é um bicho passageiro, que nos bica e logo vai embora. Mas, hoje, apesar de homem feito, às vezes eu choro por sentir falta das coisas mais tolas. O cheiro dos meus gizes de cera. Minha letra feia no caderno de pauta dupla. Desaprendi a desapegar-me. Eu só soube dizer adeus enquanto fui menino.

 Satisfeito com a visita ao ano de 1986, decidi dar uma espiadela em 1992 e então me vi na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza. O rosto pintado, a garganta inundada por um grito coletivo e o olhar voltado para o futuro. O futuro. Em minha juventude eu não imaginava que um dia eu me voltaria muito mais para trás e para o lado de dentro do que para frente ou para o lado de fora. Lembro-me de que, naquela tarde de agosto, dei um selinho em outro aluno do colégio Rui Barbosa. Enquanto ele fazia-me com os lábios uma carícia de correligionário, eu beijava pela primeira e última vez um de meus amores de recreio.

Deixando 1992 para trás, avancei até 2001. Era setembro. Lembro-me de ter chorado pelas vidas perdidas, não só por aqueles que pereceram durante o ajuste de contas belicoso, mas por todas as vítimas de todas as guerras já travadas, principalmente por aquelas por quem a televisão jamais chora. Em 2001 também vi o Gustavo Kuerten ficar por 43 semanas como líder do ranking no Torneio de Roland Garros. Eu nunca havia torcido por nenhum desportista, ainda mais em um esporte de dândis como é o tênis, mas vibrei com seus urros a cada backhand. Quando todos se mostraram decepcionados por ele ter perdido o topo do pódio para um tenista australiano, Guga tornou-se ainda mais importante para mim, pois se revelou humano. Com sua derrota, descobri que eu precisaria ter cuidado com as pessoas que só me valorizassem enquanto eu estivesse vencendo.

Eu deveria ter aproveitado as quatro últimas semanas para receber o ano de 2018 em minha vida, mas acabei me deparando com o dia 7 de fevereiro de 2012. Era começo de tarde e, logo depois de deixar o trabalho, fui roubado em uma saidinha bancária. Apesar de psicologicamente abalado e trancado à chave em meu quarto, recebi a visita de um amigo que passou o resto do dia tentando me animar. É com esse amigo ― que se tornou tantas outras coisas para mim ― com quem permaneço, desde então, trancado por horas em meu quarto. Nosso relacionamento é uma mistura de água de coco e cachaça: revigora e embriaga, feito sede que sacia a si mesma.

Sei que não poderei fugir de 2018 para sempre. Muito em breve, eu terei de confrontá-lo e dizer-lhe o que espero dele. Também precisarei e refletir sobre as muitas coisas que ele deve querer de mim. Mas, até lá, vou ficar com 2012. Abrirei várias vezes a porta de meu quarto para, novamente, ouvir aquela piada de mau gosto, justo no dia em que me roubaram o dinheiro com o qual eu pagaria minha conta de energia elétrica, o dia que se tornaria o primeiro de uma vida mais cheia de luz:

― É um assalto!

Sim. Em 2012 eu fui assaltado duas vezes, mas de maneiras diversas. Espero apenas que 2018 aja comigo feito o segundo ladrão que me visitou naquela terça-feira de chuva.

Que 2018 só leve de mim aquilo que eu esteja disposto a oferecer.

AS HISTÓRIAS QUE NÃO ESCREVI EM 2017

Por Emerson Braga


O ano terminou. Sim. Terminou. Inclusive, Já é possível conferir no olhar das pessoas aquele mesmo brilho de esperança meio pueril, meio místico, de que as coisas mudarão para melhor no ano vindouro. Não chego a ser tão ingênuo. Mantenho por hábito o desejo de que elas, as coisas, sejam ao menos diferentes. Talvez por isso, ao invés de esperar pelas grandes mudanças, eu prefira operar as pequenas, a maioria delas extremamente sutis, para que eu sinta que a vida permanece em constante transformação. A paralisia das coisas, apesar da falsa sensação de calmaria que nos proporciona, é uma armadilha perigosa. Quando permitimos que nosso mundo pare de mudar, deixamos de ser um pintor dinâmico e nos tornamos uma obra de arte estática, emoldurada em uma parede fria e escura. Continuar lendo “AS HISTÓRIAS QUE NÃO ESCREVI EM 2017”